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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

O bom penetra

Como um universitário aplicado deu de cara com Rondônia

João Moreira Salles | Edição 194, Novembro 2022

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O estudante de direito Thiago Henrique Surita, de 24 anos, não sabia patavina sobre o tema do trabalho em grupo. Calouro da Faculdade Católica de Rondônia, em Porto Velho, entrara para o curso em agosto, mas, como faltassem alunos para uma nova turma, foi jogado para o período seguinte. “Se vira”, foi como entendeu a coisa. Caiu numa disciplina em que a professora apresentara um tema – os desassistidos da sociedade brasileira – e dividira a turma em grupos, cada qual dedicado a um aspecto da questão. Se virar, então, significava sair atrás de alunos mais adiantados “que me aceitassem”.

A maioria dos grupos já estava formada, mas Surita deu sorte. Num deles, duas alunas “foram às vias de fato”. “Uma falou mal da outra, a outra não gostou: ‘Ah, é assim? Então toma!’”, ele conta. Desistiram do trabalho, e foi dessa forma que ele encontrou seu lugar, não por interesse no tema de pesquisa, mas graças ao acaso de um salseiro entre duas (ex-)amigas. O tópico do seu grupo era a relação entre saúde indígena e violência contra povos originários, assunto sobre o qual o rapaz admitiu a sua mais absoluta ignorância.

Suas colegas logo começaram a repetir um nome desconhecido: “‘A Tichai, a Tichai, a gente tem que falar com a Tichai.’ Era Tichai pra cá, Tichai pra lá.” Quem era? Uma garota indígena de Rondônia, explicaram, aquela que fez o discurso de abertura numa conferência internacional superimportante e produziu um filme que estava passando no mundo inteiro. Ele pensou: “Estão querendo falar com essa famosa aí?” Nunquinha.

 

Rapaz pragmático, Surita começou pelo que parecia mais à mão: a Funai (Fundação Nacional do Índio). O funcionário foi gentil, mas disse que o tema era delicado e que as ordens de cima eram para não dar entrevista. Tentou a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Nada. Tentou o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) de Porto Velho, onde a pessoa receptiva que o atendeu caiu de cama e semanas depois, dado o silêncio, parecia não ter melhorado. E os dias passando, passando.

Decidiu então que o jeito era apostar na tal Tichai. Não nela especificamente, pois seguia convencido de que famosos e calouros não se misturam, mas nos círculos dela. Apurou que ela trabalhava na Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé fundada pela ativista Ivanete Bandeira Cardozo, conhecida como Neidinha. Alguns cliques a mais e descobriu que Neidinha era a mãe de Tichai – e que Tichai era Txai Suruí, a ativista de 25 anos que em 2021 discursara na abertura da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, em Glasgow.

Uma amiga da mãe de Surita conhecia Neidinha e passou o contato, acrescentando instruções: “Não fala índio – é indígena. Não fala tribo – é povo.” Atento ao vocabulário, Surita mandou um zap para a ativista. Recebeu a resposta: “Estou em Genebra.” “Se a mãe está em Genebra, imagina a filha…” Estava assim, mergulhado em ceticismos, quando soou mais um ping! no celular. Neidinha passara o contato da Kanindé, que, por uma dessas coincidências, ficava a poucos metros de onde ele estava.

“Ligo ou não ligo?” Decidiu que não. “Se ligasse era mais fácil eles me dispensarem, tipo ‘telefona mês que vem’.” Parou o carro perto da associação, desceu e esperou do outro lado da rua. Quando o portão da Kanindé se abriu para um veículo sair, correu para dentro. Às suas costas, o portão se fechou – e ele ali, sem saber como prosseguir. Na falta de plano melhor, ficou parado feito estátua. Segundos – ou minutos – depois, ouviu a voz de um homem: “O que deseja?”

 

A audácia tem suas recompensas. Naquela tarde de 4 de outubro, Thiago Surita começou a travar conhecimento com um novo mundo. Acolhido na Kanindé, foi logo encaminhado ao agente de saúde Kuaimbu Juma Uru-Eu-Wau-Wau, de 20 anos, com quem conversaria longamente no dia seguinte e aprenderia muitas coisas.

Por exemplo, que em 2021 grileiros impediram a equipe de vacinação do Sesai de entrar na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, na aldeia Alto Jamari. Chegaram a queimar a ponte que dá acesso à aldeia para evitar que os indígenas fossem imunizados contra a Covid. A Kanindé pediu proteção policial e a equipe de saúde entrou na terra, sob escolta da PM de Buritis, um município vizinho. Surita soube dos tantos projetos de lei que tramitam no Congresso e dispõem contra os povos originários – o que determina a abertura de terras indígenas à mineração e ao garimpo, o que estabelece um marco temporal para negar aos indígenas o direito de reivindicar suas terras ancestrais. Soube de O Território, documentário sobre a luta do povo Uru-Eu-Wau-Wau contra a invasão de suas terras; dirigido pelo norte-americano Alex Pritz, o filme estreou em setembro no país e já amealhou dezenove prêmios internacionais. Txai Suruí é uma das produtoras executivas do documentário.

“Sou nascido e criado aqui e não sabia de nada disso”, Surita diria horas depois, enquanto tomava um lanche na Kanindé. Seguia impressionado com tudo o que não sabia. “Sempre achei que essas coisas eram muito distantes de mim… E olha que a mãe de uma das minhas ‘bisas’ foi tirada da tribo… Desculpa, da aldeia.” Sentada em frente a ele, Txai deu um risinho: “Do povo, da aldeia… Ixe, Thiago, eu vou te cancelar, hein?” Sim, ele a conhecera e conseguira entrevistá-la. Quando conversava com Kuaimbu, uma garota passara pelo corredor. “É a Txai”, disse Kuaimbu. “Não reconheci”, confessa Surita, segurando um pão de queijo. Meio sem graça, acrescenta: “Não sabia como ela era…” A mesa cai na gargalhada e alguém comenta: “Pô, meu irmão, nem pra dar um Google?”

De Txai Suruí, ouviu sobre a dor de se saber indesejada na terra onde nasceu, da tristeza de ter negado o valor da sua cultura e dos seus conhecimentos, da angústia de ver sua morada ser destruída ante a indiferença de tanta gente. Soube que “a guerra é aqui, que a Ucrânia é aqui”.

Naquela noite conversou com os pais, ambos militares, e também com o avô, apoiador de Bolsonaro. Foi boa a conversa: “Acho que passaram a considerar uma coisa que não estava na cabeça deles.” Ficou até de madrugada estudando os PLs anti-indígenas. “Só fui dormir porque meu corpo estava pedindo.”

Thiago Surita voltou à Kanindé no dia seguinte. Tinha se sentido bem ali. A tarde caía quando, da copa, viu pelas câmeras de segurança um carro parar em frente à associação. Era o cônsul-geral do Japão, que pedira uma conversa com Txai Suruí. A jovem ativista apareceu na porta: “Quer participar?” Thiago largou o café e se juntou a Kuaimbu e Waldemir Karitiana, outra liderança indígena. O cônsul e sua assessora entraram na sala de Txai Suruí, Thiagoe os rapazes os seguiram, e a porta se fechou.