questões da democracia virtual

O algoritmo da ágora

A política dos extremos no YouTube

Bernardo Esteves
Candidatos com presença forte no YouTube foram eleitos em 2018 para a Câmara, onde agora deputados se acotovelam enquanto gravam vídeos para seus seguidores. A assimetria entre direita e esquerda verificada nas redes sociais se reproduz ali: dos dez canais de parlamentares mais populares na plataforma em 2019, apenas dois são de oposição
Candidatos com presença forte no YouTube foram eleitos em 2018 para a Câmara, onde agora deputados se acotovelam enquanto gravam vídeos para seus seguidores. A assimetria entre direita e esquerda verificada nas redes sociais se reproduz ali: dos dez canais de parlamentares mais populares na plataforma em 2019, apenas dois são de oposição FOTO: PEDRO LADEIRA/FOLHAPRESS

“Fui expulso do DEM, acabei de ser expulso do meu partido”, anunciou em voz grave Arthur do Val, deputado estadual por São Paulo, numa manhã de novembro último. Falava para a câmera do laptop em seu gabinete na Assembleia Legislativa, em um vídeo para seus 2,6 milhões de seguidores no YouTube, a plataforma que o projetou para a política, na qual é conhecido como Mamãe Falei. Gravou de improviso para dar a notícia em primeira mão. “Você que me segue, você merece saber disso direto por mim, sem intermediários”, afirmou (nesse instante pulou no canto inferior da tela o anúncio de uma universidade particular do Rio de Janeiro).

O deputado explicou que não perderia o mandato, mas provavelmente seria destituído das comissões em que representava o partido. Disse que se tornou um dos maiores opositores do governo do tucano João Doria, com quem o DEM está alinhado, e atribuiu a expulsão à sua atuação independente. “Nas comissões e no plenário sempre votei não de acordo com a orientação do partido, mas de acordo com o que eu quis, e sempre deixei isso muito claro”, justificou-se. Em nota, o DEM atribuiu a decisão unânime de seu Conselho de Ética à incompatibilidade dos atos do parlamentar com os preceitos e deliberações da sigla. O youtuber pretende se candidatar à Prefeitura de São Paulo em outubro, e o DEM deve apoiar a reeleição de Bruno Covas, do PSDB. “Vou ser bem sincero, tô cagando pra partido”, emendou. Até 18 de dezembro, o vídeo já tinha sido visto mais de 706 mil vezes.

Muitos candidatos se elegeram em 2018 impulsionados por uma atuação forte nas redes sociais, mas nenhum outro preenche tão bem quanto Mamãe Falei o rótulo de youtuber. O personagem que o catapultou para a Assembleia Legislativa foi forjado na plataforma de vídeos na internet, onde acumula centenas de milhões de visualizações. Aos 33 anos, Arthur Moledo do Val foi o segundo deputado estadual mais votado de São Paulo, escolhido por 478 mil eleitores. “Meu canal foi a chave mestra para que eu fosse eleito”, ele disse em novembro. “Se dependesse de grandes intermediários minha mensagem jamais chegaria a ouvidos novos.”

Antes de ser youtuber, Val trabalhou no ferro-velho do pai na capital paulista e se lançou em empreendimentos de ramos variados. Não se interessava especialmente por política quando abriu seu canal em 2015. Os primeiros vídeos traziam considerações suas de inspiração liberal sobre impostos, multas e direitos trabalhistas. Até que, em março de 2016, inventou o formato que o celebrizou num vídeo gravado numa manifestação de esquerda a favor do governo – estava em pauta então a nomeação de Luiz Inácio Lula da Silva para o Ministério da Casa Civil de Dilma Rousseff, decisão travada por Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal, após a divulgação de conversas telefônicas obtidas de maneira irregular pela Polícia Federal e tornadas públicas também de maneira irregular pelo então juiz Sergio Moro. De camiseta vermelha e boné com a aba para trás, o youtuber abordou manifestantes perguntando o que fazia um ministro da Casa Civil. O vídeo enfileira dez minutos de respostas hesitantes, desconfiadas e constrangedoras dos militantes.



Depois que seu canal estourou, Mamãe Falei aproximou-se do Movimento Brasil Livre (MBL), organização que teve papel relevante nos atos de apoio ao impeachment de Dilma. O youtuber repetiu a fórmula de sucesso em dezenas de outros vídeos gravados em manifestações. Coleciona processos e agressões – como o “pescotapa” que levou de Ciro Gomes em 2018 após interpelá-lo ao final de um evento (o vídeo foi visto 3,6 milhões de vezes). No ano passado, foi condenado em primeira instância a pagar 100 mil reais de danos morais ao deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ). Num vídeo de setembro de 2019, disse que “ministro de STF é um bando de filho da puta comedor de lagosta”.

 

Arthur do Val recebeu a piauí em seu gabinete na tarde de 19 de novembro, o dia em que foi expulso do DEM. Não soube apontar um motivo que tivesse desencadeado a decisão do partido. “Acho que foi pelo conjunto da obra.” A medida acabou por beneficiá-lo, pois com isso ele poderá concorrer à prefeitura sem perder o mandato. “Agora é achar um partido.” Estirado numa poltrona e falando num tom abaixo da energia que exibe nos vídeos, o deputado disse que costuma se informar sobre política, história, ciência e outros temas pelo YouTube. Se quer saber mais sobre o Império Otomano, por exemplo, procura um vídeo para saciar a curiosidade. “Não tenho fácil absorção da leitura, não gosto de parar quieto”, justificou. “Dependendo do livro, tenho que parar e ficar pensando, o vídeo eu já absorvo rapidinho.” Ele cursou engenharia química numa faculdade particular, mas não se formou.

Val disse que o YouTube reúne usuários dispostos a gastar tempo e energia para assistir a vídeos longos – os dele costumam ter até dez minutos –, o que, em tese, favorece a construção de narrativas mais elaboradas sobre a atualidade política. “No Facebook você faz um meme, no Instagram um stories, ou um vídeo curto”, descreveu. “Já no YouTube você tem espaço para dar sua opinião de forma mais embasada, dizer a solução que pensa ser a melhor, dar exemplos. Isso faz com que seu público seja mais fiel.”

O deputado afirmou que o estilo polêmico ajudou a projetá-lo, mas hoje o atrapalha, pois prejudica a imagem de seriedade que ele quer criar. Além disso, compromete a receita que ele poderia fazer com seu conteúdo no YouTube – a chamada monetização, que corresponde a um percentual do dinheiro arrecadado pela plataforma com os anúncios inseridos automaticamente antes, durante e depois dos vídeos. “Hoje qualquer coisinha é considerada discurso de ódio ou incentivo à violência, e você perde a monetização.”

Ainda assim, a lógica de funcionamento do YouTube parece privilegiar o conteúdo polêmico. “Vídeo de treta dá mais views, você fica entusiasmado e entra num ciclo vicioso: mais views, mais likes, mais briga, mais polarização”, disse Val. “Esse discurso é privilegiado pelo algoritmo”, continuou, citando o mecanismo pelo qual as redes sociais definem e hierarquizam o conteúdo oferecido aos usuários. O deputado acredita que os algoritmos podem isolar as pessoas em bolhas ideológicas, mas não vê isso como fenômeno novo nem problemático. “As redes sociais, o YouTube incluso, democratizam o debate.”

 

“O que Gutenberg fez para a escrita, o vídeo online pode fazer para a comunicação face a face”, afirmou o britânico Chris Anderson, promotor das conferências TED, numa palestra em 2010. Disse também que a comunicação olho no olho foi forjada por milhões de anos de evolução, e que o cérebro humano se adaptou para decifrar as informações transmitidas pela linguagem corporal, pela cadência da voz, pelas expressões faciais. “Há muito mais sendo transferido do que só palavras, e nessa parte não verbal acontece alguma mágica séria.”

Mais popular plataforma de vídeos digitais, o YouTube foi criado em 2005 e estava no lugar certo e na hora certa para conquistar o mercado mundial que se abriu para o consumo de conteúdo audiovisual com a expansão da banda larga e a massificação dos celulares com acesso à internet. Seus vídeos são vistos todo mês por mais de 1,9 bilhão de usuários, um quarto da população global, em computadores, tablets e smartphones. Trata-se do segundo site mais acessado no mundo, atrás apenas do Google – gigante do Vale do Silício, na Califórnia, que adquiriu o YouTube um ano após sua criação por 1,65 bilhão de dólares, ou 8,7 bilhões de reais em valores corrigidos.

A aposta do Google se mostrou acertada: a plataforma foi abraçada tanto pelos grandes atores da indústria do entretenimento quanto por anônimos que enviam seus vídeos caseiros de todo gênero imaginável. É difícil dimensionar a imensidão do conteúdo disponível no YouTube. Os usuários atualmente publicam em média 500 horas de conteúdo novo por minuto – seriam necessários 82 anos para que uma pessoa assistisse a todos os vídeos postados num único dia. A plataforma se tornou a arena onde muitos, especialmente os mais jovens, ouvem música, estudam, se informam, aprendem a tocar instrumentos, cozinhar, trocar fusível, dar nó de gravata – e discutir política.

O Brasil é o terceiro país que mais consome vídeos do YouTube, atrás de Índia e Estados Unidos. Dentre os usuários brasileiros da internet, 95% veem vídeos online, principalmente nessa plataforma, conforme apontou a pesquisa Video Viewers, encomendada pelo próprio Google. Como 70% da população brasileira – ou 127 milhões de pessoas – usou a internet em 2018, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios, divulgada em agosto passado, a audiência do YouTube no país abrangeria um universo de aproximadamente 120 milhões de pessoas.

O consumo de vídeo online já rivaliza com o da tevê no Brasil, e a diferença fica menor a cada ano. De acordo com a pesquisa Video Viewers, em 2019 os brasileiros viram em média 27,1 horas por semana de tevê e 20,7 horas de vídeos online, sobretudo no YouTube (em 2014, viam 21,9 horas de tevê por semana e apenas 8,1 horas de vídeo na internet).

A popularidade do vídeo online trouxe para a cena pública figuras inexistentes há quinze anos: os youtubers, como são chamados os criadores de conteúdo da plataforma. Alguns têm status de celebridade. No Brasil, um dos mais conhecidos é o carioca Felipe Neto, dono e apresentador do canal que teve a segunda maior audiência do YouTube em todo o mundo em 2019, com 3,5 bilhões de visualizações (e o único entre os dez mais que não faz vídeos em inglês). O campeão de audiência, o sueco conhecido pelo codinome PewDiePie – que tem 100 milhões de seguidores –, é mais popular que Leonardo DiCaprio ou Katy Perry entre adolescentes norte-americanos.

 

A Alphabet, empresa dona do Google, gerou 137 bilhões de dólares em receitas em 2018, mas não se sabe que proporção desse bolo veio do YouTube – segundo uma estimativa do jornal The New York Times, seria algo entre 16 e 25 bilhões de dólares (entre 65 e 101 bilhões de reais). Uma fração importante desses recursos vem dos anúncios veiculados na plataforma. A empresa divide com os youtubers parte dessa receita, mas não dá detalhes sobre como calcula o valor distribuído a cada um. Os criadores de conteúdo têm outras formas de fazer dinheiro com seus canais, como assinaturas pagas ou chats em que os participantes desembolsam para enviar perguntas.

Os youtubers que fazem muito dinheiro costumam chamar a atenção da imprensa. Um levantamento feito pela revista Forbes calculou que quem mais arrecada no mundo é o norte-americano Ryan Kaji, um menino de 8 anos que ganhou 26 milhões de dólares entre junho de 2018 e maio de 2019. O garoto construiu seu público de quase 23 milhões de inscritos com vídeos em que aparece tirando brinquedos da caixa e testando-os.

Mas são poucos os youtubers que conseguem se sustentar unicamente com seus vídeos. Mesmo um canal de audiência superlativa como o de Mamãe Falei tem rendimento relativamente modesto, de acordo com o youtuber. “O canal já me rendeu 6 mil, 7 mil reais por mês, mas hoje dá uma merreca”, afirmou. O valor pago depende do número de visualizações, mas também do engajamento dos usuários com os vídeos – as curtidas, compartilhamentos e comentários. O tema do vídeo parece determinante. “Se eu falar de boneca de pano, vou ganhar mais dinheiro do que se falar de política”, disse. “Mas não temos como saber, é uma caixa-preta.”

A conversão dos vídeos em dinheiro, a chamada monetização, segue uma lógica flutuante, explicou Cauã Taborda, gerente de comunicação do YouTube para a América Latina, numa entrevista na sede do Google, na Avenida Faria Lima, em São Paulo. “É uma métrica de mercado. Não tem um CPM fixo”, afirmou, referindo-se ao “custo por milhares de visualizações”, a unidade usada para calcular quanto cada criador vai receber. “Se os vídeos de educação estiverem mais em alta que os de café, provavelmente seu CPM será mais alto.”

Quanto mais tempo o usuário ficar assistindo a vídeos no YouTube, maior será a quantidade de anúncios que ele verá, e maior a receita do Google e dos criadores. Os espectadores são estimulados a maximizar o tempo gasto na plataforma. Quando um vídeo acaba de ser exibido, outro escolhido automaticamente começa a passar segundos depois, a menos que o usuário desabilite essa configuração definida por padrão. À direita da tela principal, há uma seleção de recomendações de vídeos dentre os quais o usuário pode escolher o próximo; ele pode descer o quanto quiser a barra de rolagem que o serviço continuará a lhe oferecer sugestões sem fim.

A escolha do vídeo reproduzido de forma automática, assim como as sugestões na coluna da direita e na página inicial, são feitas por um algoritmo – ou seja, um conjunto de regras computacionais que levam em conta uma série de comportamentos do usuário para gerar aqueles resultados. Pessoas que acessarem a mesma página simultaneamente receberão recomendações distintas, a depender de sua localização e de seu histórico de uso do YouTube (os vídeos que viu e com os quais interagiu). Para quem navega vinculado a uma conta do Google, o cálculo possivelmente levará em consideração as informações que a empresa coleta de cada usuário – as buscas que faz, os sites que acessa, os lugares que visita, os contatos, a agenda.

A ferramenta de recomendação foi lançada em 2010 e vem sendo incrementada desde então com a incorporação de sistemas robustos de inteligência artificial. Ela é a fonte de 70% do tráfego do YouTube, de acordo com dados da própria empresa. Taborda explicou que o sistema leva em conta tanto o que o usuário está assistindo naquele momento quanto o seu padrão habitual na plataforma. “Muito mais que prender a pessoa ou deixá-la consumindo vídeo, o objetivo é oferecer o conteúdo que ela gostaria de ver, mas às vezes não sabe que existe; é levá-la a descobrir um canal novo.”

Há cerca de três anos o algoritmo do YouTube passou a ser questionado com base em relatos surpreendentes publicados na imprensa. No começo de 2018, o programador francês Guillaume Chaslot, que havia trabalhado na equipe responsável pelo sistema de recomendação do Google, disse ao jornal The Guardian que o grupo era orientado a fazer os usuários passarem mais tempo – e assistirem a mais anúncios – no YouTube. Um teste feito pelo Wall Street Journal com um programa que Chaslot desenvolveu simulando o sistema de recomendação do YouTube levou à conclusão de que o algoritmo acaba conduzindo os usuários a canais com teorias da conspiração e vídeos enganosos.

Quando um atirador matou 58 pessoas num festival em Las Vegas, em 2017, o YouTube passou a recomendar aos usuários vídeos de teorias da conspiração para explicar a tragédia, conforme relatou o site noticioso BuzzFeed. Após um experimento em que foi exposta a vídeos que defendiam a supremacia da raça branca ou negavam o Holocausto, a pesquisadora Zeynep Tüfekçi comparou o YouTube a um buraco no qual os usuários se embrenhavam seduzidos pela ilusão de descobrir novos segredos e verdades mais profundas. “O YouTube pode ser um dos mais poderosos instrumentos de radicalização do século XXI”, escreveu a estudiosa das redes sociais da Universidade da Carolina do Norte, num artigo de 2018 para o New York Times.

Em agosto de 2019, uma reportagem do mesmo jornal afirmou que o YouTube havia contribuído para a radicalização dos brasileiros e ajudado a criar o ambiente político que elegeu Jair Bolsonaro. Com base em dados gerados por pesquisadores da Universidade Harvard e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o relato concluiu que o algoritmo de recomendação do YouTube no Brasil parecia estar conduzindo usuários sistematicamente para canais da extrema direita e de teorias conspiratórias.

 

Jair Bolsonaro é o primeiro presidente youtuber do Brasil. Mesmo que a plataforma de vídeos não fosse o carro-chefe de suas redes sociais, seu canal já contava com mais de 2 milhões de inscritos quando ele foi eleito – hoje tem 2,63 milhões. Vêm desde os tempos de campanha as lives de retórica inflamada e estética descuidada que se tornaram uma marca registrada da comunicação de seu governo.

Em novembro de 2018, já eleito, Bolsonaro divulgou para seus seguidores nas redes sociais “opções de excelentes canais de informação no YouTube”. O canal mais popular recomendado por ele foi o de Nando Moura, um músico e professor de guitarra que tem 3,3 milhões de seguidores e coleciona desafetos com as tiradas agressivas que dispara em seus vídeos. Como os demais youtubers indicados por Bolsonaro, Moura rezava de acordo com a cartilha de Olavo de Carvalho, o polemista de 72 anos que se tornou a bússola ideológica do bolsonarismo (em outubro passado, Moura e Carvalho romperam, o que também faz parte da cartilha olavista). É pelo YouTube que Carvalho – outro nome da lista de recomendações do presidente eleito – dá seus cursos de filosofia online e fala a 808 mil seguidores, geralmente fumando cachimbo em sua biblioteca, na Virgínia, nos Estados Unidos, onde mora desde 2005. A lista do presidente incluía ainda o católico Bernardo Küster e o ex-funkeiro Diego Rox, além de dois canais – Embaixada da Resistência e Tradutores de Direita – que reproduzem, com legendas em português, vídeos norte-americanos da Fox News e de outras fontes alinhadas com Donald Trump. Em comum, os canais recomendados flertam com teorias da conspiração como o negacionismo climático, que refuta a origem humana do aquecimento global, comprovada por mais de um século de ciência.

A opção de Bolsonaro por indicar youtubers como fonte de informação, e não veículos tradicionais da imprensa, era sintomática do espaço que ele reservaria ao jornalismo profissional em seu mandato – desde a cerimônia de posse, quando o presidente deu a Nando Moura e a veículos digitais conservadores (como o site do Brasil Paralelo e o portal Terça Livre) o acesso a áreas vedadas a repórteres de jornais e revistas.

 

O sucesso dos youtubers na política não se restringe ao Poder Executivo. Candidatos com presença forte na plataforma de vídeos conquistaram seu lugar no Congresso no último pleito. As votações na Câmara agora estão povoadas de deputados que se acotovelam de celular na mão, enquanto fazem transmissões ao vivo para seus seguidores. Um levantamento feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV) em novembro, a pedido da piauí, compilou dados de audiência dos cinquenta deputados e senadores com canais mais populares no YouTube no ano passado (o critério usado foi a média de visualizações dos vídeos em 2019). Na lista, aparecem em destaque Kim Kataguiri (DEM-SP), em segundo lugar, e Joice Hasselmann (PSL-SP), em terceiro. Os dois deputados concentraram seus esforços de campanha nas redes sociais e continuam usando o YouTube ativamente para dialogar com seus apoiadores.

O canal com maior audiência média no ano passado entre os parlamentares foi o da cantora gospel Lauriete, deputada federal pelo PL-ES (ela pediu desfiliação depois de se separar do marido, o pastor evangélico Magno Malta, que preside o diretório capixaba do partido). Os vídeos que garantiram a ela essa posição, porém, não tratam de política; são clipes de algumas de suas canções. É possível ver na rede um vídeo em que a deputada interpreta a música Grandioso És Tu na tribuna da Câmara numa sessão de 2011, durante seu primeiro mandato. O nicho evangélico do YouTube é também o lugar de projeção da pastora e cantora Flordelis (PSD-RJ), quinta parlamentar com maior audiência média no ano passado. A deputada costuma fazer para o YouTube registros de sua atividade em Brasília, mas a audiência dos seus vídeos musicais é muito mais expressiva.

A lista dos parlamentares com maior média de audiência em 2019 inclui ainda o Sargento Fahur (PSD), um policial militar aposentado que foi o deputado federal mais votado do Paraná. Integrante da bancada da bala, Fahur se elegeu impulsionado pela fama conquistada nas redes sociais, e defendendo o direito à posse de armas e os interesses dos policiais.

Em 2013, quando ainda estava na ativa, Fahur começou a divulgar em seu canal do YouTube reportagens das tevês locais sobre as apreensões de armas e drogas feitas por ele. O primeiro vídeo a viralizar foi publicado em fevereiro de 2015, quando a equipe do sargento encontrou 4 kg de pasta base de cocaína no tanque de combustível de um Monza. “Vou dar um recado para esse bunda-suja que ia receber a cocaína vir buscar aqui comigo na Quarta Companhia”, disse o sargento ao repórter. Em seguida mirou a câmera: “Você aí, ô dono da cocaína. A droga está aqui, eu te entrego. Só que vou enfiar uma no ouvido, uma no nariz, uma na boca e a outra você sabe onde.” O vídeo já foi visto mais de um milhão de vezes.

Os repórteres continuaram atrás de Fahur, e o sargento seguiu abastecendo as redes sociais. “Lugar de menor bandido é na cadeia ou no cemitério. Eu fico feliz de tirar esse lixo das ruas”, declarou à tevê num vídeo de 2016 em que defendeu leis mais rígidas contra os traficantes, incluindo a pena de morte. Seu bordão é “cacete no lombo e bala no rabo”.

Numa entrevista em seu gabinete na Câmara, em novembro, Gilson Cardoso Fahur, de 56 anos, disse que o Sargento Fahur das redes sociais nunca foi um personagem inventado. “Eu falava o que eu pensava, e era o que as pessoas queriam ouvir”, afirmou – de fato, como nos vídeos, ele falava alto e tinha os olhos arregalados durante a entrevista. O deputado disse que se policia para não mudar o jeito que o consagrou nas redes. “Senão estaria traindo meus eleitores, eles me mandaram para cá para eu tocar o terror.”

Fahur contou que o Facebook, onde começou sua atividade na internet, é sua principal rede social. É também a que ele mais usa, junto com o WhatsApp (“Não consigo ir daqui do gabinete ao plenário sem manusear minhas redes sociais”). Suas publicações são denunciadas com frequência por causa do conteúdo violento e por incitarem o ódio. Nesses casos, ele prefere não comprar briga – e retira o vídeo do ar. “Chegamos até aqui graças à força das redes sociais. Temos que nos adaptar a elas, e não elas a nós”, afirmou. Mas, se dependesse dele, seria diferente. “Gostaria que houvesse uma rede social em que você pudesse mostrar o vagabundo tomando um tiro, ou a maldade que ele faz.”

O deputado falou à piauí em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Na véspera, o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) quebrara a placa de uma exposição na Câmara com uma charge do cartunista Carlos Latuff que mostra um jovem negro baleado por um policial. Fahur recebera uma reprodução da charge de um colega de bancada e resolveu tomar providências. Saiu decidido a gravar um vídeo criticando o desenho. “Dizer que a pm sai às ruas para exterminar a raça negra é um absurdo”, afirmou. Ao chegar à galeria, já não encontrou a charge. “Coronel Tadeu chegou antes.”

 

O experimento que apontou o papel do sistema de recomendação do YouTube na radicalização política dos brasileiros foi feito por uma equipe do Centro Berkman Klein, instituto da Universidade Harvard voltado para investigações sobre internet e sociedade. O grupo configurou um servidor no Brasil para simular o comportamento no YouTube de um usuário com histórico de navegação zerado. Partindo de uma seleção de canais de direita e de esquerda, além de canais de grande audiência considerados neutros, o grupo gerou um banco de dados e investigou os vídeos ali recomendados.

A programadora e pesquisadora brasileira Yasodara Córdova, integrante do grupo de Harvard, me disse que o sistema aprendia sistematicamente a indicar vídeos de extrema direita e conteúdo violento. Sugeria também informações duvidosas de saúde, como promessas de curas para dengue, zika ou malária. “O algoritmo concluiu que essas coisas atraem a atenção das pessoas”, afirmou Córdova.

O grupo nunca divulgou detalhes dos resultados. No meio da pesquisa, toparam com uma rede de canais com vídeos que, embora se enquadrassem na maior parte nos termos de uso do YouTube, traziam conteúdo sexualmente sugestivo. Além de adultos em cenas sensuais, os pesquisadores encontraram vídeos de crianças com pouca roupa que poderiam estar sendo difundidos por uma rede de pedofilia e exploração infantil. A publicar um artigo acadêmico, os pesquisadores preferiram levar o caso à imprensa e denunciar os canais ao Centro Nacional das Crianças Desaparecidas e Exploradas. Um acordo entre a entidade de proteção às crianças e os pesquisadores prevê a confidencialidade dos dados.

O mesmo método foi usado pelo grupo de Harvard para uma nova coleta de informações, dessa vez voltada a entender como se espalha no Brasil, via YouTube, a desinformação sobre saúde. Resultados preliminares do estudo – ainda não publicados numa revista especializada – estão disponíveis no site do Centro Berkman Klein. Dos vinte vídeos mais recomendados na base de dados com a qual os cientistas trabalharam, apenas um continha informações claramente enganosas. No entanto, a depender do percurso do usuário, as recomendações podiam levá-lo a vídeos que propõem curar a zika com alho ou mel.

 

Um grupo de cientistas da computação da UFMG e da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, também investigou no ano passado se o uso do sistema de recomendação estava promovendo a radicalização política entre os usuários no contexto norte-americano. Para isso, trabalhou com um universo de 331 mil vídeos de 360 canais, incluindo os 79 milhões de comentários deixados pelos usuários. Os resultados ainda não foram submetidos à revisão de outros cientistas, mas estão disponíveis desde setembro passado na plataforma arXiv, onde pesquisadores postam versões preliminares de seus trabalhos (o artigo foi considerado um dos cem mais discutidos de 2019 pela plataforma Altmetric).

Os cientistas dividiram os vídeos analisados em quatro grupos: um deles incluía canais populares da imprensa convencional. Os outros três representavam parcelas da extrema direita norte-americana, com diferentes graus de radicalização – a intellectual dark web (IDW), um grupo de pensadores e jornalistas iconoclastas; a alt-lite, cujos ativistas cultivam um nacionalismo sem componente racial; e o mais extremo deles, a alt-right, que abraça o antissemitismo e ideologias que pregam a supremacia da raça branca. Os pesquisadores analisaram 2 milhões de recomendações de vídeos para avaliar se os canais mais moderados estariam conduzindo os usuários ao conteúdo mais extremo. Os resultados não sustentaram essa hipótese: os vídeos mais radicais da alt-right não eram frequentemente recomendados a usuários que partissem de canais da imprensa ou mesmo dos outros setores da extrema direita.

Por outro lado, os cientistas constataram haver outro indício de que o YouTube poderia, sim, estar expondo as pessoas a conteúdos extremos. Eles observaram que usuários que antes só deixavam comentários nos vídeos da IDW e da alt-lite, com o passar do tempo começavam a comentar os vídeos racistas da alt-right. “Olhando para os comentários, descobrimos fortes evidências de que os indivíduos de comunidades menos extremas estavam migrando de forma consistente para canais mais extremos”, disse o primeiro autor do estudo, Manoel Horta Ribeiro, um pesquisador formado pela UFMG que está fazendo doutorado em Lausanne.

A equipe é liderada por Virgilio Almeida, cientista da computação de 69 anos e professor emérito da universidade mineira, pela qual se aposentou em 2017. Numa sala de reuniões da UFMG onde juntou o grupo para conversar com a piauí, Almeida disse que seu principal interesse é entender os algoritmos por trás das plataformas que hoje fazem parte da vida de muitos – não só as redes sociais, mas também serviços como Uber, Airbnb ou Netflix. “A gente entrega a vida para essas plataformas que tomam decisões baseadas em algoritmos e coletam nossos dados o tempo todo, mas não há um processo de compreensão e discussão da sua complexidade”, afirmou.

O grupo tenta investigar em que medida os algoritmos incorporam visões de mundo dos indivíduos que os criaram. Um estudo apresentado em 2016 num congresso internacional de informática social conduzido pela então mestranda Camila Souza Araújo mostrou um claro viés de gênero, raça e idade embutido nos algoritmos de buscas de imagens. Araújo pesquisou por “mulher bonita” e “mulher feia” em dois buscadores – Google e Bing – em 42 países e esmiuçou os resultados mais populares com ferramentas de análise facial. O estudo revelou que, quando se buscava por “mulher bonita”, as respostas apresentavam sobretudo mulheres brancas jovens. Além disso, a quantidade de negras era muito maior quando se buscava por “mulher feia”, na maioria dos países analisados, mesmo os africanos. “Na Nigéria, ‘mulher bonita’ era loura e jovem”, afirmou Virgilio Almeida, coautor do trabalho.

Um artigo do grupo mineiro apresentado em 2018, em outra conferência, ajudou a mapear o discurso de ódio, violência e preconceito em canais de direita norte-americanos. O estudo repercutiu na imprensa e pôs a equipe da UFMG no radar do New York Times, que recorreu aos brasileiros para fundamentar sua reportagem sobre a radicalização no YouTube. “É pouco usual a imprensa norte-americana vir a entender um problema deles por um estudo feito no Brasil”, notou Almeida.

Ao estudar a política brasileira no YouTube, o grupo da UFMG não investigou o papel do sistema de recomendação, mas buscou mapear e comparar o discurso de ódio e conteúdo violento nos canais de direita e de esquerda. Mais uma vez, trabalharam com ferramentas computacionais para analisar uma grande quantidade de vídeos e de comentários postados em 2017 e 2018. “O discurso de ódio aparece principalmente nos comentários, é onde as pessoas soltam os diabos”, afirmou Raphael Ottoni, doutorando que conduziu o trabalho. “É ali que se trava a batalha ideológica.”

O estudo mostrou que, desde o começo de 2017, Jair Bolsonaro era um nome citado frequentemente nos comentários dos canais de direita – nos canais de esquerda, as menções ao candidato só ganharam relevância no segundo semestre de 2018, durante a campanha. Os resultados do estudo, que ainda não foram publicados e serão apresentados num congresso em 2020, mostram também uma grande assimetria entre direita e esquerda no uso do YouTube. Embora ainda não haja números consolidados, os pesquisadores observaram que os canais de direita tiveram muito mais visualizações e engajamento dos usuários que os de esquerda. Isso se refletiu também nos comentários: mesmo nos canais de esquerda, um dos tópicos mais frequentes eram xingamentos contra Lula e esquerdistas. “Está claro que a direita domina muito mais esse universo”, afirmou Virgilio Almeida.

O pesquisador disse que os estudos de seu grupo permitem identificar padrões de dados em grandes volumes, impossíveis de serem apontados sem as ferramentas computacionais. Mas ponderou que o grupo não tenta explicar o que está acontecendo na vida política. Para tanto, não bastariam esses resultados. Seria preciso completá-los com pesquisas de outras disciplinas. Apesar da cautela, Almeida defende que as tendências apontadas pelo seu grupo podem ajudar a formatar futuras políticas públicas. “Os algoritmos das plataformas digitais são chave para uma eleição”, afirmou. “Será que o Congresso entende isso?”

 

Em novembro de 2019, dois eventos promovidos pela direita tiveram entre seus palestrantes youtubers de destaque. Estavam ali segmentos distintos do conservadorismo que se uniram em torno da candidatura de Jair Bolsonaro. Em Santa Catarina, as atrações incluíam Bernardo Küster, Allan dos Santos, do Terça Livre, e Olavo de Carvalho, falando por streaming para o congresso da Coalizão Conservadora. Em São Paulo, integrantes e simpatizantes do MBL se encontraram para o quinto congresso anual da entidade, que no meio do ano passado desembarcou da nau bolsonarista.

Na abertura do congresso paulistano, com mais de 2,2 mil ingressos vendidos, Renan Santos, coordenador e estrategista do movimento, anunciou que dali para a frente surgiria “um MBL menos treteiro”. Explicou que a organização estava reorientando seu posicionamento desde o mea-culpa público que fez em 2019, admitindo que abrira uma caixa de Pandora que agora buscava tampar. O MBL, continuou ele, incentivara a espetacularização da política, e as ferramentas que desenvolveu ajudaram a eleger políticos oportunistas que propagavam debates sem conteúdo. “Nós temos culpa no cartório”, afirmou Santos para a plateia. “Transformamos política em espetáculo, e um monte de vagabundos veio a reboque fazer a mesma coisa sem responsabilidade.”

Um dos artífices do modus operandi do mbl foi o músico e publicitário Pedro D’eyrot, membro da banda curitibana Bonde do Rolê. Numa entrevista durante o congresso, D’eyrot disse que, quando se juntou ao movimento, trouxe para a política táticas da indústria do entretenimento. Ele percebeu que as pessoas estavam se relacionando com os políticos da mesma forma como elas “consomem” as celebridades na internet, e concluiu que as estratégias usadas para promover uns poderiam valer para outros. “No fundo, é uma grande briga por atenção.”

Questionado sobre se havia algum antídoto para a espetacularização vazia da política, D’eyrot disse que a luta seria ingrata. Ele acredita que há uma atração irresistível pelo conflito na psicologia humana. “Se duas pessoas começarem a brigar ali, nós vamos parar e ficar olhando até terminarem”, exemplificou. Para D’eyrot, as redes sociais são apenas ferramentas que trazem esse comportamento à tona. “Se o mundo está polarizado e o diálogo está difícil, não é por causa das ferramentas.”

O MBL começou a usar o YouTube de forma mais intensiva em 2017, depois de mudanças no algoritmo do Facebook, o que diminuiu muito o alcance das publicações do movimento nessa plataforma. A rede social de vídeos ganhou ainda mais importância na estratégia digital do MBL em julho de 2018, quando o Facebook derrubou 196 páginas e 87 contas acusadas de espalhar notícias falsas, incluindo algumas que produziam conteúdos muito compartilhados pelo MBL.

Kim Kataguiri me disse durante o congresso que o principal diferencial do YouTube é o maior índice de retenção dos usuários. “A pessoa inscrita no seu canal do YouTube te conhece melhor, tem maior proximidade e engajamento”, afirmou. O MBL enxerga o YouTube como uma plataforma para fomentar a militância e formar uma nova base de ativistas. “Muitas vezes o alcance do YouTube não é tão grande quanto o do Facebook, mas o usuário é um cara que vai aos eventos, entrega panfletos, conhece suas propostas e sabe se defender”, disse o deputado.

 

Em Santa Catarina, o evento que reuniu estrelas da direita governista no YouTube foi organizado em Criciúma e Florianópolis pela Coalizão Conservadora, que se define como um grupo de estudos suprapartidário em defesa dos valores tradicionais. A foto de Olavo de Carvalho é a que se destaca no flyer distribuído para promover o evento. Na capital, o congresso foi sediado no Centro de Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina. Os 250 ingressos vendidos a 50 reais se esgotaram com uma semana de antecedência. A piauí tentou se credenciar para cobrir o evento, mas teve o acesso negado pela organização – primeiro foi dito que a cobertura seria exclusividade do site Estudos Nacionais, depois que o auditório estava com sua capacidade máxima preenchida.

Na hora do evento, numa noite de sexta-feira, um punhado de estudantes com faixas antibolsonaristas hostilizaram alguns dos participantes que chegavam para os painéis. “Cinquenta reais para ouvir que a Terra é plana?”, disse uma manifestante para um casal que entrava. Aludia a um vídeo em que Olavo de Carvalho disse nunca ter visto provas da esfericidade do planeta. “A universidade é o espaço do pensamento crítico”, gritou outra manifestante, em tom exaltado. A Polícia Militar foi chamada para reforçar a segurança do local.

Na entrada e na saída do congresso, ouvi relatos de desconfiança com a imprensa tradicional – um tipo de queixa que não havia aparecido nos depoimentos colhidos junto aos apoiadores do MBL alguns dias antes. “As grandes fake news vêm de jornais tradicionais, a gente vê tantos erros e coisas distorcidas”, disse o administrador Renan Junckes, de 26 anos. “O YouTube consegue quebrar a barreira imposta pelas grandes mídias com sua individualidade e espontaneidade, sem grandes patrocínios”, continuou o rapaz, que usava uma camiseta com mensagens contra o aborto, em defesa de Deus e das armas. Queixa parecida veio do engenheiro mecânico Maclano de Souza, de 31 anos. “As narrativas que vejo na tevê não correspondem à realidade”, afirmou. “A gente acaba procurando outras fontes de informação, e o YouTube tem essa nova interpretação do que está rolando no mundo.”

Por outro lado, alguns participantes manifestaram um ceticismo generalizado em relação a tudo o que consomem. “O YouTube é uma fonte dissidente de informação da grande mídia, mas não tomo tudo que os youtubers ou os profissionais da informação dizem como verdade última”, disse Arthur Leão, que tem 20 anos e cursa relações internacionais na UFSC. Quando mencionei o algoritmo de recomendação, ele disse que o YouTube privilegia vídeos polêmicos. “Isso acaba favorecendo ideologias e pensamentos mais heterodoxos”, afirmou. Pedi que me desse um exemplo. “O próprio presidente do Brasil é um caso.”

 

Uma dupla de pesquisadores que investiga as redes sociais e a comunicação política na Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, refuta a hipótese da radicalização do debate público por obra do algoritmo do YouTube. Kevin Munger e Joseph Phillips discutiram a ideia num artigo publicado na internet em outubro de 2019. Os autores reconheceram que o trabalho do grupo da UFMG é o mais rigoroso já feito sobre a radicalização no YouTube, mas discordaram da explicação que atribuía os resultados ao sistema de recomendação.

Essa explicação, argumentam os pesquisadores, pressupõe um público passivo e sugestionável, que aderiria incondicionalmente às ideias às quais foi exposto. Para Munger e Phillips, visões políticas radicais são populares na plataforma porque encontraram ali um espaço para sua difusão que não havia antes. Os autores sustentam que o público para os discursos radicais já existia, mas estava até então limitado pela pouca oferta de conteúdo disponível.

O Google também refutou as pesquisas de Harvard e da UFMG que investigaram o papel de seu sistema de recomendação na possível radicalização dos usuários. A empresa disse discordar enfaticamente dos métodos, dos resultados e principalmente das conclusões desses estudos, embora não tenha apresentado números para contradizê-los. Alegou ainda que desativou a função de “canais relacionados”, um dos mecanismos de recomendação investigados pelos dois grupos.

Na entrevista que deu à piauí, Cauã Taborda, o gerente de comunicação do YouTube para a América Latina, disse que a radicalização do debate político não é culpa do algoritmo. “Ele é pintado por algumas pessoas como algo maquiavélico, mas só serve para oferecer conteúdo que você quer consumir.” Se não fosse isso, segundo ele, os vídeos mais extremos estariam à frente, em termos da audiência, dos de conteúdo educativo, humorístico e musical – segundo Taborda os mais vistos, nessa ordem, pelos usuários do YouTube no Brasil. “O brasileiro está consumindo muito mais coisa legal do que coisa ruim no YouTube”, afirmou.

A empresa contesta também as alegações de Guillaume Chaslot, o ex-funcionário que vem criticando o Google na imprensa. Alega que o algoritmo de recomendação é projetado para otimizar a satisfação do usuário e a qualidade da informação, e não o tempo de permanência da plataforma. “Nenhuma parte do sistema de recomendação que estava em funcionamento quando Chaslot era empregado do Google está sendo usada no sistema de recomendação atual do YouTube”, disse um porta-voz da empresa à revista PCMag em novembro do ano passado.

Em janeiro de 2019, o Google fez velada mea-culpa ao afirmar que mudaria o sistema de recomendação do YouTube. Sem mencionar as reportagens e pesquisas que haviam apontado problemas com o algoritmo, a empresa afirmou que pretendia diminuir a difusão de conteúdo que ameaça cruzar os limites impostos pelas diretrizes da comunidade de usuários. “Vamos começar a reduzir as recomendações de conteúdo duvidoso que poderiam desinformar os usuários de maneira prejudicial – como vídeos promovendo uma cura milagrosa para uma doença séria, defendendo que a Terra é plana ou fazendo alegações flagrantemente falsas sobre eventos históricos como o Onze de Setembro”, afirmou um post não assinado publicado no blog do YouTube.

A mudança seria válida a princípio apenas para os Estados Unidos, informou o texto, e não afetaria mais que 1% do conteúdo da plataforma. Em novo post publicado em dezembro de 2019, a empresa disse que havia feito mais de trinta mudanças no sistema de recomendação ao longo do ano passado, e que as medidas estavam surtindo efeito. Afirmou que a audiência dos vídeos que deixaram de ser recomendados tinha caído 70% desde o início do ano para usuários não inscritos, mas não divulgou mais números que pudessem contextualizar melhor a estatística.

O YouTube começou gradualmente a implantar no Brasil em novembro último as mudanças de algoritmo promovidas nos Estados Unidos em janeiro (Reino Unido, França, Alemanha, México e África do Sul estão entre os países nos quais a novidade vem aos poucos sendo implementada). Junto com as mudanças no sistema de recomendação, a plataforma pôs em funcionamento no Brasil outra medida de combate à desinformação que já vinha sendo testada em outros mercados.

Desde o fim do ano passado, o resultado de determinadas buscas no YouTube vem com painéis informativos alimentados por fontes de boa reputação nas diferentes áreas, incluindo agências de checagem e órgãos da imprensa (a piauí integra o Comprova, consórcio de veículos jornalísticos que é parceiro institucional do Google nessa iniciativa). Em testes feitos pela piauí no fim de dezembro, o painel informativo apareceu em buscas com termos sugeridos pela equipe do Google (como “tossir evita ataque cardíaco” ou “patrimônio de Marisa Letícia”), mas não em pesquisas sobre temas comumente associados a teorias da conspiração na internet, como Holocausto, vacinas ou aquecimento global.

Com essas medidas, a empresa pretende oferecer informações confiáveis ao usuário. “A essência é encontrar um equilíbrio entre a liberdade de expressão, que é um valor essencial para o YouTube, e a garantia de que ela tenha contexto”, disse Rafael Corrêa, gerente de comunicações do Google no Brasil, numa entrevista por telefone.

 

No começo de outubro, foi divulgado um mapeamento dos canais políticos do YouTube no Brasil, feito pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, um projeto da Universidade de São Paulo. A iniciativa é coordenada por Pablo Ortellado, professor formado em filosofia que passou a fazer pesquisas na área de sociologia, interessado no impacto das redes sociais sobre o debate político.

O pesquisador e sua equipe passam horas debruçados sobre o conteúdo postado nas redes por pessoas de todo o espectro político, um trabalho que Ortellado disse ser enfadonho e extenuante. “Você vê a mesma coisa repetidas vezes, escrita de outra forma”, afirmou. O que logo saltou aos olhos de Ortellado ao mapear os canais políticos no YouTube brasileiro foi a assimetria entre os dois polos do debate, tanto no número de inscritos quanto no de visualizações dos vídeos. “A impressão que dá é que toda a esquerda é do tamanho do Nando Moura”, brincou, referindo-se ao youtuber de direita. Os dez canais mais populares dentre os 320 que sua equipe mapeou são frequentados pelo público de direita. A lista é puxada por Nando Moura, Mamãe Falei e Jair Bolsonaro, mas inclui também a Folha do Brasil e dois canais da Jovem Pan. Cada um deles tem mais de 1,5 milhão de inscritos. O canal mais popular da esquerda, o TV 247, tem 473 mil seguidores.

Ortellado disse que, quando o Facebook derrubou páginas como Folha Política e Política na Rede, durante a campanha eleitoral, elas foram migradas para o YouTube, o que contribuiu para inflar a presença da direita nessa plataforma. Isso também ajudaria a explicar um aspecto incomum constatado pelos pesquisadores: no YouTube, os usuários que interagem com os canais da direita não interagem com os demais canais, e estão isolados em seu nicho político; já aqueles que comentam nos canais de YouTube de esquerda frequentam também os da grande imprensa. “Nos Estados Unidos a gente vê esse comportamento em todas as plataformas”, disse o pesquisador. “No Brasil já fizemos bastante pesquisa e só deu isso para o YouTube. No Facebook e no Twitter temos uma estrutura em três partes, com a esquerda de um lado, a direita do outro e a imprensa organizando o debate.”

 

A assimetria entre direita e esquerda no YouTube, constatada nas pesquisas da USP e UFMG, se reflete também na presença dos parlamentares na plataforma. Dos cinquenta congressistas listados no levantamento da DAPP/FGV, apenas catorze são filiados a partidos de oposição (PT, PSOL, PCdoB, PDT e Rede). Os políticos desse grupo responderam, em 2019, por 14% do número médio de visualizações dos canais incluídos no levantamento. Dos dez canais de parlamentares de maior audiência média, só dois são de esquerda – os de Paulo Pimenta e Gleisi Hoffmann, ambos do PT, situados em oitavo e nono lugares.

Pimenta, líder do partido na Câmara, reconhece que seu campo está perdendo essa batalha. “A esquerda está engatinhando”, disse ele numa entrevista em Brasília, em novembro. “A direita entendeu mais cedo a possibilidade de uso dessas ferramentas para disseminar suas ideias e opiniões.” Não que ele próprio descuide das redes sociais. O político gaúcho tinha presença forte no extinto Orkut, a primeira experiência do Google com redes sociais, popular na primeira década deste século, e chegou cedo no Twitter, onde seu nome de usuário é @DeputadoFederal.

No YouTube, Pimenta estreou em 2009, mas por muito tempo seu canal funcionou mais como um arquivo dos vídeos feitos para outras plataformas. Sua equipe passou a produzir material próprio para o canal em maio do ano passado, após perceber que o público do Facebook estava estagnado. O deputado de 54 anos acessou as estatísticas de acesso do canal para mostrar que a audiência dos vídeos – que era de 14 mil visualizações em abril – saltara para mais de 200 mil em novembro.

A relação com as redes sociais tende a ser mais natural para políticos jovens, como a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que tem 30 anos. Numa entrevista em seu gabinete, ela contou que começou seu engajamento político nas plataformas digitais e não precisa se esforçar para pensar em estratégias para as redes sociais. “Não basta só saber como funciona, é preciso entender a linguagem, o público-alvo, como as coisas proliferam”, disse.

O canal da deputada no YouTube funciona como um grande repositório para os vídeos feitos por sua equipe. Dentre os vídeos mais populares, estão os que registram enfrentamentos que ela teve com três ministros de Bolsonaro – Sergio Moro, Ernesto Araújo e Ricardo Salles – em comissões do Congresso. “Faço vídeos sobre meio ambiente, mas não tem jeito, o do Salles vai fazer mais sucesso.”

Na avaliação de Bomfim, a direita é mais forte nas redes sociais porque soube se articular durante os treze anos de governo do PT, quando a esquerda era o establishment. “A direita conseguiu ocupar esse espaço da contestação, do antissistêmico, usando ferramentas alternativas para se contrapor ao discurso hegemônico.”

 

A socióloga Jen Schradie, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, investigou os fatores por trás da assimetria entre direita e esquerda nas redes sociais. Suas conclusões estão no livro The Revolution That Wasn’t: How Digital Activism Favors Conservatives (A revolução que não houve: como o ativismo digital favorece os conservadores), publicado no ano passado e ainda inédito no Brasil. Schradie estudou o “gap de ativismo digital”, conforme chamou o fenômeno, no contexto norte-americano, a partir do estudo de grupos políticos da Carolina do Norte e o uso que faziam das redes antes das eleições de 2016.

A autora atribui a discrepância entre direita e esquerda à superposição de alguns fatores. Em primeiro lugar, os conservadores saíram em vantagem por terem mais recursos, mais acesso à rede, melhor capacitação e mais tempo para o ativismo. Schradie afirma também que os grupos mais eficientes na internet são aqueles com melhor infraestrutura, com hierarquia vertical e divisão de trabalho claras – perfil distinto do que predomina nas organizações de esquerda, mais horizontais e participativas. Sustenta, por fim, que a direita se beneficiou da coesão do grupo em torno da defesa da liberdade de expressão e do combate à mídia tradicional, pela qual não se sente mais representada.

Schradie nota que, em vez de criar um campo de debate com igualdade de condições para todos, conforme sonhavam os primeiros entusiastas da internet, a rede está reproduzindo desigualdades do mundo offline, criando uma discrepância crescente entre os grupos políticos e beneficiando alguns deles de forma não prevista. Se o gap do ativismo digital continuar a aumentar, afirma a socióloga, um dia apenas alguns cidadãos poderão ser ouvidos. “Seria não só exterminar o sonho de que a tecnologia pode ser uma força para o progresso; seria extinguir a possibilidade de uma sociedade verdadeiramente democrática.”

Refletindo sobre o gap de ativismo digital no Brasil, o sociólogo Marco Aurélio Ruediger, diretor da DAPP/FGV, disse que as redes sociais deram a indivíduos conservadores a oportunidade de se conectar com seus pares, forjar sua identidade e ressignificar seu lugar no mundo. “O sujeito em casa com o computador ligado não está mais só”, afirmou. “Sua visão de mundo não é mais completamente fora da curva, e ele começa a sentir que existe uma base de concordância com suas visões, por mais estapafúrdias que possam ser.” Para Ruediger, na assimetria dos campos políticos nas redes sociais o grande perdedor é o centro, que corre atrás da direita dominante, mas também da esquerda.

Kim Kataguiri, o fundador do MBL que se elegeu deputado federal, apontou outro fator que poderia explicar o fenômeno. Para ele, a força da direita nas redes sociais deriva também da maior liberdade que ela tem para usar o humor. “Os caras de direita têm um discurso mais politicamente incorreto, têm menos travas e medo de ofender”, disse Kataguiri. “Essa visão de mundo permite que eles utilizem o humor de forma mais efetiva, e a internet é um ambiente em que o humor, sobretudo de forma ácida, gera engajamento e visibilidade.”

O ator e escritor Gregorio Duvivier, um dos criadores do Porta dos Fundos, um dos canais de humor do YouTube de maior sucesso, também considera que a ascensão da extrema direita no Brasil está ligada à arte de fazer rir. “As pessoas desprezam a função do humor no Bolsonaro, mas ele é um cara totalmente da palhaçada”, afirmou numa entrevista em novembro. Para ele, os apoiadores do presidente toleram seus absurdos e grosserias porque o leem na chave do humor. “E aí a esquerda fica com o papel ingrato e pouco carismático de censora, de professor que diz que aquilo não tem graça. E, no debate no Brasil, quem diz que não pode brincar com alguma coisa já perdeu.”

Duvivier enxerga o YouTube como uma arena que acolhe canais tão diversos como o de uma filósofa trans, que ele andava assistindo ultimamente. Também discorda que a plataforma esteja radicalizando o debate político. “O YouTube tem uma pluralidade muito maior que a de canais tradicionais de comunicação”, afirmou. “Um sujeito que só vê GloboNews, por exemplo, tende a ter uma opinião bastante específica e eu diria até radical, em certo sentido.”

 

Em outubro deste ano, os brasileiros irão às urnas escolher prefeitos e vereadores, e mais uma vez estará em pauta o papel das redes sociais no processo eleitoral. Como é também o ano da eleição presidencial nos Estados Unidos, as grandes redes sociais estão mudando suas diretrizes. Em setembro do ano passado, o Facebook anunciou, numa decisão muito criticada, que dispensaria de checagem o conteúdo dos anúncios que políticos e partidos pagam para serem exibidos aos usuários da rede. Já o Twitter decidiu, em outubro, que simplesmente não aceitaria mais propaganda política. O Google, por sua vez, determinou em novembro que quem quisesse contratar propaganda política nos Estados Unidos (incluindo para o YouTube) não poderia mais direcionar a publicação para usuários filtrados por preferência ideológica. Ainda não há previsão de implantação de medida parecida no Brasil.

Em dezembro, os deputados brasileiros decidiram aumentar o valor do fundo eleitoral para 2 bilhões de reais, a serem divididos entre as siglas para o financiamento das campanhas. Para a pesquisadora Yasodara Córdova, a distribuição do fundo eleitoral pode desequilibrar a disputa nas plataformas digitais. “Os partidos que tiverem mais dinheiro vão gastar muito com robôs no Twitter, automatização de mensagens, impulsionamento de conteúdo.” Com esses reforços digitais, as publicações dos partidos com mais recursos atingiriam um público maior, criando uma assimetria no front digital.

A proliferação das notícias falsas na campanha de 2018 motivou mudanças na legislação eleitoral para fazer frente ao impacto crescente das redes sociais na política. No ano passado, o Código Eleitoral foi alterado para incluir penas de dois a oito anos de prisão para quem espalhar notícias falsas sobre um político com a finalidade de prejudicar sua campanha. Em dezembro de 2019, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou uma resolução que responsabiliza partidos e candidatos pela divulgação de fake news. A medida determina que eles chequem a veracidade das informações repassadas e assegura direito de resposta aos prejudicados.

A ideia de algum tipo de controle sobre o que pode ser publicado nas redes sociais é vista com horror por certos criadores de conteúdo para o YouTube. “Qualquer tipo de cerceamento da liberdade completa de expressão é autoritarismo”, disse Arthur do Val, o Mamãe Falei. Ele acha que a proibição poderia ter o efeito inverso: estimular o pensamento radical. “Se disserem que é proibido falar de nazismo, alguém vai achar um símbolo de masculinidade falar disso. A pessoa é livre para falar o que quiser, inclusive as coisas mais abjetas – isso faz com que os outros espontaneamente se afastem dela.”

Já para o sociólogo Marco Aurélio Ruediger, o argumento da não intervenção para não ferir a liberdade de expressão é um sofisma. O pesquisador disse que as empresas que controlam as redes sociais não estão só entregando um bem ou produto, mas possibilitando a construção de redes de articulação política, e deveriam ser cobradas por isso. “Seria muito importante discutir a responsabilização das plataformas.”

Ruediger afirmou também que o TSE deveria ser capaz de rastrear a movimentação dos recursos de campanha usados nas redes sociais, da contratação do serviço até a publicação da mensagem. “Se não houver um mínimo de regulação e transparência, você pode ter a situação absurda de o Tesouro pagar desinformação contra a democracia dentro do processo eleitoral.” Para o pesquisador da FGV, o sistema eleitoral brasileiro está extremamente vulnerável e deveria se adequar à nova realidade. “A eleição passada não é um ponto fora da curva, é a nova curva”, afirmou. “Temos que ter um Estado fluido que incorpore rapidamente medidas contra a distorção da política.”

A principal preocupação do YouTube para as eleições de 2020 no Brasil é acompanhar e entender eventuais alterações da lei eleitoral e se preparar para cumpri-las. A plataforma não trata de forma diferenciada os vídeos políticos e o resto do conteúdo. Seus esforços estão voltados para fazer valer as diretrizes da comunidade – que vedam assédio, bullying, intimidação, conteúdo explícito ou violento e incitação ao ódio, entre outros comportamentos. “Não é o papel do YouTube delimitar o que é ou não liberdade de expressão”, afirmou Cauã Taborda. “As discussões acontecem na praça pública, e o que pode ou não ser dito depende do acordo que a praça tem com a sociedade.”

 

Nem sempre o YouTube se esforça, porém, para fazer com que seus usuários cumpram os termos de uso. A começar pela idade mínima para acessar a plataforma: no Brasil, ela é projetada para usuários acima de 18 anos, algo que pode causar surpresa em muitos (a informação está nas letras miúdas dos termos de serviço da plataforma). No entanto, os canais voltados para o público infantil são abundantes, e muitas das crianças com acesso à internet passam uma parte considerável de seu tempo vendo vídeos no YouTube.

Um estudo de 2017 do grupo de Virgilio Almeida, da UFMG, mostrou que as crianças são a maior parte do público de canais infantis do YouTube no Brasil, nos Estados Unidos e no Reino Unido. A constatação pode parecer óbvia, mas foi a primeira vez que isso foi demonstrado – no recorte demográfico das estatísticas de audiência da plataforma, essa parcela do público desaparece, já que não deveria estar lá. “As crianças estão no YouTube, elas adulteram a idade para entrar e comentar”, disse Pedro Hartung, advogado especializado em direitos das crianças que trabalha para o Instituto Alana e foi coautor do trabalho.

Os pesquisadores investigaram uma base de dados de quase 13 mil vídeos infantis. Para entender quem era seu público, usaram um software de reconhecimento de rosto para identificar a idade, o gênero e a raça das fotos do perfil dos usuários que deixaram comentários nos vídeos. Descobriu-se que, nos canais brasileiros analisados, 55% do público tinha idade até 13 anos, e 75% até 18 anos – três quartos dos usuários, portanto, não deveriam estar comentando aqueles vídeos.

Em setembro de 2019, a FTC, agência norte-americana de proteção dos direitos do consumidor dos Estados Unidos, multou o Google em 170 milhões de dólares, ou cerca de 700 milhões de reais, por estar usando dados coletados de usuários infantis, infringindo a lei norte-americana que protege a privacidade das crianças na internet. Como parte do acordo estabelecido ali, a empresa anunciou em novembro passado que, a partir de janeiro deste ano, os criadores deverão sinalizar os vídeos voltados para o público infantil, e que os dados referentes a esses vídeos deixariam de ser coletados e usados para direcionamento de publicidade – o acordo tem abrangência mundial.

Quando confrontado com a questão da idade dos usuários do YouTube, Cauã Taborda disse que existe desde 2015 uma plataforma exclusiva para o público infantil. “Recomendamos para os pais que seus filhos usem sempre o YouTube Kids, onde certificamos que o conteúdo é apropriado para aquela idade”, afirmou. “Se os pais tivessem prestado atenção nos termos de uso, saberiam que o YouTube não é para menores de 18 anos, e por isso talvez não fosse bom deixar o filho usar sozinho.” Questionado sobre se não seria o caso de dar mais visibilidade à restrição de idade da plataforma, ele respondeu que a empresa passará a fazer isso a partir de janeiro de 2020, no âmbito do acordo global firmado com a FTC. “Vai haver um banner insistente para levar quem está assistindo aos vídeos infantis para o YouTube Kids”, afirmou.

Para Pedro Hartung, a mudança de atitude do Google representa um avanço, “mas ainda não elimina as discussões sobre a presença das crianças nesses canais e de sua exposição a conteúdos inadequados”. O advogado se preocupa também com os efeitos que o algoritmo do YouTube pode ter sobre o desenvolvimento infantil. Ele teme que, com sua atenção guiada por recomendações que privilegiam aquilo que elas supostamente desejariam ver, as crianças não seriam expostas à pluralidade de visões de que precisam para sua formação. “A criança precisa da diversidade de olhares, de contatos e de informações para entender a complexidade do mundo, que não é feito apenas de uma visão ou de outra”, afirmou. Hartung falava do público infantil, mas o argumento não perderia a validade caso se referisse aos eleitores.

 

No começo de dezembro, Arthur do Val protagonizou um dos maiores barracos da história recente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O deputado discursava na tribuna durante sessão que debatia a reforma da Previdência Estadual quando provocou os sindicalistas que acompanhavam a plenária. “Cadê os líderes sindicais? Levanta a mão quem é machão”, gritou com a voz rouca e exaltada. “Tá com medo? Eu quero ver me encarar, ô líder sindical. Eu quero pegar você que toma o dinheiro dos trabalhadores. Bando de vagabundo!” O parlamentar repetiu o xingamento antes de abrir os braços e estampar uma expressão irônica no rosto: “Ah, ficou ofendidinho?”, perguntou, enquanto a tribuna era invadida por quatro deputados do PT e a confusão se instalava no plenário. Val cerrou os punhos e chamou os adversários para a briga, mas os ânimos foram contidos antes que houvesse troca de socos.

O deputado ofereceu sua versão sobre o episódio num vídeo para o YouTube que abre com uma cena filmada de seu celular, em que os manifestantes na galeria gritam para ele em coro: “Vai morrer, vai morrer!” Val gravou o vídeo da cozinha da Alesp, onde disse que precisou se esconder. “Tem um monte de sindicalista lá fora querendo me matar”, afirmou, antes de explicar a escalada de tensão que levou à briga daquela noite.

A confusão pode render ao deputado um processo no Conselho de Ética da Alesp – ele já havia sido advertido uma vez quando xingou colegas de “vagabundos” durante uma plenária em junho de 2019. Mas assegurou uma nova polêmica para alimentar seu canal e manteve seu nome no noticiário na corrida para a prefeitura. O vídeo gravado na cozinha foi visualizado 837 mil vezes, mas em meados de dezembro estava sendo exibido sem anúncios – portanto, não estava rendendo dinheiro ao youtuber ou à plataforma.

Val me disse em novembro não saber ainda para qual sigla iria. Descartou o Novo, a Aliança pelo Brasil e o PSL, que ainda carrega o ranço de ter sido o partido do presidente. “Não quero nem passar perto do risco de ter minha imagem associada a Jair Bolsonaro.” Sintonizado com o mea-culpa do MBL, o deputado disse que pretende promover em seu canal “a espetacularização do bom debate, chamando diferentes polos para conversar e mostrando que estamos propensos ao diálogo e somos propositivos”. Enquanto ele falava, Renan Santos, coordenador do MBL, estava numa sala anexa ao gabinete redigindo a nota que Val divulgaria à imprensa sobre a sua expulsão. Quando lhe perguntei sobre como se afastar da espetacularização da política, Santos respondeu: “A política vai continuar sendo espetáculo. Mas há outras fórmulas narrativas capazes de atrair as pessoas. Há caminhos alternativos à polarização que dão espetáculo e views. O maior problema é a desumanização do adversário.”

Horas após a confusão da Alesp provocada por Val, o MBL pôs à venda em seu site, por 39,90 reais, uma camiseta em que o parlamentar aparece em posição de briga, com a legenda “Ficou ofendidinho?”. Dois dias depois do barraco, a peça figurava entre os itens mais vendidos no site do movimento.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial

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