esquina

O bricoleur de Parada Lucas

Um ferro-velho para chamar de quartel-general

Felipe Sáles
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

Em tempos de favelas ocupadas pelo Exército, poderia até passar despercebido um tanque de guerra com o canhão apontando para a avenida Brasil, às margens de Parada de Lucas, na Zona Norte carioca. Olhando com atenção, porém, se percebe que o tanque dificilmente sairá dali. Dia desses, uma empresa de paintball fez uma oferta para comprá-lo. Mas não o levou: o tanque é um dos brinquedinhos preferidos de seu construtor, José Augusto Pereira.

Pereira, que tem 55 anos, é o que os franceses chamam de bricoleur: o artesão que, juntando materiais e objetos diversos, conserta e inventa outros objetos. Ele nasceu, cresceu e criou um casal de filhos dentro do ferro-velho da família. Desde os 13 anos, a sucata é seu local de trabalho, parque de diversões e quartel-general. Ele começou com a carcaça de um jipe, fabricado em 1942, que hoje tem 99% das peças originais. Ao todo, já reconstituiu seis aviões – alguns da Segunda Guerra Mundial –, um caminhão usado para transportar tropas nazistas e um torpedo gigante de submarino.

Pereira começou a construir o tanque aos 17 anos, quando estourou a megacorrente do guindaste do ferro-velho. Como bom bricoleur, ele guardou o troço, sem saber o que poderia fazer com ele. Entre pilhas de metal retorcido, a corrente ficou ali por 35 anos. Aí Pereira teve a ideia (não muito comum, admita-se) de construir um carro de combate de pequeno porte. E logo constatou que a corrente quebrada poderia ser usada para fazer a lagarta do veículo.

Para quem quiser ter o seu próprio tanque de guerra, Pereira dá a receita. Cate uma tampa de reservatório de ar comprimido e a transforme na base, com espaço para duas pessoas. De um suporte de máquina industrial, faça o lança-rojão de sinalização. Procure uma máquina de lavar garrafas em uma cervejaria, e dela faça o canhão. Com uma solda aqui e outra ali, alguns parafusos, mais uns cortes e marretadas, uma mãozinha de tinta e, pronto!, o monte de lata velha fica com uma cara tão boa que não faria feio numa Panzer Division.

Embora sem tração, os detalhes no interior – do banco ao rádio, das lunetas ao giroscópio – ajudam a enganar até supostos especialistas. “Pelo tamanho do cano, esse aí deve ser da Primeira Guerra Mundial”, sugeriu um militar a um amigo, no ano passado, durante o 3º Encontro de Veículos Militares do Forte de Copacabana. Pereira, ao lado, sorriu para si mesmo, todo gabola.

O Encontro – que acontece sempre em setembro, e este ano terá a primeira edição nacional – faz parte do calendário do Clube de Veículos Militares Antigos do Rio de Janeiro. A agremiação conta com 100 filiados e tem como presidente João Barone, que vem a ser o baterista da banda Paralamas do Sucesso.

Outro programa de Pereira e suas máquinas maravilhosas é o desfile de 7 de Setembro. Se não fosse o jipe de 1942 e outros mimos dos membros do Clube, muito ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira teria tido dificuldade em desfilar.

 

O ferro-velho começou pela iniciativa do pai de Pereira, seu Manoel, caminhoneiro português que veio ao Brasil para trabalhar numa empresa de laminação. Brigou com o patrão, pegou uma Kombi e começou a comprar e vender ferro e aço. Em pouco tempo, conseguiu um pequeno galpão para reunir o material. Para sua sorte, veio o golpe de 64 e, com ele, a sanha dos generais em renovar e incrementar equipamentos militares.

Rejeitada nos quartéis, a velharia verde-oliva começou a aportar no galpão de Parada de Lucas. Apenas num dia, certa vez, 33 jipes inutilizados do Exército chegaram ao barracão da família. Foi uma festa. O filho ganhou uma carcaça e o desafio: botar a lata-velha para funcionar. Depois de anos de trabalho, incluindo as férias escolares, o automóvel estava tinindo. Aos 18 anos, Pereira era dono de um calhambeque de fazer inveja aos tremendões da época.

Ele não vende o jipe de jeito nenhum. É de estimação: o pai lhe pediu no leito de morte, há cinco anos, que ficasse com ele para sempre. Também tem um caminhão Chevrolet Tigre 1939, do Exército americano, que os nazistas capturavam e usavam no transporte de tropas. Ele o achou, envolto em luzes de Natal e pinturas coloridas, no teatro da Universidade Gama Filho, onde era usado no cenário de uma peça. Pereira não sabe como o caminhão foi parar lá, nem quis saber: só queria comprá-lo e recuperá-lo com as cores originais, mas com uma placa nazista.

O galpão tem 6 mil metros quadrados, e nele se espalham mais de 10 mil peças usadas de ferro. O material bélico divide espaço com chopeiras, geladeiras, porcas, parafusos, arruelas e tranqueira de todo tipo. O escritório de Pereira tem peças até o teto. Na sala de reuniões, a frente de um Studebaker 1945 foi transformada em mesa. Dali, ele (quase que literalmente) pilota o negócio, com as mãos no volante do veículo, cujo farol e buzina ainda servem, é claro, para chamar funcionários.

“Adoro ficar fuxicando coisas no meio do material revirado”, contou. “É assim desde criança: ficava procurando alguma coisa com a qual pudesse fazer um brinquedo. Até hoje tenho alguns vícios, como carrinhos de controle remoto.”

O local é, em si, uma bricolage: foi descoberto por fotógrafos e às vezes é alugado para servir de cenário de ensaios fotográficos, comerciais e filmes. No local já posaram Natália, do Big Brother Brasil 11, e o piloto Jenson Button, campeão de Fórmula 1.

Nos últimos tempos, o galpão vem se notabilizando como ateliê artístico. Com máquinas de solda, Pereira conserta equipamentos, reconstrói eletrodomésticos fora de linha e todo tipo de utensílio usado em cenários de produções de cinema e teatro. O artista plástico Vik Muniz, que começou alugando uma parte do galpão, hoje usufrui de todo o espaço – e da matéria-prima necessária – para o seu trabalho.

Dono de um Malibu 68 e de um Camaro 74, Pereira participa de um rali de regularidade, no qual ele e o caçula, de 21 anos, têm de fazer o percurso do Rio a Volta Redonda em até duas horas, em carros de época. O filho acompanha as aventuras do pai com gosto – desde os 8 anos, se esbalda com latas-velhas. Formou-se em administração e hoje toca os negócios da família. Já a menina, assim como o pai, é formada em arquitetura. No trabalho final do curso, ela fez o projeto de um bar-ateliê. Que o pai cogita em fazer virar realidade.

Felipe Sáles

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