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Nosotros cuatro

Uma família de venezuelanos enfrenta a pandemia no Brasil

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Em 2014, Deiby Marquez Carpio tinha 27 anos e decidiu ir embora da Venezuela. Fazia um ano que o país estava sob o comando de Nicolás Maduro. Técnico em administração, Marquez não conseguia emprego em seu país, onde via a pobreza e a violência aumentarem dia após dia. Além disso, ele e o namorado passaram a sofrer ataques homofóbicos. Eram ameaçados por pessoas ligadas à Milícia Bolivariana, uma organização de civis armados, criada para dar apoio às Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (Fanb) e que reúne mais de 3 milhões de militantes. “Eles costumam perseguir as pessoas que são contra o governo. Muitos são preconceituosos e hostilizam homossexuais. Diziam para nós: ‘Saiam daqui, a gente não gosta de viados’ ou ‘Nós vamos matar vocês’”, contou Marquez. “Eu e meu ex viemos para o Brasil praticamente fugidos.”

O técnico em administração e o namorado chegaram ao Rio de Janeiro num momento em que havia na cidade abundante oferta de emprego, por causa da Copa do Mundo e da Olimpíada. Ele trabalhou como atendente de padaria e ajudante de padeiro e começou a juntar dinheiro para trazer a mãe e os dois irmãos mais novos para o Brasil. Mas não teve tempo: a mãe do namorado ficou doente, e o casal precisou retornar à Venezuela em 2016.

Marquez ficou pouco tempo. Três meses depois, deixou seu país novamente, dessa vez na companhia da irmã do meio, Abigail Marquez Carpio. Foram tentar a vida no Equador, onde encontraram um ambiente hostil. “Era difícil conseguir emprego. Tem muita xenofobia contra venezuelanos no Equador. Eles dizem que venezuelanos não são pessoas boas e confiáveis. Conseguir documentos para legalizar nossa situação era difícil.” Um ano depois, os dois irmãos se mudaram para o Peru e, em 2018, vieram para o Rio de Janeiro.

 

Enquanto isso, na Venezuela, a mãe de Marquez, Omaira Gregoria Carpio, e seu filho caçula (de um segundo casamento), Odarmi Cedeño Carpio, enfrentavam adversidades. Ela trabalhava como vendedora ambulante de bijuterias e passou a ser perseguida por participar de protestos contra Maduro.

Odarmi era cabo da Marinha, mas desistiu do serviço militar e, por isso, encontrou dificuldade para ter seu passaporte liberado. “Meu filho dizia: ‘Mãe, eles me obrigam a atirar contra meu povo. Não quero mais isso.’ Quando pedíamos um passaporte para ele, alegavam erros na documentação. Demorou mais de um ano até que liberassem e pudéssemos vir para o Brasil”, contou Omaira, de 50 anos.

No Rio, Marquez e sua irmã pegavam todos os trabalhos que apareciam e fizeram um pé de meia para ajudar na viagem da mãe e do irmão. Em 2019, Omaira e Odarmi finalmente atravessaram a fronteira da Venezuela com o estado de Roraima.

Militares venezuelanos na fronteira cobraram 50 dólares dos viajantes para autorizar a travessia para o Brasil. “Eu só tinha 20 dólares para dar. Achei que ficaríamos retidos. Mas eles nos liberaram”, disse Omaira. Em Boa Vista, ela e o filho pegaram um voo para o Rio de Janeiro. “Minha mãe chegou aqui muito magra”, disse Marquez. “Estava praticamente desnutrida. E muito doente, com pressão alta e um nódulo na clavícula, que ela não conseguiu tratar na Venezuela.”

 

Quando Omaira e Odarmi chegaram, uma crise econômica estava instalada no Brasil. O Rio era uma cidade falida e sem empregos. Apesar disso, eles encontraram solidariedade. Uma amiga carioca de Abigail deixou de cobrar os três primeiros meses de aluguel da quitinete de sua propriedade em que a família foi morar, na Vila Kennedy, na Zona Oeste. Algum tempo depois, Omaira iniciou um relacionamento com um eletricista e pintor de paredes carioca, que passou a levar o caçula para trabalhar com ele.

Veio então a pandemia. Os trabalhos do marido de Omaira diminuíram, e por consequência os de Odarmi. Por sorte, Marquez havia conseguido um emprego com carteira assinada em um supermercado – era o único da família com trabalho fixo. Prevendo a calamidade que haveria caso alguém fosse contaminado pela Covid-19 na casa pequena em que os cinco viviam, os irmãos decidiram se mudar para o bairro de Campo Grande, preservando o isolamento da mãe e do marido. A mudança mostrou-se previdente: Marquez e Abigail foram logo contaminados (em janeiro deste ano, ele foi reinfectado).

Durante a pandemia, a família teve apoio da Cáritas, organização da Igreja Católica que presta assistência a imigrantes. Omaira também conseguiu o auxílio emergencial e chegou a enviar parte do dinheiro para parentes em dificuldades em Caracas. “Perdi um irmão para a Covid e outro quase morreu. Como se recuperar dessa doença se você precisa se alimentar bem, e na maioria das vezes, na Venezuela, só tem farinha de milho para comer? Ainda que o Brasil esteja nesse momento crítico de pandemia, lá está muito pior por causa da fome”, contou Omaira. “Na Venezuela tem gente que vive com 1 kg de arroz por mês. E não digo isso com base em notícias de jornais e sites, mas de relatos de parentes e amigos”, completou Marquez.

Para o país de origem, a família não volta. Mas eles pensam em deixar o Rio de Janeiro, por causa do desemprego. O estado do Rio tem 1,5 milhão de desempregados, segundo o IBGE – é o maior índice entre os estados do Sudeste e o quarto maior do país. A falta de segurança é outro motivo para quererem se mudar. “Minha mãe gosta das pessoas no Rio, mas tem medo da violência”, disse Marquez. “Nos últimos anos na Venezuela, nossa família sofreu alguns assaltos.” Omaira quer viver em uma cidade mais tranquila, talvez no Sul do Brasil.

“Se for para minha mãe se sentir mais tranquila, nós vamos atrás de uma cidade mais calma e com oportunidades. O importante é estarmos juntos”, afirmou Marquez. Ele lamenta apenas que, por causa da pandemia e da falta de dinheiro, não tenha conseguido levar a mãe aos pontos turísticos do Rio de Janeiro para mostrar a ela como a cidade é bonita.

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista de cinema

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