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Noites de miniesplendor

Pela primeira vez, as escolas de samba do Carnaval de Maquete desfilam em fevereiro

Juliana Faddul

Em meados de janeiro, as preocupações do agente de turismo Bruno Tavares com sua escola de samba só aumentavam. Embora as fantasias já estivessem quase prontas, ele enfrentava dificuldades para finalizar a escultura do carro alegórico. “Quero fazer uma réplica d’A Criação de Adão, mas olha como está tosca a estátua de Adão! Não posso colocar isso na avenida”, disse, segurando uma cópia da obra de Michelangelo entre o polegar e o indicador da mão direita.

O nervosismo de Tavares não era à toa. A Acadêmicos do Magine – nome do bairro onde ele vive em Mauá, na Grande São Paulo – foi criada em maio do ano passado e vai participar pela primeira vez de um Carnaval. Para a estreia, escolheu o enredo Boom! Dos Caminhos da Evolução Surge uma Nova Morada do Samba, sobre a gênese do mundo e do homem. O enredo ambicioso vai ajudar Tavares a levar adiante o sonho de colocar, um dia, a sua escola entre as principais do Carnaval de Maquete – uma competição com foliões de pouco mais de 5 cm e carros alegóricos de menos de 50 cm.

Com o adiamento dos desfiles nos sambódromos pelas prefeituras do Rio de Janeiro e de São Paulo, além da possível interdição de blocos nas ruas no país inteiro, o Carnaval de Maquete tem chance de se tornar o evento mais animado para os foliões no triste mês de fevereiro de 2021.

A União das Escolas de Samba de Maquete (Uesm) não quer perder essa oportunidade. Desde 2013, quando foi fundada, a entidade organiza os desfiles em diferentes meses, evitando o de fevereiro – para não competir, é claro, com o espetáculo tradicional. Mas neste ano, ao saber dos adiamentos, a direção do Carnaval de Maquete não pensou duas vezes e decidiu que as suas escolas sairão na avenida de isopor ainda neste mês, entre os dias 12 e 16. A transmissão da minifolia será feita pelo YouTube e o canal da Uesm na internet.

A Uesm é composta por 42 escolas: 16 fazem parte do Grupo Especial (vão desfilar em 15 e 16 de fevereiro); 16, do Grupo de Acesso (desfilam nos dias 13 e 14); e 10, do Grupo de Avaliação (apresentam-se no dia 12). Estreantes entram neste último grupo e, conforme se destacam e aumentam sua pontuação, passam para o Grupo de Acesso e, depois, para o Grupo Especial. Apesar do nome, as “escolas” são em geral formadas somente por uma pessoa, o criador da maquete, que faz as vezes de presidente, diretoria, carnavalesco, engenheiro elétrico, costureiro, artesão etc.

 

O fundador e presidente da Uesm é também o presidente da escola de samba Mocidade Unida Masf, sigla de seu nome: Marco Antonio da Silva Ferreira, um paulista de 43 anos, programador de computadores e apaixonado pelo Carnaval do Rio. Ele contou como tudo começou: “Minha mãe, que é supercatólica, me pediu, no Natal de 2010, que eu construísse um presépio. Quando ficou pronto, todos falaram que parecia uma escola de samba.”

Parece piada, mas Ferreira levou a sério. Fez uma maquete de Carnaval, que postou no YouTube e foi vista por centenas de pessoas. Em mensagens entusiasmadas, amigos virtuais o incentivaram a criar uma liga de escolas de samba de maquete. O que ele também fez. No desfile inaugural, com cinco escolas, a Masf foi a primeira colocada. “Mas só ganhei porque tudo era mais simples”, ele justificou. “Ano após ano, as escolas ficam cada vez mais profissionais. A minha agora se tornou tipo a São Clemente: pode até estar no Grupo Especial, mas não ganha nunca.”

Como não há um sambódromo para reunir as escolas de maquete, cada uma delas é responsável pela construção de sua própria avenida, que é feita de isopor e precisa atender a determinadas normas, como ter a extensão mínima de 2 metros de comprimento por 30 cm de largura. “Nós sempre sugerimos que coloquem bonequinhos-padrão nas arquibancadas como espectadores. Deixar sem público não acarreta perda de pontos, mas fica visualmente pobre”, disse Ferreira.

Os desfiles – que devem durar entre 15 e 30 minutos, dependendo do grupo – são filmados pelas próprias escolas e enviados à liga, que os submete ao escrutínio de 28 jurados. Eles avaliam os mesmos quesitos do Carnaval tradicional (exceto bateria e samba-enredo): harmonia, enredo, fantasias, alegorias e adereços, mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente e evolução. A movimentação dos foliões na passarela é feita em stop-motion, técnica dos filmes de animação. As miniescolas podem usar como trilha sonora os sambas-enredos dos Carnavais passados, mas estão impedidas de copiar desfiles antigos.

Para administrar tudo isso, Ferreira conta com a ajuda de cinco coordenadores de várias partes do país. Eles são também responsáveis por cuidar da verba da Uesm, que vem das taxas de participação pagas pelas escolas – 20 reais para as dos grupos Especial e de Acesso; 10 reais para as do Grupo de Avaliação. O dinheiro é usado para manter o site no ar e comprar troféus e medalhas.

 

Uma das escolas queridinhas por todos é a Saudade, que foi a vencedora do Grupo de Acesso em 2019 e agora vai desfilar no Grupo Especial. “Quando criei a minha escola de maquete, a ideia era resgatar a magia dos antigos Carnavais, que eu admiro muito. Sou portelense doente e quis fazer uma homenagem”, conta o presidente da escola, o juiz de direito paraense Thiago Tapajós Gonçalves, que atua em Monte Alegre, no Pará. Ele costuma ir sempre ao Rio de Janeiro acompanhar o desfile da Portela, da qual é sócio-torcedor.

A Saudade chamou a atenção pelo detalhismo das maquetes, sobretudo dos carros alegóricos. “Como sou péssimo em fazer esculturas, imprimo os carros em impressora 3D. Mas nem quero pensar por quanto saem essas impressões, senão eu não faço.” A cada desfile, ele investe entre 5 mil e 10 mil reais na produção.

Por causa do isolamento social, Gonçalves pôde se dedicar mais ao desfile deste ano, cujo tema é Sopro de Vida, sobre a criação do mundo. “Como não podia sair, eu me empenhei na confecção das fantasias”, disse. “Acho que este é meu melhor ano.” Os destaques, claro, são os carros alegóricos. O mais vistoso é o que mostra a orixá Odùduwà que, na mitologia iorubá, criou o mundo junto com O.bàtálá. Na visão de Gonçalves, a orixá ganhou uma vasta coroa com pedrarias e até luzes de LED para realçar sua grandeza condensada em 60 cm. O carro de 40 cm em homenagem aos índios guaranis também chama atenção, com sua floresta de papel crepom e plástico.

A menos de um mês das apresentações, o presidente da Uesm transbordava confiança, tanto mais que em 2020 teve que suspender os desfiles por causa da pandemia. “Esse ano é a nossa única chance de fazer o Carnaval em fevereiro e quem sabe chamar atenção das escolas de samba tradicionais. Imagina a escola de maquete vencedora ter como prêmio poder desfilar na avenida com as de verdade?”, disse Ferreira, e acrescentou: “Ah, estou sonhando muito alto!”

Talvez não esteja. Quem sabe alguns se lembrarão no futuro de que, durante o sombrio Carnaval da pandemia, foi ele quem levou o esplendor das escolas para a avenida, independentemente do tamanho.



Juliana Faddul