esquina

O Armani dos botões

Tem Flamengo amarelo, rosa, da época do Zico...

Giovanni Nóbile Dias
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Eram onze da noite quando o professor de literatura Jeferson Aparecido de Carvalho chegou em casa, em Cambé, município colado a Londrina. Cumprimentou mulher e filhos e correu, apressado, para o escritório – uma saleta de 3 por 3 metros. A parede estava apinhada de medalhas ganhas em competições de futebol de mesa. O armário guardava o troféu de terceiro lugar no Campeonato Paranaense Interclubes (de mesa). E recostada à parede, repousava metade de uma mesa de futebol. É nela que Carvalho testa sua criação.

Aos 33 anos, Jeferson Carvalho se especializou em desenhar uniformes para equipes de futebol de botão (ou de mesa, como é chamado por uma dissidência mais ortodoxa). Recebe em média 25 encomendas por mês, que entrega mediante pagamento de 35 reais por time. “Não faço as peças. Só crio o estilo”, conta. O serviço é sazonal, e costuma se intensificar em épocas de campeonato. “Todo botonista é meticuloso. Gasta o que for preciso para ter um time bonito”, relata Carvalho, que chegou a acumular mil reais em um mês de vacas gordas. “Tem gente até de Alagoas que me encomenda estas artes.”

Pouco mais de um ano atrás, Carvalho criou o blog Vitrine do Botão, onde expõe seu trabalho acompanhado de e-mail e telefone. Seu processo de criação funciona da seguinte forma: primeiro, o cliente escolhe um time – que pode ser nacional, como o XV de Piracicaba; ou estrangeiro, como o Manchester United. Em seguida envia, pelo correio, o conjunto de botões a serem decorados, para que Carvalho tenha noção exata da cor do acrílico. “Isso é fundamental”, ele diz. “A diferença entre o tom da peça e do uniforme pode resultar em uma combinação bonita ou totalmente estranha.”

Uma vez que tem os botões em mãos, Carvalho esboça oito opções de uniforme, em Photoshop, para que o contratante escolha qual delas ilustrará suas peças. Como garantia, assegura que a arte escolhida jamais será usada em outro time (o preciosismo tem sentido, em vista de que equipes de botão não contam com uniforme reserva). O desenho é impresso num birô de Londrina, por 8 reais, em papel metálico “para dar um brilho”. Carvalho se encarrega de colá-lo no acrílico, usando uma luva escura para não sujar o papel com as digitais.

Em um ano na alfaiataria de botão, ele calcula ter produzido mais de 200 times. Seu catálogo conta com os uniformes do Olympique de Marseille (França), Borussia Dortmund (Alemanha), Fenerbachçe (Turquia), além da Seleção Brasileira de 2002, com fotos dos jogadores em degradê, sobre um fundo amarelo. Normalmente a clientela pede que a arte se assemelhe ao uniforme do time, com escudo, número de camisa, nome do jogador e marcas de material esportivo e patrocínio. Quando cria para consumo próprio (ele tem dezesseis times em casa), Carvalho prefere fugir à regra. O uniforme que mais o orgulha é o do time inglês Chelsea, que produziu em junho de 2008, com o emblema ocupando mais da metade dos botões de madrepérola.

 

O futebol de mesa foi criado nos idos dos anos 30 pelo campinense Geraldo Décourt, o Charles Miller do esporte, que jogava com os botões das próprias calças. Após a edição do primeiro livro de regras da modalidade, feito pelo próprio Décourt, o futebol de mesa se espalhou pelo Brasil. Hoje, é jogado do Chile ao Japão, passando pela Hungria, onde foi realizado o Mundial de 2009.

Nos primórdios, os botões eram feitos de peças de roupa, casca de coco e tampa de relógio. Na década de 1970, quando a brincadeira se popularizou, as peças passaram a ser produzidas por marcas de brinquedos, em plástico, e já vinham com os símbolos dos clubes. Hoje, botonista que se preza só joga com peça de acrílico (um conjunto de treze peças – dez na linha, duas na reserva e uma no gol – chega a custar 190 reais). A Confederação Brasileira de Futebol de Mesa se encarrega de organizar o calendário anual da modalidade (o Campeonato Brasileiro foi disputado em junho, no Rio de Janeiro). Em dezembro, Carvalho representará o Instituto Vagner Nunes no Campeonato Paranaense Interclubes.

Ex-torcedor do Santos, Carvalho virou a casaca por acreditar que os times brasileiros não respeitam seus torcedores. Hoje, divide a paixão futebolística entre o Real Madrid (time que adotou como se fosse o de infância) e o botão, que pratica nas noites de quarta e sábado, com mais vinte jogadores, numa sala do Grêmio Literário e Recreativo Londrinense. Foi lá que conheceu Victor Heremann, atual campeão da Copa do Brasil de Futebol de Mesa, que, desde então, só usa times com a grife de Carvalho. “Esses dias mesmo ele me pediu umas artes do Flamengo. Tem de tudo que é jeito: Flamengo amarelo, Flamengo rosa, Flamengo com o uniforme da época do Zico.”

Carvalho não trabalha apenas com times que existem. Ele conta já ter feito equipes de bairro e, no começo do ano, para um cliente de Curitiba, um escrete com personagens de filmes de terror. Era Hannibal Lecter e Freddy Kruger na zaga, Jason no meio-campo e Chuck no ataque. Frankenstein e Conde Drácula já haviam pendurado as chuteiras naquela época.

Giovanni Nóbile Dias

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