chegada

O amigo norte-coreano

Breve encontro com um formando da primeira turma de português de Pyongyang

Juliana Cunha
“Se for atacar primeiro, atire sem piedade”, diz o soldado que explode a Casa Branca
“Se for atacar primeiro, atire sem piedade”, diz o soldado que explode a Casa Branca

“Se nos atacarem, faremos uma aniquilação impiedosa”, disse ele com naturalidade, apontando a lanterna para um cartão-postal que mostrava uma mão vermelha espatifando a Casa Branca.

“O quê?”, perguntei.

“Se os imperialistas atacarem a Coreia, revidaremos sem piedade. É isso que está escrito no cartão-postal.”

O diálogo acima se deu na Korea Stamp, uma lojinha de selos e pôsteres revolucionários de Pyongyang. Tinha acabado de faltar luz, como sempre acontece na cidade: no meio do espetáculo de circo, no museu, na baladinha que os diplomatas improvisam no sábado à noite. Nas casas dos cidadãos comuns o breu reina três dias por semana, uma das consequências das sanções impostas ao país por causa de seu programa nuclear.



Meu interlocutor era um norte-coreano chamado Che, forma simplificada de um complicado nome coreano que ele usa no trato com ocidentais. Che tem 27 anos e acaba de se graduar em português pela Universidade das Línguas Estrangeiras, um curso de idiomas que dura quatro anos e não inclui linguística nem literatura, além de não aceitar estrangeiros em seu corpo docente ou discente.

A inclusão do português é recente, e Che se formou na primeira turma. Há um mês conseguiu trabalho como segundo tradutor na Embaixada do Brasil em Pyongyang. Antes disso, rebocava paredes. Nunca deixou a cidade. Tudo que ele conhece é a capital mais misteriosa do mundo. Conduzir meu pequeno grupo de quatro turistas era seu primeiro contato com estrangeiros, fora os três brasileiros com os quais lida diariamente na embaixada.

Sair da classe dos trabalhadores para a dos intelectuais não é tarefa fácil. Como em qualquer sociedade, os que estão no topo arranjam formas de garantir que seus filhos desfrutem das mesmas regalias. Em Pyongyang há escolas exclusivas da elite, que desse modo sai na frente na disputa por uma vaga na universidade. A entrada é definida pelas notas do ginásio e por uma prova de admissão. Quem não consegue passar tem duas opções: se contentar com um emprego de operário ou enfrentar dois anos de serviço militar. Ex-soldados ganham 50% dos pontos necessários para entrar na faculdade. Che conseguiu continuar os estudos sem o pit-stop militar, mas teve que trabalhar durante a graduação. É o primeiro intelectual da família. Seus professores aprenderam o idioma em países da África.

O português entrou no currículo da universidade devido ao ganho de importância do Brasil e também pelo estreitamento das relações entre os dois países. Desde 2009 o Brasil tem uma missão na capital norte-coreana. Até então, Cuba era o único país da América representado lá. A embaixada tem uma sede de três andares que inclui a residência do embaixador e um gerador próprio para que ninguém morra de frio no inverno de 18 graus negativos. O horário de atendimento ao público, das 9h30 às 12h, é uma formalidade: cerca de vinte brasileiros estiveram em Pyongyang em 2012. A Coreia do Norte recebe menos de 3 mil turistas ocidentais* por ano, a maioria em busca de um fim de semana excêntrico.

Apesar de trabalhar na embaixada, Che é funcionário do governo, como são todos os seus compatriotas. Para conseguir um cozinheiro, tradutor ou motorista norte-coreano, as embaixadas recorrem ao “Escritório”, um cadastro nacional de mão de obra. Incomodadas com a ideia de ter gente do governo em suas sedes, missões como a da Rússia se recusam a empregar locais.

 

Che me levou ao balé de Pyongyang, no qual dançarinos se vestem de soldados enquanto os militares da plateia aplaudem efusivamente. O espetáculo falava sobre a libertação do país dos japoneses, que ocuparam a península coreana (ainda unificada) de 1910 a 1945. Em uma das cenas, Kim Jong Suk, heroína nacional, aparecia na frente de um telão com um pôr do sol daqueles de PowerPoints enviados por e-mail. Por cinco minutos, ela ergueu as mãos amarradas com cordas para o alto, até conseguir romper os grilhões que prendiam os coreanos aos imperialistas japoneses. Perguntei a Che: “Não seria muito engraçado se a luz acabasse justamente nessa cena?” Ele encarou o horizonte e o futuro grandioso da República Popular Democrática da Coreia do modo como sempre fazia quando o comentário passava dos limites.

Fomos a um McDonald’s fake (usa as cores, mas não o símbolo do original), a zilhões de monumentos, a hotéis em que ele nunca havia entrado, a parquinhos com brinquedos antiamericanos e a montanhas-russas de dois loopings (quem tem coragem de andar de montanha-russa quando falta luz até no aeroporto?). O ponto alto da viagem foi a ida a um boliche. A cara dos outros jogadores ao ver um norte-coreano interagindo amigavelmente com garotas ocidentais era de profundo desgosto.

Pyongyang é um parque temático montado para Kim Il Sung e Kim Jong Il, que governaram o país antes de deixá-lo como herança familiar ao atual presidente, Kim Jong Un. A toda hora, Che precisava citar o nome de um dos Kim, para explicar um quadro no museu ou a origem das flores que enfeitavam um restaurante. Nunca conseguiu fazer isso sem complementar com ao menos três elogios. “Esse é um pote de creme Nivea que o Generalíssimo Grande Líder deu de presente aos trabalhadores de uma fábrica, que estavam com as mãos machucadas.”

Passei meia hora tentando explicar para Che o conceito de rede social. Em cinco minutos, ele me explicou a Ideia Juche, uma espécie de marxismo-leninismo suficientemente moldado para justificar a existência de uma dinastia comunista. Che é uma versão socialista do Quim Recadeiro, personagem de Guimarães Rosa que dá mais valor ao patrão do que à própria vida.

Nossa despedida foi um tanto melancólica. Em minha introdução às redes sociais, esqueci de lhe dizer qual era sua função básica: cristalizar em nossas vidas pessoas que já não faziam parte dela. Um jeitinho de não ter que lidar com coisas tão definitivas quanto um adeus. Che não tem acesso a e-mails, desconhece o Google, tem um celular que não faz chamadas internacionais, não tem autorização para enviar cartas pessoais ao exterior. Fazer amizade com turistas e perdê-la no caminho para o aeroporto é um rito de passagem comum a todo norte-coreano que lida com estrangeiros, e a estrangeiros que têm a brilhante ideia de se envolver com norte-coreanos.

* Correção em relação à versão impressa

Juliana Cunha

Juliana Cunha é repórter, tradutora e autora dos livros Gaveta de Bolso, da Prólogo, e Já Matei por Menos, da Lote 42.

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