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Nos bastidores da ciência

A memória discreta da SBPC

Luisa Massarani
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Eunice Maria Fernandes Personini é uma mulher discreta. Mesmo quando sobe ao palco, move-se tão silenciosamente que consegue ser quase invisível.

No ano passado, porém, um forte feixe de luz foi lançado sobre ela. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) decidiu incluir seu nome nas homenagens que presta anualmente a cientistas ou pessoas relevantes à ciência. Há três décadas trabalhando como secretária dos presidentes da SBPC, Personini é considerada na instituição uma das pessoas essenciais ao seu funcionamento.

“Nunca, nem nos sonhos mais inusitados, sonhei que isso pudesse ocorrer, tanto mais que as homenagens são feitas a grandes cientistas e humanistas”, disse ela, na sala da presidência, em São Paulo. É ali que há décadas Personini tem ajudado a orquestrar uma teia complexa de pessoas e acontecimentos da maior entidade de ciência do país.

Nicinha, como é conhecida na SBPC, entrou para a instituição em 1974. Em 1988, já casada e com uma filha (a segunda viria mais tarde), tornou-se secretária e trabalhou com oito presidentes: a psicóloga e educadora Carolina Bori, o físico Ennio Candotti, o geógrafo Aziz Ab’Saber, o farmacologista Sérgio Henrique Ferreira, a bioquímica Glaci Zancan, o matemático Marco Antonio Raupp, a biomédica Helena Nader e, agora, o físico Ildeu de Castro Moreira. Os presidentes da SBPC trabalham de forma voluntária, sem pró-labore.

“Eu conheci Nicinha em 1975. Ela arquiva em sua memória a história da SBPC”, disse Candotti, que presidiu a instituição de 1989 a 1993 e de 2003 a 2007. “E ela arquiva tudo silenciosamente, nos bastidores, pois nunca revelou a um presidente os segredos de seu antecessor. A SBPC lhe deve o grano salis da continuidade que seus presidentes por vezes se esqueceram de preservar.”

 

Personini nasceu em São Paulo, em 1954, filha de portugueses que haviam se mudado três anos antes para o Brasil. Pensou em fazer biologia, mas acabou se matriculando em serviço social, na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). No começo de 1974, aos 19 anos, começou a trabalhar na SBPC.

“Fiquei fascinada com o ambiente. Para a admissão, fui entrevistada por biólogos em cujos livros eu tinha estudado, como Luiz Edmundo de Magalhães e Renato Basile. Naquela época, a SBPC, embora presidida pelo físico Oscar Sala, tinha grande presença de biólogos em sua diretoria”, disse.

Inicialmente, ela foi encarregada do setor de sócios da instituição e das inscrições para as reuniões anuais, um dos pontos altos da articulação da SBPC com a sociedade, frequentadas desde 1949 por centenas de cientistas, professores e estudantes do Brasil e do exterior.

E Personini chegou justamente no momento em que se organizava uma das reuniões que marcariam a história da SBPC – a 26ª, na qual o economista Celso Furtado, recém-chegado do exílio, foi um dos conferencistas. O convite ao economista significou uma forma de resistência à ditadura militar que só se extinguiria onze anos mais tarde.

“Fiquei impactada quando precisei levar um documento para o Celso Furtado e me deparei com uma multidão à porta do auditório, ovacionando o conferencista”, contou. “Percebi naquele momento que eu estava trabalhando em uma instituição forte, digna, heroica até. A 26ª Reunião Anual foi um marco, pois firmou um espaço democrático.”

Durante a ditadura militar, as reuniões anuais da SBPC nunca deixaram de acontecer. O que não significa que as relações da entidade com o governo tenham sido pacíficas. As tensões se acumularam ao longo das décadas e chegaram a um ponto crítico na época da 29ª Reunião Anual, em 1977. O encontro deveria acontecer no Ceará, mas foi proibido pelo governo. A diretoria da SBPC tentou transferi-lo para a Universidade de São Paulo (USP), sem sucesso. Graças a uma ação corajosa de dom Paulo Evaristo Arns, apoiado pela reitora Nadir Kfouri, a reunião finalmente ocorreu na PUC-SP. As inscrições bateram recorde, e o evento tornou-se um marco da redemocratização do país.

 

O engajamento político da SBPC nem sempre teve a simpatia integral dos presidentes. Personini contou que o físico José Goldemberg – presidente-interino e depois presidente entre 1979 e 1981 – defendia que a entidade tomasse distância de manifestações políticas. Ennio Candotti, por sua vez, teve papel central na decisão de levar a SBPC a apoiar o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em 1992. “Ficamos trabalhando até de madrugada, consultando cada um dos conselheiros, para saber se a sbpc deveria dar esse passo de pedir o impeachment”, recordou Personini.

A atuação de Candotti não se resumiu a esse episódio. Ele também contribuiu fortemente para a consolidação das fundações de amparo às pesquisas estaduais e da inclusão, em leis estaduais, de dotação de orçamento para a ciência.

A exemplo do que faz a Associação Americana para o Avanço da Ciência  (AAAS, na sigla em inglês) junto aos parlamentares norte-americanos, a SBPC tem marcado presença constante no Congresso brasileiro, especialmente nas últimas duas décadas. Essa campanha culminou na criação, no ano passado, da Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br). Trata-se de um movimento organizado por várias entidades científicas e tecnológicas para atuar permanentemente no Senado, na Câmara Federal, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais em benefício do desenvolvimento científico e tecnológico.

Mais recentemente, a SBPC tem participado, ao lado das principais associações científicas, de ações que visam a persuadir o governo atual a reverter cortes de recursos e mudanças na organização das entidades. Exemplo disso é uma campanha que já dispõe de 1 milhão de assinaturas pedindo a manutenção do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a principal agência de fomento à ciência brasileira – que o governo quer incorporar à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“Até hoje a SBPC me enche de motivação e esperança. Especialmente agora, com os numerosos casos de desmonte, descaso e irresponsabilidade em relação a coisas tão importantes para o bem de todos, sem falar no desrespeito aos direitos humanos tão duramente conquistados”, disse Personini.

Luisa Massarani

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