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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

esquina

O boa-noite ao meio-dia

O jornalismo é show

Nuno Manna | Edição 39, Dezembro 2009

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Na manhã do dia 12 de novembro, Hélia Ladeia, de 50 anos, caprichou. Deslizou para dentro de um elegante tailleur preto, ajeitou as lentes de contato verde-mata-atlântica, aplicou maquiagem e, encarando o espelho, testou o esforço com um sorriso que comprimia seus olhos e lhe tomava metade do rosto. Estava bem. Quem olhasse mais atentamente, porém, veria que a expressão satisfeita convivia com marcas sutis de ansiedade. Hélia, funcionária do Laboratório de Relações Públicas da Universidade Federal de Minas Gerais, era uma das principais organizadoras do evento que naquela quinta-feira trazia William Bonner para falar a estudantes de Belo Horizonte.

O âncora vinha nas asas do programa Globo Universidade, uma iniciativa da emissora para se aproximar de instituições de ensino superior.

Prevenindo-se contra tumultos, os organizadores preferiram divulgar discretamente o evento. Pouco adiantou. Nos dias que o antecederam, dezenas de pessoas tentaram garantir desde um lugarzinho até fileiras inteiras. Os telefonemas para a universidade, em geral solenes, quase sempre invocavam sólidos interesses acadêmicos e/ou institucionais, mesmo se a credencial solicitada se destinasse à mãe do requerente. Hélia não transigiu. Os ingressos se limitariam à capacidade do auditório – 280 assentos – e obedeceriam à ordem de chegada. Quem quisesse ver, com os próprios olhos, o editor-chefe, apresentador do JN e protótipo do genro ideal, que acordasse com as galinhas.

A Globo fez exigências meticulosas. Seria terminantemente proibido: a) filmar a palestra; b) gravar a palestra; c) pedir entrevistas antes ou depois da palestra. Como a emissora não baixa a guarda da qualidade técnica mesmo quando seus astros estão longe das câmeras, Hélia teve de alugar seis microfones, pois os do auditório não passaram pelo crivo. “Foi tudo na conta da Globo”, apressa-se em dizer,  antecipando-se a eventuais protestos contra a sangria dos parcos recursos federais.

A segurança mereceu atenção especial. Além dos cinco guardas da reitoria, dois seguranças da equipe global acompanharam Bonner, um dos quais fincou raiz no canto do palco, a poucos metros do palestrante. Dali, à moda dos agentes do serviço secreto americano, ele exerceria um papel crucial, embora nada secreto. Seu nome de batismo seria revelado pelo próprio Bonner, que, aliviando o incômodo daquela enorme presença em ambiente estudantil, anunciou logo no início: “Esse aqui é o Ênio, meu amigão. Ele está aqui para me proteger de vocês!” O auditório riu. Ênio, não.

 

A palestra estava marcada para às 9h30. A fila começou a se formar às 5h58, quando chegou o primeiro estudante. Uma hora depois havia cerca de cem pessoas, distribuídas em três categorias: a) os precavidos, que não queriam correr o risco de sobrar, como acontecera recentemente em palestras seminais de David Lynch e Maria Bethânia; b) os que discutiam se o homem mais bonito do mundo era William Bonner ou Johnny Depp; c) os que admiravam o trabalho de um jornalista respeitado. No horário previsto, sem transtornos, 280 pessoas ocuparam seus assentos, deixando de fora uns cinquenta coitados.

Nas coxias, a eficiente Hélia julgou que tanto empenho lhe dera o direito de infringir um pouquinho o protocolo. Esticou um exemplar de Jornal Nacional: Modo de Fazer e pediu um autógrafo. Com assessora jurídica a tiracolo, Bonner simpaticamente disse que não – por contrato, ele está impedido de dar autógrafos. Hélia não se rendeu: “Trabalhei a semana toda pra você estar aqui, lindo e maravilhoso, e não vou ganhar um autógrafo?” Bonner reconheceu que era injusto.

No palco, mais informal do que de costume, de jeans e colarinho aberto, ele pediu educadamente que a plateia não gravasse a palestra. Sinal dos tempos. Foi-se a inocência de quando um palestrante podia falar despreocupadamente a universitários, na certeza de que sua voz e sua imagem não ultrapassariam a sala de aula ou o auditório. O YouTube espreita, e é dele que Bonner, compreensivelmente, tem receio. Ele não gostaria que sua fala, fragmentada ao bel-prazer de qualquer um, viesse a pipocar na rede.

Acertadas as regras – só fotografia –, o público se pôs a ouvir. E Ênio a perscrutar. Com seus olhos de lince, distinguia a pequena sutileza mecânica que, para agentes treinados, revela se o obturador da máquina está fotografando ou filmando. Sereno, sem descruzar os braços, ele acionava Hélia com um discreto aceno de cabeça, e ela, ágil, abordava o transgressor para lhe pedir gentilmente que apagasse o vídeo.

Mas nem Ênio é capaz de impedir que pessoas teclem celulares e laptops. Aos poucos a palestra de Bonner foi sendo despudoradamente esquartejada e teve suas partes expostas aos constrangimentos do Twitter, um meio no qual até Winston Churchill soaria a Conselheiro Acácio. Quem se interessou em acompanhar ficou sabendo que “Muitos de nós jornalistas somos idiotas e muitos de nós idiotas somos jornalistas”, aprendeu que “Um telejornal é um programa de televisão que fornece notícias” e deve ter se intrigado com “Eu sou um cara rigorosamente quase normal, mas aquilo me tocou profundamente porque a mãe era uma pata”.

Bonner justificou o destaque dado pelo JN às denúncias contra a Igreja Universal (recorrendo a critérios objetivos de seleção de notícias); em defesa da pluralidade da imprensa, explicou com erudição e didatismo o conceito de monopólio (“Em latim, mono é igual a ‘um’. Mas no Brasil nós temos seis empresas de televisão”); discorreu sobre a diferença entre invasão e ocupação (invocando a Constituição para falar do direito à propriedade e se opondo ao uso de eufemismos); e entreteve a plateia com imitações quase perfeitas de Cid Moreira, da ministra Dilma Rousseff e do presidente Lula. Encerrou a palestra dizendo-se “histriônico e palhaço”, e foi recompensado com uma salva de palmas consagradora.

Nas despedidas, a plateia produziu para ele um orfeônico “Boa noite!”. Mal passava do meio-dia, mas o importante, àquela altura, era retribuir os incontáveis boas-noites que o convidado lhes desejara ao longo da vida. Emocionada, uma estudante de jornalismo agradeceu em nome de todos “pela inspiração”. De fato, a impressão geral é que mesmo o elemento mais radical do DCE, aquele da linha norte-coreana, daria uma coleção completa dos escritos de Kim Jong Il para visitar o local de trabalho de Bonner.

Ao deixar o palco, ele ainda gritou com candura calculada: “Vocês são um show!” Modéstia. O show foi todo dele.