tempos da peste

O ano da luta

A difícil batalha dos alunos pobres para conseguir estudar durante a pandemia

Tiago Coelho
Pâmella Campos, 16 anos, na tarefa de todos os dias: “Qual era o jeito que o governo esperava que a gente desse agora? O jeitinho que nos pediram para dar, a gente já dá desde que nasce”
Pâmella Campos, 16 anos, na tarefa de todos os dias: “Qual era o jeito que o governo esperava que a gente desse agora? O jeitinho que nos pediram para dar, a gente já dá desde que nasce” CREDITO: LINA CARLA MENEZES_2020

No início do ano letivo de 2019, o professor de sociologia e filosofia Wallace da Silva Camargo resolveu fazer uma enquete entre seus alunos do Centro Integrado de Educação Pública Clementina de Jesus. Perguntou a eles se pretendiam prestar vestibular e entrar numa universidade. Apenas metade da turma ergueu a mão, indicando que sim. O professor então sugeriu a todos um curso pré-vestibular gratuito numa igreja evangélica perto da escola, no bairro Pantanal, região pobre do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Pâmella Menezes Santos de Campos, na época com 16 anos, foi uma das alunas que levantou a mão com entusiasmo e fez sua matrícula no curso pré-vestibular. Ao entrar em contato com os conteúdos preparatórios para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ela percebeu que teria chances de ser admitida numa boa universidade. “Ela descobriu sua potencialidade no cursinho e passou a acreditar em si mesma”, disse Camargo, que também dá aulas no pré-vestibular, uma iniciativa de professores voluntários. “A região onde moro é carente, mas você sempre encontra movimentos sociais criados por gente lá de dentro que nos ajudam bastante”, contou a jovem.

Estudar em uma universidade sempre esteve nos planos de Campos, que mora na Vila Santo Antônio, uma comunidade vizinha ao Pantanal, com o pai, a mãe e o irmão de 7 anos. Desde menina ela quer ser advogada. “Vou poder defender pessoas como eu, pobres, negros, da periferia”, disse. Sua geração tem uma vantagem sobre a de sua mãe, a dona de casa Lina Carla Menezes, de 42 anos, pois conta com o lastro de duas décadas de políticas de inclusão de negros na universidade. “Na minha época, fazer faculdade era bem mais difícil, pois não tinha política de cotas”, afirmou Menezes. “Além disso, fui criada sem pai e tive que ajudar minha mãe.”

Em 2019, Campos seguiu o curso pré-vestibular sem grande ansiedade, esperando completar 17 anos e terminar o ensino médio, neste ano. Mas, quando chegou março, tudo desandou. Com a pandemia se espalhando pelo país, a escola foi fechada e o curso pré-vestibular também.



Os professores do cursinho decidiram que era importante manter vínculo com os alunos e criaram um grupo no WhatsApp para transmitir conteúdos em texto, áudio e vídeo. “Os arquivos em áudio são mais leves, o que facilita para os alunos com conexão ruim de internet ou poucos dados para usar no celular”, explicou Camargo. Já a escola pública onde Campos estudava adotou o ensino remoto por meio da plataforma Google Class.

Para a estudante, porém, a situação era mais complicada. Seu pai, Pablo Vinícius de Campos, 41 anos, único provedor da família, é pedreiro. Antes da pandemia, ganhava entre 2 mil e 2,5 mil reais, conforme aparecessem trabalhos. Nos primeiros meses da quarentena, não encontrou nenhum, e a família teve que cortar despesas, entre elas, a assinatura de internet. Quando o auxílio emergencial do governo federal foi liberado, em meados de abril, tanto o pai quanto a mãe conseguiram o benefício, que passou a ser a principal renda da família. Mesmo assim, a contratação de internet continuou inviável. “Não passamos necessidade, mas tudo ficou mais difícil. Não aparecia serviço para o meu pai”, disse Campos.

A saída para a estudante foi recorrer ao único ponto de wi-fi de que dispunha: na casa de um primo, que fica no mesmo terreno onde ela mora, dividido entre cinco residências. Com o único aparelho eletrônico que tem, um celular, Campos passou a ir todos os dias para perto da casa do primo baixar os vídeos, áudios e textos enviados pelos professores. Outros moradores também se aproximavam para aproveitar aquele ponto de internet. A conexão wi-fi, que já não era das mais estáveis, ia então ficando cada vez mais lenta, mais lenta, até cair.

“Eu passava a tarde inteira sentada na cadeira, do lado de fora, sem uma mesa. Aproveitava para fazer o máximo de coisas que podia. Ficava muito estressada”, contou a estudante. Da janela, a mãe observava as dificuldades enfrentadas por Campos. “Ela ficava desanimada por causa da internet, do desconforto. E tinha dias que fazia muito calor ou frio.” No fim da tarde, a estudante recolhia a cadeira, os cadernos e livros e voltava para casa. Sempre ouvia da mãe um “vai dar tudo certo” esperançoso.

Lina Menezes, a mãe de Campos, terminou o ensino médio, fez curso técnico de enfermagem e hoje é aluna da Escola de Formação de Professores. “Desde pequena, sempre estimulei a autoestima da Pâmella. Eu dizia: ‘Você é linda, seu cabelo é lindo, sua cor é linda e você vai ser o que você quiser, porque é inteligente e pode escolher qualquer faculdade que vai conseguir’”, contou Menezes. “Nós, que somos negros, pobres e moramos em comunidade, precisamos incentivar nossos filhos. O mundo fora da nossa casa não incentiva.” Quando estava no sexto ano do ensino fundamental, a menina ficou seis meses sem aula de matemática. Previdente, Menezes conseguiu que uma amiga ensinasse a disciplina para a filha. “Minha mãe sempre foi muito presente nos estudos. Meu pai é muito inteligente também, bom com cálculos, e me ajudava quando não estava trabalhando”, disse a jovem. O pai de Campos parou de estudar no segundo ano do ensino médio.

 

Depois de fazer o download do material enviado pelos professores do curso pré-vestibular e do Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) Clementina de Jesus, Campos lia tudo na tela diminuta do aparelho celular, que também depende do wi-fi, pois ela não tem um plano de dados de internet. No início de maio, a estudante desabafou no Twitter, onde escreve sobre seu cotidiano: “Eu queria muito ter wi-fi em casa, um notebook e uma impressora para estudar direito, mas vamos fazer o quê? Se virar do jeito que dá.” Somente no início de agosto, seu pai voltou a conseguir trabalho, e a família pôde assinar um pacote barato de internet.

As dificuldades de Campos ao longo de quatro meses foram as mesmas de seus colegas tanto do Ciep Clementina de Jesus quanto do curso pré-vestibular. “Alguns deles são de famílias que compartilham um único celular sem dados ou com dados limitados de internet”, disse Camargo. “Moram em locais onde não têm espaço físico adequado. Nos lugares mais pobres, as casas são pequenas e aglomeradas, o que gera muito ruído externo. É comum que os alunos tenham que dividir um mesmo cômodo com várias pessoas.”

Alguns professores do pré-vestibular faziam transmissões ao vivo, nas quais os alunos podiam interagir. Na escola pública, porém, poucos professores chegaram a dar aulas desse tipo. A maior parte deles preferiu gravar as aulas em vídeo e colocar na plataforma, junto com outros materiais didáticos como textos, exercícios e provas. “Cada professor usou uma dinâmica diferente. Uns colocaram vídeos gravados, e o aluno mandava depois suas dúvidas. Outros colocaram textos e exercícios, e o aluno respondia e colocava de volta na plataforma para ser avaliado. Eu prefiro quando dá para interagir e esclarecer a dúvida na hora. Além disso, as aulas interativas são mais humanas”, afirmou a estudante.

Campos ressaltou que, independentemente da metodologia escolhida, todos os seus professores demonstraram interesse em responder dúvidas e acompanhar o aprendizado. “Eles fazem milagre com poucos recursos. Alguns não sabem usar a plataforma muito bem e têm muitas turmas. Tenho professor que tem mais de cinco turmas. Fica difícil para eles dar aulas interativas o tempo todo. Mas estão sempre à disposição quando a gente manda dúvidas por WhatsApp. São compreensivos quando a gente não consegue entregar todos os exercícios. Estão sendo muito importantes nesse momento.”

Na rede pública estadual, alguns professores têm, como os alunos, dificuldades com a internet, seja por falta de recursos, seja por causa da idade. “Eu tenho 50 anos e não tenho tanta facilidade com os recursos eletrônicos”, disse o professor Camargo. “Vou aprendendo com os alunos. Conheço dois colegas que nem usavam telefone celular. É tudo novo para muitos deles. Mas há interesse do corpo docente em aprender e se superar.”

Além de trabalhar na rede pública e no pré-vestibular, Camargo leciona em escola privada, onde tem dado aulas ao vivo pela internet e usado uma plataforma que dispõe de uma série de ferramentas interativas. Ele explicou que as dificuldades com a internet levam os alunos a se afastarem dos professores, mas também uns dos outros. “Na rede privada, é possível, por exemplo, substituir as provas individuais por trabalhos em grupo. Com isso, os alunos conseguem se reunir online e manter certa convivência, que é tão importante para a socialização nessa idade.”

Para o professor, que leciona há quinze anos no ensino público, uma das principais lições dessa pandemia é que “nada, absolutamente nada” substitui o ensino presencial. “Para engajar um aluno é necessário a convivência. O olho no olho. Conversar sobre as rotinas deles, sobre o racismo, o desemprego, as dificuldades que enfrentam. Se já é difícil despertar o interesse presencialmente, é ainda pior no ensino remoto.” Apesar disso, ele não tem dúvida de que fazer as aulas remotas deve ser o principal objetivo no momento. “Sem elas seria pior. Um dos maiores problemas da escola pública é a desistência dos alunos. A plataforma impede que a gente perca muitos desses jovens.”

 

Nos primeiros meses de pandemia, 1,5 bilhão de estudantes em 165 países deixaram de ter aulas nas escolas, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). No Brasil, essa situação imediatamente intensificou a desigualdade educacional. “Os estudantes mais pobres e muitos professores esbarraram na falta de acesso ou no acesso precário à internet e na ausência de aparelhos tecnológicos adequados”, disse Gregório Grisa, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, especialista em dados educacionais e econômicos.

A pesquisa TIC Domicílios 2019, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), mostrou que, no ano passado, cerca de 28% dos lares brasileiros não tinham acesso à internet. Entre os alunos da rede pública, 39% não tinham computador ou tablet em casa, e 21% dos estudantes de escolas públicas urbanas acessavam a internet apenas pelo celular.

Outra pesquisa do Cetic, a TIC Kids Online Brasil, também de 2019, apontou que 75% das crianças das classes A e B usavam computador para acessar a internet – porcentagem que caía para 39% na classe C e para 21% nas classes D e E. “Então, a cada 100 alunos, apenas 20 das classes D e E  acessam a internet pelo computador. Os outros podem até acessar pelo celular, mas, quando se compara com estudar pelo computador, estudar pelo celular é uma grande desvantagem”, disse Grisa. O problema é ainda maior nas áreas rurais, na visão do professor. “Não é comum você morar no interior e ter um celular ou computador que pegue um sinal de internet com qualidade.”

Segundo Grisa, a maioria dos estados e municípios, embora pegos de surpresa pela pandemia, conseguiu desenvolver alguma estratégia para o ensino remoto – aulas por meio de plataformas online, televisão, rádio ou entrega de material impresso. “Alguns estados passaram a utilizar a tevê estatal ou pública para disseminar conteúdo, inclusive com aulas dirigidas ao Enem.” Já na esfera federal, isso não aconteceu. Não houve um projeto de articulação com as secretarias municipais e estaduais para zelar pela educação no período de quarentena. “Também não houve, da parte do governo, pressão para que os recursos aprovados no Congresso para os estados durante a pandemia tivessem vinculação com a educação. O governo federal não fez nem mesmo uma articulação com as teles para garantir acesso à conectividade, o que seria importante para as regiões mais pobres.”

Em julho, uma pesquisa nacional do Datafolha, encomendada por Imaginable Futures, Fundação Lemann e Itaú Social, apontou que 82% dos alunos da rede pública receberam algum tipo de atividade para fazer em casa durante o período de fechamento das escolas. Desse universo, 37% dos alunos tiveram acesso ao conteúdo educacional por equipamentos eletrônicos – rádio, tevê, celular ou computador –, e 44% tanto por esses equipamentos quanto por material impresso. O percentual dos que receberam somente material impresso foi de 1%.

A pesquisa também perguntou aos pais ou responsáveis pelos alunos se estes se mostravam motivados a estudar durante a quarentena – 51% responderam que não. A maioria dos pais (64%) disse que, no período de isolamento em casa, os estudantes tinham manifestações de ansiedade. Outros apontaram sinais de irritação (48%), de tristeza (41%) ou de medo de voltar à escola e ficarem doentes ou contaminarem alguém da família (38%).

Para 67% dos pais, os estudantes estavam encontrando muita dificuldade para manter uma rotina de atividades escolares em casa – contra 33%, que apontaram não haver dificuldade nenhuma. A pesquisa também mostrou que as dificuldades enfrentadas pelas famílias eram o acesso precário à internet (22%), a falta de orientação da escola e de professores (20%), a falta de interesse dos alunos para fazer as atividades (16%), a falta de tempo dos pais para ajudar nas tarefas dos filhos (13%), a quantidade insuficiente de equipamentos, como celular e computador (13%), e a falta de espaço adequado para estudar em casa (6%). Apenas 6% disseram não estar enfrentando dificuldade nenhuma. Aproximadamente 1 em cada 3 dos pais ou responsáveis pelos alunos – ou 31% – disseram temer que seus filhos desistam de voltar à escola por não conseguirem acompanhar as aulas em casa.

 

Desde o início da pandemia, Maria Rebeca Otero Gomes, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil, vem participando de fóruns com gestores públicos. Ela chama a atenção para o fato de as desigualdades educacionais estarem também relacionadas a raça e gênero. “Muitos dos alunos que moram nas áreas mais afetadas pela desigualdade educacional, a periferia urbana e regiões rurais, são afrodescendentes e indígenas. Além disso, observamos que o isolamento social fez aumentar casos de violência física e sexual contra menores. Muitas meninas estão tendo que assumir mais os afazeres da casa, o que tem um efeito no aprendizado.”

Um levantamento feito pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pela Rede de Pesquisa Solidária, com base em dados da pesquisa Pnad-Covid, do IBGE, revelou que, na rede pública, 4,3 milhões de alunos não brancos (pretos, pardos e indígenas) ficaram sem atividade escolar durante a pandemia. Entre os brancos, foram 1,5 milhão de estudantes.

Para Gomes, o impacto do ensino remoto nos estudantes poderá ser observado com mais detalhes quando houver o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), avaliação em larga escala que mede o desempenho dos alunos da rede pública. Mas a coordenadora de educação da Unesco alerta sobre outro problema futuro: a dificuldade que terão as escolas em regiões pobres e remotas, notoriamente mais vulneráveis, para receberem de volta os alunos, conforme as medidas sanitárias. “As escolas vão enfrentar um desafio orçamentário, pois vão precisar de banheiros, bebedouros, produtos de limpeza e espaços que garantam o distanciamento. É todo um desafio de infraestrutura. Tem escolas em São Paulo e no Rio de Janeiro com mais de 2 mil alunos”, disse.

As medidas sanitárias deverão ser um encargo complicado para as escolas públicas, uma vez que se prevê não apenas o uso de máscaras, mas também a redução do número de alunos nas salas, a limpeza constante dos ambientes e a proibição de aglomerações. Em setembro, a maioria das escolas públicas do país ainda não sabia quando voltaria a abrir. Iniciativas parciais de abertura já haviam ocorrido em algumas cidades, como Manaus, Belém e Niterói, voltadas para o ensino médio. No Rio de Janeiro, as escolas privadas foram autorizadas a funcionar a partir de 14 de setembro, mas as estaduais, como a de Campos, só retornariam em 5 de outubro. Já o curso pré-vestibular que a estudante frequenta não vai reabrir para aulas presenciais neste ano.

Gomes disse que, enquanto os alunos não voltam à escola, o desafio é continuar mantendo-os engajados nas atividades a distância. “Se for o caso, ir atrás desses estudantes e entender suas demandas. Mais importante que a preocupação em preservar o currículo e o ano letivo é evitar que eles deixem a escola.”

 

Pâmella Campos costuma acordar às oito da manhã. Ajuda a mãe nas tarefas domésticas e, por volta de 10 horas, começa a estudar. Lê os textos enviados pelos professores, assiste às videoaulas, faz os exercícios da escola e do pré-vestibular e, por fim, resume por escrito tudo que aprendeu no dia. “Só consigo gravar os conteúdos fazendo resumos.” Depois do almoço, ela volta aos estudos, que prosseguem até a hora do jantar. “Vou até o meu limite. Até não aguentar mais e os olhos arderem.” Às vezes, os pais têm que pedir para ela parar.

Houve dias em que Campos avançou além do seu limite e precisou interromper os estudos, mesmo sem querer. Um deles foi quando se sentiu frustrada por não ter compreendido bem uma aula de história sobre a Primavera dos Povos – uma série de levantes ocorridos na Europa contra as monarquias, em meados do século XIX. Dúvidas pululavam em sua cabeça. A sequência complexa dos fatos, que envolve múltiplas causas e vários países europeus, deu um nó na cabeça da estudante. Apesar de história ser sua disciplina favorita, ela empurrou os apontamentos para um canto da mesa, esgotada. “Minha mente estava exausta. Nada entrava na minha cabeça”, contou.

A jovem se jogou no sofá, pegou o celular e trocou mensagens com a amiga Gabriela Santos Souza da Silva, 18 anos, que já concluiu o ensino médio e também frequenta o curso pré-vestibular. “Eu disse a ela que não estava aguentando a pressão. Me angustiava saber que tanto esforço poderia dar em nada. Perguntei se valia a pena continuar estudando. Me bateu uma incerteza, um desânimo. Quando penso que o meu futuro está em minhas mãos, entro em desespero.” A resposta da amiga não demorou: “Vamos continuar tentando. E vamos conseguir.” Campos foi se acalmando pouco a pouco – e voltou ao estudo.

Ela não desistiu, mas muitos de seus colegas, sim. O professor Camargo calcula, com base nas interações na plataforma online, que metade dos alunos evadiu de suas aulas no Ciep Clementina de Jesus desde o início da pandemia. A escola não sabe o número exato, pois a maioria dos alunos não comunica a desistência. “No terceiro ano do ensino médio, a evasão costuma ser menor, pois são alunos mais maduros, que desejam pegar o diploma e seguir para o mundo do trabalho. Mas nos dois primeiros anos a evasão é grande, sobretudo entre os meninos. Muitos começam a trabalhar para ajudar a família”, disse o professor. Perto de eleições, alguns alunos deixam a escola temporariamente para trabalhar entregando panfletos e balançando bandeiras de candidatos políticos. “Vejo isso acontecer todo ano. E nesse ano particularmente difícil não é diferente.”

Numa conversa recente, foi a vez de Gabriela Silva manifestar seu desânimo. A amiga disse a Campos que sua próxima tentativa de entrar numa universidade pública seria também a última. “Ela falou que, se não conseguir, vai procurar um emprego no ano que vem.” Outros amigos de Campos não vão sequer tentar as provas do Enem. “Muitos não seguraram a barra de estudar nas condições que eu estou tendo que estudar”, ela afirmou. “Estão todos cansados. Só uma pessoa num grupo de colegas da escola tem notebook em casa.”

Campos também quer arrumar um emprego no ano que vem, mas sem abandonar os planos de tentar uma vaga no curso de direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Pâmella é muito disciplinada e interessada. Tem uma vontade gigante de vencer”, disse Camargo.

A religiosidade tem sido importante para a estudante atravessar as angústias e inseguranças. Ela e sua família frequentam a Assembleia de Deus, que Campos define como um ambiente acolhedor. “É importante para mim. As pessoas que lideram a igreja estão sempre incentivando a gente a seguir estudando. E também dão suporte espiritual, calma e paz de espírito nesse momento difícil.”

As diretrizes da congregação religiosa, disse a jovem, não entram em conflito com o que ela tem lido ultimamente sobre feminismo e questões raciais. “Na minha igreja, os pensamentos das pessoas são mais libertadores, um caminho muito diferente do conservadorismo e do conformismo que a maioria das igrejas prega. Há um estímulo ao conhecimento e aprendizado.”

Desde que entrou para o pré-vestibular, Campos passou a ler mais livros e discutir sobre os autores com os colegas. Ela tem particular interesse por escritores e pensadores negros. Durante a pandemia, leu Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, A Autobiografia de Malcolm X, coescrito por Alex Haley, e Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, de Djamila Ribeiro. Alguns livros ela conseguiu na internet, outros comprou ou pegou emprestado com amigos. Se já estivesse trabalhando, gostaria de comprar com o primeiro salário os livros Mulheres, Raça e Classe, da filósofa e ativista negra Angela Davis, e Mocambos e Quilombos: Uma História do Campesinato Negro no Brasil, de Flávio dos Santos Gomes.

 

Quando o número de mortos começou a crescer vertiginosamente no país, no início de maio, o Ministério da Educação, então sob o comando de Abraham Weintraub, divulgou um vídeo de propaganda endereçado aos estudantes. Nele, um rapaz branco, sentado a uma mesa de estudos confortável e com vários livros, dizia: “A vida não pode parar. É preciso ir à luta, se reinventar, superar. Dias melhores virão.” Uma outra jovem, também branca, diante de um notebook, completava: “Estude. De qualquer lugar, de diferentes formas, pelos livros, internet, com ajuda a distância dos professores.” Por fim, um rapaz negro e outra jovem branca chamavam os estudantes para fazer a inscrição no Enem, então previsto para o fim deste ano.

O vídeo revoltou muitos estudantes. Nas redes sociais, eles fizeram uma campanha para que o Enem fosse adiado, por causa dos inúmeros problemas enfrentados durante a crise sanitária. Campos foi uma das alunas que ficou indignada com o vídeo. “Me senti do jeito que acho que eles desejavam que pessoas como eu se sintam: desprezadas. Parece que pegaram a gente, pobres, negros, mulheres, e passaram uma borracha. É como se dissessem: ‘Esse lugar não foi feito pra vocês.’ Essa campanha foi a certeza de que, para o governo, a faculdade não foi feita para os pobres”, disse ela. Por causa dos protestos dos estudantes, as provas do Enem foram adiadas para o primeiro bimestre de 2021.

O trecho do vídeo que mais deixou Campos irritada foi aquele em que a jovem dizia para os alunos darem um jeito de estudarem “de qualquer lugar, de diferentes formas”.

“A gente que é pobre sempre deu um jeito”, afirmou. Seu tom de voz, normalmente calmo e gentil, ficou grave e tenso: “A gente dá jeito para estudar quando chove e alaga as salas de aula, quando falta professor por meses e a vaga não é reposta, quando não tem aula porque tem operação policial. A pandemia esgotou todos os recursos que a gente tinha para dar um jeito. Qual era o jeito que o governo esperava que a gente desse agora? O jeitinho que nos pediram para dar, a gente já dá desde que nasce.”

Nos fins de semana, Campos às vezes ouve do pai: “Filha, chega de estudar, vai machucar a vista.” A jovem, então, se dá conta de que está há muito tempo debruçada sobre os livros e que seus olhos estão cansados. Ela fecha os cadernos, encosta o celular num canto e se permite aninhar ao lado do pai, da mãe e do irmão no sofá da sala, para assistir a um filme na tevê. É uma pequena e gostosa trégua neste ano de tanta luta.

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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