esquina

O 127 e o 128

A audiência na Justiça dos suspeitos da morte de Marielle Franco

Allan de Abreu
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

Quem surge primeiro no vídeo é o policial militar reformado Ronnie Lessa, acusado de assassinar a vereadora carioca Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, na noite de 14 de março de 2018. Na camiseta azul-clara, o número 128, gravado em branco, aparece em destaque: é sua matrícula na Penitenciária Federal de Porto Velho, Rondônia, para onde costumam ser enviados detentos considerados perigosos. Minutos depois, senta-se ao lado dele o ex-policial militar Elcio Vieira de Queiroz, apontado como comparsa de Lessa no crime.

Queiroz veste uniforme idêntico ao do amigo, com o número 127. Ambos estão algemados e escoltados por agentes penitenciários munidos de tonfas, arma semelhante ao cassetete. Às três da tarde do dia 4 de outubro, eles se preparam para a audiência do caso na Justiça, por videoconferência. A mais de 3 mil quilômetros de distância do presídio, na sala da 4ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, estão o juiz Gustavo Gomes Kalil, as promotoras Carmen Eliza Bastos de Carvalho, Simone Sibilio do Nascimento e Letícia Emile Alqueres Petriz e os advogados dos réus.

Lessa é o primeiro a falar. Parece calmo, embora abatido. No dia anterior, o Ministério Público e a Polícia Civil haviam prendido a mulher dele e três homens, todos suspeitos de jogar em alto-mar, no litoral da Barra da Tijuca, a arma usada no assassinato de Marielle e Gomes, uma metralhadora HK-MP5. Para a defesa, as prisões na véspera do depoimento foram uma tentativa dos promotores de instigar a dupla a fazer delação – o Ministério Público nega.

– O senhor sabe de quem partiu a ordem para o sumiço de suas armas? – pergunta a promotora Nascimento.

– Eu acho que as minhas armas estão apreendidas, doutora – responde Lessa.

 

Antes de serem presos no Rio, em março último, Lessa e Queiroz disseram à polícia não lembrar onde estavam na noite do crime e negaram que estivessem juntos. Agora, interrogados na Justiça, recuperam a memória: os dois afirmam que estavam em um bar na Barra da Tijuca, assistindo juntos ao jogo do Flamengo contra o Emelec, do Equador, pela Taça Libertadores.

Havia, entretanto, um fio solto nessa história: um bombeiro, amigo de Lessa e Queiroz que estivera no bar no horário da partida de futebol, disse à polícia não ter visto nenhum dos dois no local. “Lá pode até não ser tão grande, mas em dia de jogo do Flamengo, naquela rua cabem 5 mil pessoas”, justifica Lessa durante a videoconferência. Queiroz, que não tinha ouvido a explicação do amigo, pouco depois dá a mesma estimativa de público: “Era impossível de andar. [Havia] Aproximadamente umas 5 mil pessoas.”

Sempre que pode, Lessa tenta esticar ao máximo suas respostas. Quando as promotoras perguntam a ele sobre os endereços que pesquisou na internet – a maioria relacionada a Marielle Franco –, o PM aposentado começa a contar sobre uma academia de ginástica que teve anos atrás e, várias frases depois, conclui que o computador do estabelecimento ficava na varanda de sua casa e era acessado por toda a família. Ele deduz, então, que qualquer familiar ou amigo pode ter pesquisado aqueles endereços e nomes.

– O senhor tem algum interesse na ONG Redes da Maré? – pergunta a promotora Carvalho. A ONG realiza atividades sociais e educacionais no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, bairro onde Marielle passou a infância e a juventude.

– Bem lembrado, doutora – responde Lessa. – Foi uma reportagem sobre operação policial. Toda matéria que eu leio, leio esmiuçadamente. Quero saber por que o gatinho subiu na árvore, por que faltou combustível para o piloto de Fórmula 1. Eu não busquei [na internet] Redes da Maré. [O nome] Estava em reportagem de jornal.

Dono de imóveis no Rio, em Angra dos Reis e em Mangaratiba, além de automóveis e de uma lancha avaliada por ele mesmo em 308 mil reais, o PM reformado tem respostas prontas para quase todas as perguntas. Diz ter comprado um rastreador para colocar na bicicleta do filho e, de um ambulante, um equipamento para burlar radares no trânsito. O Ministério Público suspeita que os equipamentos tenham sido utilizados no planejamento do crime.

– O senhor pesquisou [na internet] sobre algum integrante do PSOL? Marcelo Freixo, a filha dele, a mulher dele? – pergunta a promotora Carvalho, sobre o deputado federal.

– Marcelo Freixo é um político do meu estado, uma pessoa pública. Eu nem sabia que ele tinha filha, mas quando a gente clica na matéria, está lá ele votando com a filha.

Lessa nega conhecer Domingos Brazão, o ex-deputado estadual (MDB-RJ) e atual conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado, suspeito de ser o mandante das mortes de Marielle e Gomes. “Nunca tive contato, nem de vista.” Com o vereador Marcello Siciliano (PHS-RJ), cuja participação no crime chegou a ser investigada pela polícia, afirma ter tido “pouca relação” na época em que jogaram futebol no Recreio dos Bandeirantes, no início da década.

– Já trabalhou para algum contraventor, senhor Lessa? – pergunta Nascimento.

– Não, senhora.

– O senhor já trabalhou para Rogério de Andrade?

– Negativo.

 

Ronnie Lessa ingressou na Polícia Militar em 1991. Depois de passar pelo 9º Batalhão, em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio, o segundo-sargento tornou-se adido na Polícia Civil no início dos anos 2000. Com fama de bom atirador, segundo o Ministério Público, foi contratado como guarda-costas pelo bicheiro Rogério de Andrade, que disputava com outros contraventores o espólio do tio, Castor de Andrade, morto em 1997.

Na guerra do jogo do bicho, Lessa perdeu parte da perna esquerda quando uma granada explodiu dentro da caminhonete em que ele estava, em outubro de 2009, e aposentou-se precocemente. De acordo com a Promotoria, a prótese não o impediu de oferecer sua mira aguçada para bandos paramilitares do Rio de Janeiro, entre eles o Escritório do Crime, grupo de extermínio liderado por Adriano Magalhães da Nóbrega.

– Qual sua relação com o capitão Adriano? – indaga Nascimento.

– Nenhuma.

A voz segura de Lessa só sai dos trilhos uma vez, quando a promotora Simone Nascimento pergunta ao PM reformado por que ele desativou a sincronização do Google Chrome no seu celular, três dias antes de prestar depoimento à Polícia Civil – a sincronização com a nuvem permite que o histórico de um dispositivo (inclusive pesquisas e senhas) seja acessível em outro. Lessa silencia por alguns segundos.

– Isso não é para se desfazer do telefone? – ele questiona. A promotora repete a pergunta. Mais um instante de silêncio.

– Pode ter sido o meu filho. Eu não sei fazer isso.

Bruno Castro da Rocha, advogado de Lessa, assume a palavra.

– Em razão da sua perna e do seu tamanho, você entra em qualquer carro? – pergunta. O Ministério Público, baseado em perícia, afirma que Lessa fez os disparos contra o carro de Marielle do banco traseiro de um automóvel Cobalt prata, com placas clonadas, conduzido por Queiroz.

– Não – responde Lessa. – Se eu tiver que entrar no banco do carona, é um desespero, porque a perna esquerda eu não movimento. No banco do motorista é muito mais fácil, porque eu sento e depois conduzo a minha prótese com as mãos.

O depoimento de Lessa dura cerca de 1h20. O de Queiroz é mais curto, quarenta minutos, e ele basicamente repete o que disse o amigo. “Espero que a Justiça seja feita. Mesmo estando enterrado vivo em um presídio federal, acredito na Justiça”, conclui Queiroz, em tom resignado.

Lessa pareceu menos deprimido que Queiroz ao final da videoconferência. Ao perceber na tela que uma de suas advogadas estava na sala do júri no Rio, mandou-lhe beijos com as mãos e, com o braço esquerdo, imitou o muque de Gabriel Barbosa, o Gabigol, gesto que se tornou a marca do artilheiro do Flamengo, time do coração dos dois presidiários.

A dupla agora aguarda manifestação do juiz Gustavo Gomes Kalil, a quem caberá decidir se os dois irão ou não a júri popular.

Allan de Abreu

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

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