esquina

Nota fúnebre em segunda marcha

A publicidade volante traz a má notícia

Nuno Manna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Numa noite quente e seca, os moradores da pequena cidade de Campina Verde, no Triângulo Mineiro, ouvem um som já conhecido, que recebem com renovado pesar. Uma senhora que varria a calçada interrompe o trabalho. A vizinha desliga a televisão e vai até a porta da frente. Um casal de adolescentes que namorava no portão suspende o beijo. Do carro de som que atravessa a cidade emana uma música triste; a voz serena noticia o falecimento de mais um campina-verdense. Os moradores reconhecem de pronto o nome do falecido, ou ao menos o relacionam a alguém que é parente. A voz comunica que a família do desaparecido convida todos para o enterro e antecipa os agradecimentos. É a senha para voltar Ballade pour Adeline com Richard Clayderman. O carro se afasta, levando consigo a notícia. Consolados pelo piano de Clayderman, os que ficam retomam seus afazeres.

Desde que se instalou na cidade, há cerca de quarenta anos, a Funerária Santa Terezinha inclui em seus prestimosos serviços o anúncio volante dos óbitos. Seu Cleonaldo e a esposa, dona Zoila, ergueram a empresa nas costas, com trabalho duro. Faziam os caixões, cuidavam dos corpos, organizavam o enterro e, ao microfone, espalhavam pessoalmente as notícias lamentosas pela cidade. Há mais de dez anos o microfone deu vez a fitas cassete, e mais recentemente a um software de computador e CD.

Clayton, o filho mais velho do casal, herdou o timbre de seu pai e se tornou a voz oficial da Indesejada das Gentes. Numa demonstração de profissionalismo, foi ele mesmo quem gravou a notícia da morte do patriarca, no ano passado. Ficou com dona Zoila a administração da empresa, com suas finanças e seus contratos de planos funerários. Todos os planos, até o mais barato, incluem o anúncio volante. Só não acontece quando o contratante não deseja, o que é raro. Existe a opção de incluir no anúncio os avisos das missas de sétimo dia, de mês e de ano, a um custo adicional de 60 reais cada.

 

No dia 8 de agosto, um sábado, Clayton acionou Rufino, o motorista do carro de som. De posse do CD, Rufino entrou no seu Uno branco 2008 e partiu. Eram sete e meia da noite quando deixou a funerária. Seu trajeto percorreria lentamente 23 quilômetros, passaria por mais da metade das ruas da cidade e duraria uma hora e vinte. Em respeito à tradição, tratava-se do mesmíssimo itinerário traçado por seu Cleonaldo há décadas. Algumas concessões ao progresso são permitidas, como, por exemplo, a introdução da trilha sonora, sempre Clayderman. A estrutura do texto se mantém igual. “Fulano e Beltrano anunciam o falecimento de seu pai Sicrano e convidam para seu sepultamento, saindo o féretro do endereço X, hora Y. A família antecipa os agradecimentos.” Rufino conta que já houve quem quisesse empolar o texto, adicionando palavras como “entristecidamente” ou “enlutadamente”. Não vingou.



Campina Verde é um município de 19 mil habitantes, com uma média de 130 óbitos por ano. “O povo morre, a família não quer passar sozinha”, comenta Rufino. Já aconteceu de uma rodada de anúncios não ter sido suficiente para levar um número satisfatório de compadecidos ao velório, e logo se encomendou um segundo giro pela cidade.

Sentado ao volante, Rufino muito logi-camente explica que “depois que a mensagem começa a tocar, só desliga quando passa na porta do fórum e do velório, porque não tem precisão do povo do velório saber”. Os moradores da cidade são muito exigentes com relação à prestação do serviço. Se o carro deixa de percorrer um trecho do trajeto tradicional, se passa muito rápido, se a dicção do locutor deixa a desejar, é certo que alguém ligará para reclamar, ou pelo menos para pedir que lhe repitam o nome da pobre alma. Numa cidade em que boa parte das pessoas se conhece, isso é importante. Em casos de morte trágica, dona Zoila se prepara para não sair do lado do telefone.

Segundo Rufino, quando há alguma imprecisão no anúncio, um erro no nome do falecido ou na pronúncia de seu apelido, há quem pare o carro de som para solicitar a correção. Com frequência, as pessoas se aproximam da janela para perguntar: “É o Fulano mesmo? Morreu de quê? O corpo já chegou?” Em certa ocasião, duas senhoras morreram no mesmo dia. Ele circulava com o anúncio de uma delas, quando foi parado por um senhor que quis corrigi-lo, alegando que o nome estava errado. Rufino teve que explicar: “Essa é outra. A do senhor tá vindo aí atrás, em outro carro de som.”

Quando não morre ninguém, Rufino faz propaganda de forró, cartomante e comércio em geral, cobrando 20 reais a hora rodada. Vez por outra, também circula dando notícia de objetos perdidos, carteiras, celulares. Quando o cliente não recupera o que perdeu, Rufino costuma ficar com pena e não cobra. A publicidade volante lhe rende em média dois salários mínimos por mês. O motorista dirige sempre com calma, sem jamais evoluir para a terceira marcha. Responde aos acenos de conhecidos, às vezes até com uma buzinadinha, mas sempre discreta, sempre respeitosa. “É um trabalho que distrai. Servicinho de boa.” Já se acostumou a ser o porta-voz da morte: “É igual ao Jornal Nacional. Fala que morreu quinze, depois fala sobre uma festa. Eu trabalho com isso também.”

Ao virar uma esquina, a luz do farol lambeu uma figura caída na calçada. Rufino fez silêncio e reduziu a velocidade. O homem sujo, esparramado no chão, estava claramente embriagado. Mexeu-se um pouco e ali ficou. Rufino passou a segunda marcha e disse: “Esse aí vou anunciar amanhã, decerto.”

Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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