tempos da peste

O arauto da cloroquina

Ele era uma estrela da ciência – até que propôs uma cura para a Covid-19

Scott Sayare
Didier Raoult: “Já inventei uns dez tratamentos. Metade deles é empregado no mundo todo. Nunca fiz um estudo duplo-cego, nunca. Nunca!”
Didier Raoult: “Já inventei uns dez tratamentos. Metade deles é empregado no mundo todo. Nunca fiz um estudo duplo-cego, nunca. Nunca!” FOTO: ANTOINE D’AGATA_MAGNUM PHOTOS_FOTOARENA

Tradução de Sergio Tellaroli

Ao diagnosticar os males da ciência moderna – uma diversão que, junto ao hábito de depreciar seus críticos e colegas pesquisadores, configura um dos seus grandes prazeres –, o eminente microbiologista francês Didier Raoult cofia de leve a barba, recosta-se na cadeira e, com um sorriso discreto mas inequívoco, declara que a pobre paciente é vítima do orgulho. Raoult, que alcançou fama internacional quando Donald Trump alçou sua proposta de tratamento para a Covid-19 à categoria de “cura milagrosa”, acredita que seus colegas são incapazes de ver que as ideias deles resultam de modas intelectuais, que a metodologia os hipnotiza, fazendo-os acreditar que compreendem o que não compreendem, e que lhes falta disciplina mental para entender o erro que cometem. Em seu instituto em Marselha, ele me disse o seguinte recentemente: “A húbris é a coisa mais comum do mundo.” A arrogância é uma doença especialmente perigosa em médicos como ele, cujas opiniões têm implicações sobre a vida e a morte. “Quem não sabe é menos burro do que quem pensa que sabe”, disse. “Porque estar errado é uma coisa terrível.”

Raoult, que fundou e dirige o Instituto Hospitalar Universitário Méditerranée Infection – o IHU, dedicado à pesquisa –, construiu uma grande carreira desafiando a ortodoxia, tanto em palavras como em atos. “Não há nada de que eu goste mais do que explodir uma teoria bem estabelecida”, disse ele certa vez. Sua reputação inclui o pendor para a bravata, mas também certa criatividade. Ele olha para onde ninguém se digna a olhar e se vale de métodos que ninguém emprega, mas encontra coisas. Apenas nos últimos dez anos, Raoult ajudou a identificar quase quinhentas novas espécies de bactérias transmitidas por seres humanos, cerca de um quinto de todas já nomeadas e descritas. Até há pouco tempo, Raoult era mais conhecido, talvez, como o descobridor do primeiro vírus gigante, um micróbio que, em sua opinião, sugere que os vírus deveriam ser agrupados num domínio à parte – seria o quarto domínio dos seres vivos.[1] Essa descoberta rendeu-lhe o Grand Prix Inserm, um dos mais importantes prêmios científicos franceses. Também o levou a acreditar que a árvore da vida sugerida pela evolução darwiniana é “completamente equivocada” e que o próprio Charles Darwin “só escreveu bobagem”. Raoult detesta o consenso e a civilidade. Acredita que a ciência, assim como a vida, deveria ser uma luta.

Com esse espírito – embora contestado por seus pares, e certamente por causa disso também –, Raoult propôs um remédio contra a Covid-19: uma combinação da hidroxicloroquina (uma droga contra a malária) com a azitromicina (um antibiótico comum). E pôs-se a declarar: “Nós sabemos como curar essa doença.” Trump não foi o único a querer abraçar avidamente essa possibilidade. Quando cheguei a Marselha, alguma versão do tratamento proposto por Raoult havia sido autorizada para testes, ou para uso, em muitos países, entre eles França, Itália, China e Índia. Um em cada cinco testes farmacêuticos no mundo era sobre hidroxicloroquina.



Em março passado, Raoult anunciou que seu hospital testaria e trataria qualquer pessoa que aparecesse. Multidões aglomeraram-se em serpenteantes filas indianas na entrada do IHU, como peregrinos avançando lentamente em direção a uma consulta particular com o oráculo. Em 16 de março, o pesquisador francês divulgou os resultados de um pequeno ensaio clínico que, segundo ele, revelava uma taxa de cura de 100%. Desde então, esse estudo tem sido amplamente contestado, e os cientistas e autoridades de saúde mundo afora vêm lamentando publicamente as manifestações entusiasmadas de Raoult. Num comentário mais ou menos representativo do teor da controvérsia na França – onde o nome e a imagem de Raoult estão há semanas por toda parte –, um detrator (em geral, um político ponderado) sugeriu que ele “cale a boca e aja como médico” e que “pare de dizer ‘eu sou um gênio’ em todo lugar”.

Os colegas de Raoult comparam sua psicologia à de Napoleão, embora ele não seja baixinho. Ao ser indagado por um jornalista sobre sua tendência de “nadar contra a corrente” do pensamento científico, ele respondeu: “Não sou um outsider. Sou aquele que está na frente de todo mundo.” Axel Kahn, médico e geneticista que o conhece há quase quarenta anos, contou-me que ele sempre foi assim. “Uma das características mais constantes do professor Raoult é que ele sabe que é muito bom”, disse-me. “Só que ele considera todos os outros inúteis. Sempre considerou. Não é coisa recente.” Comenta-se que, em sua casa, Raoult tem uma estátua em mármore de si mesmo, ao lado de uma coleção de bustos romanos.

Aos 68 anos, Raoult é um homem de constituição robusta, mas de traços refinados, com maçãs do rosto protuberantes e lábios finos e insolentes. Nos últimos anos, escondeu tudo isso atrás de bigode e cavanhaque desgrenhados e grisalhos, e deixou crescer até os ombros os cabelos de um amarelo pálido. No mindinho da mão direita, carrega agora um crânio de prata. Os memes que circulam pela internet retratam-no como o mago Gandalf ou como um druida. A não ser pelo jaleco branco de laboratório, seu aspecto geral é o de um vidente que vai para o trabalho pilotando uma Harley-Davidson. O jornalista francês Hervé Vaudoit, que tem escrito sobre ele com admiração ao longo dos anos, certa vez lhe perguntou por que se vestia daquela maneira. A resposta: “Porque irrita os outros.”

Desde que se espalhou pelo mundo o Sars-CoV-2 (nome do vírus que causa a Covid-19), o desdém de Raoult pela opinião abalizada – e seus representantes, os “marqueses parisienses” – cativou um amplo segmento da população francesa. Segundo uma pesquisa de opinião do final de março, ele havia se tornado uma das “personalidades políticas” mais populares da França, com um poder especial para atrair os extremos populistas. Objetos de devoção contendo sua imagem eram vendidos em Marselha e, em certas noites, às 20 horas, batalhões de caminhões de lixo da cidade reuniam-se do lado de fora do hospital e tocavam suas buzinas num tributo barulhento e furioso ao médico. Uma faixa de 3 metros, pintada por um clube local de torcedores de futebol e esticada perto da entrada do hospital, dizia: “Marselha e o mundo apoiam o prof. Raoult!!!”

O médico francês vem colecionando os artefatos criados por seus fãs e parece deleitar-se com a fama adquirida, embora diga o contrário. Tem certeza de que, no fim, os remédios vão lhe dar razão. Tudo o mais é questão de aparência. “Eu penso, de fato, que estamos num teatro”, disse-me. “Na minha peça, quem me julga como médico são meus pacientes. E quem me julga como cientista são meus colegas. E o tempo.”

 

Poucas semanas atrás, falei (guardando a distância recomendada) com um homem chamado Jacques Cohen. Ele estava sentado na calçada do lado de fora do prédio do IHU, um anguloso monumento de concreto e vidro a cerca de 2,5 km do antigo porto de Marselha. Encostado num pilar, sentado de cócoras, com os pulsos apoiados sobre os joelhos, Cohen estava perto de um grupo de umas sessenta pessoas, à espera de entrar no hospital por uma porta lateral. Como todos ficavam despreocupadamente próximos uns dos outros – de pé, num grupo informal, como as pessoas costumavam fazer –, podia-se identificá–los como os desafortunados que já se sabiam infectados pelo vírus. Eu havia escolhido Cohen como meu interlocutor por instrução de uma enfermeira. Ele não estava tossindo ou espirrando e usava máscara. “Seja como for, vamos todos pegar”, disse-me a enfermeira.

Eu me acocorei na calçada e perguntei a Cohen, que tem 76 anos, como se sentia. Ele estava tomando hidroxicloroquina e azitromicina fazia dois dias. “Está melhorando”, ele me respondeu por trás da máscara. Estava pálido, mas otimista. A febre havia cedido e ele estava começando a recuperar o paladar. Comentei que havia algum debate sobre a eficácia do tratamento. “Não tem essa história de ‘acreditar’ ou ‘não acreditar’”, disse-me ele: “Nós sabemos que funciona!”

Hidroxicloroquina e azitromicina são medicamentos bem conhecidos, bem tolerados e amplamente receitados. A azitromicina foi desenvolvida há quarenta anos na ex-Iugoslávia e é hoje o segundo antibiótico mais receitado nos Estados Unidos. A hidroxicloroquina – juntamente com a análoga cloroquina, mais tóxica – foi durante muitas décadas a droga antimalária mais prescrita por médicos no mundo. Hoje, ela é muito usada no tratamento de artrite reumatoide e lúpus. Suas três moléculas estão incluídas na Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), um compêndio dos “medicamentos mais eficazes, seguros e de melhor custo-benefício para o tratamento de enfermidades prioritárias”.

Raoult conhece bem os dois remédios. Desde o início de sua carreira, ele tem feito extensas experiências com o redirecionamento de drogas, aplicando-as no tratamento contra doenças diferentes daquelas para as quais foram inicialmente aprovadas. Centenas e centenas de moléculas já foram sancionadas para uso humano pela FDA norte-americana, a agência responsável pela fiscalização e aprovação de alimentos e remédios. Escondidas entre elas, segundo Raoult, está a cura imprevista para muitas doenças. “Você testa tudo, para de ponderar e simplesmente vai ver se, por acaso, funciona. E há coisas que se descobre que fazem você cair de costas”, disse ele. Antidepressivos e anti-hipertensivos já revelaram ter propriedades antivirais. A lovastatina, usada para reduzir os níveis de colesterol, já se mostrou eficaz contra a peste, pelo menos em camundongos. Num artigo de 2018, Raoult e uma equipe de pesquisadores relataram que a azitromicina exibia forte atividade em células infectadas com o zika vírus.

 

Raoult passou a primeira década de sua vida em Dacar, no que era então o Senegal francês, para onde haviam enviado seu pai, um médico militar. Sempre que precisava combater a malária, tomava cloroquina. “Eu tomava cloroquina o tempo todo, quando criança”, conta. Durante os anos 1990, numa experiência precoce de redirecionamento, ele testou o efeito da hidroxicloroquina numa enfermidade muitas vezes fatal, conhecida como febre Q, provocada por uma bactéria intracelular. Como os vírus, as bactérias intracelulares se multiplicam dentro das células que as hospedam. Raoult descobriu que, ao reduzir a acidez das células hospedeiras, a hidroxicloroquina retardava o crescimento bacteriano. Começou, então, a tratar a febre Q com hidroxicloroquina e doxiciclina, uma combinação que mais tarde voltou a usar contra a doença de Whipple, também fatal e causada por bactéria intracelular. A combinação é hoje considerada um tratamento padrão para essas duas enfermidades.

Dadas as semelhanças entre bactérias intracelulares e vírus, Raoult suspeitou que a cloroquina e a hidroxicloroquina poderiam ter propriedades antivirais. Em seguida à eclosão da Sars, em 2002, pesquisadores descobriram que a cloroquina retardava a reprodução da Sars em culturas celulares. Raoult examinou o assunto num artigo de 2007 e concluiu que a cloroquina e a hidroxicloroquina poderiam ser “arma interessante no combate a doenças infecciosas presentes e futuras no mundo inteiro”. No começo deste ano, quando a disseminação do Sars-CoV-2 começou a adquirir os contornos de uma pandemia, ele se pôs a examinar os dados que chegavam da China. Um relatório inicial sobre a cloroquina mostrava bons resultados in vitro. Em meados de fevereiro, outra equipe chinesa relatou que, em mais de cem pacientes, descobriu-se que ela exibia “atividade potente contra a Covid-19”. Raoult ficou eufórico.

À época, autoridades sanitárias em todo o mundo advertiam que um tratamento viável poderia estar longe, a meses de distância. Os relatórios chineses, no entanto, pareciam confirmar as antigas esperanças de Raoult na cloroquina. Um vírus letal, contra o qual não havia tratamento, podia ser detido por uma molécula barata, amplamente estudada e que ele conhecia bem. Um cientista mais cuidadoso teria examinado os dados chineses e começado a se preparar para fazer seus próprios testes. Raoult fez isso, mas também postou um vídeo curto e radiante no YouTube, com o título “Coronavírus: game over!”. A cloroquina havia produzido o que ele chamou de “melhoras espetaculares” nos pacientes chineses. “É ótima notícia. De todas, essa é provavelmente a infecção respiratória mais fácil de tratar”, afirmou. “A única coisa que eu tenho a dizer é: tomem cuidado. Logo, as farmácias não terão mais cloroquina para vender!”

 

Raoult passou quase a vida toda em Marselha, uma cidade áspera e belicosa, mas que ele ama. Em homenagem a ela, chamou todo um gênero de bactérias de Massilia e batizou numerosas espécies de micróbios com o nome da cidade ou de seus bairros. Marselha é um porto importante há mais de 2 mil anos, e, em decorrência disso, possui uma história rica em doenças. Foi a porta de entrada na França das três grandes ondas de peste bubônica, a primeira delas no século VI. Entre 1720 e 1722, a peste matou quase metade da população. Um de seus bairros centrais, no antigo porto, leva hoje o nome do bispo que cuidou dos doentes, enquanto os médicos se escondiam de medo.

Raoult escreveu seu primeiro relatório de pesquisa em 1979, sobre uma infecção transmitida por carrapatos que por vezes é chamada de “febre de Marselha”. A enfermidade também foi chamada de “febre benigna de verão”, e a ciência passou mais de cinquenta anos dizendo que ela não era letal. Contudo, um dos 41 pacientes do grupo estudado por Raoult veio a falecer. Antes de enviar seu artigo, ele, então um jovem residente, submeteu-o à revisão de um orientador. Raoult conta o que aconteceu: “O professor pegou o artigo e nunca mais me devolveu: publicou-o ele próprio. E excluiu o caso de morte, porque não sabia explicá-lo.” Raoult ficou revoltado e extraiu do episódio sua filosofia de investigação científica. “Aprendi que as pessoas desejosas de trilhar o caminho já conhecido estão dispostas a trapacear para fazer isso”, diz. Em trabalho posterior, ele demonstrou que a febre de Marselha era, sim, fatal, e quase exatamente em 1 a cada 41 casos. “O professor era um ‘partidário’”, conclui. “E esses ‘partidários’ são todos trapaceiros. Foi isso que pensei. E é o que penso até hoje.”

Ele é fundamentalmente um contestador. Em sua opinião, os pesquisadores que endossam as ferramentas e teorias de suas respectivas épocas pouco conseguiram avançar. “Passei minha vida inteira sendo do ‘contra’”, afirma. “Digo aos cientistas mais jovens: ‘Vocês sabem, para concordar não é preciso ter cérebro. Basta ter espinha dorsal.’” Conflito é o que o faz vibrar. É uma questão tanto de temperamento como de filosofia – certamente uma influência do pensador que admira e a quem chama de “mestre Nietzsche”. “Ele adora ver que as águas estão agitadas ao seu redor”, contou-me um de seus técnicos de laboratório. Ele provoca tempestades e se deleita ao contemplá-las desabando sobre a terra. Seus pares desaprovam o comportamento, mas têm respeito relutante por Raoult. “Não há como derrotá-lo”, diz Mark Pallen, professor de genômica dos micróbios da Universidade de East Anglia. “O lugar dele no cânone, na santidade da ciência, está relativamente assegurado.”

Interessado em poder, Raoult nunca deixou de lhe dedicar atenção. Em 1985 e 1986, trabalhou no Instituto Naval de Pesquisa Médica em Bethesda, no estado norte-americano de Maryland, onde descobriu o Science Citation Index (Índice de citações científicas). O índice, que pode ser usado para aferir a influência de um cientista com base em seu histórico de publicações, era relativamente desconhecido na França. Na lista, Raoult procurou quem eram os cientistas mais bem cotados em Marselha. “Foi, na verdade, uma espécie de ‘o imperador está nu’”, relata. “Aquela gente não publicava. Tinha um que não escrevia um artigo fazia dez anos.” Na sua opinião, a ciência francesa era um ducado de aparências, contatos e autorreverência. Ele imita o modo de falar de um aristocrata: “As pessoas diziam: ‘Ah, ele? Sim, ele é muito bom.’ E essa reputação, você não sabe no que se baseia, mas não é na verdade.”

Há décadas, Raoult se vangloria de um prodigioso número de publicações e citações, algo que, como dado estatístico objetivo, ele considera a melhor medida de seu próprio valor como pesquisador. Em média, pesquisadores da área biomédica na França produzem, como autores ou colaboradores, cerca de dez artigos científicos por ano. Ao longo de toda a carreira, são poucas centenas de artigos. O nome de Raoult encabeça milhares de textos. Nos últimos oito anos, escreveu mais de cem a cada ano. Só em 2020, já publicou ao menos 54.

Ele tem a reputação de ser um trabalhador incansável, mas só atinge esse número notável de publicações porque assina seu nome em quase todos os artigos produzidos por seu instituto. Embora a prática não seja propriamente um ineditismo, também não é comum. “Até mesmo a simples leitura desses artigos demandaria grande porcentagem do tempo de qualquer pessoa”, Mark Pallen me diz. “Para alguém como eu, por exemplo, acho que seria praticamente impossível examiná-los de fato e com cuidado, criticá-los, dar uma importante contribuição intelectual.”

Com poucas exceções, os chefes de departamento do IHU trabalharam sob o comando de Raoult a vida inteira, alguns por mais de trinta anos. É um “sistema ancestral”, “familiar”, “como um clã”, disse-me o professor de clínica médica Michel Drancourt, seu colaborador mais antigo. Raoult é, sem dúvida, o patriarca. Em certos aspectos, é considerado benevolente. O IHU, por exemplo, gasta um bocado de dinheiro com bolsas de estudo e de pesquisa para estudantes de países em desenvolvimento, e Raoult, ao contrário de outros cientistas poderosos, tem fama de ser acessível a jovens pesquisadores. É conhecido também pelas repreensões a subordinados. Enquanto visitava o IHU, vi uma jovem pesquisadora sair da sala dele aos prantos e correr para os braços dos amigos, claramente acostumados àquela cena. “Quando ele não está contente com alguma coisa, ele vai te dizer”, um deles me contou. Uma queixa de um funcionário, escrita em 2017 e seguida de uma investigação por parte do IHU, descrevia os “gritos”, “insultos” e a “intimidação psicológica” praticados por “uma liderança pertencente a outra época”. Na entrada do instituto, há uma frase de Horácio: “Erigi um monumento mais duradouro que o bronze.”

Nos últimos anos, Raoult, ao que parece, tem se divertido com afirmações científicas tendenciosas, por vezes em território muito além de sua especialidade. É cético, por exemplo, quanto à utilidade de modelos matemáticos no âmbito da epidemiologia. A mesma lógica o levou a concluir que os cientistas que desenvolvem modelos climáticos nada mais são que “adivinhos” de nossa “era científica”, e que suas previsões medonhas são, em grande parte, apenas uma tentativa de expiar nosso sentimento de culpa, intenso, mas irracional.

Raoult descarta também o alarmismo, tão comum entre especialistas em doenças infecciosas. De início, duvidou que o Sars-CoV-2 fosse se espalhar para além das fronteiras da China, ou que, caso o fizesse, pudesse vir a representar um problema terrível. Em 20 de janeiro, cientistas chineses confirmaram que o vírus era transmitido de um paciente para outro, e o presidente Xi Jinping, em sua primeira manifestação pública acerca do novo coronavírus, declarou que seria preciso tomar todas as medidas possíveis para conter o surto. A OMS anunciou uma reunião de emergência. No dia seguinte, em Marselha, Raoult postou um vídeo no canal de seu instituto no YouTube. Olhava para seu entrevistador (fora de quadro) com olhos cansados e, suspirando, dizia: “Você sabe, o mundo enlouqueceu.” Todo ano, declarou, provavelmente seiscentas ou setecentas pessoas morrem de infecções provocadas por coronavírus na França, e outros milhares morrem de outras doenças respiratórias. “O fato de pessoas terem morrido por causa de um coronavírus na China não significa muita coisa para mim”, acrescentou. “Eu não sei, talvez as pessoas não tenham nada para fazer e, por isso, foram procurar na China alguma coisa da qual ter medo.”

Seu livro mais recente, Épidémies: Vrais Dangers et Fausses Alertes (Epidemias: perigos reais e alarmes falsos), foi publicado na França no final de março, quando a OMS já reportara mais de 330 mil casos confirmados de Covid-19 e mais de 14,5 mil mortes em todo o mundo. Ele escreve: “Essa angústia com a epidemia está completamente desvinculada da realidade das mortes por doenças infecciosas.”

 

Para os padrões da biologia molecular, a reação em cadeia da polimerase (PCR) em tempo real – a tecnologia mais empregada para detectar a presença do Sars-CoV-2 – não é extraordinariamente complexa, mas depende da coleta do material, de máquinas termocíclicas, reagentes químicos e de sondas (probes) e iniciadores (primers) de nucleotídeos. Se um desses componentes está em falta, os testes não podem ser realizados. Desde janeiro, quando o genoma do Sars-CoV-2 foi publicado, o IHU comprou ou tomou emprestado o maior número possível desses componentes, gastando meio milhão de euros apenas em novas máquinas. Quaisquer que fossem as reservas de Raoult em relação ao vírus, ele não pretendia perder a oportunidade de estudá-lo e, talvez, ganhar a corrida em busca do tratamento. Seu instituto é financiado, sobretudo, por recursos públicos – Raoult recebeu mais de 800 milhões de euros para construí-lo, em valores de hoje –, mas, na prática, detém o comando sobre o seu próprio orçamento pois, como diretor, ele tem o controle quase absoluto sobre o que se passa lá dentro. “A rigor, ele pode dizer: ‘Esperem aí, quero transformar o quarto e a sala de jantar numa cozinha’”, afirma Michel Drancourt.

Ali trabalham quase oitocentas pessoas. No começo de março, quando os pacientes de coronavírus começaram a chegar, quase toda a equipe concentrou seus esforços no Sars-CoV-2. Raoult obteve permissão para dar início a um pequeno ensaio clínico dedicado à hidroxicloroquina. Como, porém, as infecções respiratórias virais muitas vezes levam a infecções bacterianas secundárias, ele quis testar um antibiótico suplementar em alguns pacientes, e escolheu a azitromicina, que já havia testado contra o zika vírus. “Se é para escolher um, melhor escolher aquele que já se mostrou ativo no combate a um vírus”, disse Bernard La Scola, que chefia o laboratório de biossegurança do IHU.

A hidroxicloroquina, acredita-se, inibe a reprodução viral em células infectadas aumentando seu pH, como na febre Q e na doença de Whipple. O mecanismo antiviral da azitromicina ainda não tem explicação. Mas, se funciona, funciona. Se dependêssemos dos medicamentos cujos mecanismos são bem conhecidos, certo número de remédios populares não seria utilizado – um exemplo é o acetaminofeno, princípio ativo do Tylenol. Perguntei a Raoult se a ideia de testar os dois medicamentos em conjunto tinha surgido de discussões com sua equipe. “Foi minha”, ele respondeu. “Não se iluda.”

Os testes estavam previstos para durar duas semanas por paciente, mas, passados meros seis dias, os resultados foram tão favoráveis que Raoult decidiu pôr fim ao ensaio e publicar o relatório. “Em geral, dedicaríamos algum tempo para escrever com calma, fazer correções, ponderar, examinar as coisas cinquenta vezes”, contou-me Philippe Gautret, o chefe de departamento cujo nome encabeça a lista de autores. “Mas, nesse caso, trabalhávamos com um sentimento de efetiva urgência. Porque achávamos que tínhamos de divulgar aquilo, pois era possível que tivéssemos encontrado um modo de melhorar a situação.”

Outros talvez tivessem procedido com maior cautela ou aguardado para confirmar os resultados num ensaio clínico maior e mais rigoroso. Mas Raoult, antes de mais nada, gosta de ver a si próprio como um médico, como alguém dotado de uma obrigação moral de tratar seus pacientes, o que supera todo e qualquer desejo de produzir dados confiáveis. “Não vamos dizer a uma pessoa: ‘Escute, hoje não é seu dia de sorte, você vai receber o placebo e vai morrer’”, disse-me ele. Raoult acredita que, no caso de tratamentos para doenças infecciosas letais, além de não ser ético, é desnecessário promover ensaios clínicos controlados e randomizados (de sigla ECR). Se eles se tornaram o padrão na pesquisa biomédica é apenas porque agradam estatísticos “que nunca viram um paciente”, argumenta. A esses cientistas, ele chama, desdenhosamente, de “metodologistas”.

O artigo publicado por Raoult continha resultados de 36 pacientes. Catorze haviam sido tratados com sulfato de hidroxicloroquina; seis, com uma combinação de sulfato de hidroxicloroquina e azitromicina; e dezesseis integravam o grupo de controle, que não tomaram nenhum dos dois medicamentos. No sexto dia do ensaio, catorze dos dezesseis integrantes do grupo de controle ainda testaram positivo para o vírus. O grupo dos catorze pacientes tratados com hidroxicloroquina estava se saindo bem melhor: apenas seis testaram positivo no sexto dia. E o dado mais encorajador: todos os seis pacientes tratados com a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina estavam livres do vírus.

Vários proeminentes médicos franceses alertaram para o fato de que os resultados tinham de ser confirmados e advertiram para possíveis efeitos colaterais. O ministro da Saúde francês considerou o ensaio promissor, mas pediu mais testes. Raoult já havia começado a coletar dados para um estudo mais extenso, mas descartou a necessidade de algo particularmente vasto ou amplo. Como outros críticos dos ECRs, ele gosta de ressaltar que um certo número de progressos no âmbito da saúde humana jamais foram validados por testes tão rigorosos. O raciocínio é conhecido como o “paradigma do paraquedas”: tendemos a aceitar que o uso do paraquedas reduz os danos em pessoas que saltam de aviões, mas esse benefício jamais foi comprovado por um estudo randomizado comparando um grupo de pessoas com paraquedas e um grupo de controle, formado pelos infelizes que saltariam do avião sem paraquedas. “É como Didier diz”, Drancourt comentou comigo: “Se você não tem algo que é visível em dez pacientes ou trinta, é inútil. Não faz diferença nenhuma.” Um tratamento eficaz para uma doença infecciosa potencialmente letal será visível a olho nu.

 

No dia 16 de março, Gregory Rigano, um advogado de Long Island, entusiasta da tecnologia blockchain, apareceu no The Ingraham Angle, o programa noturno de Laura Ingraham na Fox News norte-americana. Ingraham abriu a conversa com a seguinte pergunta: “E se já existir no mercado um medicamento barato e amplamente acessível para tratar o vírus? Bem, de acordo com um novo estudo, esse remédio já existe. Chama-se cloroquina.” Rigano, que na época se apresentava como consultor da Escola de Medicina de Stanford, o que era mentira, havia publicado um relatório celebrando o potencial da cloroquina: “Um tratamento eficaz para o coronavírus (Covid-19).” Era um documento composto no Google Docs e formatado para se parecer com uma publicação científica. O relatório tinha começado a circular na mídia direitista e também no Vale do Silício – Elon Musk tuitou um link para o texto. Raoult viu o documento e percebeu a atenção que ele estava recebendo na internet. Outro pesquisador poderia ter achado irresponsável e perigoso aquele tipo de publicação. Raoult, porém, começou a se corresponder com Rigano e com seu coautor, James Todaro, oftalmologista e investidor de bitcoin. E os autorizou a compartilhar os resultados que obtivera, mas que ainda não tinham sequer sido publicados.

No ar, Rigano anunciou que um pesquisador do Sul da França, “um dos mais eminentes especialistas em doenças infecciosas do mundo”, estava prestes a publicar os resultados de um grande estudo clínico. “Em cerca de seis dias, pacientes medicados com hidroxicloroquina testaram negativo para o coronavírus, para a Covid-19”, afirmou, sem mencionar a azitromicina. “Temos um forte motivo para acreditar que uma dose preventiva de hidroxicloroquina vai impedir o vírus de se fixar no corpo e eliminá-lo completamente”, acrescentou. Ingraham complementou: “Isso é um divisor de águas.”

Nos dias que se seguiram, Ingraham perguntou sobre o medicamento para Anthony Fauci, o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e membro da força-tarefa de Trump para a pandemia, e para Alex M. Azar ii, o secretário de Saúde e Serviços Sociais dos Estados Unidos. Sean Hannity, um apresentador, radialista e comentarista político de direita da própria Fox News, começou a promover o remédio como a cura para a Covid-19. “Vamos colocar a coisa da seguinte maneira”, disse ele em seu programa de rádio: “Se eu tivesse a doença – eu, pessoalmente, estou falando apenas por Sean Hannity –, correria atrás desse remédio.” Rigano, por sua vez, apareceu no programa de Tucker Carlson, também da Fox News, e afirmou que o estudo de Raoult havia mostrado que a hidroxicloroquina tinha “uma eficácia de 100% contra o coronavírus”. De acordo com James Todaro, o coautor, Raoult lhe enviara uma cópia de seu trabalho e o autorizara a postá-lo no Twitter naquele mesmo dia, ou seja, dois dias antes da divulgação da versão preliminar do estudo: “Eu imagino que ele nos deu permissão porque sabia que era a maneira mais rápida de divulgar os resultados de seu ensaio.” (Pedi comentários de Rigano a esse respeito, mas não obtive resposta.) Mais tarde, o próprio Raoult apareceu no Dr. Oz Show, o programa apresentado por Mehmet Oz, um médico que virou celebridade e é convidado frequente da Fox News. Oz é, também ele, um promotor da hidroxicloroquina. “Acredito que ideias e teorias são epidêmicas”, Raoult escreveu certa feita. “Quando boas, elas deitam raízes.”

Trump começou a inflar a hidroxicloroquina em 19 de março, numa coletiva de imprensa na Casa Branca com sua força-tarefa.[2] “Eu acho que vai ser muito interessante”, disse. “Acho que pode ser um divisor de águas, ou talvez não. Talvez não. Mas, baseado no que vejo, acho que pode ser, pode ser um divisor de águas. É uma coisa muito poderosa.” Sugeriu então, erroneamente, que o FDA tinha aprovado o medicamento para uso contra a Covid-19. Não mencionou a azitromicina. Stephen M. Hahn, do FDA, mais tarde corrigiu gentilmente o presidente, dizendo que um amplo ensaio clínico seria o modo apropriado de avaliar o valor terapêutico da droga.

Ainda assim, como a cloroquina e a hidroxicloroquina estão disponíveis para o tratamento de outras enfermidades, os médicos puderam receitá-las para pacientes da Covid-19, ainda que os remédios não tenham sido aprovados para esse fim, caso julgassem que trariam benefícios. A falta do medicamento começou a ser relatada em seguida.[3] O FDA, aparentemente sob forte pressão do governo Trump, emitiu uma autorização para o uso emergencial do fosfato de cloroquina e do sulfato de hidroxicloroquina, o que deu aos médicos acesso a dezenas de milhares de doses desses medicamentos pela via do Estoque Nacional Estratégico, o estoque norte-americano de suprimentos médicos de emergência. Numa atitude incomum, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), aparentemente instado diretamente por Trump, publicou diretrizes para a prescrição dessas drogas para a Covid-19, e o fez baseado em estudos de casos restritos e não identificados. (As diretrizes foram posteriormente revogadas.) Um alto funcionário governamental da área biomédica foi afastado de seu posto, segundo ele próprio afirma, por ter resistido à pressão política para financiar “drogas potencialmente perigosas”, incluindo a hidroxicloroquina.[4]

Há muita coisa em Raoult – nele e no tratamento que propõe – capaz de torná-lo atraente a um homem como Donald Trump. Raoult é um iconoclasta com cabelos engraçados; acha que todo mundo é burro, em especial aquelas pessoas geralmente consideradas inteligentes; é amado pelos raivosos e adeptos de teorias da conspiração; e louva a si próprio de forma quase incessante. Conversei com ele diversas vezes depois que foi assinada a autorização para uso emergencial das drogas nos Estados Unidos. Ele me disse que não tinha ouvido falar disso e pareceu surpreso, mas disse também que ficara impressionado com a intuição de Trump acerca da hidroxicloroquina. “Não é tão idiota”, comentou, rindo. Ele caracterizou a psicologia de Trump como a do “empreendedor”, em oposição à do “político”. “Empreendedores são pessoas que sabem decidir, sabem assumir riscos”, disse. “E, em certa medida, decidir é assumir um risco. Toda decisão é um risco.”

Em sua avaliação, os franceses esperaram demais para aprovar o uso da hidroxicloroquina contra a Covid-19, mas só o fizeram para o caso de pacientes em estado grave. A autorização veio depois que Raoult anunciou para a imprensa que, “em consonância com o juramento hipocrático”, continuaria a tratar pacientes com sua combinação de drogas. “Estou convencido de que, no fim, é o tratamento que será empregado por todo mundo”, declarou ele ao Le Parisien. “É apenas uma questão de tempo até que as pessoas engulam sua descrença.”

 

A dinâmica de uma crise não se presta exatamente a produzir ciência confiável. Em outubro de 1985, nos terríveis anos iniciais da epidemia da Aids, um grupo de médicos franceses, ao lado da ministra francesa da Saúde e Serviços Sociais, promoveram uma coletiva de imprensa para anunciar ao mundo que haviam descoberto o que parecia ser uma cura. A droga era a ciclosporina, um imunossupressor barato que, até então, era usado em transplantes de órgãos para prevenir a rejeição a novos tecidos. Em pacientes com Aids, a ciclosporina produzia o efeito paradoxal de aumentar a contagem de glóbulos brancos; os pacientes experimentavam uma “melhora espetacular”, nas palavras de um dos pesquisadores. O anúncio, porém, baseava-se no resultado obtido com apenas dois pacientes, e ambos só haviam iniciado o tratamento uma semana antes. Os cientistas foram amplamente criticados na época por desrespeitar as normas da pesquisa biomédica e apresentar dados tão limitados. Eles responderam o seguinte: “Dado o vigor de nossa hipótese, acreditamos que, do ponto de vista ético, não podíamos continuar mantendo nossos resultados em segredo apenas em respeito às leis habituais da conduta científica.”

“Como Raoult, eles estavam convencidos do que diziam”, observa Jean-Michel Molina, que dirige os departamentos de doenças infecciosas de dois hospitais públicos de Paris. “Sentiam que tinham encontrado uma cura.” Logo depois do anúncio, um dos dois pacientes morreu, e ficou-se sabendo que um terceiro havia falecido antes da coletiva à imprensa, mas fora excluído dos resultados relatados porque seu caso era considerado grave demais para ser revertido. Semanas depois, a contagem de glóbulos brancos do outro paciente tinha caído para os níveis anteriores. A experimentação com ciclosporina logo cessou.

A exemplo de muitos médicos, Molina viu com ceticismo o estudo de Raoult, mas estava curioso para saber se o tratamento proposto poderia, afinal, funcionar. Testou hidroxicloroquina e azitromicina em onze de seus próprios pacientes. “Tínhamos pacientes graves e queríamos tentar alguma coisa”, ele me contou. Em cinco dias, um morreu, e dois outros foram transferidos para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Em outro paciente, o tratamento foi suspenso com o surgimento de problemas cardíacos, um conhecido efeito colateral das drogas usadas. Oito dos dez sobreviventes seguiam testando positivo para o Sars-CoV-2 ao final do estudo. Os dados dos testes de Raoult provinham de pacientes em estágio inicial ou mais ameno da doença, em que as cargas virais são menores, razão pela qual perguntei a Molina se seus pacientes não estavam doentes demais para se beneficiar do tratamento. “Se houvesse atividade antiviral, ela teria de ser visível”, explicou. “Tudo bem, você pode dizer ‘é tarde demais, você não vai ver o benefício clínico’. Mas, se é um antiviral, teríamos que pelo menos ver atividade antiviral.”

O estudo de Raoult medira apenas a carga viral. Não oferecia dados sobre resultados clínicos, nem estava claro se os sintomas reais dos pacientes tinham melhorado, nem mesmo se os pacientes tinham sobrevivido ou morrido. De início, 26 pacientes foram escalados para receber a hidroxicloroquina, seis a mais que os vinte que constavam do resultado final. Os autores escreveram o seguinte sobre esse descompasso: “Os seis pacientes adicionais não puderam ser acompanhados em virtude da cessação precoce do tratamento.” As razões apontadas para a interrupção do tratamento eram preocupantes. Um paciente parara de tomar a droga depois de começar a sentir náuseas. Três outros tinham sido transferidos para uma UTI fora do instituto. Outro morrera. E o paciente restante decidira deixar o hospital antes do final do tratamento. “Portanto, na verdade, quatro dos 26 não estavam se recuperando coisa nenhuma”, apontou a consultora em integridade científica Elisabeth Bik, numa postagem em seu blog sobre o estudo de Raoult, que circulou amplamente pela internet. Bik parafraseou o sarcasmo que corria pelo Twitter: “Meus resultados sempre parecem espantosos, se deixo de fora os pacientes que morreram.”

O relatório de Raoult estava também repleto de discrepâncias e erros. Os critérios de seleção demandavam participantes maiores de 12 anos, mas três membros do grupo de controle eram ainda mais jovens. Além disso, esse grupo continha pacientes não apenas do IHU, mas também de hospitais de duas outras cidades, nos quais o padrão de atendimento e os protocolos de teste podiam diferir. No sexto dia, quando o estudo foi encerrado, catorze dos dezesseis pacientes do grupo de controle testaram positivo para o vírus. Mas, na verdade, de acordo com o relatório inicial, naquele dia nenhum dado havia sido coletado de cinco dos catorze pacientes. No fim, constatou-se que um dos seis receptores de hidroxicloroquina e azitromicina – registrado como “virologicamente curado” no sexto dia – ainda era portador do vírus dois dias mais tarde.

Esse aparente desleixo não surpreendeu a muitos dos que examinaram o trabalho de Raoult no passado. Um importante microbiologista francês contou-me que, em termos de publicações, a reputação de Raoult entre cientistas “acabou-se há tempos”. “Em particular”, o pesquisador me escreveu, “todo mundo concorda que são baixas a confiabilidade e a reprodutibilidade da maioria dos artigos que saem do seu laboratório.” (Ele pediu anonimato para não irritar Raoult, a quem conhece pessoalmente.) Em 2018, depois de avaliações negativas, os principais laboratórios de Raoult foram desvinculados de duas das mais importantes instituições públicas de pesquisa da França. Considerou-se que ele produzira um número extraordinário de publicações, mas poucas de grande qualidade. “É muito fácil publicar [palavrão], quando você sabe como a coisa funciona”, diz a infectologista Karine Lacombe, professora de medicina em Paris que, nos últimos tempos, tem sido uma das críticas mais francas de Raoult.

Além dos erros e omissões visíveis, a concepção do estudo – seu tamanho reduzido, o mecanismo deficiente de controle, a distribuição não randomizada de pacientes para os grupos de tratamento e de controle – faz com que suas conclusões sejam inúteis. Fauci diversas vezes chamou esse resultado de um mero “estudo de caso”, e a bioestatística que analisou o artigo para o comitê consultor para o coronavírus do governo francês escreveu que era “impossível atribuir o efeito descrito ao tratamento com hidroxicloroquina”.

Os ensaios grandes, bem controlados e randomizados não são, de forma alguma, o único caminho para se chegar a descobertas científicas úteis. A vantagem é que eles amplificam sinais estatísticos de tal forma que, mesmo em meio ao ruído da variabilidade humana e do acaso, pode-se detectar até o efeito mais débil de um novo tratamento. O principal obstáculo estatístico que qualquer tratamento proposto para a Covid-19 terá de transpor é que o sinal será provavelmente muito fraco, porque, no fim das contas, a doença raras vezes é fatal. Quase todos sobrevivem. Um tratamento eficaz salvará a vida de um ou outro paciente a cada cem que não teria sobrevivido sem ele. “As pessoas às vezes dizem: ‘Se o paciente melhora, é por causa do remédio; se piora, é por causa do vírus’”, Molina me disse. “Mas claro que isso não é verdade. E é por isso que precisamos de um estudo bem conduzido, randomizado e com um grupo de controle, se quisermos demonstrar alguma coisa.” É possível que a hidroxicloroquina e a azitromicina sejam eficazes no tratamento da Covid-19. Mas o que o estudo de Raoult demonstrou, na melhor das hipóteses, é que vinte pessoas que quase certamente teriam sobrevivido sem tratamento nenhum também sobreviveram depois de tomarem por seis dias a medicação por ele prescrita.[5]

“Se você não fez isso, pode olhar para um relatório sobre como as pessoas respondem a um tratamento assim e concluir que a resposta está ali – bem ali. E se alguém não estiver vendo é porque deve ter outras motivações”, escreveu Derek Lowe, experiente pesquisador farmacêutico, para a Science Translational Medicine, no mês de abril. “Mas não é assim que funciona”, ele prossegue: “Remédios para o Alzheimer, para a obesidade, para problemas cardiovasculares, para a osteoporose – muitas e muitas vezes, resultados que pareciam positivos evaporaram quando examinados mais de perto. Depois que você passa por isso umas poucas vezes, aprende a sério que a única maneira de ter certeza das coisas é fazer ensaios controlados suficientemente robustos. Nada de atalhos, nada de intuição: só dados.”

 

“Já inventei uns dez tratamentos em minha vida”, Raoult me contou. “Metade deles é empregado no mundo todo. Nunca fiz um estudo duplo-cego, nunca. Nunca! Tampouco qualquer coisa randomizada.” Com alguma satisfação, ele comenta que a crítica foi mais intensa do que previra. “Honestamente, não podia imaginar que deflagraria um frenesi como esse”, diz, recostando-se na cadeira de seu escritório, ao se referir à tempestade que havia criado no mundo lá fora. “Quando você conta a história, é bem preto no branco, não é? Sujeito, verbo, complemento. Você detecta uma doença; tem um remédio que é barato e que sabemos bem que é seguro, porque 2 bilhões de pessoas usam; nós receitamos, e ele muda o que tem de mudar. Pode não ser um produto milagroso, mas é melhor que não fazer nada, não é?”

Seus subordinados defenderam o estudo como o melhor que podiam fazer, dadas as circunstâncias, e a maneira mais rápida de alertar o mundo para a possibilidade de um tratamento. A inclusão de pacientes de outros hospitais no grupo de controle, por exemplo, não era o ideal, mas era a única opção que permitiria rapidez. “Claro que é uma fraqueza metodológica”, disse-me Gautret, um dos autores do estudo. “Mas nos viramos com o que tínhamos.” Quanto aos seis pacientes “não acompanhados”, ainda que tivesse sido possível coletar os dados, não teria sentido incluir a maioria deles no relatório. O propósito era “tratar pessoas nos estágios iniciais da doença, quando ela ainda não é grave”, afirma ele. “Sabemos que, em doenças agudas causadas por vírus, quanto mais cedo você tratar, maior a chance de sucesso. Não tem sentido incluir no estudo pessoas à beira da morte. Não estamos dizendo que somos capazes de tratar pessoas à beira da morte.” Um outro estudo pequeno, com oitenta pacientes, também mostrou melhores resultados em pacientes com formas mais amenas da doença.

Em Marselha, Raoult me contou que publicaria um terceiro estudo na semana seguinte, dessa vez com mil pacientes. Os resultados iniciais foram publicados em meados de abril. Ele tratara 1 061 pacientes com uma combinação de hidroxicloroquina e azitromicina. Não era um estudo randomizado nem dotado de grupo de controle. No momento da publicação da versão preliminar, oito haviam morrido, e cinco permaneciam hospitalizados, ao passo que 46 haviam experimentado “resultado clínico pobre”. O resumo do experimento dizia: “Até o momento, 98,7 % dos pacientes curados.” A terapia proposta constituía um “tratamento seguro e eficaz para a Covid-19”, escreveram os autores.

Outros cientistas discordaram dessa caracterização. “A taxa de cura é quase idêntica à que já foi descrita quando se deixa a doença seguir seu curso natural”, declarou a virologista Christine Rouzioux à rádio francesa. Karine Lacombe chamou as conclusões de Raoult de “pensamento mágico”. E acrescentou: “Honestamente, eu acho que ele não demonstrou coisa nenhuma.” De resto, logo se descobriu que o segundo e o terceiro estudos haviam sido conduzidos sem a aprovação de um comitê de ética estatal. Numa versão inicial do terceiro artigo, Raoult escreveu que tinha conduzido “um estudo retrospectivo num grupo de pacientes que recebeu o tratamento padrão, de acordo com um protocolo de pesquisa previamente registrado”. Fez, então, referência ao protocolo que fora aprovado para o primeiro ensaio. Mas esse protocolo incluía apenas a hidroxicloroquina, sem azitromicina. Raoult nunca obteve aprovação para testar sistematicamente uma combinação de ambas as drogas.

Em meados de abril, a ANSM, agência reguladora francesa para medicamentos, enviou-lhe um pedido para que comprovasse a “legalidade” do segundo estudo. Mais para o fim do mês, o Conselho Francês de Medicina publicou uma declaração lembrando seus membros (e, em especial, Raoult, como muitos acreditam) de que “pôr pacientes em perigo”, por sua exposição a “tratamentos desprovidos de validação científica”, era passível de suspensão imediata. Raoult respondeu no Twitter, onde ele tem hoje meio milhão de seguidores, que a ameaça do Conselho “obviamente” não se aplicava a seu caso. Numa declaração sobre a investigação da ANSM, o IHU insistiu que o estudo não envolvera experimentação, porque não empregara “nenhum procedimento além do padrão” – que, no IHU, era hidroxicloroquina com azitromicina.

Raoult estava então começando a perder a compostura. Acusou Lacombe de cumplicidade com a indústria farmacêutica, e os fãs dele enviaram a ela ameaças de morte. No Twitter, chamou Bik (a consultora que criticara o primeiro estudo) de “caçadora de bruxas” e caracterizou como fake news um estudo que ela havia tuitado – um dos muitos, publicados entre abril e maio, que pareciam sugerir que o tratamento de Raoult era ineficaz ou mesmo prejudicial. Os autores de outro estudo desse tipo foram acusados de “fraude científica”. “Meus detratores são crianças!”, ele disse a uma entrevistadora. Então, a atenção do mundo voltou-se para novos estudos com outras drogas, e Raoult pôs-se a atacar as fraquezas metodológicas desses estudos.

Os resultados de seu ensaio inicial ainda precisam ser replicados. Michel Molina me disse o seguinte: “Eu acho que, em segredo, ele espera que ninguém jamais seja capaz de demonstrar coisa nenhuma, que todos os testes com a hidroxicloroquina não sejam capazes nem sequer de chegar à conclusão de que ela é ineficaz.” Recentemente, Raoult na verdade moderou seus clamores quanto às virtudes do tratamento que propõe. A versão final do estudo, já revisada por seus pares, apontou que dois outros pacientes morreram, elevando o total de mortes para dez. No trecho da versão anterior que caracterizava as drogas como “seguras e eficazes”, restava agora apenas a palavra “seguras”.

Raoult tem mostrado indícios daquilo que parece ser alguma dúvida. Numa entrevista, parafraseando o fecho fatalista de O Estrangeiro, de Albert Camus, disse que “deve haver muitos espectadores no dia da minha execução e eles devem me receber com gritos de ódio”.

“Não confio em popularidade”, declarou à entrevistadora. “Quando pessoas demais pensam que você é maravilhoso, melhor você começar a se questionar.” Seu vídeo inicial no YouTube, “Coronavírus: game over!”, foi também renomeado. A nova linguagem é mais ponderada e, no lugar do ponto de exclamação, figura agora uma interrogação.[6]


[1] Em artigo publicado em 1990, três microbiologistas (o alemão Otto Kandler e os norte-americanos Carl Woese e Mark Wheelis) propuseram a classificação, amplamante aceita hoje, segundo a qual os seres vivos estão agrupados em três domínios: Archaea, Bacteria e Eukarya.

[2] O presidente Jair Bolsonaro começou a defender publicamente a cloroquina – uma versão mais tóxica do que a hidroxicloroquina – no dia 21 de março, nas redes sociais, dois dias depois da coletiva do presidente Donald Trump.

[3] No Brasil, os primeiros relatos de falta de cloroquina nas farmácias apareceram entre os dias 19 e 20 de março, provavelmente como efeito da coletiva do presidente Donald Trump, na qual elogiou o medicamento. No dia 21, quando defendeu a cloroquina publicamente, o presidente Jair Bolsonaro também deu ordens para que o Exército ampliasse a fabricação do remédio.

[4] No Brasil, o ex-ministro da Saúde, o ortopedista Luiz Henrique Mandetta, ampliou as possibilidades para o uso de cloroquina, mas não permitiu que o ministério recomendasse sua aplicação generalizada, o que contrariava o desejo de Bolsonaro. No dia 15 de maio, o então ministro da Saúde, o oncologista Nelson Teich, deixou o cargo porque, entre outras razões, também autorizara o uso de cloroquina apenas em casos graves, moderados ou de internação, e sob orientação médica, o que também não atendia o desejo do presidente. No dia 20 de maio, o ministro interino, general Eduardo Pazuello, que não tem formação médica, divulgou um protocolo liberando o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para todos os pacientes de Covid-19.

[5] No dia 22 de maio, a revista médica The Lancet publicou o resultado de um amplo estudo com 96 mil pacientes de Covid-19. O estudo concluiu que o uso de cloroquina e hidroxicloroquina contra a doença é ineficaz e até perigoso, podendo provocar arritmia cardíaca e aumentar o risco de vida. Três dias depois, em 25 de maio, a Organização Mundial da Saúde suspendeu o uso de hidroxicloroquina nas pesquisas que ela própria vinha coordenando com centenas de cientistas.

[6] No dia 27 de maio, diante das evidências científicas reunidas até agora, a França decidiu proibir o uso da hidroxicloroquina no combate à Covid-19 em todo o seu território.

*
Nota: No dia 4 de junho, a revista médica The Lancet publicou uma retratação anulando a validade do estudo com dados de 96 mil pessoas com Covid-19. A revista informou que o estudo se baseara em dados hospitalares fornecidos pela empresa norte-americana Surgisphere, que se recusou a abri-los publicamente mesmo diante das suspeitas de inconsistência. Diante disso, tornou-se impossível a verificação independente da qualidade dos dados. Com a anulação do estudo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retomou as pesquisas com hidroxicloroquina que havia suspendido em 25 de maio.

Scott Sayare

É repórter e escritor

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