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    Brasil e Itália se enfrentam, em selo impresso pelo governo de Belize em homenagem à Copa de 1982: um jogo limpo, sem simulações; hoje, o fair play se reduziu a uma categoria financeira CRÉDITO: SERGEY KOMAROV-KOHL_ALAMY_FOTOARENA

questões ludopédicas

“O Brasil somos nós”

O que me lembro da inesperada vitória de meu país sobre a Seleção Brasileira na Copa de 1982

Piero Trellini | Edição 195, Dezembro 2022

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Tradução de Marcello Lino

Sim, é verdade. Todos nós lembramos. Aconteceu em uma tarde de verão. E foi igual e diferente para todos. A única certeza era de que, naquele dia, duas nações pareciam predestinadas aos seus destinos implacáveis. De um lado, a Itália – um punhado de jogadores e jornalistas que, em vez de participarem da construção de um sucesso, se viam guerreando entre si. Do outro, o Brasil – onze estátuas douradas, cercadas de adoradores de todo tipo, que, até então, haviam vivido de encantos e de alegria.

Mas a história é imprevisível, e o futuro, inesperado. O técnico italiano, Enzo Bearzot, impregnado de cultura clássica, sabia disso. Os grandes impérios jamais contemplam a hipótese do próprio declínio. Uma nesga do desconhecido sempre encontra um lugar nas nossas existências. Por isso um escritor como Mario Soldati (que parecia saber menos do que os outros, mas viu mais longe do que todos) ha-via partido para a aventura daquela Copa do Mundo de 1982 na Espanha com uma frase de Heráclito (c. 540-480 a.C.) no bolso: “Se não esperares, não irás achar o inesperado.”

Naquela tarde, o inesperado demonstrou que, dentro de qualquer complexidade, atrás de qualquer mecanismo, se esconde sempre o fator humano. E foi isso que gerou uma incomparável beleza. Um movimento único e irrepetível, uma obra de arte. Porque isso é o que foi aquele jogo. Emocionante e desestruturado, maravilhoso e terrível. A perfeição. Cada elemento teve um sentido dramatúrgico. A sequência dos atos, os conflitos dos atores, a trepidação do coro, os falsos movimentos. Cada uma das suas substâncias teve um sentido perfeito. Assim como um gol injustamente anulado do Brasil permitiu a salvação de um final perfeito.

 

Em 5 de julho de 1982, a Itália de Enzo Bearzot venceu um maravilhoso Brasil, tornando-se, seis dias mais tarde, campeã do mundo. O jogo aconteceu em um estádio esculhambado, uma bacia fervente que já não existe mais, chamado Sarriá, em plena Guerra Fria, no verão mais quente do século, durante a Copa mais bonita de todas (perfeitamente encaixada entre os dois boicotes: dos Estados Unidos à Olimpíada de Moscou em 1980 e da União Soviética à Olimpíada de Los Angeles em 1984), da qual foi o epicentro da beleza. Calibrado de uma maneira que o fazia ter a mesma estrutura em cinco atos de um filme cinematográfico: acontecimento desencadeador (1 a 0 para a Itália), complicações progressivas (1 a 1 e depois 2 a 1 para a Itália), crise (2 a 2), clímax (3 a 2 para a Itália), resolução (o gol anulado do Brasil, a defesa final, epílogo). Um roteiro hollywoodiano. Um filme impecável. Devido às condições iniciais do jogo (o Brasil só precisava de um empate, a Itália tinha de ganhar), o andamento do resultado criou uma arrebatadora alternância de estados de espírito. Noventa minutos de beleza emocional.

Aquele Brasil era invencível. E ninguém apostava na Itália. Mas, naquele gramado, o time que parecia ter nascido para conquistar o mundo perdeu, e o outro, que até então ainda não tinha consciência de si mesmo, encontrou-a a tempo de entrar para a história. A lembrança mais nítida que tenho daquela tarde é uma finta errada de Júnior que fez a bola passar de lado. E, ainda hoje, aquela imagem é para mim o emblema do jogo. Um semideus que, num gesto audacioso, para ele comum, abre as pernas para deixar a bola passar. E erra. Mas aquele jogo foi também muitas outras coisas.

É uma história que, de fato, destrói muitos lugares-comuns (como o paradigma alegórico do ataque contra a defesa) e reabilita bodes expiatórios – como o supostamente “atrapalhado” atacante brasileiro Serginho Chulapa (que, na verdade, é o homem que marcou 242 gols na história do São Paulo) ou o igualmente “desengonçado” goleiro Waldir Peres (que, na verdade, defendendo as traves da Seleção Brasileira, só perdeu um jogo, o último, aquele contra a Itália). Esses jogadores desempenharam dois dos papéis mais literários e fascinantes desse jogo – contrariando a ingênua visão de um Rocky Balboa que derrota Apollo Creed. Aquele Brasil era belo como um deus e, como tal, tinha o seu ponto fraco. Não se tratava de um jogador. A sua fraqueza estava na própria condição da sua beleza. A fragilidade.

Duas escolas se defrontaram, a do futebol espetáculo e a que foi equivocadamente ligada à retranca, mas que, na verdade, representava a estratégia. Milcíades (c. 540-489 a.C.), ao vencer em Maratona, libertou os gregos e todo o Ocidente da dominação persa. Giotto, ao pintar a Capela Scrovegni, emancipou a pintura do opressivo domínio bizantino, abrindo caminho para a modernidade. Bearzot, ao derrotar o Brasil de Telê Santana, não apenas impediu que os brasileiros conquistassem o tetracampeonato, mas mudou decisivamente a história do futebol. A partir daquele dia, o futebol perdeu leveza, mas ganhou empenho. O resultado do jogo, na verdade, marcou a morte daquele tipo de futebol brasileiro e o renascimento do futebol italiano, que conseguiu se libertar de décadas de “retranca e contra-ataque”.

Nesse sentido, o jogo foi considerado o divisor de águas de duas fases do futebol. Mas entrou convencionalmente para a história também como uma alegoria, o paradigma do confronto entre duas correntes opostas: o futebol espetáculo e o futebol organizado. O jogo Itália x Brasil não foi de forma alguma o dia em que o futebol morreu, mas o dia em que desapareceu um tipo de futebol. Uma certa ingenuidade. Daquela vez, venceu a tática, a manobra racionalizada. E, a partir daquele momento, não foi mais possível escolher simplesmente os melhores jogadores, colocá-los em campo e mandá-los para o ataque. Ainda haveria espaço para os talentos, mas eles teriam de ser inseridos em um esquema tático que também pensasse em como proteger a defesa.

 

Para um jovem italiano do início da década de 1980, assistir a um jogo de futebol podia se revelar uma educação sentimental, um processo de mudança, um percurso de formação. E, se isso se tornava coletivo, podia se transformar em algo importante, um evento capaz de fazer, e, portanto, modificar, a história. Naquela época, tínhamos uma necessidade desesperadora de heróis. O imaginário coletivo estava se renovando com sonhos inéditos – capazes, depois de anos de escuridão, de encher de esperança as nossas expectativas. Perseguíamos uma nova épica, utopias renovadas, sagas capazes de envolver o planeta. Eram os anos de Rocky e Star Wars. Brasil e Itália ainda carregavam consigo uma ideia de pobreza e viviam tempos de espera. Assim como o presidente do Conselho de Ministros italiano Giovanni Spadolini havia previsto ao partir para a Espanha, o jogo teria a capacidade de influenciar a vida dos italianos muito mais do que todos os outros acontecimentos políticos mais importantes.

Enquanto naquele presente abafado, o cronômetro de Abraham Klein, juiz da partida, engolia ávido porções de tempo, outros homens, sentados nas arquibancadas ou agachados à beira do gramado, tornariam possível a recuperação daquele sentido inapreensível. Eram os repórteres. E, com eles, os fotógrafos – pessoas como João Baptista Scalco, que tornaria icônica a comemoração de Falcão no segundo gol do Brasil. Ou Reginaldo Manente, que, com a imagem de uma criança em prantos (José Carlos Vilella Jr.), fotografada para o Jornal da Tarde, conseguiria interpretar a tristeza de um país. Ou, ainda, o fotógrafo italiano Giuseppe Calzuola, colete 47/441, que, na sua primeira Copa, durante os hinos, resolveu se posicionar à esquerda, porque o jornalista Lino Cascioli do jornal Il Messaggero havia dito para ele fechar a mala e apontar a sua Nikon para o Brasil, já que a Itália é que voltaria para casa.

Eles também faziam parte do desígnio e, portanto, não tinham consciência do próprio papel. E, enquanto eu estava com a minha família e com outros milhões de italianos, totalmente seduzido pelo canto enlatado do locutor Nando Martellini, cada uma daquelas figuras contribuía com um verso para a recriação do poderoso espetáculo, tornando possível uma multiplicação póstuma de pontos de vista.

 

O relato imediato daquela obra assinada pelos jogadores, narrada pelos repórteres e captada pelos fotógrafos foi logo transmitido para as redações e acabou impresso durante a madrugada nos jornais que chegaram às bancas italianas ao nascer do dia seguinte e, pouco depois, foram comprados por milhões de leitores. Dentre eles, também estava meu pai. Eu tinha 12 anos, e essa concatenação de eventos acabou confluindo em um gesto, para mim novo, de pela primeira vez guardar aqueles jornais e reter aquela lembrança. De um jornal, prendi na parede uma página que gritava “O Brasil somos nós!”; de outro, recortei as fotografias da façanha, colei-as em uma folha para recriar uma partida Itália x Brasil óbvia, mas pessoal, e me tornar assim, apesar da minha insignificância, mais um propagador de sonhos.

Poucas semanas mais tarde, aquela folha evoluiu para um álbum repleto de tudo o que eu havia conseguido encontrar (as fotos a cores do Guerin Sportivo de Italo Cucci, as ilustrações de Paolo Samarelli, os títulos da Gazzetta dello Sport, as charges de Giorgio Forattini, as figurinhas Panini e muito mais). O álbum transbordou para cadernos e esquemas que geraram a estrutura de um gigantesco texto que se tornou um livro que publiquei décadas depois, em 2019, e intitulei La Partita, em italiano. (A edição em português acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Grande Área, sob o título Anatomia do Sarriá.) Por trás de todas aquelas palavras, porém, havia imagens. Havia sido para elas, para restituir o peso do valor daqueles homens, que eu havia buscado detalhes, ampliações, contracampos ou enquadramentos que a transmissão ao vivo ou a iconografia clássica não puderam captar.

O Brasil x Itália de 1982 esconde um impetuoso emaranhado de histórias subterrâneas. No centro, uma fábula de reconhecimento e redenção: a de um treinador de outrora que, contra todos, aposta até o último minuto em Paolo Rossi, um atacante considerado acabado, que o recompensa no desafio impossível. Assim como também era considerado acabado, além de velho, o goleiro Dino Zoff, então com 40 anos – ele que viu na própria mão, no nonagésimo minuto, a bola fatídica capaz de mudar o destino de uma nação. Em volta deles, um mundo, que já não existe mais, de figuras monumentais sentadas nas tribunas de imprensa ou de honra. No fundo, o ocaso da ditadura brasileira e a alvorada de um novo, efêmero, boom italiano. Atrás, as infâncias irrepetíveis de jogadores sul-americanos ligados às próprias famílias e italianos obrigados a se sustentar (Zoff como mecânico, Marco Tardelli como garçom, Bruno Conti como pedreiro). Denominadores sociogenéticos comuns aos países distantes e próximos, com uma história entrelaçada (o Brasil, descoberto por um florentino,[1] se tornará a Terra Prometida dos italianos do século breve, até que os seus astros, já então filhos impróprios de emigrados itálicos, voltarão a jogar no Belpaese).

 

A partida, apesar do que estava em jogo, se manifestou como um espetáculo maravilhoso, disputado de maneira incrivelmente correta e esportiva. Bastam alguns breves momentos para perceber. Início do jogo: uma bola brasileira sai pela linha de fundo da Itália. O ponta-esquerda brasileiro Éder, que na vida se meteu em uma encrenca atrás da outra, vai assim mesmo ao encontro dela e a passa para o goleiro Zoff. Em outro momento, o zagueiro italiano Fulvio Collovati se machuca e “o irrequieto” atacante brasileiro Serginho Chulapa fica em pé tomando conta dele. Zico e Rossi caem na área, Sócrates e o meia italiano Giancarlo Antognoni marcam em posição de impedimento (verdadeiro e falso); o zagueiro brasileiro José Oscar Bernardi corta a bola fatídica em cima da linha: todos levantam a mão para pedir um pênalti ou um gol. E o árbitro Klein não faz nada. Mas os jogadores também não protestam. Nenhum assédio. Nenhuma simulação. Nenhum drama. Os cinco gols se traduzem em comemorações simples. O próprio Waldir Peres entrega a Rossi a bola que passará por ele poucos segundos depois. Após o apito final, o primeiro gesto de Sócrates é um aplauso. A mesma coisa que faz o zagueiro brasileiro Luizinho quando vê Bearzot e Rossi se abraçando.

Esse é o futebol dos meus 12 anos. Acho que não é possível amar da mesma maneira o futebol de hoje. O fingimento, a aparência, a malícia, com a cumplicidade silenciosa de quem deveria contê-los, são os novos valores, pois já são universalmente aceitos. E, portanto, emuláveis. Contudo, proibíveis. Puníveis. É uma total ausência de esportividade que cria desonra para o futebol e desamor em quem viveu o que havia antes. Se o futebol é um propagador de valores, quem o impulsiona também tem o poder de impô-los. Falcão, por exemplo, não gostava de cuspir no campo. “É a minha mentalidade. Me incomoda ver um jogador que cospe”, reafirmou o ídolo há alguns anos, numa entrevista à imprensa italiana. Consequentemente, nenhum de nós, garotos, cuspíamos – porque tínhamos modelos que nos induziam àquilo.

Cada um vive os mitos da própria época com as proporções por ela instigadas. Certamente continuarão a existir crianças capazes de ficar marcadas por um jogo. Mas é difícil conseguir falar de espontaneidade hoje. Porque ela está agonizando. Ver um astro do futebol que fala com a mão na frente da boca já é significativo. O mesmo vale para as reações ostentadas e inaturais das simulações ou para as comemorações milimetricamente estudadas. Estão longe dos braços erguidos na direção do céu por Rossi, Sócrates e Falcão durante o jogo. A mesma coisa que teria feito espontaneamente uma criança.

A coreografia de uma comemoração ou o alarde por uma cotovelada que não aconteceu fazem parte do repertório de um ator. E quem interpreta não pode ser autêntico. Mas esse é o mundo de hoje. É uma questão de parâmetros, e não de decadência. É transformação. Porque, se de um lado, a primeira vítima é justamente o jogador, obrigado a perder a sua instintiva espontaneidade em nome de linhas submersas ditadas pelo marketing, do outro, estão os espectadores, testemunhas ordinárias de vidas artificiais em todos os campos, das redes sociais aos reality shows. Os novos protocolos impostos por quem está em cena matam a possibilidade de assistir a uma representação sentida, passional, emocionante e autêntica.

A espontaneidade perdida, por sua vez, não mascarava – pelo contrário, jogava luz sobre uma verdade. O jogo Itália x Brasil foi um espetáculo autêntico e, como tal, pôde se tornar – para além do resultado da façanha, de quem ganhou ou perdeu – uma experiência totalizante, transmissora de valores, exemplos e modelos, com grandes histórias de solidariedade e reconhecimento, nenhuma simulação, um jogo limpo, nenhuma bola zunida para longe ou adversários que passavam a bola na hora de recomeçar o jogo. Hoje, inevitavelmente, o fair play se reduziu a uma categoria financeira, os jogadores têm uma maneira de jogar mais esperta, aprenderam a cair, a simular, a ostentar dor e a contestar a vontade do juiz. Uma total ausência de esportividade que não pode deixar de criar desamor em quem viu o que existia antes. Porque também a emoção tem as suas regras.

 

Quando, 24 anos depois do Mundial de 1982, o lateral Fabio Grosso fez aquele gol incrível para os italianos na semifinal contra a Alemanha, talvez tenha sido o único momento realmente emocionante da Copa de 2006. E também foi bonito porque, balançando a cabeça, ele gritou: “Não é verdade, não acredito”, uma frase que espelhava a espontaneidade de um jogador que, até alguns anos antes, jogava no Chieti, um time menor que em 2001 havia sido relegado à série C1. Essa deveria ser a beleza do futebol. A possibilidade da fábula. Depois, porém, quando o time ganhou a Copa, percebemos que, no geral, aqueles jogadores eram muito diferentes dos campeões de 1982, porque a Itália e o mundo já haviam mudado. Os azzurri de Bearzot festejaram sobretudo intimamente, segurando dentro de si uma alegria que, como Zoff certa vez explicou, teria se sujado na ostentação. No Circo Máximo de Roma, por outro lado, os jogadores de Marcello Lippi em 2006 ostentaram os seus corpos como gladiadores. E, então, ficou claro para todos que uma geração havia passado.

O mesmo me parece ter acontecido no Brasil quando, em 1994, a Seleção conquistou o tetracampeonato, nos pênaltis, justamente contra a Itália. Sempre tive a impressão de que o povo brasileiro nos anos seguintes continuava externando mais estima pela Seleção de Telê Santana, pois ela seguia na memória coletiva como a mais bonita de todas.

Depois daquela Copa de 1982, o futebol perdeu sua última parte de inocência, de espontaneidade, de ingenuidade. E se tornou outra coisa. Aqueles noventa minutos, por sua vez, foram o esporte, o futebol, o jogo, o estádio, os homens, as histórias de um momento preciso, como nunca haviam sido antes e como não seriam mais. Porque sim, é verdade, foi só um instante de verão. Mas durou para sempre.


[1] O autor se refere a Américo Vespúcio, navegador florentino que, segundo uma teoria alternativa, foi o primeiro europeu a colocar os pés no Brasil, chegando pela Costa do Rio Grande do Norte em 1499.