esquina

Noite e dia em Hong Kong

Revolução, guarda-chuvas e paetês

Caio Yurgel
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Em meio à multidão, Ansen Leung só escuta o que é grito. Sua audição tem se deteriorado nos últimos anos, mas, ao contrário do pai, de quem herdou essa condição física, ele se recusa a comprar um aparelho auditivo made in China. “Não vou colocar um produto de baixa qualidade no meu corpo”, diz o ativista honconguês de 27 anos.

Vestido todo de preto e portando uma máscara de proteção contra gás – o dress code de milhares de manifestantes reunidos no Centro de Hong Kong –, ele brada: “Democracia!”, “Libertem Hong Kong!”, “Fora, Carrie Lam!” Por causa da máscara, sua voz soa abafada e distante, mas não menos potente.

Não há consenso sobre o objetivo dos protestos que começaram em março e até hoje não cessaram. Independência do território? Retorno ao domínio colonial britânico? Melhoria das condições de vida? Fazer frente ao poder de Pequim e do Partido Comunista? Uma coisa, porém, é certa: os manifestantes compartilham do ódio à chefe do Executivo, Carrie Lam (eleita por um comitê de 1 200 pessoas de diversos setores da sociedade honconguesa), e ambicionam escolher seus líderes por meio do voto direto. “Talvez não mudemos nada, mas precisamos lutar pelo nosso direito de sermos livres, de mostrar que temos uma voz”, afirma Ansen Leung (cujo nome é fictício, para proteger sua identidade).

“A revolução do nosso tempo! A revolução das crianças!”, ele clama em cantonês, e ri – o que há de histérico na sua risada logo se dissipa quando ouvimos as sirenes da polícia se aproximarem. “Carrie Lam disse que ela é como a nossa mãe e não passamos de crianças mimadas”, ironiza. Um desconhecido oferece a Leung uma garrafa de água, que ele aceita depois de tirar a máscara de gás. Passadas de mão em mão, as garrafas de água ajudam a amenizar o mal-estar causado pelo calor e o gás lacrimogêneo, e também reforçam o sentimento de camaradagem e união entre os manifestantes.

Os protestos – que ocorrem pela cidade inteira – começam no final da tarde, em clima de inesperada confraternização. Quando cai a noite, a atmosfera fica mais tensa. A polícia ergue barricadas para bloquear as avenidas e proteger os prédios públicos. Alguns manifestantes debandam para vielas secundárias, mas a maioria não arreda pé: atira pedras e troca gritos com os policiais, que revidam com gás lacrimogêneo e jatos d’água. Os ativistas, então, abrem seus guarda-chuvas. Milhares, de todas as cores. Esse objeto, usado nas manifestações de rua desde 2014, transformou-se em Hong Kong num equipamento essencial de proteção da identidade e de protesto contra o governo.

Em fevereiro deste ano, Carrie Lam, que chegou ao poder com o apoio de Pequim, apresentou ao Parlamento um projeto de lei que permitiria extraditar para julgamento na China e em Taiwan pessoas suspeitas de cometer crimes nesses países. O ato foi recebido como mais uma ameaça à independência do Judiciário honconguês e à Lei Básica de Hong Kong, acordo assinado entre os governos britânico e chinês que preserva a autonomia e as liberdades do território até 2047, quando deverá ser reincorporado à China. “Foi o que nos prometeram, e não queremos nem um minuto a menos”, resume Leung.

O projeto de lei (que Lam tirou de tramitação) foi o estopim dos protestos, mas não a causa primordial. Há muitos anos que o calor úmido de Hong Kong oculta outros ressentimentos. “Culturalmente, não nos consideramos chineses”, explica o ativista, enquanto troca mensagens criptografadas por um aplicativo de celular. “A polícia bloqueou a avenida, parece que já prendeu gente. A coisa vai ficar mais violenta. É melhor eu ir embora de uma vez.”

Leung também tem pressa porque suas noites não são dedicadas somente aos protestos de rua. De três a quatro vezes por semana, entretém os frequentadores de um bar gay no distrito financeiro. Às dez da noite, já trocou a roupa preta por um vestido de paetês amarelos e os tênis de corrida por um sapato de saltos vertiginosos.

Naquela segunda-feira, 5 de agosto, não havia mais que dez pessoas na plateia do bar decorado com luzes de néon. “É bom sinal que esteja vazio hoje, com o protesto nas ruas”, pondera Leung. A sua performance, com piadas e dublagens de canções pop, dura pouco mais de uma hora. Quase à meia-noite, ele tenta descobrir como vai voltar para casa, pois os ônibus não estão circulando. Decide ir a pé – levará uma hora e meia. Os manifestantes já abandonaram as ruas, que estão repletas de máscaras descartáveis, garrafas plásticas e latas de tinta spray. Poças de sangue não são incomuns.

 

No dia seguinte, debaixo do sol do meio-dia, Leung estende os braços na minha direção. “Olha bem, vê se são mãos de uma drag queen. É por isso que estou solteiro”, brinca, apontando as marcas de enxada na pele. Formado em ciências políticas, ele faz parte, com sete jovens ativistas, de uma cooperativa agrária instalada no distante bairro de Yuen Long, a 45 km da ilha de Hong Kong e apenas 10 km de Shenzhen, na fronteira da China continental.

Os jovens plantam verduras e frutas – como berinjela, couve, repolho, batata-doce e banana – e comercializam tudo sem intermediários, quase a preço de custo. “Se quisermos vender nosso produto em supermercados, precisamos antes alugar o espaço. O lucro é todo deles, e o produtor não ganha nada. Em Hong Kong, os ganhadores são sempre as corporações, os magnatas”, reclama Leung. Essa nota dissonante em seu discurso revela outra dimensão do protesto: contra o comunismo autoritário de Pequim, mas também contra o capitalismo estagnado do território, onde a desigualdade econômica cresce a cada dia.

Como a maior parte de seus amigos, Leung ainda mora com os pais. Comprar um apartamento próprio em Hong Kong exige uma vida inteira de trabalho, pois o metro quadrado da ilha é um dos mais caros do mundo. Os aluguéis tampouco são compatíveis com a renda da maioria da população, devorando cerca de 70% do rendimento familiar. “Mas aqui somos livres, é o que mais importa”, apressa-se em dizer o ativista, que ainda não contou aos pais que é gay.

A cooperativa fica num local de colinas verdes, córregos límpidos e macacos aboletados nas árvores. Seria um cenário tropical idílico não fosse a escalada de violência em Yuen Long, causada por gangues locais supostamente simpáticas a Pequim. “Muitos dos moradores do bairro são imigrantes recentes da China, gente pró-Pequim, que quer nos intimidar”, especula Leung.

A fim de se sentir seguro tanto em Yuen Long como nas manifestações, ele sempre carrega nos bolsos um bastão de caminhada: leve, dobrável e capaz de machucar. Nos últimos meses, as lojas especializadas têm vendido o apetrecho como água. “Carregar um desses não é ilegal”, conta.

Da cooperativa pode-se ver, no horizonte, o imponente skyline de Shenzhen, cidade cujo crescimento o governo chinês estimulou a partir de 1979 para fazer frente a Hong Kong – ao ponto de transformá-la num dos principais polos financeiros e tecnológicos do país. “Os moradores de Shenzhen costumam brincar que, vista de lá, Hong Kong não passa de um matagal”, diverte-se Leung, que já decidiu: vai comprar um aparelho auditivo made in England ou made in USA.

Caio Yurgel

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