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Notícias do cárcere

Luiz Estevão vira empresário de mídia

Carol Pires
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Diligente e bem-humorado, o ex-senador Luiz Estevão levantou-se de sua mesa de trabalho, de onde administra 200 empresas, um time de futebol e um partido, o PRTB, e saiu da sala. Passou por duas funcionárias – altas, magras e muito bem maquiadas – enquanto atravessava o lobby da casa térrea que funciona como seu escritório de negócios, no Lago Sul, em Brasília, e abriu uma pesada porta de madeira. Por muito tempo aquele foi o caminho de acesso à sala onde operava sua laboriosa equipe jurídica. Não mais. Já há alguns meses ele realocou os advogados e chamou para trabalhar ali quase quarenta jornalistas – interrompidos em plena reunião de pauta com a entrada de Estevão.

O ex-senador pretende se tornar um empresário de mídia no final de agosto, quando lançar o portal de notícias Metrópole. Disse ter tomado a decisão durante o período de detenção em Tremembé e na Papuda – segundo ele, um “exílio forçado”, do qual saiu com “novos propósitos”. Aos 66 anos, cumprindo pena em regime aberto, Luiz Estevão quer deixar um legado.

Amigo de infância e aliado político do ex-presidente Fernando Collor, Estevão entrou para os anais do poder como o primeiro senador a ser cassado no país. Sua construtora foi acusada de superfaturar as obras do prédio do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, em esquema com o juiz Nicolau dos Santos Neto. Pelo desfalque, foi condenado em 2006 a 31 anos de prisão. Por muito tempo o ex-senador conseguiu protelar o cumprimento da pena, apresentando um sem-fim de recursos.

Em 27 de setembro do ano passado, porém, recebeu ordem de prisão de agentes da Polícia Federal que foram buscá-lo às seis da manhã em sua mansão no Lago Sul. Em São Paulo, na penitenciária de Tremembé, dividiu um galpão com outros 47 internos. Para passar o tempo, malhava usando pesos improvisados com garrafas PET cheias de água ou pedrinhas. E lia. “Minha cadeira eram três tijolos, que eu ia mudando de lugar para fugir do sol.” A lista de leitura incluiu: O Estrangeiro, de Albert Camus (“Adoro o Camus”); Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski (“Ótimos”); e O Processo, de Kafka (“Já tinha lido Metamorfose várias vezes”).



No final de outubro, foi transferido para a Papuda, em Brasília. Em dezembro, beneficiado pela progressão da pena, ganhou autorização para sair da prisão, durante o dia, para trabalhar. Atendeu repórteres e se deixou fotografar recebendo seu primeiro salário como gerente de uma imobiliária. “Sempre tive uma ótima relação com a imprensa.”

 

Nos últimos meses, corria pela capital federal o boato de que Luiz Estevão teria feito ofertas para comprar o principal jornal da cidade, o Correio Braziliense, que anda em dificuldade financeira, e o Jornal de Brasília, o segundo maior da capital. “As pessoas fantasiam”, ele disse. Seria um contrassenso comprar um jornal impresso hoje, argumentou o empresário. “Em 2005, nos Estados Unidos, os jornais arrecadaram 49 bilhões de dólares em publicidade. Em 2014, foram 22 bilhões. Se você leva em conta a inflação, eles perderam 60% do faturamento em dez anos.”

Em meados de abril, Luiz Estevão recebeu um telefonema: a Veja Brasília havia fechado e todos os jornalistas da revista estavam sem emprego. A ideia que tivera na prisão parecia mais próxima de se realizar. No mesmo dia, ligou para Lilian Tahan, repórter especial da publicação. Poucos meses antes, ele a havia convidado para sair da Vejinha e montar um veículo com ele. Na ocasião, ela não topou. Agora fora da revista, ficou de pensar. Ao longo da semana seguinte, falaram-se todos os dias sobre o projeto que Estevão tinha para os dois.

Tahan havia recebido um prêmio Esso em 2013 por uma reportagem que escrevera para o Correio Braziliense sobre os donos da terra em Brasília. No texto, Luiz Estevão aparecia como um dos principais personagens. Na Vejinha, voltaram a ter um contato mais próximo quando ela publicou um perfil que expunha as extravagâncias da mulher dele, Cleucy Meireles de Oliveira. As reportagens, apesar de nada lisonjeiras, não contêm erro algum, disse o ex-senador. Três repórteres que aceitaram a proposta disseram que a autoridade de Tahan os levou a aceitar o projeto, já batizado por outros colegas de profissão de “Papuda News”.

Entre repórteres, fotógrafos, chargistas, infografistas e editores, já estão contratados 38 profissionais que saíram, na sua maioria, do Correio Braziliense, do Jornal de Brasília e da Vejinha. Segundo Tahan, 30% do conteúdo do Metrópole será de notícias nacionais e internacionais, e o restante, locais. Ao final de um ano, a jornalista pretende ter produzido doze grandes reportagens, “dessas que eu tenha orgulho de inscrever em prêmios”.

O publisher promete apenas pagar as contas, sem interferir na linha editorial. Estevão diz estar preparado para cinco anos de prejuízo, mas não revela cifras de seu investimento. Acredita que nesse meio tempo o mercado publicitário reconhecerá o valor da propaganda no mundo virtual. “Os jornais, quando começaram, também não tinham publicidade, viviam das vendas avulsas.”

Estevão está cumprindo o restante da pena em liberdade desde março. Não pode sair de casa das 22h às 5h. A qualquer momento, porém, pode voltar à prisão – ainda enfrenta acusações de peculato e estelionato, que só prescreverão em maio de 2018. Recentemente, depois que o Correio Braziliense deu o título de capa “Luiz Estevão está prestes a pegar 31 anos de cadeia”, o ex-senador achou por bem reunir os recém-contratados para acalmá-los: se for preso, o Metrópole não deixará de existir, garantiu. Poderá noticiar a prisão? “O que quer que aconteça comigo, se justificar notícia, será notícia”, disse. Tahan concorda: “Esse furo nós temos a obrigação de dar.”

Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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