esquina

Num haberá romanos que puodan cun nós!

La fuorça houmana do idioma mirandês

Mariana Filgueiras
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Quando recebeu a notícia do fim da ditadura salazarista, por volta das duas da tarde do dia 25 de abril de 1974, o oficial Amadeu Ferreira cumpria serviço no Depósito Geral de Adidos, em Lisboa. Ficou tão feliz que não acreditou. Menos céticos, seus colegas de tropa resolveram abrir um champanhe. Sacudiram a garrafa uma, duas, três vezes. A rolha ricocheteou com força no teto e foi acertar em cheio o retrato do primeiro-ministro Marcelo Caetano, que acabara de cair. Plaft! Com o vidro estilhaçado sobre aquele meio sorriso no chão, Amadeu percebeu que uma queda era, de fato, uma queda. Pôs um cravo vermelho na boca do rifle e nunca mais foi visto de farda.

Para quem já havia abandonado a lavoura e o seminário, sair do Exército depois da Revolução dos Cravos era moleza. Em toda a sua vida, Amadeu só não abandonou duas coisas: o bigode e a luta pelo mirandês, sua língua materna. Mesmo em Portugal, muita gente nem suspeita, mas desde 29 de janeiro de 1999, quando foi assinada a Lei n.o 7/99, o país tem um segundo idioma oficial. Não se trata de um dialeto do interior. O mirandês é uma língua, com convenção ortográfica, tradução de Os Lusíadas e tudo a que tem direito.

Parente do lionês, idioma do antigo Reino de Leão, o mirandês tem as mesmas raízes românicas do português e sobrevive há oito séculos na região de Miranda do Douro, no noroeste de Portugal. É falado por cerca de 10 mil pessoas, mais ou menos o número de foliões que segue o bloco Cachorro Cansado no Carnaval do Rio. Soa como um portunhol sibilado, com palavras que começam e terminam por cê-cedilha. Exemplo: o prefixo des em mirandês equivale a ç ou a z, dependendo da palavra. Descobrir é çcobrir e desenvolvido vira zambolbido (como no espanhol, a letra v se torna b). Destino é çtino, desenho é zenho, e a primeira pessoa do caso reto, eu, vira um surpreendente you, ou seja, é o yo espanhol acrescido do apêndice u. Em mirandês é comum a aglutinação de duas palavras para dar origem a uma terceira: meio ano se diz meianho.

O orgulho dos falantes são as palavras que não existem em português. Caçcanhete (pronuncia-se “cascanhete”) é o casco do porco. Anzonar é fingir que trabalha. Ende, um advérbio, significa “por volta de”. Quinau, palavra utilíssima, significa “má resposta”, “resposta aborrecida”. Cacholita, uma joia, é “o pingo d’água que cai na chuva já chovida”.



Amadeu Ferreira tem hoje 59 anos. Natural de Sendim, cidadezinha de 2 mil habitantes ao lado de Miranda do Douro, ouviu o mirandês desde pequenino.  Só foi aprender o português na escola. “As pessoas de fora diziam que éramos matutos e que nem português direito falávamos. Então só usávamos o mirandês na aldeia, dentro de casa ou no pequeno comércio. Nas ruas e nas cidades grandes, falávamos a língua fidalga, o português”, explica. “Acho fascinante uma língua ter se mantido intacta durante oito séculos só pela persistência da cultura oral, tendo tudo contra ela, sem um Camões e sem nenhum registro escrito para preservá-la.”

Na falta de Camões, o mirandês vem sendo defendido – e bem – por Ferreira. Tão logo saiu do Exército, ele decidiu estudar a origem da língua que aprendera em casa. Formou-se em letras e direito e ganhou a vida dando aulas de latim e música. É um exímio gaitista de foles, outra idiossincrasia da região que, a exemplo da Galícia, integra o cinturão de cultura celta que corre da Escócia até o norte de Portugal. Nos anos 90, Ferreira organizou os primeiros colóquios sobre o mirandês na Universidade de Lisboa. Viu alguns de seus versos mirandeses serem publicados aqui e ali e, com gosto, lançou-se a traduções de obras e autores variadas – entre outros, Faulkner, Catulo, Tintim, Bob Dylan e Carlos Drummond de Andrade: Al meio de l camino/ Nunca me bou a squecer desse acuntecimiento/ na bida de mies retinas tan cansadas…

 

Em 1995, Ferreira integrou o grupo que desenvolveu a primeira proposta de uma convenção ortográfica – “Não é bem uma gramática, mas algumas normas de escrita. Como a língua só tinha tradição oral, não existia uma grafia comum. Era preciso regularizar o mirandês para poder ensiná-lo aos mais jovens”, explica. Depois de convencer cada cadeira da Assembleia de que a convenção ortográfica era tão importante para a cultura portuguesa quanto o fado ou o doce de nata, Amadeu recebeu a notícia em seu gabinete na Faculdade de Letras: a reforma fora aprovada. E não só: no mesmo dia, também fora assinada a lei que reconhecia a língua mirandesa como segundo idioma de Portugal. Ferreira ficou tão feliz que mal cabia no bigode, cuja exuberância frondosa lhe cobre a boca e o deixa parecido com um primo distante de Belchior.

Em pouco tempo, o currículo escolar da região passou a incluir aulas regulares de mirandês. Em 2005 teve início a tradução de Os Lusíadas. Para atrair os jovens, o épico foi publicado em quadrinhos no Jornal Nordeste. Atento aos tempos, Ferreira lançou também um blog, o Froles Mirandesas, no qual mais de cinquenta colaboradores publicam textos inéditos em mirandês. Quem gosta da língua já não precisa trocá-la pelo português nem mesmo para ler saliências. Basta ir ao Pouca-Bergonha, um site de textos eróticos.

Não faz tempo, Ferreira inaugurou o Curso de Mirandês On Line, atualmente com duas dúzias de alunos matriculados. Daniel Sardinha, de 29 anos, formou-se lá e é hoje o primeiro brasileiro mirandês-falante. De casa, em Campos, no estado do Rio de Janeiro, Sardinha alimenta seu próprio blog, que criou para treinar a escrita.

Os jovens neofalantes do mirandês deflagraram um movimento virtuoso que muito orgulha Ferreira. Com o ímpeto da mocidade, eles começaram a traduzir sites inteiros. Já falam mirandês o site de relacionamento hi5, o Photoblog, o WordPress e a Wikipédia, que virou “Biquipédia” e por ora oferece 18 mil verbetes, contra 537 mil da versão em português. A ideia, para os próximos anos, é traduzir o Facebook e concluir, finalmente, o sonhado dicionário.

Não há mais volta. Quem ainda fizer bico ao ouvir uma falação em mirandês castiço corre o risco de receber pela proa um orgulhoso “Por Tutatis! Tengo ganas de dar uns çupapos!”. É o que está lá, na tradução de O Grande Fosso, de Asterix.

Mariana Filgueiras

Mariana Filgueiras é jornalista.

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