questões ambientais

O apocalipse dos insetos

O futuro sinistro de um mundo sem mosquitos nem abelhas

Brooke Jarvis
Cientistas tentaram calcular os benefícios que os insetos produzem. Trilhões deles polinizam cerca de três quartos de nossas colheitas, serviço que chega a valer 500 bilhões de dólares por ano
Cientistas tentaram calcular os benefícios que os insetos produzem. Trilhões deles polinizam cerca de três quartos de nossas colheitas, serviço que chega a valer 500 bilhões de dólares por ano CRÉDITO: MATT DORFMAN_BRIDGEMAN IMAGES

Tradução de Sergio Tellaroli
Consultoria técnica dos professores Osmar Malaspina
Favizia Freitas de Oliveira

Sune Boye Riis andava de bicicleta com o filho caçula, desfrutando do sol que se punha atrás dos campos e bosques perto de sua casa, ao norte de Copenhague, quando de repente se deu conta de que tinha alguma coisa esquisita no ar – ou, mais precisamente, de que não tinha alguma coisa no ar, naquele passeio.

Era verão, e Riis se deslocava depressa pelo caminho. Estranhamente, porém, não estava engolindo nenhum mosquito.

Por um momento, lembrou-se de sua infância na ilha dinamarquesa de Lolland, no mar Báltico. Naquela época, quando andava de bicicleta no verão tinha que manter a boca bem fechada enquanto atravessava densas nuvens de insetos, embora pouco adiantasse: ele sempre engolia alguns. Quando estava no carro com os pais, o para-brisa muitas vezes ficava tão coalhado de insetos mortos que não dava para ver nada do outro lado. Isso tudo, no entanto, parecia distante. Riis já não se lembrava da última vez que precisou lavar o para-brisa do carro para se livrar dos bichos. Chegou a se perguntar se as fábricas não teriam inventado algum tipo novo e sofisticado de película para vidros, à prova de insetos. A ausência deles – Riis percebia agora, um tanto alarmado – parecia circundá-lo também. Para onde tinham ido? Desde quando? E por que ele não havia notado antes?

Enquanto observava o filho, que seguia em disparada pela tarde linda sem engolir nenhum mosquito, Riis viu-se tomado por um pensamento melancólico: à infância do garoto faltaria aquela experiência específica, isto é, a de comer insetos. Era estranho sentir saudade de uma coisa assim, sem dúvida. Mas ele não conseguia se livrar de certo sentimento de perda. “É normal pensar que tudo era melhor quando a gente era criança”, diz. “Talvez eu não gostasse de comer mosquito quando andava de bicicleta, mas, olhando para trás, acho que é uma experiência que todo mundo deveria ter.”

Conheci Riis, um professor magricela de ciências e matemática no ensino médio, num dia quente de junho, no ano passado. Ele estava ansioso porque ainda não tinha escrito o discurso para a cerimônia de formatura, que ocorreria à noite. Precisava fazer algo antes disso. Pegou uma grande rede de caçar insetos na garagem da casa e foi de carro até um cruzamento nas proximidades. Ali, desceu do veículo e prendeu a rede à capota. Feita de tela branca, ela se estendia por toda a extensão do carro; uma estaca a erguia na frente, e a rede se afunilava em direção a uma pequena bolsa removível, atrás. Os motoristas que passavam por ele giravam a cabeça para olhar. Enquanto ajustava a engenhoca, Riis contemplava o carro estacionado, com certo nervosismo. “Isso não está 100% dentro da lei”, disse, “mas, em nome da ciência…”

Não conseguia parar de pensar no desaparecimento dos insetos. Quanto mais pesquisava, mais sua nostalgia se transformava em preocupação. Os insetos são polinizadores e recicladores vitais dos ecossistemas e estão na base das teias alimentares[1] por toda parte. Riis não foi o único a notar seu declínio. Nos Estados Unidos, cientistas descobriram recentemente que a população de borboletas-monarca diminuiu em 90% nos últimos vinte anos, uma perda de 900 milhões de indivíduos; a abelha Bombus affinis, outrora encontrada em 28 estados norte-americanos, teve sua população reduzida em 87% no mesmo período. Em relação a outras espécies de insetos, menos estudadas, um pesquisador de borboletas me disse: “Tudo que podemos fazer é abrir os braços e constatar: ‘Não estão mais aqui!’” E, no entanto, o mais inquietante não era o desaparecimento de certas espécies de insetos, e sim a preocupação, mais grave e que muitos compartilham com Riis, de que todo o mundo dos insetos pode estar pouco a pouco desaparecendo, uma perda que pode afetar o planeta com consequências ainda desconhecidas. “As perdas, nós notamos”, diz David Wagner, entomologista da Universidade de Connecticut, “mas não a diminuição.”

Como os insetos existem em legiões e são difíceis de ver e de rastrear, o receio de que o número deles tenha diminuído muito é antes pressentido que documentado. As pessoas notavam isso perto de canais, em seus quintais e sob a luz dos postes à noite – lugares bem conhecidos, mas que, vazios, se tornaram estranhos. O sentimento se espraiou tanto que os entomologistas lhe deram um nome popular, baseado no modo como as pessoas percebiam que não estavam vendo tantos insetos quanto antes: o fenômeno do para-brisa.

Para comprovar aquilo que, a princípio, era apenas uma suspeita de que havia algo de errado, Riis e mais de duzentos dinamarqueses passaram o mês de junho vagando por estradas do interior em seus carros equipados com redes. Colaboravam com um estudo conduzido pelo Museu de História Natural da Dinamarca, num esforço conjunto com a Universidade de Copenhague, a Universidade de Aarhus, também na Dinamarca, e a Universidade Estadual da Carolina do Norte. As redes fariam as vezes dos para-brisas nas excursões que os voluntários empreenderiam por hábitats diversos – áreas urbanas, florestas, plantações, campos não cultivados e brejos –, na esperança de quantificar a sensação de perplexidade com o fato de, nas palavras de um dos idealizadores do estudo, “faltar no presente algo do passado”.

Quando os pesquisadores começaram a planejar esse estudo, em 2016, não tinham certeza se alguém mais iria querer participar dele. Mas, quando as redes ficaram prontas, um artigo de uma obscura sociedade entomológica alemã já dera considerável ênfase ao problema do declínio dos insetos. O estudo descobrira que, medida simplesmente pelo peso, a abundância geral de insetos voadores nas reservas naturais alemãs tinha decaído 75% em apenas 27 anos. Se examinados os picos populacionais de meados do verão, a queda chegava a 82%.

Riis ficou sabendo desse estudo alemão por intermédio de um trabalho entregue por um grupo de alunos dele. Devem ter citado errado, pensou. Mas não tinham. De acordo com o site da Altmetric, que mede a repercussão de pesquisas científicas diversas, aquele estudo se tornaria rapidamente o sexto artigo científico mais discutido de 2017. Manchetes do mundo todo advertiam para um “apocalipse dos insetos”.

Poucos dias após anunciar seu projeto de coleta, o Museu de História Natural da Dinamarca foi obrigado a recusar dúzias de voluntários ansiosos por colaborar. Ao que parecia, havia gente como Riis por todo lado, pessoas que tinham notado uma mudança, mas não sabiam o que pensar. Como uma coisa tão fundamental como insetos no céu podia simplesmente desaparecer? E o que seria do mundo sem eles?

Qualquer um que já tenha retornado a um local da infância e descoberto que, por algum motivo, tudo parece ter se tornado menor, sabe que lembrar o passado com exatidão não é o forte dos seres humanos. Isso se aplica em particular quando se trata de mudanças no mundo natural. É impossível manter uma perspectiva fixa, como notou Heráclito há 2 500 anos — o rio não é o mesmo, mas tampouco nós somos os mesmos.

Peter H. Kahn e Batya Friedman, num estudo de 1995 sobre o modo como algumas crianças de Houston experimentavam a poluição, resumiu da seguinte forma essa nossa cegueira: “A degradação ambiental aumenta a cada geração, mas cada uma delas entende como norma a degradação que percebe.” A bióloga marinha Loren McClenachan encontrou uma imagem perfeita para esse fenômeno – muitas vezes chamado de “síndrome da mudança de referencial” – ao examinar fotos de pescadores erguendo o produto de sua pescaria em Florida Keys ao longo de décadas. Os peixes foram ficando cada vez menores, a ponto de presas agora premiadas serem suplantadas por peixes que, no passado, eram empilhados e ignorados. Mas os sorrisos nos rostos dos pescadores permaneciam do mesmo tamanho. O mundo jamais sente que decaiu, pois nos acostumamos à queda.

Em certa medida, os insetos são a vida selvagem que conhecemos melhor, os animais não domesticados cujas vidas se entrecruzam mais intimamente com a nossa: aranhas no chuveiro, formigas no piquenique, carrapatos enterrados na pele. Às vezes sentimos que os conhecemos bem demais. Em outro sentido, no entanto, eles são um dos maiores mistérios do planeta, um lembrete do pouco que sabemos sobre o que acontece no mundo à nossa volta.

Já nomeamos e descrevemos 1 milhão de espécies de insetos, um conjunto espantoso de tripes – como lacerdinhas e barbudinhos –, traças, formigas-leão, tricópteros, cigarrinhas e outras famílias enormes de pequenos animais que a maioria de nós é incapaz até de nomear. Aqueles que pensamos conhecer bem, nós não os conhecemos: existem 12 mil tipos de formigas, quase 20 mil variedades de abelhas, cerca de 400 mil espécies de besouros – tantas que o geneticista j. b. s. Haldane teria dito que Deus deve ter uma afeição extraordinária por eles. Um pedacinho de solo fértil, uma pequena faixa de 30 centímetros quadrados com mais 5 centímetros de profundidade, pode facilmente abrigar duzentas espécies de ácaros, cada uma delas, supõe-se, com um trabalho ligeiramente diferente a realizar. E, no entanto, entomologistas estimam que toda essa variedade espantosa, absurda e pouco estudada representa, talvez, apenas 20% da diversidade real de insetos no planeta, e que há milhões e milhões de espécies inteiramente desconhecidas da ciência.

Com toda essa abundância, é muito provável que jamais tenha ocorrido à maioria dos entomologistas do passado que seu farto objeto de estudo poderia algum dia vir a escassear. Enquanto se debruçavam sobre estudos acerca do ciclo de vida e da taxonomia das espécies que os fascinavam, poucos pensaram em medir ou registrar coisa tão aborrecida quanto sua quantidade. Além disso, rastrear quantidade é tarefa lenta, tediosa e desprovida de glamour. Implica montar e verificar armadilhas, esperar anos ou décadas para que os dados comecem a tomar forma e lidar com perguntas básicas e imediatas, abrindo mão de questões mais sofisticadas. E quem pagaria por isso? Boa parte do financiamento para a pesquisa acadêmica é de curto prazo, e, quando se está interessado numa mudança invisível, geracional, afirma Dave Goulson, entomologista da Universidade de Sussex, “um programa de monitoração de três anos não serve para nada”. Isso é especialmente verdadeiro quando se trata de populações de insetos, que são naturalmente variáveis e apresentam amplas e obscuras flutuações de um ano para outro.

Quando os entomologistas se puseram a observar e investigar o declínio no número de insetos, eles lamentaram a inexistência de informação sólida do passado na qual ancorar a experiência presente. “Vemos centenas de certo tipo de inseto e acreditamos que está tudo bem”, diz o entomologista David Wagner. “Mas e se, duas gerações atrás, esse número fosse de 100 mil?” Rob Dunn, ecologista da Universidade Estadual da Carolina do Norte que ajudou a projetar o experimento com as redes na Dinamarca, recentemente saiu em busca de estudos que demonstrassem o efeito da pulverização de pesticidas no número de insetos que viviam nas florestas próximas. Ficou surpreso ao descobrir que tais estudos não existiam. “Nós ignoramos questões realmente básicas”, ele diz. “Acho que pisamos feio na bola, todos nós.”

Se, por um lado, faltavam dados aos entomologistas, por outro, eles dispunham, sim, de pistas muito preocupantes. Além da impressão de que, em seus experimentos ao ar livre, estavam vendo menos insetos em suas próprias vasilhas e redes – uma espécie de fenômeno do para-brisa para aqueles que se valem de vasilhas e redes –, documentos comprovavam o declínio de insetos bem estudados, como vários tipos de abelhas, mariposas, borboletas e besouros. Na Grã-Bretanha, verificou-se que de 30% a 60% das espécies diminuíram em variedade. Tendências mais amplas revelaram-se mais difíceis de constatar, embora um estudo publicado em 2014 na Science tenha tentado quantificar esses declínios sintetizando as descobertas até então apontadas em trabalhos diversos – concluiu-se que a maioria das espécies monitoradas estava decaindo, em média, 45%.

Os entomologistas sabiam também que as mudanças climáticas e a degradação do hábitat global são, de modo geral, péssimas notícias para a biodiversidade, e que os insetos estão enfrentando os desafios específicos acarretados por herbicidas e pesticidas, bem como pelos efeitos que provoca a redução de prados, florestas e até mesmo de áreas ocupadas por ervas daninhas, espaços que lhes foram tomados pela expansão incansável dos humanos. Estudos voltados para outras espécies, mais bem compreendidas, sugeriam, ademais, que os insetos associados a elas podiam estar em declínio também. Pesquisadores que estudam os peixes descobriram que agora eles dispunham de menos efemerópteros para comer. Ornitólogos seguiam descobrindo que os pássaros que comem insetos estavam em dificuldades: oito de cada dez perdizes haviam desaparecido das fazendas francesas, com declínios de 50% e 80% no caso de rouxinóis e rolas, respectivamente. Metade de todos os pássaros que viviam em terras cultiváveis por toda a Europa desapareceu em apenas três décadas. De início, os cientistas imaginaram que isso tudo decorria da já conhecida destruição do hábitat, mas depois começaram a se perguntar se os pássaros não estavam simplesmente morrendo de fome. Na Dinamarca, um ornitólogo chamado Anders Tottrup foi quem teve a ideia de transformar carros em rastreadores de insetos para o estudo sobre o fenômeno do para-brisa, uma ideia que lhe ocorreu depois de ter notado que rolieiros, pequenas corujas, ógeas e abelharucos – todos eles pássaros que se alimentam de grandes insetos, como besouros e libélulas – haviam de súbito desaparecido da paisagem.

Os sinais eram com certeza alarmantes, mas eram apenas sinais. Não justificavam grandes declarações sobre a saúde dos insetos como um todo ou sobre o que estava provocando uma diminuição disseminada de todas as espécies. “Não existem dados quantitativos sobre insetos e, por isso, o que temos é apenas uma hipótese”, explicou-me Hans de Kroon, ecologista da Universidade Radboud, na Holanda – o que não constitui propriamente uma declaração capaz de incitar as pessoas a correr para as barricadas.

Foi então que apareceu o estudo alemão. Os cientistas seguem cautelosos quanto às possíveis implicações de suas descobertas em outras regiões do mundo. Mas esse estudo produziu o tipo de dado longitudinal que eles vinham procurando, e não se limitava a um só tipo de inseto. Os números eram desoladores, indicando um vasto empobrecimento de todo um universo de insetos até mesmo em áreas protegidas, onde eles deveriam estar expostos a estresse menor. A velocidade e a escala do declínio eram chocantes inclusive para os ornitólogos, já angustiados com abelhas e vaga-lumes, ou com para-brisas imaculados.

E os resultados surpreenderam em outro aspecto também. Os detalhes históricos sobre a abundância dos insetos, dados de um tipo que ninguém imaginava que existisse, não haviam sido publicados num periódico de prestígio nem provinham de cientistas vinculados a alguma universidade, e sim de uma pequena sociedade de apaixonados por insetos com sede na modesta cidade alemã de Krefeld.

Krefeld fica a meia hora de carro de Düsseldorf, perto da margem oeste do Reno. É uma cidade de construções de tijolos e jardins cheios de flores, e com um Stadtwald – floresta e parque municipal – onde pedalinhos flutuam num lago, guarda-sóis protegem áreas para piqueniques e (não pude deixar de notar) a luz vespertina que atravessa as árvores ilumina pequenas miríades de insetos dançantes.

Perto do Centro da cidade velha, um pedaço de papel não muito maior que um cartão de visitas identifica o impassível quartel-general da sociedade cuja pesquisa causou tanta comoção. Quando foi fundada, em 1905, ela funcionava em outro prédio, destruído durante um bombardeio inglês na Segunda Guerra Mundial. (No momento em que as bombas caíram, os preciosos registros e as coleções de insetos – algumas datadas da década de 1860 – já haviam sido transferidos para um bunker subterrâneo.) Hoje em dia a sociedade funciona numa velha escola de três andares, que destina 560 metros quadrados de seu espaço para a armazenagem. O visitante que pedir para ver coleções vai ouvir descrições como: “Esta sala é toda dedicada aos lepidópteros”, referindo-se a uma antiga sala de aula repleta do que, de início, pensei serem estantes de livros, mas que na verdade são inúmeras borboletas e mariposas emolduradas em madeira. Ou, no que diz respeito a uma sala ainda maior: “Cada mamangava nesta sala foi obtida antes da Segunda Guerra Mundial, de 1880 a 1930.” E, sobre uma gaveta cheia de abelhas-do-suor, da família Halictidae: “É uma coleção nova, tem só trinta anos.”

Nas estantes que de fato contêm livros, contei 31 volumes claramente muito apreciados da série Besouros da Europa Central. Um livro de 395 páginas que cataloga espécimes de marimbondos-caçadores de aranhas do Paleártico Ocidental – registrando onde haviam sido coletadas e onde estavam armazenadas – trazia na capa: “1948-2008”. Perguntei a meu guia, Martin Sorg, membro da sociedade e um dos principais autores do célebre artigo, se aquelas datas indicavam quando os espécimes tinham sido coletados. “Não”, ele respondeu, “indicam o tempo que o autor precisou para desenvolver esse trabalho.”

Sorg, que enrola seus cigarros, usa óculos ao estilo John Lennon e cujos cabelos grisalhos descem muito além dos ombros, não tem nada de hippie quando se trata do trabalho com os insetos. E é só de seu trabalho que ele realmente quer falar. “Achamos que o que importa são os detalhes sobre o declínio da natureza e da biodiversidade, e não sobre a vida dos entomologistas”, explica, depois de ele e Werner Stenmans – outro membro da sociedade e coautor do artigo de 2017 – terem descartado minhas perguntas sobre o emprego deles. Receoso de atuar como protagonista da reportagem, Sorg não quis falar sobre o que o havia atraído para a entomologia quando criança, nem mesmo sobre o que o seduzia em certos tipos de vespa capazes de levá-lo a dedicar tanto tempo de sua vida a estudá-las. “Em geral, essas histórias a gente conta quando a pessoa morre”, ele diz.

Havia uma razão para essa cautela. Os membros da sociedade não gostam de se verem descritos como “amadores” em artigos de revista, o que ocorre de tempos em tempos. Acreditam que essa é uma categorização que reflete um entendimento muito estreito do que significa ser um especialista ou mesmo um cientista – do que significa ser um estudioso do mundo natural.

Há tempos, amadores fornecem boa parte do conhecimento fragmentado que temos da natureza. Aqueles estudos sobre a abelha e a borboleta? A maior parte depende da mobilização em massa de voluntários dispostos a caminhar por aí coletando dados e contando insetos de quinze em quinze dias ou anualmente, por anos a fio. Os números assustadores sobre o declínio dos pássaros foram coletados também dessa maneira, mas, como pode ser difícil ver um pássaro, os voluntários muitas vezes precisam aprender a identificá-los pelos sons que eles produzem. A Grã-Bretanha, que tem uma tradição particularmente forte de naturalismo amador, tem os insetos mais bem estudados do planeta. Por mais avançada que esteja nossa tecnologia, o mundo natural ainda é um lugar muito grande e complexo, e a melhor maneira de saber o que se passa é ter um monte de gente que o observe por um bom tempo. “Amador”, afinal, designa primordialmente “aquele que ama”.

Alguns desses cidadãos-cientistas são, de fato, principiantes que não largam o manual ilustrado; outros, levados pela paixão e dando continuidade a uma longa tradição de naturalismo “amador”, estão longe de serem novatos. Pense nos vitorianos com suas redes para apanhar borboletas e em seus gabinetes de curiosidades; ou em Vladimir Nabokov, cujas teorias sobre a evolução da Polyommatus, gênero de borboletas de cor azul, foram ignoradas até que, trinta anos após a morte do escritor, testes de DNA provaram que as especulações dele estavam corretas; ou no jovem Charles Darwin, matando aulas em Cambridge para ir coletar besouros em Wicken Fen, um dos quais ele certa vez guardou na boca, vivo, porque suas mãos já estavam cheias de insetos.

A sociedade de Krefeld é dirigida por voluntários, muitos dos quais com empregos em áreas completamente diferentes, mas com vasto conhecimento sobre insetos, acumulado ao longo de anos e resultado de uma atenção que a outros poderia parecer obsessiva. Alguns estudam a ecologia ou a taxonomia evolutiva de suas espécies prediletas, ou mapeiam suas populações, ou criam insetos para poder estudar a história de vida deles. Todos aperfeiçoam a capacidade de identificar diferentes espécies acumulando suas próprias coleções de insetos cuidadosamente guardadas e etiquetadas, como aquelas que enchem as salas da sociedade. Sorg estima que, de seus 63 membros, um terço é formado em disciplinas como biologia ou ciências da terra. Outro terço, diz, é “altamente especializado e qualificado, mas nunca frequentou universidade”, ao passo que o terço final é de amadores de fato, pessoas ainda a caminho de se tornarem entomologistas “de verdade”. “Alguns podem inclusive ter diploma universitário, mas, do nosso ponto de vista, são iniciantes.”

Os projetos dos membros da sociedade muitas vezes envolviam montar as chamadas armadilhas Malaise – parecidas com barracas de camping, são umas redes que direcionam a uma garrafa de etanol os insetos que voaram para dentro delas. Por causa de seus padrões científicos, seguiam certos procedimentos: sempre empregavam armadilhas idênticas, costuradas a partir de um modelo usado pela primeira vez em 1982. (Sorg me mostrou com grande solenidade o original enrolado em papel pardo.) As armadilhas eram dispostas sempre nos mesmos lugares. (Antes do advento do GPS, isso demandava um processo minucioso de triangulação com o auxílio de equipamentos de agrimensura. “Podia dar um erro de uns poucos centímetros”, Sorg admite.) Guardavam tudo que coletavam, independentemente de qual fosse o propósito central do experimento. (A sociedade comprou tanto etanol que atraiu a atenção de uma unidade de narcóticos.)

As garrafas de insetos foram reunidas em milhares de caixas, hoje amontoadas nos antigos escritórios da escola, no andar superior do prédio. Quando os membros da sociedade, assim como entomologistas em outras partes, começaram a notar que estavam vendo menos insetos, tinham como mensurar suas preocupações. “Não jogamos nada fora, armazenamos tudo”, Sorg explica. “Isso nos dá hoje a possibilidade de voltar no tempo.”

Em 2013, os entomologistas de Krefeld confirmaram que o número total de insetos capturados numa reserva natural era, num mesmo ponto, 80% menor que em 1989. Tinham amostras de outros lugares também, analisaram dados antigos e chegaram a declínios parecidos: onde, trinta anos antes, com frequência era preciso uma garrafa de 1 litro para cada armadilha por semana, agora em geral uma garrafa de meio litro é o suficiente. Mas até mesmo entomologistas altamente preparados precisariam de anos de trabalho meticuloso para identificar todos os insetos nas garrafas. Assim, a sociedade se valeu de um método padronizado para pesar insetos em álcool, o que, simplesmente por mostrar quanto a massa geral de insetos havia decaído ao longo do tempo, resultou numa poderosa constatação. “Um declínio da mistura de insetos”, afirma Sorg, “é coisa bem diferente do declínio de apenas umas poucas espécies.”

A sociedade trabalhou em colaboração com Hans de Kroon e outros cientistas da Universidade Radboud, na Holanda, que fizeram uma análise de tendências dos dados fornecidos por Krefeld, atentando para fatores como os efeitos provocados pelas plantas na vizinhança, pelo clima e pela cobertura florestal nas flutuações das populações de insetos. O estudo final, abrangendo 63 áreas de preservação e 17 mil dias de amostragens, encontrou declínios semelhantes em todo tipo de hábitat pesquisado. Isso sugeria, escreveram seus autores, “que não apenas as espécies vulneráveis, mas a comunidade de insetos voadores como um todo tem sido dizimada ao longo das últimas décadas”.

Para alguns, esse estudo significou um acerto de contas. “Os cientistas achavam esses dados chatos demais”, afirma o ecologista Rob Dunn. “Mas aquelas pessoas achavam lindo, amavam aquilo. Elas é que estavam prestando atenção no planeta por todos nós.”

O declínio da biodiversidade em todo o mundo é popularmente conhecido como a sexta extinção: a sexta vez, na história da humanidade, que um grande número de espécies desaparece numa rapidez incomum – agora não por culpa de asteroides ou eras glaciais, mas dos seres humanos. Quando refletimos sobre a perda da biodiversidade, tendemos a pensar naquele último rinoceronte-branco-do-norte, protegido por guardas armados, ou em ursos polares sobre blocos de gelo cada vez menores. A extinção é uma tragédia visceral, universalmente compreendida: é um caminho sem volta. O sentimento de culpa por permitir que uma espécie única desapareça é eterno.

Mas a extinção não é a única tragédia que vivemos hoje. E as espécies que ainda existem, mas apenas como uma sombra do que foram? Em The Once and Future World [O Mundo do Passado e do Futuro], o jornalista J. B. MacKinnon cita registros de séculos recentes que sugerem o que está sendo perdido: “No Atlântico Norte, um cardume de bacalhaus paralisa um navio no meio do oceano; perto de Sydney, na Austrália, um capitão navega do meio-dia ao pôr do sol por entre um grupo de cachalotes a perder de vista. […] Pioneiros do Pacífico reclamam às autoridades que salmões saltando na água podem provocar inundação nas canoas deles.” Já houve relatos de leões no sul da França, de morsas na foz do Tâmisa, de bandos de pássaros que cruzam o céu por três dias ininterruptos, de se avistar até cem baleias-azuis no oceano Antártico, lá onde hoje se vê apenas uma. “Essas não são imagens de alguma era remota de fogo e gelo”, MacKinnon escreve, “estamos falando de coisas vistas por olhos humanos, gravadas na memória humana.”

O que estamos perdendo não é apenas a diversidade na palavra “biodiversidade”; estamos perdendo a bio também: a vida em sua quantidade, pura e simplesmente. Enquanto eu escrevia esta reportagem, cientistas descobriram que a maior colônia de pinguins-rei do mundo encolheu 88% em 35 anos, e que mais de 97% dos atuns-rabilho que habitavam o oceano desapareceram. O número das girafas de brinquedo Sophie vendidas na França num único ano é nove vezes maior que o número de girafas ainda existentes na África.

Consolar-se com a sobrevivência de uns poucos animais simbólicos é ignorar o valor da abundância, de um mundo natural que prospera com base na riqueza, na complexidade e na interação. Os tigres, por exemplo, ainda existem, mas isso não muda o fato de 93% da área na qual eles costumavam viver não acolher hoje um único exemplar. E esse fato importa por razões que nada têm de românticas: animais grandes, sobretudo grandes predadores como os tigres, conectam ecossistemas e levam energia e recursos de um a outro simplesmente por caminhar, se alimentar, defecar e morrer ali. (No fundo do oceano, carcaças de baleias compõem a base de ecossistemas inteiros em locais pobres de nutrientes.) Uma consequência dessa perda é o que se conhece por cascata trófica: o tecido de um ecossistema se desfaz à medida que populações de presas explodem e colapsam, e os vários níveis da teia alimentar já não regulam um ao outro. Locais assim são mais vazios, empobrecem-se em milhares de aspectos sutis.

Cientistas têm falado numa extinção funcional (contrapondo-se àquela mais conhecida: a numérica). Animais e plantas funcionalmente extintos seguem existindo, mas já sem a prevalência que lhes permita afetar o funcionamento de um ecossistema. Alguns se referem a esse fenômeno como a extinção não de uma espécie, e sim de todas as suas interações anteriores com o ambiente – ou seja, a extinção da dispersão das sementes, da predação, da polinização e de todas as outras funções ecológicas realizadas por um animal, o que pode ser devastador, ainda que alguns espécimes persistam. Quanto maior o número de interações perdidas, mais desordenado se torna o ecossistema. Um artigo de 2013 da revista Nature, no qual se apresentavam modelos de teias alimentares tanto naturais como gerados por computador, sugeria que a perda de abundância de uma espécie, ainda que de 30%, pode ser desestabilizadora a ponto de outras espécies começarem a se extinguir por completo – na verdade, em 80% dos casos, a primeira a desaparecer é uma criatura afetada apenas secundariamente. Um exemplo famoso desse tipo de efeito cascata no mundo real é o das lontras-marinhas. Quando elas foram quase varridas do Pacífico Norte, suas presas, os ouriços-do-mar, proliferaram de um modo espantoso e dizimaram as florestas de algas pardas, transformando em deserto um ambiente rico e, possivelmente, contribuindo para extinções numéricas, notadamente a da vaca-marinha-de-steller.

Os conservacionistas tendem a concentrar a atenção em espécies raras e ameaçadas, mas são as espécies comuns, por sua abundância, o motor dos sistemas vivos do planeta. A maioria das espécies não é comum, mas, dentro de muitos grupos de animais, a maior parte dos indivíduos – cerca de 80% deles – pertence a espécies comuns. Como o sol que se põe vagarosamente, seu declínio é difícil de perceber. O abutre-indiano-de-dorso-branco quase sumiu da Índia antes que houvesse uma percepção generalizada de seu desaparecimento. Ao descrever esse fenômeno no Bioscience Journal, Kevin Gaston, professor de biodiversidade e conservação da Universidade de Exeter, escreveu: “Os seres humanos parecem ter uma melhor capacidade inata de detectar a perda completa de uma característica do meio ambiente do que de notar sua mudança progressiva.”

Além de extinção (a perda completa de uma espécie) e de extirpação (uma extinção localizada), os cientistas hoje falam também em defaunação: a perda de indivíduos, de abundância, de toda vida animal de um lugar. Num artigo de 2014 da Science, pesquisadores postulavam que o termo deveria se tornar tão conhecido e influente quanto o conceito de desmatamento. Em 2017, outro artigo informava que grandes perdas de população e variedade se estendiam inclusive a espécies consideradas de baixo risco de extinção. Seus autores prediziam “consequências negativas em cascata para o funcionamento dos ecossistemas e de serviços vitais à manutenção da civilização” e propunham outro termo para a perda disseminada da fauna selvagem no mundo todo: “aniquilação biológica”.

Estima-se que, desde 1970, as várias populações de animais selvagens terrestres perderam, em média, 60% de seus membros. Concentrando-nos na categoria mais aparentada a nós, a dos mamíferos, cientistas acreditam que, de cada seis criaturas selvagens que já comeram, se entocaram e criaram filhotes, resta apenas uma. O lugar daquelas que desapareceram foi ocupado por nós. Um estudo publicado em 2018 nos Proceedings of the National Academy of Sciences descobriu que, se observarmos os mamíferos por peso, 96% dessa biomassa compõem-se de humanos e de animais de criação; apenas 4% são de animais selvagens.

Começamos a falar em vida no Antropoceno, um mundo moldado por humanos. Mas o naturalista e profeta da degradação ambiental Edward O. Wilson sugere outro nome: “Eremoceno” – a era da solidão.

Wilson iniciou sua carreira estudando formigas, na qualidade de entomologista especializado em taxonomia. Não é nos insetos – o mais distante que se pode chegar de uma megafauna carismática – que em geral pensamos quando falamos em biodiversidade. E, no entanto, eles são, nas palavras de Wilson, “aqueles trocinhos que administram o mundo natural”. Literalmente, ele quer dizer. Os insetos são um estudo de caso no que se refere à importância invisível do comum.

Cientistas já tentaram calcular os benefícios que os insetos produzem pelo simples fato de irem tocando a vida sendo tão numerosos. Trilhões deles, voando de flor em flor, polinizam cerca de três quartos de nossas colheitas de alimentos, um serviço que chega a valer 500 bilhões de dólares por ano. (Isso não inclui os 80% de plantas que florescem de forma selvagem e contam com os insetos para sua polinização – plantas que são os pilares da vida em toda parte.) Se cálculos monetários como esse parecem estranhos, pense no que ocorreu no vale do condado de Maoxian, na China, onde a escassez de insetos polinizadores exigiu a contratação de trabalhadores humanos para substituir as abelhas, a um custo diário de até 19 dólares por trabalhador. Cada pessoa faz de cinco a dez árvores por dia, polinizando manualmente flores de macieira.

Comendo e sendo comidos, os insetos transformam plantas em proteína e são o motor do crescimento de todas as incontáveis espécies que dependem deles para se alimentar – o que inclui os peixes de água doce e a maioria dos pássaros –, sem falar em todas as criaturas que comem essas criaturas. Nós nos preocupamos em salvar o urso-pardo, diz o ecologista especializado em insetos Scott Hoffman Black, mas o que será do urso-pardo sem a abelha que poliniza as frutinhas que ele come ou os mosquitos que sustentam o filhote de salmão? O que será de nós, aliás?

Os insetos são vitais para a decomposição que mantém o ciclo dos nutrientes, o solo saudável, as plantas em crescimento e o funcionamento dos ecossistemas. Esse seu papel é em grande parte invisível, até que um dia vem à luz. Quando levaram o gado para a Austrália na virada do século XIX, os colonizadores logo se viram impotentes ante o problema das fezes desses animais. Por alguma razão, lá o esterco de vaca precisava de meses, quando não anos, para se decompor. As vacas se recusavam a comer perto daquele fedor, demandando cada vez mais terra para o pasto, e eram tantas as moscas que se reproduziam nas pilhas de esterco que o país ficou famoso por aqueles chapéus que os criadores de gado usavam para se manter livres delas. Foi somente em 1951 que um entomologista visitante percebeu o que havia de errado: os insetos australianos, cuja evolução os tornara aptos a comer os excrementos mais fibrosos dos marsupiais, não davam conta do esterco de vaca. Ao longo dos 25 anos seguintes, a importação de dúzias de espécies do escaravelho Scarabaeus viettei, postos em quarentena e, depois, libertados, tornou-se prioridade nacional. E esse era só um dos nichos carentes. (Nos Estados Unidos, esses escaravelhos poupam aos fazendeiros cerca de 380 milhões de dólares ao ano.) A verdade pura e simples é que não sabemos tudo que os insetos fazem. Apenas cerca de 2% das espécies de invertebrados foram estudadas suficientemente para que possamos avaliar se correm risco de extinção, que dirá para calcular que perigos sua extinção poderia acarretar.

Quando convidados a imaginar o que aconteceria se os insetos desaparecessem por completo, os cientistas recorrem a palavras como caos, colapso, Armagedom. David Wagner, o entomologista da Universidade de Connecticut, descreve um mundo sem flores, com florestas silenciosas e enorme quantidade de esterco, folhas velhas e carcaças apodrecendo, tudo isso se acumulando nas cidades e beiras de estrada – um mundo de “colapso ou decadência, erosão e de perdas que se espalhariam pelos ecossistemas”, indo de predadores a plantas. Edward O. Wilson escreveu sobre um mundo sem insetos, um lugar em que a maioria das plantas e animais terrestres se extinguiria, em que fungos se multiplicariam por um tempo, prosperando com a morte e a podridão, e em que “a espécie humana, capaz de recorrer outra vez aos grãos polinizados pelo vento e à pesca marinha, vai sobreviver”, a despeito da fome em massa e das guerras por recursos. “Lutando para manterem-se vivos em um mundo devastado e presos a uma Idade das Trevas do ponto de vista ecológico”, ele acrescenta, “os sobreviventes rezariam pela volta das ervas daninhas e dos insetos.”

Mas a questão crucial do fenômeno do para-brisa, a razão pela qual a suspeita sinistra da ausência é tão sinistra, é que os insetos não precisariam desaparecer por completo para que sintamos sua falta, por razões que vão muito além da nostalgia. Em outubro último, um entomologista enviou-me um e-mail com um “Puta merda!” na linha de assunto e um arquivo anexo: um estudo recém-publicado em Proceedings of the National Academy of Sciences que ele chamou de “Krefeld vai a Porto Rico”. O estudo continha dados da década de 70 e do início dos anos 2010, quando um ecologista chamado Brad Lister, especializado nos trópicos, voltou à floresta onde havia estudado lagartos – e, mais importante ainda, suas presas – cerca de quarenta anos antes. Lister montou armadilhas pegajosas e estendeu redes pelas folhagens nos mesmos locais em que havia feito isso na década de 70, mas, dessa vez, ele e o coautor do artigo, Andres Garcia, apanharam muito menos animais que antes: de dez a sessenta vezes menos biomassa artrópode do que no passado. (Não se deve entender essa cifra como 60% menos, mas como sessenta vezes menos: onde antes Lister capturara 473 miligramas de insetos, ele apanhava agora apenas 8 miligramas.) “Foi devastador, sabe?”, ele me disse. Só que mais assustador ainda era como essas perdas estavam se espalhando pelo ecossistema, com sério declínio no número de lagartos, pássaros e sapos. O artigo relatava uma “cascata trófica de baixo para cima e o consequente colapso da teia alimentar da floresta”. A caixa de entrada de Lister logo se encheu de mensagens de outros cientistas, em especial de gente que estudava os invertebrados de solo, todos lhe dizendo que haviam constatado declínios igualmente assustadores. Mesmo depois de sua descoberta terrível, Lister ficou abalado com a lista de perdas: “Eu nem sabia da crise das minhocas!”

O estranho, disse, é que, apesar de chocantes, todos os declínios que ele documentara continuavam invisíveis a uma pessoa comum que caminhasse pela floresta de Luquillo. Na última visita que ele fez, a floresta seguia “atemporal” e “fantasmagórica”, com “suas cascatas e tapetes de flores”. Só um especialista notaria que faltava algo ali. Segundo Lister, contudo, as perdas conduzirão a floresta a um ponto crítico, depois do qual “haverá uma perda dramática do sistema da floresta tropical”, e as mudanças se tornarão óbvias para qualquer um. O lugar que ele tanto ama se tornará irreconhecível.

Os insetos na floresta que Lister estudou não estão em conflito com pesticidas ou com a perda de hábitat, dois dos problemas que o artigo de Krefeld apontava. Lister atribui seu declínio à mudança no clima, que já aumentou em dois graus as temperaturas em Luquillo desde que ele esteve lá, pesquisando pela primeira vez. Pesquisas anteriores já sugeriram que insetos tropicais serão particularmente sensíveis a mudanças de temperatura; em novembro, besouros de laboratório submetidos a uma onda de calor revelaram-se consideravelmente menos férteis. Outros cientistas se perguntam se a causa poderia ser uma seca provocada pelo clima, ou talvez uma invasão de ratos, ou ainda uma espécie de “morte por mil cortes” – uma confluência de mudanças diversas nos locais onde os insetos costumavam prosperar.

Como outras espécies, os insetos estão reagindo àquilo que Chris Thomas, ecologista da Universidade de York especializado em insetos, chamou de “a transformação do mundo”, não apenas pela mudança climática, mas também pela conversão disseminada – pela via da urbanização, da intensificação da agricultura e assim por diante – dos espaços naturais em espaços humanos, com cada vez menos recursos “restantes” para a vida de criaturas não humanas. E, muitas vezes, o que resta de recursos está contaminado. O ecologista Hans de Kroon caracteriza a vida de muitos insetos modernos como uma tentativa de sobrevivência de oásis em oásis, todos eles minguantes e com “um deserto de permeio que, no pior dos casos, é venenoso”. Preocupantes são, em particular, os neonicotinoides, neurotoxinas que se acreditava afetarem apenas as culturas em que foram utilizadas, mas que, conforme se descobriu, acumulam-se na natureza e são consumidas por toda sorte de insetos. Fala-se na “perda” de abelhas para o distúrbio do colapso das colônias, e o termo parece correto: as colmeias afetadas não se mostram cheias de abelhas mortas, e sim misteriosamente vazias. Uma teoria importante afirma que a exposição às neurotoxinas torna as abelhas incapazes de encontrar o caminho de casa. Descobriu-se que mesmo colmeias expostas a baixos níveis de neonicotinoides coletavam menos pólen e produziam menos ovos e muito menos rainhas. Alguns estudos recentes descobriram que as abelhas estão se saindo melhor nas cidades do que na zona rural.

A diversidade de insetos significa que alguns conseguirão se adaptar a novos ambientes, alguns vão prosperar (a abundância é uma faca de dois gumes: monoculturas permitem que certas pestes atinjam níveis populacionais que jamais conseguiriam na natureza) e outros, em busca de comida e abrigo num mundo não destinado a eles, vão perecer. Embora necessitemos de mais dados para entender melhor as razões ou os mecanismos por trás dos altos e baixos, Thomas afirma que “a tendência que perpassa todas as espécies ainda é o declínio”.

Desde a publicação do estudo de Krefeld, pesquisadores começaram a procurar outros repositórios esquecidos de informações que possam oferecer uma janela para o passado. Alguns dos estudiosos da Universidade Radboud analisaram dados históricos, coletados por sociedades entomológicas holandesas, sobre besouros e mariposas em certas reservas. Descobriram quedas significativas (de 72% e 54%) que corroboravam as de Krefeld. Segundo o pesquisador Roel van Klink, do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade, antes de Krefeld, tanto ele como a maioria dos entomologistas jamais haviam se interessado por biomassa. Agora, ele está à procura de conjuntos de dados históricos – muitos provenientes de pesquisas sobre pestes agrícolas, como o estudo a respeito dos gafanhotos no Kansas, efetuado ao longo de décadas – que possam ajudar a compor um quadro mais completo do que está acontecendo com essas criaturas abundantes, mas que estão em perigo. Até o momento, descobriu 140 conjuntos de dados antigos, relativos a 1 500 localidades nas quais se poderia coletar novas amostragens.

Nos Estados Unidos, um dos poucos conjuntos de dados mais antigos sobre a abundância dos insetos provém do trabalho de Arthur Shapiro, entomologista da Universidade da Califórnia, em Davis. Em 1972, Shapiro começou a coletá-los, contando borboletas enquanto caminhava pelo Central Valley e pelas Sierras. Ele pretendia escrever sobre o efeito das variações climáticas de curta duração nas populações de borboletas. Mas, quanto mais amostras recolhia, mais valiosos se tornavam seus dados, oferecendo um sinal claro em meio ao ruído dos altos e baixos sazonais. “E aqui estou eu, em meu 46º ano”, ele diz, depois de observar borboletas por quase meio século, cinco dias por semana, do final da primavera ao final do outono. Ao longo desse período, Shapiro assistiu ao declínio do número geral delas e viu desaparecer algumas espécies que costumavam estar por toda parte, mesmo aquelas que, poucas décadas atrás, “todo mundo considerava lixo”. Ele acredita ser provável que declínios como os constatados em Krefeld estejam ocorrendo no mundo todo. “Mas, evidentemente, eu não estudo o mundo todo”, acrescentou. “Meu estudo cobre a região da rodovia interestadual 80.”

Há também novos esforços para montar esquemas de monitoração de insetos do tipo que os pesquisadores gostariam que tivessem existido décadas atrás, para que ao menos nosso nível de declínio fosse mensurado. Um deles é um projeto-piloto alemão semelhante ao estudo feito com carros na Dinamarca. A fim de analisar o que capturam, os pesquisadores se voltaram para naturalistas voluntários, como os de Krefeld, com um conhecimento mínimo para saber o que estão observando. “Não são espécies fáceis de identificar”, afirma Aletta Bonn, do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade, que supervisiona o projeto. (A capacidade que tal trabalho requer é “verdadeiramente extrema”, conta o ecologista Rob Dunn. “Essas pessoas treinam durante décadas com outros amadores para se tornarem capazes de identificar besouros a partir de sua genitália.”) Bonn disse que gostaria de remunerar os voluntários por seu nível de especialização, mas o financiamento segue em crise. Isso não impediu que os “amadores” decidissem ajudar: “Eles disseram: ‘Só estamos curiosos para saber o que tem aí, gostaríamos de ter amostras.’”

De acordo com o entomologista Dave Goulson, a tradição europeia de naturalismo amador pode explicar por que provêm de lá tantas pistas a respeito da queda na biodiversidade dos insetos. (O desenho da rede na capota do carro do ornitólogo dinamarquês, por exemplo, foi inspirado na invenção de um dedicado colecionador amador de besouros.) Se pouco sabemos sobre a situação dos insetos na Europa, temos ainda menos informação sobre o que ocorre em outras partes do mundo. “Não saberíamos nada se não contássemos com eles”, com os chamados amadores, Goulson afirma. “Ficaríamos restritos ao fato de que não há insetos no para-brisa.”

Chris Thomas crê que essa tradição naturalista é também o motivo pelo qual a Europa está agindo bem mais depressa que outros lugares – os Estados Unidos, por exemplo – no enfrentamento do declínio dos insetos: o interesse conduz ao rastreamento, que conduz à consciência, que conduz à preocupação, que conduz por fim à ação. Desde o surgimento dos dados provenientes de Krefeld, tem havido audiências sobre a proteção da biodiversidade dos insetos no Parlamento alemão e também no europeu. Os Estados que compõem a União Europeia votaram pelo prolongamento da proibição dos pesticidas contendo neonicotinoides e começaram a investir pesado em mais estudos sobre o declínio da abundância de insetos, o que o está provocando e o que pode ser feito a respeito. Quando bati na porta da sala de Hans de Kroon, na Universidade Radboud, em Nijmegen, ele examinava fotos de outra reunião que tivera naquele mesmo dia: Willem-Alexander, o rei da Holanda, havia visitado as obras em curso para fazer da beira do rio da cidade um hábitat mais amistoso para os insetos.

Deter esse declínio, contudo, vai exigir bem mais do que isso. A União Europeia já havia tomado medidas para encorajar os polinizadores – entre elas, instituir para os pesticidas uma regulamentação mais severa do que aquela em vigor nos Estados Unidos, além de estimular, mediante remuneração aos fazendeiros, a criação de hábitats para insetos, deixando terras sem cultivo e criando faixas naturais à margem das plantações –, mas as populações de insetos seguiram caindo. Novos relatórios conclamam os governos nacionais a colaborar com abordagens mais criativas, como integrar os hábitats dos insetos nos projetos de estradas de rodagem, linhas de transmissão de energia, estradas de ferro e infraestrutura em geral. E, como sempre, a realizar novos estudos. As mudanças necessárias, assim como as causas, podem ser profundas. “É só mais uma indicação de que estamos destruindo o sistema que dá suporte à vida neste planeta”, diz Lister sobre o estudo em Porto Rico. “A natureza é resistente, mas nós a estamos conduzindo a um ponto tão extremo que poderá ocorrer um colapso do sistema.”

A esperança dos cientistas é que os insetos tenham uma chance de levar adiante essa resistência. Enquanto os tigres dão à luz três ou quatro filhotes por ninhada, está documentado que uma mariposa-fantasma da Austrália já foi capaz de pôr 29 100 ovos, restando outros 15 mil em seus ovários. A abundante fecundidade característica dos insetos há de possibilitar sua recuperação, mas apenas se lhes derem espaço e oportunidade para fazê-lo.

“É um debate que precisamos realizar com urgência”, diz Goulson. “Se perdermos os insetos, a vida na Terra vai…” – sua voz some, fazendo uma pausa que me pareceu demasiado longa.

Na Dinamarca, a excursão de Sune Boye Riis em seu carro com rede levou-nos por uma pequena extensão de bosques, alguns jardins suburbanos, cercas vivas e uma plantação de pinheiros de Natal. A coisa mais parecida com o prado pela qual passamos foi uma grande propriedade militar em que se permitiu à grama crescer alta e dourada. Riis tinha sido instruído a não ir muito rápido, razão pela qual uma fila de carros se formou atrás de nós, e alguns começaram a buzinar. “Bom”, ele disse, “lá se vai a ciência.” Depois de quase 5 quilômetros, ele deu meia-volta e retornou ao ponto de partida. Seu para-brisa permanecia zombeteiramente limpo.

Riis tem quatro amigos que também participam do estudo. Fizeram uma aposta: quem apanharia o maior inseto? “Estou bem na retaguarda”, ele diz. “Uma mamangava está ganhando.” Sua maior presa? “Uma mosca. Nem das grandes é.”

Ao final da excursão, Riis tornou a parar o carro por um instante para soltar a rede da capota e remover a bolsinha na outra extremidade. Alguns voluntários, encantados com o que o estudo revelava sobre o mundo ao redor, pediram bolsas adicionais para coletar mais espécimes por conta própria. Houve até quem perguntasse se podia comprar a rede e todo o aparato para instalar no carro. Riis se contentou em espiar a rede, dentro da qual divisou certo número de manchinhas pretas de variada pequenez.

Havia também uma única borboleta lá dentro, delicada e de asas brancas. Riis pensou na aposta que fizera com os amigos, para a qual não haviam definido o significado de grandeza. Perguntou-se como estimá-la. O que dá valor a uma criatura?

“Será o peso?”, perguntou, baixando os olhos até a borboleta. Dentro da bolsa, ela parecia pequena, triste e solitária. “Ou será a graça?”

[1] Uma “cadeia alimentar” é formada por uma sequência de seres vivos em que um deles serve de alimento para o outro. “Teia alimentar” é o conjunto de diferentes cadeias alimentares interconectadas em determinado ecossistema.

Brooke Jarvis

Jornalista norte-americana, é colaboradora da New York Times Magazine.

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