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O céu de são Rainério

Luca Battini quer repetir mestres renascentistas em Pisa

Cíntia Bertolino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O pintor toscano Luca Battini parou os olhos no azul profundo daquela noite do ano de 1140 e deu um suspiro de nostalgia. “Observe essas estrelas”, sugeriu. “A cartografia do céu é a mesma de quando são Rainério, então um jovem de vida desregrada, partiu de Pisa para a Terra Santa.”

O famoso blu di smalto di Venezia – um tom cobalto impressionante – foi obtido com a trituração de vidro colorido. Battini preparou-o à mão. Ele fez o mesmo com todos os pigmentos do afresco encomendado em memória do santo padroeiro de Pisa. Com densidades diferentes, eles são misturados à água e aplicados à argamassa fresca. Cada cor leva um tempo específico para ser absorvida pela parede.

“É um trabalho muito difícil, mas belíssimo”, disse Battini, um homem de 41 anos, cavanhaque e cabelos claros que começam a rarear. Ele abriu mão da praticidade dos pigmentos artificiais para trabalhar apenas com os materiais e técnicas de Michelangelo, Rafael e outros mestres renascentistas. “Quando se cria uma tonalidade e se entende o que há nela, nasce uma nova visão da arte. Tornei-me um artista mais humilde e respeitoso.”

Battini usará modelos vivos para todos os 250 personagens retratados no afresco. Jesus foi encontrado graças a um anúncio de jornal – um carteiro pisano vai encarná-lo. Nossa Senhora será inspirada em uma estudante de medicina. Um jovem advogado de barba amarfanhada é a nova encarnação de Rainério, ou Ranieri Scàcceri. Selecionado numa sessão de casting, ele posa como o homem que nasceu em Pisa por volta de 1115 e viveu em pecado até se aproximar da idade de Cristo. Foi quando abriu mão das riquezas e peregrinou à Terra Santa, onde levou uma vida de penitência e revelações divinas. Canonizado pouco depois de morrer, por volta de 1160, hoje acumula funções: além de Pisa, é padroeiro dos viajantes.



O afresco começa a ganhar corpo nos 200 metros quadrados de uma parede lateral à direita de quem entra na Igreja de São Vito. Rainério teria vivido e morrido no antigo mosteiro, após retornar de sua viagem ao Oriente. A edificação, porém, não é a mesma dos tempos do santo: construída há mil anos, ela foi reconstruída no século XVIII e novamente após ser bombardeada na Segunda Guerra Mundial.

Conhecido em Pisa como il maestro, Battini está trabalhando no afresco desde 2007. Recebe um valor que disse ser simbólico para tocar o projeto, orçado em 400 mil euros. O trabalho foi encomendado pela Associação dos Amigos dos Museus e Monumentos Pisanos, com apoio da Prefeitura, da arquidiocese e de empresários. Eles esperam que a obra fique pronta até o fim de 2014, quando serão comemorados os 950 anos do início da construção da catedral local.

Quando concluído, o painel terá oito cenas. A única que está pronta mostra a partida de Rainério para a Terra Santa, caracterizado como um homem rico, com ar entediado. No horizonte, além do céu estrelado, descortinam-se as montanhas de Tiro, antiga cidade fenícia que hoje fica no Líbano.

Battini gasta seus dias misturando pigmentos, fazendo esboços, dimensionando e redimensionando desenhos, com a ajuda de dois assistentes. Como a pintura al fresco não pode ser feita em condições de muito calor, a temporada de execução começa em meados de setembro, quando cai a temperatura ao longo do rio Arno, e vai até maio.

O amarelo que ele chama de “inigualável” é obtido a partir de uma mistura cuidadosa de antimônio com chumbo. Outros pigmentos são criados a partir de pedras preciosas como ametista ou jaspe vermelho. O lápis-lazúli (18 mil euros o quilo) será usado para compor o azul cerúleo das vestes santas. “É incrível olhar para esse azul”, empolgou-se o artista. “Não é possível que exista uma cor assim.”

Desde os tempos de estudante em Florença, Battini sonhava em trabalhar à maneira dos mestres do afresco do Cinquecento. Não há nada que o irrite mais do que as insinuações de que é um simples copista do Renascimento. “Sou um artista que usa técnica antiga para criar pintura contemporânea. Ninguém faz o que faço. De tão antigo, ficou novo.” Ele se vê imbuído de uma missão estética. “A pintura moderna e a contemporânea são um pouco dessensibilizadas. As pessoas não estão acostumadas a ver cores finas. É preciso reabituá-las à beleza.”

 

Muitos milagres são atribuídos a são Rainério. Alguns deles estão representados em outras pinturas feitas em Pisa em homenagem ao padroeiro. Uma delas é um afresco pintado no século XIV por Antonio Veneziano, nos muros do cemitério de 1278, Camposanto Monumentale, a algumas centenas de metros da torre inclinada mais fotografada do mundo (e que está em restauração há alguns anos).

Na longa lista de prodígios do santo, não está o de diminuir a vaidade do povo de Pisa. Cerca de 100 personagens do afresco de Battini foram escolhidos à moda renascentista, entre figuras proeminentes da sociedade local. O prefeito, o editor do jornal La Nazione, empresários, patronos da igreja e outros cidadãos ilustres já têm lugar garantido. A seleção de alguns notáveis – e a exclusão de outros tantos – num registro artístico para a posteridade fez aflorar disputas e inflou egos.

Battini precisou de jogo de cintura para lidar com todas as solicitações que recebeu para uma ponta no afresco. “Costumo concordar e acatar pedidos, mas, na hora de trabalhar, faço como acho melhor”, disse com um sorriso malicioso. De tão exigente, o que mais o preocupa agora é que ainda faltam modelos a serem escolhidos. “Preciso encontrar dois velhos de barba.”

Cíntia Bertolino

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