esquina

O ataque das guináticas

Uma vítima do funk ostentação

Alexandre Alliatti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

O funk ostentação entrou com tudo na vida de Bianca Yonamine em outubro último. Nos seis meses seguintes, não passou um minuto sequer sem que o celular da estudante, filha de japoneses, não recebesse mensagens de fãs embevecidos com as músicas Vai no Cavalinho, Novinha Bandida e Elas Gostam Assim, que trazem versos como “Essa mulher enlouqueceu/ Ela quer montar em cima de mim”, “Gosta de sentar de noite/ Gosta de sentar de dia” e “Eu trombei com as quatro delícia no Porsche Cayenne ao som do NK”.

As mensagens aproveitavam a multiplicidade de suportes, valendo-se de recursos multimidiáticos: texto, áudio, vídeo e fotos, muitas fotos – algumas de adolescentes vestindo não mais que um biquíni. Tamanho assédio poderia ser prova de uma escolha artística certeira de Bianca, o atestado de que ela domina o universo dos batidões, a comprovação de que nasceu para a fama. Ocorre, porém, que ela não só não entende bulhufas de funk, como gostaria de esganar o intérprete das composições.

A universitária paulista de 22 anos mora no Rio de Janeiro e, até o mês passado, possuía exatamente o mesmo número de telefone divulgado para contato de shows de MC Gui – funkeiro do momento e figura onipresente em programas de rádio e tevê. Com uma diferença: o prefixo de Bianca era 21, do Rio de Janeiro, e o do cantor é 11, de São Paulo. Um detalhe fundamental que passava batido pelos olhos cegos de paixão das guináticas (como as fãs do cantor se autodenominam), mas que infernizava a vida da estudante. O raciocínio partia de uma lógica cartesiana: se é funkeiro, deve ser do Rio de Janeiro; se é do Rio de Janeiro, é 21. Simples assim.

Mas não. Guilherme Kauê Castanheira Alves, o MC Gui, é paulista da capital e em maio completa 16 anos, dos quais os últimos cinco foram dedicados ao funk – primeiro em casa, com o irmão Gustavo, mais como brincadeira; depois, quando o tirocínio paterno percebeu um futuro no métier, profissionalmente. No ano passado, foi a bola da vez na categoria fenômeno de público adolescente (e até mais jovem) ao misturar o visual estilo Justin Bieber (da época em que era fofo e não aprontava) com músicas típicas do funk ostentação, espécie de braço paulista do ritmo, com letras que exaltam o luxo, o acúmulo de bens materiais e a conquista de mulheres. O clipe de uma de suas músicas mais famosas, O Bonde Passou, superou 30 milhões de visualizações no YouTube – “Corpinho uma beleza, carinha de princesa/Vale mais que um diamante, essa mina” – e a consequência foi o mergulho do garoto num frenesi de mais de cinquenta shows por mês, muitas vezes três numa única noite.



 

Quem ficou sem dormir foi Bianca. Ela perdeu a conta das ligações de madrugada, da enxurrada de mensagens de texto, dos recados de voz na caixa postal, das declarações de amor por um aplicativo de bate-papo. E de suas infrutíferas tentativas de explicar que não, ela não era MC Gui. Quanto mais lutava para se livrar das guináticas, mais e mais elas se multiplicavam. Em casa, na faculdade de rádio e tevê, no estágio, nas aulas de kendo (ideais para, de espada em punho, descarregar a raiva), nas mesas de bar – onde quer que fosse, deixar o celular ligado era adentrar o universo interguinático de MC Gui.

E que universo. Bianca enfrentou lições diárias de sexualidade ultraprecoce, antropologia moderna, comunicação de massa por meio de novas tecnologias. Experimentou, acima de tudo, as novas tendências da literatura epistolar.

Conheceu a sedução: “Te amo, gato, você mora no meu coração. Quero muito trocar SMS e outras coisas com você.” O amor incondicional: “Meu tudo, mesmo que você fosse um mendigo, eu ficaria com você pelo resto da vida.” A sinceridade: “Oi, não sou sua fã, mas te acho muito fofo.” O realismo: “Sinceramente, queria muito falar com você, mas infelizmente nem tudo é do jeito que a gente quer. Sou sua fã desde que você começou sua carreira, então queria que você respondesse, mas também não posso te obrigar a nada, e mesmo se eu pudesse não teria capacidade de fazer isso com ninguém.” A revolta: “A sua fã te liga e você fala que é engano????” Conheceu até o primo perdido da cantora Anitta: “Oi, aqui é o primo da Anitta, e ela gosta muito do MC Gui. Olha só, se tiver o número da Anitta, me passa, por favor. Agradeço muito, porque eu perdi.”

Por que Bianca não trocou logo o número de telefone? Não seria tão simples. As mesmas moiras que teceram o destino de MC Gui, encaminhando-o para o estrepitoso sucesso que lhe rende até 150 mil reais por mês, determinaram que a moça precisava batalhar por estágios. Vai daí que ela espalhou pela cidade seu currículo, que além de sua formação registra a mesmíssima combinação de dígitos do funkeiro paulista – os dele, se antecipados pelo prefixo 11, para interessados em shows; os dela, pelo 21, para possíveis ofertas de emprego.

 

Foi preciso uma fatalidade terrível para dobrar a resistência da jovem nissei. Na madrugada de 21 de abril, Gustavo, o irmão de MC Gui, morreu de uma súbita parada cardíaca, aos 17 anos. A caixa postal e o WhatsApp de Bianca explodiram com o lamento e a solidariedade das fãs do funkeiro. Não poucas delas declararam que gostariam de ter morrido no lugar do irmão dele. Bianca não teve opção senão desligar o aparelho, e finalmente, anunciou que se rendeu: planeja trocar o número este mês e se divorciar do universo de MC Gui. “Vou sentir um vazio”, disse.

Alexandre Alliatti

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