tribuna da história

O colapso

A abertura acidental do Muro de Berlim, há trinta anos

Mary Elise Sarotte
O Muro de Berlim foi aberto sem a força das armas, em novembro de 1989. No lado oriental da cidade, a multidão aglomerada nos postos de fronteira, embora tenha pedido passagem em altos brados e com insistência, mostrou-se sempre pacífica e não forçou os portões, como temiam os guardas
O Muro de Berlim foi aberto sem a força das armas, em novembro de 1989. No lado oriental da cidade, a multidão aglomerada nos postos de fronteira, embora tenha pedido passagem em altos brados e com insistência, mostrou-se sempre pacífica e não forçou os portões, como temiam os guardas FOTO: THE WASHINGTON POST_GETTY IMAGES

Tradução de Sergio Flaksman

Na manhã de 9 de novembro de 1989, Egon Krenz, o dirigente da Alemanha Oriental,[1] tratou logo de saber a quantas andava a mudança no texto de uma resolução do Partido Socialista Unificado (SED, em alemão) com a chamada “variante do buraco”, que autorizava os habitantes do país a cruzar em determinado ponto a fronteira com a Alemanha Ocidental.[2] Dos homens que o Politburo alemão tinha encarregado de implementá-la – o ministro do Exterior, Oskar Fischer, a quem caberia informar os soviéticos e obter sua aprovação; o ministro do Interior e o da Segurança de Estado, incumbidos da redação final do comunicado; e o presidente do Conselho de Ministros, que deveria proclamar formalmente o texto –, só o primeiro, Fischer, tinha até então algum progresso a apresentar. Ele já havia pedido a autorização do embaixador soviético. Agora, só restava esperar a resposta.

Para descobrir a situação dos demais envolvidos, Krenz instruiu seu fiel camarada Wolfgang Herger a disparar os primeiros telefonemas por volta das oito da manhã e a estimular as autoridades a resolverem a questão ainda naquele dia. Herger deixou claro para o ministro do Interior, Friedrich Dickel, que até o fim do expediente ele precisaria escolher alguma parte do esboço anterior redigido por Gerhard Lauter, chefe de departamento no Ministério do Interior, para transformar de imediato numa resolução que tranquilizasse as autoridades tchecas.

Estava claro para os dirigentes do partido em Berlim Oriental que a paciência dos camaradas tchecos chegava ao fim. Inúmeros alemães-orientais vinham atravessando a Tchecoslováquia aos bandos, rumo à Baviera, na Alemanha Ocidental – mais de 30 mil alemães-orientais haviam feito o percurso nos primeiros dias de novembro. Os tchecos insistiam com o SED, queixando-se desses desdobramentos que, além de serem considerados intoleráveis, já começavam a motivar a oposição em seu país. Se os camaradas da Alemanha Oriental não encontrassem uma solução rápida para o problema, os tchecos estavam decididos a tomar providências por sua própria conta. Daí a urgência dos telefonemas de Herger naquela manhã. O ministro do Interior respondeu-lhe que tinha voltado a entregar a ingrata tarefa a Lauter, seu príncipe herdeiro.

Lauter e seus colegas encontravam-se diante de um desafio impossível: agradar tanto o Politburo tcheco quanto a maioria da população da Alemanha Oriental. A proposta era abrir a fronteira um pouquinho, só para quem se dispusesse a ir embora para sempre, excluindo da resolução os cidadãos que planejassem fazer apenas uma viagem curta. Lauter e companhia precisavam chegar rapidamente a uma decisão, caso contrário a Tchecoslováquia acabaria por fechar seu lado da fronteira com a Alemanha Oriental. Colaboravam com Lauter três colegas: Gotthard Hubrich, Hans-Joachim Krüger e Udo Lemme. O primeiro chefiava o Departamento de Assuntos Internos do Ministério do Interior, ao qual cabia processar os pedidos de emigração. Krüger era subchefe do departamento do Ministério da Segurança do Estado (a Staatssicherheitsdienst, SSD, comumente conhecida como Stasi) que respondia pela disciplina partidária no Ministério do Interior, e Lemme era o chefe do departamento jurídico da Stasi. Esse grupo de quatro importantes servidores já havia operado várias vezes em conjunto. Por isso, a atmosfera no gabinete de Lauter, quando se reuniram, era de camaradagem, apesar de todo o nervosismo da ocasião. O encontro ocorria na sede do Ministério do Interior, mas os quatro participantes tinham forte ligação com o Ministério da Segurança do Estado: além de dois deles serem funcionários da Stasi em tempo integral, Lauter e Hubrich eram, ou tinham sido várias vezes, “colaboradores extraoficiais” do departamento chefiado por Krüger.

 

Quando começaram a trabalhar, às nove da manhã de 9 de novembro, antes de mais nada verificaram se todos tinham recebido as mesmas ordens. Sim. Lauter então afirmou, com todas as letras, o que achava daquelas instruções: eram esquizofrênicas. Em vez de atenuar os problemas ligados à emigração, elas acabariam por agravá-los mais ainda: “Todos que quiserem transferir-se de vez para a Alemanha Ocidental estão autorizados a sair imediatamente, mas a pessoa que deseje ir e depois voltar para o seu emprego e sua casa está impedida de sair?” Para Lauter, um plano assim simplesmente não tinha como dar certo. E, o que era ainda pior, produziria exatamente o resultado que pretendiam evitar, a saber, o despovoamento da Alemanha Oriental: “Estamos expulsando as pessoas do país.” Afinal, nem todo mundo queria ir embora para sempre. Segundo vários relatos das regiões de fronteira, eram muitos os alemães-orientais que haviam deixado o país em princípio para sempre, mas que agora desejavam retornar. Além disso, Lauter temia que a imposição de novas regras impraticáveis, em tão pouco tempo depois do fracasso de seu esboço de lei em 6 de novembro, acabaria por inflamar a hostilidade pública ao regime.[3]

Tais dúvidas não ocorreram a Lauter só naquele momento. Aparentemente, ele e Hubrich já haviam discutido essas preocupações entre si e com seus superiores antes da reunião, e há indícios de que Lauter tenha saído dessas conversas preliminares disposto a propor medidas ousadas, embora sem ter autorização formal para tanto. A arriscada decisão de criticar suas próprias ordens diante de dirigentes da Stasi deve ter resultado desse entendimento prévio com seus chefes. Há também indícios de que esses dirigentes ligaram para seu quartel-general em algum momento da reunião, talvez para checar se o que vinha sendo discutido era aceitável. Assim, não se opuseram à formulação de Lauter, e o simples fato de terem ouvido o que ele tinha a dizer pareceu estimulá-lo a uma ousadia ainda maior.

E então Lauter se aventurou pelo que constituía para ele um território inexplorado. Decidiu ir além das ordens recebidas – um passo “que só se tem a oportunidade de dar uma vez na carreira”, como ele mesmo diria posteriormente. Lauter convenceu os outros três presentes à reunião de que o cumprimento à risca das ordens recebidas acabaria por contradizer a tarefa de que estavam investidos, e por isso mesmo deviam ir além daquelas instruções. Sua motivação, como alegaria mais tarde, não vinha de algum alinhamento clandestino aos oponentes de seu periclitante Estado socialista, e sim da sua lealdade a esse mesmo Estado. Ele também explicaria tempos depois: “Meu objetivo não era um golpe.” O que o grupo decidiu fazer em 9 de novembro, disse Lauter, “tinha, na minha opinião e na de meus três colegas, uma intenção estabilizadora”. Pelo menos, concederia ele, era essa “a intenção”.

As instruções dadas ao grupo eram tão específicas que já constava delas o título do documento que os quatro deveriam produzir, a saber, um texto sobre “A emigração permanente de cidadãos da RDA para a RFA por meio da RST [República Socialista da Tchecoslováquia]”. Os quatro participantes da reunião mantiveram o título do documento, apesar de incoerente com o texto final. Em vez de simplesmente expurgar dele qualquer referência à emigração, como haviam sido instruídos a fazer, Lauter e os demais presentes decidiram escrever um texto novo, abordando tanto a emigração permanente quanto as viagens temporárias. Ele e Hubrich, inclusive, já tinham preparado sugestões para alguns trechos da resolução. Ao final da manhã, com base em rascunhos dos dois e em alguns papéis trazidos para o encontro pelos camaradas da Stasi, os quatro produziram o novo texto que, inesperadamente, abriria o Muro ainda naquela noite.

O texto dizia que “passavam a valer as seguintes regras transitórias e temporárias para as viagens e a emigração a partir da rda…”, até a decretação de alguma lei em data futura. Acrescentava ainda que essas regras temporárias passariam a vigorar “de imediato”, escolha de palavras que teria consequências momentosas. Com uma penada, esses quatro burocratas de nível intermediário cancelavam e declaravam nulas as regras em vigor. A crise que enfrentavam naquele momento, concluíram eles, pedia medidas drásticas. Nos termos das regras que propunham, os cidadãos podiam requerer permissão para “viagens particulares a países estrangeiros” sem precisar atender às condições antes exigidas. Submeter um requerimento à aprovação das autoridades, porém, continuava a ser necessário.

O mais notável é que o texto do grupo continha depois a seguinte afirmativa: “A emigração permanente pode ocorrer através de todos os postos de fronteira entre a RDA e a rfa, e também por Berlim (Ocidental).” Essa menção à Berlim dividida era o resultado mais importante da decisão tomada por aqueles quatro homens de exceder a própria autoridade. Mais tarde, Lauter explicaria essa redação dizendo que seus autores não estavam preocupados com a aprovação das quatro potências que ocupavam a cidade e ainda detinham o controle final sobre Berlim. Eles podem ter presumido que essas considerações já estavam sendo abordadas por Oskar Fischer, o ministro do Exterior, e por outros responsáveis pela política externa. Naquele mesmo dia, os diplomatas lotados na embaixada soviética ficariam possessos ao saber que sua autoridade sobre Berlim dividida tinha sido simplesmente desconsiderada.

Que os quatro homens reunidos estivessem pensando em reformar, e não minar, o controle do Estado ficava óbvio ante a insistência em reafirmar no texto que, para sair, os alemães do Leste precisavam apresentar um requerimento às autoridades. Assim, continuava nas mãos do Estado, e por extensão do partido, autorizar seus cidadãos a atravessar qualquer fronteira. Quer planejasse deixar o país para sempre, quer só pretendesse tomar um café na Alemanha Ocidental, o cidadão da RDA ainda precisava apresentar um requerimento às autoridades do Estado e, nas palavras de Lauter, “obter pelo menos algum tipo de selo ou carimbo” antes da partida. A ideia dos quatro homens era que, pela avaliação de cada um desses requerimentos, o regime poderia limitar o fluxo de viajantes decididos a deixar o país. De fato, tanto a Stasi quanto o Ministério do Interior passariam o resto daquela tarde discutindo as diretivas para a concessão do visto de saída.

Os quatro concluíram que, dessa maneira, tinham conseguido dar conta da tarefa impossível que lhes fora ditada. O texto dava a impressão de promover a liberdade de ir e vir, mas ainda continha restrições suficientes para manter o controle e evitar o esvaziamento populacional da RDA – afinal, era temporário e ainda demandava múltiplos formulários, além de não citar o câmbio de moeda estrangeira. Nenhum dos quatro conseguiu perceber a gravidade do erro que estavam cometendo e as consequências finais de seus atos antes que fosse tarde demais.

O grupo também compôs a minuta de um comunicado à imprensa, embargando a sua divulgação até as quatro da manhã do dia seguinte, 10 de novembro. Ao meio-dia, já tinham terminado o texto. Encaminharam cópias para a aprovação de seus superiores e o envio para os membros do Politburo, que participavam, naquela mesma hora, da reunião do Comitê Central do SED. Lauter esperava que algum superior reclamasse com ele do que tinha sido, na essência, um esforço autônomo de burocratas do segundo escalão em colaborar para a estabilização da rda; entretanto, ninguém o procurou. Até onde podia saber, nenhum superior chegou sequer a reparar na discrepância entre o título do documento e seu conteúdo final. Se por acaso algum chefe percebesse essa contradição, haveria porém de concordar que o elemento-chave da questão – o controle – tinha sido preservado. Um alto membro da Stasi, o general Gerhard Niebling, mais tarde recordaria como tinha esmiuçado o resultado do trabalho dos quatro homens e pensado: “As regras vão ser consideravelmente afrouxadas”, mas, “é claro, a permissão continua a ser naturalmente necessária.” A seu ver, os quatro estavam longe de ter “derrubado o Muro”.

Lauter atribuiu ainda essa letargia à intensa pressão que os líderes do partido sofriam naquele 9 de novembro. Imaginou que ninguém tivera o devido tempo de ler, com foco e atenção, as minúcias de uma regra determinada, tanto mais que julgavam saber do que o texto tratava: era o excerto de um esboço de resolução conhecido de todos. A única objeção viria de autoridades menores do Ministério da Justiça, para as quais o texto simplesmente não podia revogar e tornar sem efeito as leis existentes, mas Lauter conseguiu convencê-los.

Ao final do expediente, Lauter sentiu-se à vontade para ir embora do escritório mais ou menos no horário normal. Ele e a mulher tinham ingressos para o teatro naquela noite, e ele queria cumprir a promessa de, dessa vez, chegar a tempo de assistir ao espetáculo desde o começo. Tinha determinado que o texto só podia ser anunciado às quatro da manhã do dia seguinte, e planejava estar de volta ao trabalho nessa hora. Depois de responder à objeção do Ministério da Justiça, deixou seu gabinete e ficou incomunicável pelo resto da noite. Só ouviu falar das cenas de caos junto ao Muro quando chegou a sua casa, bem mais tarde, na companhia da mulher. O filho do casal recebeu-os à porta, contou-lhes que o ministro do Interior havia ligado várias vezes e acrescentou: “Ah, por falar nisso, o Muro está aberto.”

 

Do outro lado de Berlim, na embaixada soviética, o vice-embaixador Igor Maximychev também teve um 9 de novembro movimentado. Passou o dia às voltas com repetidas ligações dos líderes partidários de Berlim Oriental, ansiosos porque Moscou ainda não respondera ao pedido de aprovação, feito por Fischer em 7 de novembro, de uma redação alternativa para a resolução sobre os deslocamentos dos alemães do Leste. Os tchecos, por sua vez, estavam furiosos com aquele atraso. Até onde sabiam os membros da embaixada, mantinha-se o plano que fora descrito para o embaixador e Maximychev dois dias antes, a saber: a abertura de um “buraco”, uma passagem para a emigração em algum ponto distante da fronteira entre as duas Alemanhas. Se alguém tivesse falado de abrir a fronteira em Berlim, os alarmes soviéticos teriam soado a todo o volume. Mas a embaixada soviética nem sabia que essa decisão podia estar em pauta. Nas palavras de Maximychev, a “abertura das fronteiras” nunca tinha sido sequer cogitada. A embaixada ignorava o que Lauter e seus colegas haviam feito, e graças a isso Moscou acabaria aprovando um plano que a princípio havia recusado.

Em sua ignorância, o embaixador Vyacheslav Kochemasov, Maximychev e seus subordinados tentaram várias vezes entrar em contato com superiores em Moscou para tratar da “variante do buraco”. A festa nacional soviética, porém, tornava sua iniciativa quase impossível.[4] Oficialmente, já não era mais feriado – quinta-feira, 9 de novembro, foi um dia de expediente normal, tanto em Berlim Oriental quanto em Moscou –, mas os principais líderes soviéticos, àquela altura, tinham acabado de cumprir uma verdadeira maratona: uma parada militar na Praça Vermelha, uma grandiosa recepção no Kremlin e inúmeros eventos menores. Por isso, muitos deles ainda se encontravam fora de alcance. Houve uma reunião do Politburo soviético em 9 de novembro, mas não há indício de que seus participantes tenham discutido qualquer questão relativa à Alemanha dividida, não obstante os apelos urgentes que lhes chegavam de Berlim Oriental.

Kochemasov e o vice-ministro do Exterior soviético, Ivan Aboimov, tentaram várias vezes entrar em contato com o ministro do Exterior, Eduard Shevardnadze, mas não foram bem-sucedidos. Aboimov então aconselhou o embaixador a determinar que o Politburo de Berlim Oriental aprovasse logo a íntegra da variante. Aboimov estava excedendo a sua autoridade, mas perdera as esperanças de conseguir falar com alguma figura mais graduada a tempo de dar uma resposta que impedisse os tchecos de adotar alguma medida mais extrema. Assim, Kochemasov fez saber à liderança do SED que Moscou não tinha objeções e que podiam prosseguir com o plano. Ninguém informou o embaixador que a “variante do buraco” se tornara obsoleta e que tinha sido redigido um texto novo em tudo diferente do primeiro. Foi uma falha significativa na comunicação que, supostamente, deveria manter os aliados soviéticos a par de todos os desdobramentos. Anos mais tarde, Kochemasov ainda não tinha entendido o lapso: “Naqueles dias, eu me reunia quase diariamente com Krenz, e ele não me disse nada”, o que pode ser um sinal de que tampouco o dirigente da Alemanha Oriental sabia o que estava acontecendo.

A essa altura sobreveio outra falha de comunicação, dessa vez envolvendo a retransmissão de informações relativas à aprovação soviética. Isso ocorreu depois que cópias do texto do grupo dos quatro foram entregues, via mensageiro, na encarniçada reunião do Comitê Central do SED, no início da tarde de 9 de novembro. A exaltação era grande no segundo dos três dias previstos para o encontro. Oficialmente, o Comitê Central era o organismo de tomada de decisões mais importante dentro do partido; no entanto, como suas reuniões eram relativamente escassas e o número de participantes, muito alto – os membros de pleno direito eram mais de 160 e ainda havia mais cinquenta suplentes –, quem na prática governava o partido e o país sempre tinha sido o Politburo, muito menos numeroso: não chegava a duas dúzias de membros, sob o comando do secretário-geral do SED, o mesmo Egon Krenz. Só que agora o Comitê Central começava a dar sinais de independência, como na sua rejeição parcial do plano formulado por Krenz, que incluía a renúncia do Politburo e uma nova “eleição” no mesmo dia. Esse desdobramento preocupava os demais membros do Politburo. Como um observador diria mais tarde, “dizer que a cúpula do partido era caótica, sem comando e incapaz de ação” seria, na verdade, um exagero e um grande elogio.

O texto do grupo dos quatro chegou às mãos de Krenz durante uma pausa nos trabalhos do Comitê Central. Ainda assim, ele começou a discuti-lo de imediato com alguns membros do Politburo, já contrariados e tensos, que tinha à sua volta. Apenas cerca da metade desses membros, a maioria deles com cigarros pendurados nos lábios ou nos dedos, estava ao alcance da voz de Krenz. Os demais aproveitavam a pausa para mudar de ares. O membro do Politburo responsável pelos meios de comunicação, Günter Schabowski, que acabaria anunciando o texto dos quatro, nem estava presente. Na verdade, Schabowski vinha faltando à maior parte das reuniões formais do Comitê Central por motivos nunca esclarecidos.

O que Krenz comentou durante a pausa parece não ter suscitado nenhuma reação. Talvez tenha bastado aos membros do Politburo tomar conhecimento do título enganoso do documento para não lhe dar mais atenção, pois acreditavam saber do que tratava. Ou talvez estivessem simplesmente tensos demais para se preocupar com qualquer outra questão durante aquela pausa na reunião, que vinha sendo penosa. Ou podem ter imaginado que uma discussão mais detalhada ocorreria quando a sessão regular da reunião do Comitê Central fosse retomada, depois do intervalo. Seja como for, aparentemente ninguém atinou com a diferença entre as instruções originais do Politburo e o texto que Krenz tinha nas mãos.

Alguém parece ter feito a Krenz a única pergunta de fato pertinente: se aquilo que ele estava lendo tinha sido referendado pelos soviéticos. E ocorre que a resposta correta era não. Moscou, por meio de seu embaixador, Kochemasov, só tinha aprovado a “variante do buraco”. E Krenz gerou um novo mal-entendido quando respondeu positivamente: sim, disse ele, tinha recebido notícia dos soviéticos, e o texto fora aprovado por Moscou.[5] E é bem provável que essas palavras tenham bastado para que muitos membros do Politburo julgassem a questão decidida. E esse problema de comunicação era particularmente significativo, pois implicava uma aprovação do mais alto nível que, na verdade, não ocorrera.

Mais um problema se apresentou quando, ainda naquela tarde, Krenz decidiu ler o texto do grupo dos quatro para a reunião plenária do Comitê Central. Teoricamente, criou assim mais uma janela de oportunidade para alguém pôr em dúvida a sensatez da redação do documento. Essa janela se abriu às 15h47, quando Krenz se desviou do programa da reunião e disse: “Os senhores sabem que estamos às voltas com um grave problema: a questão da emigração.” Os “camaradas tchecos” se queixavam amargamente, prosseguiu ele, bem como os camaradas húngaros haviam reclamado antes deles, do impacto funesto das ondas de alemães do Leste que deixavam seu país e, atravessando as fronteiras, enveredavam pelos territórios dos países vizinhos. E Krenz acrescentou: “Qualquer atitude que tomemos nessa situação será errada.” Não havia uma opção melhor que as outras. “Se fecharmos as fronteiras com a Tchecoslováquia estaremos punindo os cidadãos decentes da rda, que não poderão mais viajar e, a partir de então, farão o possível para nos pressionar.” Presumivelmente, Krenz queria dizer que tentariam pressioná-los por meio de protestos no território da própria Alemanha Oriental.

Krenz anunciou que, devido à insistência dos tchecos, o Conselho de Ministros estava pronto para apresentar a proposta de um novo documento. Na verdade, o que ele fazia era pôr palavras na boca dos ministros sentados à sua frente. Que o secretário-geral do SED ditasse aos ministros de Estado o que deviam dizer era uma prática costumeira, e, embora o Comitê Central já viesse abandonando o seu papel original, a situação ainda não chegara a ponto de declarar a prática extinta ou desafiar diretamente a autoridade de Krenz. Este deu a entender que o texto que leria tinha sido aprovado pelo Politburo, sem deixar claro que só fora “aprovado” por uma parte do Politburo durante uma pausa recente dos trabalhos. E assim ocorreu mais um erro significativo de comunicação, pois a aprovação assinalava, para seus ouvintes, que o documento já tinha caráter definitivo. Krenz acrescentou que, como a questão era importante, ele iria ler em voz alta a íntegra da redação do comunicado em caráter de “consulta” – o que talvez tivesse a intenção de apaziguar o Comitê Central assolado por tanta dissidência interna, e foi o que fez.

Apresentado dessa forma por seu líder político, e com muitos dos presentes ansiando por voltar logo à discussão sangrenta e às acusações mútuas de sempre, o documento não sofreu qualquer questionamento sério. Ninguém aproveitou essa janela de oportunidade para pôr em dúvida a sensatez dos seus termos. Só o ministro da Cultura, Hans-Joachim Hoffmann, sugeriu uma alteração menor: trocar a frase “as seguintes regras transitórias e temporárias” por “as seguintes regras” apenas, pois julgava que classificar essa derradeira concessão de temporária e revogável poderia inflamar a oposição. Krenz concordou, observando que o documento afirmava em outro ponto que seu efeito só duraria até a aprovação de uma nova lei, o que tornava redundante qualquer referência à sua natureza temporária. Outro membro do Comitê Central quis saber de que maneira o texto seria divulgado. Krenz respondeu que seria lido por um porta-voz do governo chamado Wolfgang Meyer – e não por Schabowski, que tinha importância política muito maior e desde a véspera vinha conduzindo coletivas de imprensa ao estilo ocidental para relatar os progressos dos três dias de reunião do Comitê Central. Mas ninguém fez críticas, nem tentou uma discussão mais prolongada. Depois de perguntar “Todos os camaradas estão de acordo?” e não ouvir nenhuma negativa em resposta, Krenz passou ao ponto seguinte apenas oito minutos mais tarde, às 15h55.

Ninguém na sala se deu conta de que estavam aprovando uma resolução que teria como resultado a abertura do Muro ainda naquela noite. Ninguém se referiu, por exemplo, à necessidade de informar as guarnições de fronteira. Apesar dos efeitos devastadores que a emigração vinha tendo sobre a economia, ninguém criticou a ideia de anunciar aquele documento num dia de semana. Em 1961, em comparação, os governantes da Alemanha Oriental tinham calculadamente escolhido uma noite de sábado para a construção do Muro, a fim de ter certeza de que um número máximo de pessoas economicamente ativas estaria em casa. E nem parece ter ocorrido a ninguém algumas das associações trágicas do dia 9 de novembro na história da Alemanha: a data marca o aniversário, por exemplo, do célebre Putsch da Cervejaria tentado por Hitler em Munique em 1923 e do ataque generalizado dos nazistas aos judeus em 1938, a chamada Kristallnacht, ou Noite dos Cristais. Em suma, não houve sinal de que a liderança do partido tenha percebido que, na essência, estava assinando sua própria sentença de morte política. O descuido foi impressionante e abriu mais uma janela de oportunidade – dessa vez para a revolução pacífica, e não para o regime no poder –, e os manifestantes, ao contrário do SED, aproveitariam bem o ensejo daquela noite.

Logo depois de terminada a breve discussão no Comitê Central, autoridades do partido e da Stasi começaram a distribuir o texto aprovado, com as emendas pouco importantes acrescentadas na reunião do comitê, para as sedes distritais do partido e outras autoridades subordinadas.[6] Quando o gabinete do ministro da Justiça encaminhou, por volta de 17h45, suas objeções, já era tarde demais para a mensagem ter consequências relevantes, ainda que Lauter tenha levado as contestações a sério. Como parte do processo de notificação, o porta-voz do governo para a imprensa, Wolfgang Meyer, foi encarregado de anunciar o texto às quatro da manhã do dia seguinte, 10 de novembro. Mas Krenz logo esqueceria sua própria afirmação de que o aviso deveria ser feito pelo porta-voz do governo, e não pelo porta-voz do partido, ou talvez tenha mudado de ideia. Seja como for, sua guinada de última hora acabou sendo um gatilho funesto que acabaria por resultar no erro de comunicação derradeiro e mais significativo daqueles dias: a coletiva de imprensa de Günter Schabowski[7] ainda na noite de 9 de novembro.

 

Schabowski apareceu brevemente na reunião do Comitê Central, por volta das cinco da tarde. Não se sabe ao certo onde passou o dia, em vez de participar da reunião na qual se veria encarregado de fazer um resumo das decisões para a imprensa mundial na coletiva marcada para as seis da tarde e que seria transmitida ao vivo pela tevê; numa entrevista posterior, ele disse que estivera instruindo alguns jornalistas. Schabowski nunca tinha aprendido a conduzir devidamente uma coletiva de imprensa ao estilo ocidental. Sua experiência básica era com o jornalismo do tipo praticado na Alemanha Oriental, em que os líderes partidários se limitavam a ditar para os meios de comunicação tudo o que estes deveriam relatar depois de os fatos já se terem consumado, de maneira que não era prioritário estar familiarizado com acontecimentos ainda em processo. Tendo em vista esse contexto, não surpreende que ele tenha imaginado ser capaz de enfrentar a imprensa mundial sem antes participar da reunião do Comitê Central do SED.

Quando Schabowski passou pela reunião e perguntou a Krenz o que deveria dizer aos repórteres, o secretário-geral lhe deu o texto do grupo dos quatro, esquecendo – ao que tudo indica – que o porta-voz do governo, Wolfgang Meyer, já fora encarregado de anunciá-lo. Mais tarde, Krenz contaria que, ao entregar o texto a Schabowski, disse-lhe que a notícia iria despertar um “interesse mundial”. Mas não parece provável que isso tenha ocorrido, visto que Schabowski nem se deu ao trabalho de ler os papéis antes do início da transmissão. Como comentaria posteriormente: por que precisaria ler? Embora não estivesse presente ao encontro do Comitê Central nem no momento em que Krenz falou da resolução durante a pausa, nem quando ocorreu a breve discussão na reunião propriamente dita, Schabowski não sentiu o menor constrangimento ao receber o texto. Depois, ele diria: “Eu sei falar alemão e sei ler um texto em voz alta sem cometer erros” – e por isso não precisava se preparar. E, apesar de ter tempo de passar os olhos no texto durante o considerável trajeto de carro até o Centro Internacional de Imprensa, na Mohrenstrasse, ele também não achou necessário fazê-lo. Essa sua atitude descuidada fez com que a coletiva de imprensa ao vivo se transformasse no momento mais emblemático do colapso da capacidade de governo do regime.

De fato, Schabowski quase se esqueceu de ler o texto no ar. Preferiu abrir a coletiva de imprensa lendo longas listas com os nomes dos oradores da reunião do Comitê Central naquele dia. Foi uma decepção para os jornalistas de toda parte do país e do mundo, que tinham viajado até Berlim Oriental só para ouvi-lo. Peter Brinkmann, jornalista com base em Hamburgo que trabalhava no diário Bild, da Alemanha Ocidental, chegou horas antes do início da coletiva apenas para deixar o paletó marcando seu lugar na primeira fila. Ninguém tirou o paletó do lugar, e Brinkmann pôde sentar-se na poltrona reservada, apesar do grande aperto no auditório, que obrigaria os participantes atrasados a se encarapitar na beirada do palco. Assim que a coletiva começou, contudo, Brinkmann se perguntou por que se dera ao trabalho de chegar tão cedo, ou mesmo de ter comparecido. Schabowski, acompanhado no palco pelo ministro do Comércio, Gerhard Beil, que quase não disse nada, e por Helga Labs e Manfred Banaschak, membros do Comitê Central, limitava-se a relatos monocórdios dos recentes debates partidários, sem transmitir qualquer nova informação. “Era um simples blá-blá-blá”, rememorou Brinkmann. “Mortalmente chato.”

Tom Brokaw, âncora da tevê norte-americana NBC que percorrera uma distância muito maior que Brinkmann para estar presente àquela coletiva, lembra-se de ter tido uma reação semelhante. Poucos dias antes, ele, Jerry Lamprecht, chefe da editoria internacional da emissora, e Bill Wheatley, produtor-executivo do telejornal NBC Nightly News, haviam concordado que os fatos recentes na Alemanha Oriental tinham, potencialmente, apelo para merecer uma transmissão ao vivo. A NBC vinha cobrindo vários acontecimentos na Europa, especialmente as vitórias obtidas na Polônia pelo sindicato Solidariedade. Assim, um foco mais concentrado na Alemanha Oriental, depois das gigantescas manifestações ocorridas em Leipzig e Berlim Oriental em outubro, parecia ser obviamente o próximo passo. Brokaw e seus produtores resolveram que valia a pena ir para a Alemanha dividida, mas que só decidiriam fazer ou não uma transmissão ao vivo depois de ver o que o jornalista conseguiria desencavar.

Nada do que Brokaw tinha obtido desde a chegada à Alemanha, porém, justificava uma transmissão ao vivo para os Estados Unidos. Nem mesmo as declarações de Schabowski na coletiva – percebeu logo o jornalista, pois podia ouvir as respostas do entrevistado na tradução transmitida via fone de ouvido e também ver que jornalistas presentes no auditório superaquecido, entre eles o correspondente da Associated Press sentado a seu lado, cochilavam abertamente em suas cadeiras. Fora graças à produtora Michele Neubert, cidadã britânica fluente em alemão, empregada no escritório da NBC em Frankfurt, que Brokaw e sua equipe tinham comparecido àquela interminável coletiva. Ela cuidara de agendar várias entrevistas para Brokaw durante a permanência do âncora na Europa, inclusive com Schabowski, que falava inglês, ainda que macarrônico. Obter essa entrevista custara à produtora um esforço considerável. Neubert passara dias seguindo os passos de Schabowski e considerou um triunfo ele concordar em conceder uma exclusiva à NBC logo após a coletiva de 9 de novembro. Assim, o motivo pelo qual ela, Brokaw, o braço direito do âncora, Marc Kusnetz, e os técnicos de áudio e vídeo da NBC estavam presentes nem era propriamente acompanhar a coletiva de Schabowski, mas se preparar para a conversa que ocorreria depois. Neubert já havia providenciado a instalação de outra unidade de câmera e áudio numa sala adjacente, pronta para gravar a entrevista. Mas, enquanto suportava junto de seus colegas aquela tediosa coletiva como um prelúdio para a conversa exclusiva, ela começou a se perguntar se conseguiriam obter qualquer declaração utilizável da parte de Schabowski.

De repente, Neubert teve sua atenção despertada e entrou em estado de alerta. Um jornalista italiano, Riccardo Ehrman, perguntara a Schabowski sobre as possibilidades de viagem para os alemães do Leste. A longa réplica de Schabowski em alemão não foi a que Neubert esperava. A resposta dele começou no mesmo tom vago com que tinha retrucado a todas as perguntas até então, fazendo pausas frequentes e usando em abundância o equivalente alemão de “ahn”: “Sabemos dessa tendência da população, de viajar ou ir embora… E… ahn… temos a intenção… de implementar uma renovação complexa da sociedade e… ahn… dessa forma conseguir, com esses novos elementos… ahn…. que as pessoas não se vejam obrigadas a tentar resolver dessa forma os seus problemas pessoais.” Seguiram-se mais algumas elaborações vagas sobre o tema da renovação social e muitos “ahns”. Mas, em seguida, Schabowski acrescentou: “De qualquer forma, chegou hoje ao meu conhecimento… uma nova decisão.” Lançou um olhar de soslaio para os subordinados que dividiam o palco consigo, como se lhes pedisse confirmação, mas não houve resposta ao seu apelo.

Schabowski prosseguiu, dizendo, entre muitas pausas e muitos “ahns”, que o partido tinha decidido “emitir uma resolução que permitisse a emigração… de qualquer cidadão da Alemanha Oriental”. Ele iria ler o texto com as novas regras, afirmou, assim que conseguisse encontrá-lo. E começou a folhear sua grossa pilha de papéis. Não só Neubert como também o técnico de som da NBC, Heinrich Walling, fluente em alemão, tinham assumido um ar visível de espanto. Brokaw olhou para ele com uma expressão de interrogação. E Walling sussurrou sua resposta, em inglês: “É o fim da Guerra Fria.” Num texto publicado dez dias mais tarde no New York Times, Brokaw descreveu sua surpresa naquele momento. Foi tão espantoso como se “uma força alienígena” do espaço tivesse acabado de invadir a sala, escreveu ele.

 

Os jornalistas prorromperam num burburinho frenético de perguntas em alemão. “Sem passaporte? Sem passaporte?”, gritou um repórter.[8] “Quando isso entra em vigor?”, gritou outro. Aquele súbito caos perturbou Schabowski, que ficou visivelmente perplexo e desorientado. Tentando recuperar o controle, ele exclamou, aturdido: “Ora, camaradas!” Mas “camaradas”, se era uma forma de tratamento que podia funcionar com os correligionários do partido, não tinha o menor peso com a imprensa mundial. Ganhando tempo enquanto revirava sua papelada em busca do documento, Schabowski afirmou, erroneamente, que cópias do comunicado tinham sido enviadas aos jornalistas.

Em seguida, o porta-voz foi sendo tomado por um nervosismo cada vez mais flagrante enquanto remexia em seus papéis, e foi só com a ajuda de um assistente que finalmente encontrou o texto do grupo dos quatro. Como se tentasse recuperar o tempo perdido, passou a ler o documento velozmente em voz alta. Os jornalistas, atônitos, viram-no atropelar as seguintes palavras, pronunciando-as com tanta pressa que elas soaram quase incompreensíveis: “A permissão para viagens particulares ao estrangeiro pode ser requerida pelos cidadãos sem necessidade de justificativa – como o motivo da viagem, se ela é voltada ou não a encontros familiares. As autorizações serão concedidas em pouco tempo.” Noutras palavras, o texto, ao contrário do que Schabowski dissera ao apresentá-lo, não se limitava à emigração, mas abrangia também viagens particulares e mesmo jornadas curtas. Alguns dos repórteres presentes, incapazes de se conter, interromperam Schabowski. Um deles voltou a perguntar se um passaporte era necessário. Schabowski, mais uma vez, não respondeu. Outras questões foram igualmente repetidas por vários dos jornalistas. Coube a Peter Brinkmann, do jornal Bild, insistir na pergunta de fato crucial: “Quando isso entra em vigor?” Schabowski tornou a percorrer o texto que tinha em mãos e não conhecia, pinçando nele a expressão que respondia àquela pergunta: “De imediato.”

Brokaw, sua equipe e todos os demais presentes agora acompanhavam a coletiva com a máxima atenção. Os jornalistas das grandes agências de notícias, em particular – como o correspondente da Associated Press sentado perto de Brokaw –, já estavam sob pressão para serem os primeiros a divulgar qualquer novidade de maior relevo, e o que acontecia ali lhes parecia matéria de suprema importância. Alguns repórteres das grandes agências chegaram a ponto de deixar a sala enquanto Schabowski ainda falava. Jornalistas que não possuíam os primeiros protótipos de celular nem escritórios próximos queriam ser os primeiros a chegar às cabines telefônicas do centro de imprensa de Berlim Oriental. Eram poucos telefones, guardados por um supervisor que, como todo mundo sabia, precisava avisar à Stasi sempre que algum correspondente lhe pedisse acesso a uma linha. O tempo que a Stasi levava para dar início ao monitoramento da ligação podia ser infindável, custando minutos cruciais para os correspondentes.[9] Brokaw e sua equipe, entretanto, dispunham do luxo de um carro à sua espera na porta do centro de imprensa, tendo a bordo um telefone veicular que, à diferença dos protótipos dos celulares, sempre funcionava bem. A equipe da NBC, de uma hora para outra, deixou de temer a conversa marcada com Schabowski e começou a esperar ansiosamente por ela. Era a entrevista exclusiva que, agora, todo mundo gostaria de ter. Neubert começou a planejar mentalmente uma estratégia de saída da sala para chegar logo ao outro auditório e preparar a entrevista com a maior presteza possível.

Ouviram-se mais perguntas gritadas, como: “Isso vale também para Berlim Ocidental?” Schabowski não respondeu. Repetiram a pergunta. Relutante, Schabowski voltou a examinar o texto e, para sua própria surpresa, constatou que incluía as palavras “Berlim (Ocidental)”. Surpreso e desconcertado, ele confirmou que o comunicado se aplicava a Berlim Ocidental, o que gerou novas perguntas, todas gritadas ao mesmo tempo.

Finalmente, Daniel Johnson, correspondente do Daily Telegraph britânico, levantou-se e perguntou bem alto: “E o que vai acontecer agora com o Muro de Berlim?” Todos se calaram na plateia, enquanto aguardavam ansiosos pela resposta, mas só se ouvia um longo e tenso silêncio. Schabowski dava a impressão de ter perdido o poder da fala. Finalmente, pôs fim àquela pausa torturante com as seguintes palavras: “Acabam de me avisar que já são sete horas da noite. Essa foi a última pergunta, sejam compreensivos, por favor!” Em seguida, passou a tentar relacionar a situação do Muro à lentidão dolorosa do processo de desarmamento em curso, dizendo que as questões relacionadas à fronteira “tenderiam definitivamente para um registro positivo, caso a RFA e a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] se comprometessem claramente com o desarmamento, pois a RDA e outras nações socialistas já tinham dado os devidos passos preliminares”. Enquanto essa declaração confusa ainda pairava no ar e Johnson e os outros presentes esperavam por uma resposta sobre o que ocorreria com o Muro, Schabowski disparou abruptamente “Muito obrigado!” e encerrou a coletiva de imprensa. Eram 19h00min54. De maneira deliberada, ele deu por finalizada a coletiva sem definir o destino do Muro. Esta tarefa ficaria por conta dos participantes da revolução pacífica que começaria mais tarde, ainda naquela noite.

 

Quando a coletiva de imprensa de Günter Schabowski chegou ao fim, os jornalistas presentes não sabiam o que pensar a respeito do que haviam acabado de ver e ouvir. Como não tinham recebido cópia do texto do grupo dos quatro, ao contrário do que Schabowski dissera diante das câmeras, os jornalistas – especialmente os correspondentes das grandes agências, sempre pressionados a mandar imediatamente as notícias – precisavam apoiar seus despachos somente nas confusas afirmações feitas por Schabowski nos últimos minutos da coletiva.

Não surpreende, assim, que os relatos iniciais da imprensa tenham divergido. A primeira agência a noticiar a mudança de regras foi a Reuters, às 19h02, momento em que muitos jornalistas ainda cercavam o palco do auditório na esperança de obter mais algum esclarecimento. “É possível deixar a RDA por todos os postos de fronteira da RFA a partir de agora”, noticiou a agência, divulgando em seguida uma reportagem mais detida: “Os cidadãos da Alemanha Oriental que desejarem deixar o país podem começar a fazê-lo a partir de agora, cruzando qualquer posto de fronteira […] Os cidadãos que pretendam sair não precisam mais fazer um desvio através da Tchecoslováquia. Os departamentos da polícia responsáveis pelos postos estão sendo instruídos a emitir imediatamente as permissões de saída.” Às 19h04, uma agência noticiosa da Alemanha Ocidental anunciou que, “entrando em vigor imediatamente”, os cidadãos alemães-orientais podiam sair “diretamente por todos os postos da fronteira entre a RFA e a rda”. No mesmo instante, a ADN, agência noticiosa da Alemanha Oriental, liberava o texto do grupo dos quatro. Ao que tudo indica, seus jornalistas concluíram que, se Schabowski podia ignorar o embargo da divulgação antes das quatro da manhã de 10 de novembro, eles tinham o mesmo direito.

A cobertura da tevê parece só ter começado às 19h17. No primeiro telejornal importante que foi ao ar depois da coletiva, o da emissora ZDF, da Alemanha Ocidental, a notícia apareceria em sexto lugar. Depois de apresentar as cinco primeiras notícias, a ZDF noticiou que, “a partir de agora, os cidadãos da Alemanha do Leste poderão deixar o país diretamente por todos os pontos de travessia da fronteira entre a RDA e a rfa. Com a decisão de hoje, foi criada uma regra temporária para regular as viagens no país até que seja criada uma nova lei”. O telejornal concorrente, da emissora ARD, começou em seu horário normal, às 20h, e informou a seus espectadores que o “desvio” pela Tchecoslováquia tinha se tornado desnecessário; o Muro ia “tornar-se permeável”. Após essa chamada, o telejornal apresentou uma longa reportagem sobre a visita do chanceler Helmut Kohl à Polônia, claramente preparada com antecedência para ser a matéria principal da noite.

Apesar das informações que transmitiam, os jornalistas não sabiam bem o que estava acontecendo. Como a Stasi vigiava todos os jornalistas estrangeiros, a confusão que eles viveram naquela noite fica bem evidente nos arquivos do ministério. Às 19h17, por exemplo, um repórter de tevê telefonou ao seu escritório em Colônia para dizer que, muito provavelmente, o próprio Schabowski “nem sabia ao certo o que estava anunciando”. Esse jornalista e seu interlocutor na conversa entenderam que as novas regras só se aplicavam aos interessados em emigrar, não a quem quisesse fazer apenas uma viagem curta. Colônia aconselhou o repórter em Berlim Ocidental a “manter a equipe de filmagem em alerta”, por via das dúvidas.

No Centro Internacional de Imprensa, Tom Brokaw, Marc Kusnetz e Michele Neubert correram para a sala preparada para a exclusiva de Schabowski. Esperavam que, apesar do caos que irrompera no auditório principal, ele mantivesse a promessa de conceder a exclusiva. Felizmente para eles, Schabowski também queria deixar o auditório o mais depressa possível. Um repórter de língua inglesa tentava convencê-lo a traduzir, palavra por palavra, as novas regras para o inglês. Atônito, o membro do Politburo recusou o pedido, dizendo: “É difícil demais para mim traduzir esse comunicado para o inglês.” Depois de trocar mais algumas palavras com a multidão de jornalistas que se acotovelavam a seu redor, Schabowski ergueu as mãos e disse que precisava voltar à reunião do Comitê Central: “Por favor, me deem licença.” Na verdade, sua intenção era dar a entrevista prometida a Brokaw e ir para casa, mas de algum modo achou que soaria melhor dizer que precisava voltar ao trabalho.

Abrindo caminho quase à força, Schabowski finalmente conseguiu chegar à sala adjacente onde Brokaw, Kusnetz, Neubert e a equipe de filmagem da NBC já se encontravam à sua espera. Assim que ele entrou, Neubert usou as próprias costas para segurar a porta e resistir às investidas dos outros repórteres, que continuaram a tentar invadir o recinto durante os cerca de dez minutos da entrevista. Brokaw começou logo a fazer ao membro do Politburo as perguntas que estavam na ponta da língua de todos os jornalistas presentes: “Sr. Schabowski, eu entendi bem o que o senhor disse? Os cidadãos da RDA agora podem, por motivos pessoais, sair do país por qualquer posto de fronteira que queiram atravessar? Não é mais necessário passar por um terceiro país?” Em seu inglês precário, Schabowski respondeu: “Ahn… não são mais forçados a sair da rda… ahn, ahn… passando por outro país.” Brokaw tornou a tentar: “E será possível para eles atravessar o Muro em algum ponto?” “Eles podem atravessar a fronteira”, respondeu. E Brokaw retrucou: “Com toda a liberdade de ir e vir?” “Sim, é claro”, disse Schabowski, e acrescentou: “E não é só para fazer turismo. Trata-se de uma permissão para deixar a rda.”

Logo que terminou a breve entrevista, e apesar de ter dito que precisava voltar para o Comitê Central, Schabowski caminhou cansado até seu carro e pediu ao motorista que o levasse para casa. Ele morava em Wandlitz, área bem protegida de Berlim Oriental, na qual residia a elite do partido, isolada em segurança do resto da população. Schabowski e sua família viviam na casa 19, e ele se lembraria, décadas mais tarde, que quando seu carro parou, na noite de 9 de novembro, não viu praticamente nenhuma janela acesa nas casas vizinhas. Os líderes do partido, imaginou, nem sequer teriam assistido à coletiva de imprensa.

Brokaw, Kusnetz e Neubert deixaram a sala em estado de grande animação, enquanto rumavam para o carro com chofer. Outros jornalistas, ao vê-los sair, gritaram: “É verdade?” Brokaw respondeu brevemente: “É verdade, o Muro vai cair.” O comentário do âncora tinha um peso especial para os profissionais dos meios de comunicação de todo o planeta, pois só ele tivera a oportunidade de esclarecer a situação diretamente com Schabowski naquela noite. Suas palavras fizeram aumentar bastante o grau de certeza de outros jornalistas quando eles se comunicaram com seus editores e emissoras.

 

Logo Brokaw e os produtores encontraram seu motorista e, usando o telefone do carro, ligaram para Nova York. A rede pediu que o âncora produzisse de imediato uma chamada de voz, do telefone mesmo, pois ainda faltavam cinco horas para o telejornal Nightly News entrar no ar. Kusnetz postou-se de pé ao lado do carro para garantir que não ocorreria nenhum tumulto enquanto Brokaw transmitia ao vivo pela NBC um rápido resumo da coletiva. A tecnologia da época não permitia que a rede exibisse ao mesmo tempo a imagem de Brokaw. A transmissão de imagens ao vivo requeria uma “janela de satélite”, ou seja, a reserva de tempo para uso do satélite retransmissor, que precisava ser feita com uma grande antecedência. A NBC tinha uma janela reservada para uma potencial transmissão de Berlim Ocidental a partir do horário de início do telejornal Nightly News, às 18h30 em Nova York – ou 0h30 em Berlim.

A rede providenciara em Berlim Ocidental a licença municipal necessária para uma possível transmissão de um ponto do Muro bem em frente ao Portão de Brandemburgo. O chefe da editoria internacional da NBC, Jerry Lamprecht, instruíra os membros da equipe do Nightly News para que obtivessem essa licença e estivessem bem preparados no local. Sob a supervisão de Maralyn Gelefsky, ao anoitecer de 9 de novembro a equipe já tinha construído uma plataforma de 6 metros quadrados. Instalou poderosos refletores do tipo conhecido como HMI e antecipou a transmissão para o meio da noite, no horário de Berlim. Lamprecht e Gelefsky até alugaram uma plataforma elevatória para que os cinegrafistas, em caso de necessidade, pudessem colher imagens do Muro por trás da imagem de Brokaw. Também contavam com furgões equipados para editar o vídeo lá mesmo se fosse o caso.

A produção foi tão perfeita que adeptos de teorias da conspiração insinuariam mais tarde que a NBC devia ter recebido antecipadamente alguma informação secreta sobre a abertura do Muro, mas os membros da equipe presentes naquela noite histórica negam categoricamente que isso tenha ocorrido. A equipe do Nightly News estava apenas de prontidão; a decisão final de transmitir ou não o programa ao vivo de Berlim Ocidental ainda não fora tomada quando Schabowski deu início à coletiva de imprensa. Na verdade, Brokaw tinha chegado a ponto de pedir desculpas a Gelefsky ao final da tarde, dizendo que toda a trabalheira que ela tivera havia sido provavelmente em vão, pois no fim das contas nada justificava uma transmissão ao vivo do Muro de Berlim. Também disse a Cheryl Gould, a produtora titular que comandava o telejornal da sala de controle da NBC em Nova York, que “fizemos toda essa viagem, mas não conseguimos uma boa matéria”.

Depois da entrevista com Schabowski, porém, ficou claro para Brokaw e sua equipe que tanto a janela para uso do satélite quanto a plataforma que tinham erguido em frente ao Muro passaram a valer ouro de uma hora para outra. A NBC foi a única rede a tomar essas providências preliminares num local visualmente bombástico. Agora, não podiam mais deixar de transmitir o telejornal ao vivo. Brokaw e suas produtoras voltaram de Berlim Oriental pelo Checkpoint Charlie[10] e assumiram sua posição junto ao Muro, perto do Portão de Brandemburgo. Agentes da Stasi que acompanhavam a movimentação da equipe do lado oriental anotaram que os refletores da NBC foram acesos às 19h50, quando começaram os preparativos para o programa.

Havia, contudo, um problema enorme: a tevê ainda não dispunha de imagens de alemães do Leste cruzando para o lado ocidental pelos postos de passagem ao longo do Muro ou por cima dele. Kusnetz recorda que esse tempo de espera lhe causou um “nó no estômago”. Brokaw já havia anunciado na NBC que o Muro ia se abrir, e a rede tomara a decisão de transmitir ao vivo de Berlim Ocidental. Para a transmissão, prevista para 0h30, precisavam de imagens de gente atravessando o Muro – e era responsabilidade de Kusnetz e dos cinegrafistas sob suas ordens encontrá-las e transmiti-las para Nova York. O tempo corria, e Bill Wheatley, o produtor-executivo do noticiário, não parava de perguntar: “Quando chegam essas imagens?” Kusnetz respondia “Logo estarão aí” e tentava descobrir o que fazer.

 

Kusnetz estava longe de ser o único naquela noite a se perguntar o que fazer. Essa também era a questão fundamental para os alemães-orientais em serviço ao longo do Muro de Berlim, especialmente no maior dos postos de travessia da fronteira dentro do perímetro da cidade, o da Bornholmer Strasse. O “território de controle” – como a Stasi definia esse posto na região Norte da cidade dividida – cobria mais ou menos 200 metros por 120 metros, num total de quase 25 hectares, e continha um intricado complexo de instalações, portões, fortificações de segurança e corredores de passagem, tanto para pedestres quanto para veículos motorizados.

A coletiva de imprensa de Schabowski deixou esse posto numa posição especialmente delicada, pois, além de grande e fortificado, ficava num ponto complicado – pelo menos do ponto de vista do governo da Alemanha Oriental. Era um local muito acessível, perto da Schönhauser Allee, uma das principais artérias de acesso ao Centro da cidade. Era fácil chegar ali, inclusive por meio de transporte coletivo. Além disso, a Bornholmer Strasse era próxima da área residencial do bairro Prenzlauer Berg, em Berlim Oriental, onde viviam muitas “forças hostis” ao regime, como por exemplo a dupla de jornalistas e cinegrafistas freelancers Aram Radomski e Siegbert “Siggi” Schefke, que contrabandeavam notícias da RDA para o Ocidente.

Na noite de 9 de novembro, esses dois homens “hostis” de fato tomaram o rumo da Bornholmer Strasse. Radomski tinha acompanhado ao vivo, pela tevê da casa de sua namorada, na Metzer Strasse, em Prenzlauer Berg, a coletiva de imprensa de Schabowski. Ela achou tão chato o início da coletiva que resolveu fazer outra coisa. Mas Radomski continuou a assistir. “Aram, desligue essa tevê, é a mesma merda de sempre”, pediu ela, de outro cômodo. Mas ele não desligou, e disse: “Espere aí, parece que tem alguma coisa diferente… Não sei bem o quê.” Apesar dos pedidos insistentes da namorada, Radomski continuou prestando atenção enquanto Schabowski recitava seu confuso texto sobre a emigração. Quando a coletiva terminou abruptamente, Radomski concluiu que precisava conferir o que significava aquele “de imediato” formulado por Schabowski. Depois de uma tentativa inútil de convencer sua namorada a acompanhá-lo, saiu da casa dela e foi até o bar Metzer Eck, ali perto, ponto regular de encontro de Radomski, Schefke e outros amigos.

Schefke, claro, já estava lá, bebendo no balcão, junto com alguns conhecidos. Radomski gritou: “Ainda bem que você está aqui! Temos que ir para o posto de fronteira da Bornholmer Strasse agora mesmo!” O restante dos presentes no bar achou que Radomski tinha ficado louco, mas Schefke confiava na intuição do amigo, embora não tivesse ele mesmo assistido à coletiva. Os dois saíram às pressas, dizendo: “Se não voltarmos dentro de duas horas, é porque estamos em Berlim Ocidental.” Os amigos riram dessa bravata. A caminho do posto da Bornholmer, os dois passaram no apartamento de Schefke, na Gotlandstrasse, para catar parte das suas reservas em moeda ocidental, por via das dúvidas. Em seguida, foram de carro até a área da Bornholmer e estacionaram numa rua próxima, sem imaginar que só voltariam para ali muito tempo depois.

Radomski e Schefke se lembram de estar entre as primeiras pessoas – cerca de uma dúzia – a se apresentarem no posto da Bornholmer como “aderentes precoces” das novas regras. Imediatamente, começaram a perguntar aos guardas estacionados na entrada Leste se poderiam atravessar a fronteira, mas foram repelidos. Em seguida, Radomski pediu para falar com um oficial mais graduado; alguém se aproximou, mas a resposta foi a mesma. Ele e Schefke decidiram continuar ali, insistindo e reclamando.

Dentro do complexo da Bornholmer Strasse propriamente dito, o oficial mais graduado em serviço naquela noite era Harald Jäger. Nascido em 1943, Jäger servia fielmente o regime havia muito tempo: em 1989, já era visto como um veterano, com duas décadas e meia de trabalho só naquele posto de fronteira. Seguindo os passos de seu pai, ele tinha começado a servir como guarda de fronteira aos 18 anos e se alistara bem a tempo de contribuir para a construção do Muro de Berlim.

Em 1964, três anos depois da construção do Muro, Jäger conseguiu um posto no controle de passaportes em Bornholmer Strasse. Nos anos seguintes, ascendeu na hierarquia até obter a patente de tenente-coronel e subchefe da unidade de controle de passaportes. Apesar do título e do fato de que trabalhava num posto de fronteira, sua função era praticamente burocrática. E, embora andasse armado com uma pistola, nunca havia atirado em alguém que tivesse tentado uma travessia clandestina. Jäger era essencialmente um guarda-livros, um dos prepostos da figura mais graduada que classificava as identidades dos indivíduos no posto de fronteira da Bornholmer Strasse.

A autoridade nesse posto e nos demais era dividida na verdade entre três grupos: guardas de fronteira, fiscais aduaneiros e guardas do controle de passaportes, como Jäger. Essa divisão de trabalho significava que todos mantinham uns aos outros sob vigilância. Ao primeiro grupo, os guardas da fronteira, cabia a proteção física do Muro e de seus pontos de travessia. Havia sete regimentos de guardas de fronteira para os cerca de 150 km de extensão do Muro, cada um composto de 1 mil a 1,4 mil soldados; numa noite comum, meia dúzia deles estariam em serviço em Bornholmer Strasse. O segundo grupo, o dos fiscais aduaneiros, fazia a revista básica de quem atravessava a fronteira. Havia pouco menos de vinte deles servindo na Bornholmer naquela noite. Mas o grupo mais importante em qualquer posto de fronteira era sempre o pessoal de controle de passaportes, porque funcionava mais ou menos como uma ramificação da Stasi no local. Jäger, seu superior e todos os colegas trabalhavam para o Ministério de Segurança do Estado e prestavam contas diretamente a funcionários de mais alto escalão daquele ministério. Para ocultar suas identidades, usavam uniformes idênticos aos dos guardas da fronteira, e dessa forma, para os viajantes, em nada se distinguiam daqueles guardas. Todos os que trabalhavam em postos de fronteira, porém, sabiam que o oficial encarregado da unidade de controle de passaportes, a qualquer hora, era o funcionário mais graduado da Stasi em serviço, e portanto detinha o poder máximo de decisão ali. Em 1989, o chefe da unidade de controle de passaportes na Bornholmer era Werner Bachmann, e não Jäger. Entretanto, como havia sido convocado para uma reunião, Bachmann estaria ausente nas horas cruciais da noite de 9 de novembro.

Em consequência, naquela noite, Bornholmer estava sob o comando de Jäger, encarregado de supervisionar mais ou menos uma dúzia de funcionários lotados no controle de passaportes. Ele se apresentara às oito da manhã para um turno ininterrupto de 24 horas. Enquanto jantava num dos prédios de controle, assistiu na tevê à coletiva de Schabowski ao vivo, junto com alguns de seus homens. Incapaz de se conter, gritou: “Que merda é essa?” Em seguida, ligou para o coronel Rudi Ziegenhorn, naquela noite o funcionário mais graduado em serviço no Quartel-General do Comando Operacional da Stasi, para saber o que tinha acontecido. Ziegenhorn surpreendeu Jäger ao responder que tudo continuava exatamente como antes. Manfred Sens, oficial encarregado dos guardas de fronteira na Bornholmer Strasse na mesma noite, também tentou receber instruções ligando para o comando de seu regimento, mas o oficial superior tampouco sabia de nada fora do comum. Em seguida, Jäger ligou para os sentinelas de vigia na entrada Leste do posto de fronteira, perto de onde Radomski e Schefke começavam a criar encrenca. Os sentinelas contaram que poucos minutos depois do fim da coletiva de imprensa, às 19 horas, de dez a vinte pessoas começaram a se acumular ali, insistindo para que as deixassem atravessar a fronteira.

Nas décadas que Jäger passou nesse serviço, ele já tinha lidado com algumas tentativas de travessia não autorizada da fronteira. Afetados pelo álcool, candidatos à travessia costumavam aparecer no posto especialmente à noite. Em geral, os guardas de fronteira os repreendiam, detinham ou dissuadiam, de uma ou outra maneira. Jäger e seus homens, inclusive, tinham dado um apelido a esses personagens: eram os “porcos selvagens”. A novidade da noite de 9 de novembro era não só o número cada vez maior de “porcos selvagens” como também a determinação deles. Simplesmente se recusavam a ir embora.

Jäger tornou a ligar para o coronel Ziegenhorn. O coronel respondeu que os encrenqueiros deviam ser submetidos a um bom tempo de espera antes de serem “enxotados de volta”. Quando Jäger comunicou essas instruções à equipe da entrada do lado Leste em torno das 19h30, foi informado que o número de “porcos selvagens” tinha saltado de dez ou vinte para cinquenta ou cem. Alguns queriam inclusive cruzar a fronteira a bordo de seus veículos. Jäger orientou seus homens a responder que não havia ordens de deixar passar esses pretendentes à travessia. Ainda assim, pessoas não paravam de aparecer, tanto na Bornholmer Strasse como em outros postos de fronteira. Oficiais da Stasi na unidade de controle de passaportes do posto da Sonnenallee, por exemplo, relatavam fatos semelhantes. Em torno das 19h45, havia um bom número de alemães-orientais pressionando os guardas locais a deixá-los passar, justificando sua intenção com “as notícias que vêm saindo na imprensa”.

Muitas pessoas também começavam a telefonar para várias instituições do governo. Às 19h14, um alemão do Leste ligou para um gabinete do Conselho de Ministros a fim de reclamar que todos os escritórios que recebiam os pedidos de autorização de viagem estavam aparentemente fechados, a despeito do aviso de Schabowski. Às 19h20, alguém perguntou em outra ligação se as viagens recém-aprovadas podiam ser feitas de trem. E um morador de Berlim Oriental chamado Peter Leonhardt ligou para uma delegacia de polícia naquela noite, pedindo para falar com o oficial em serviço de mais alta patente. Quando foi atendido, explicou que acabara de ver Schabowski dizer que os requerimentos de viagem estavam sendo aceitos imediatamente e que, portanto, ele queria fazer o seu naquele minuto mesmo, e pelo telefone. O oficial do outro lado da linha não tinha ideia do que responder e retrucou que não sabia de nada a respeito. Leonhardt insistiu. O policial disse que ligaria de volta e, espantosamente, foi o que fez, ressaltando que “normalmente” Schabowski teria razão, mas que naquele caso as regras só começariam a vigorar no dia seguinte. A conversa com Leonhardt levou à emissão de uma ordem para todas as principais delegacias de polícia de Berlim, instruindo os policiais a responderem daquela mesma forma.

 

Em Bornholmer, por volta de 20h30, Radomski e Schefke se viram acompanhados por muita gente. Os homens de Jäger estimavam que havia naquele momento várias centenas de pessoas, talvez mais de mil. Um carro de polícia apareceu, e dele saiu um guarda que tentou anunciar com um megafone que os presentes deviam se dirigir a uma delegacia próxima para obter um visto, e só depois disso voltar ao posto de fronteira. O anúncio só piorou as coisas. As pessoas ou o ignoraram, questionando a autoridade da polícia, ou realmente se dirigiram à delegacia mais próxima. Os policiais de plantão, entretanto, não sabiam de nada do que a pessoas lhes falavam nem tinham autoridade para distribuir aqueles vistos instantâneos, e mandaram todos embora. Em alguns casos, o trajeto de ida e volta entre a Bornholmer Strasse e a delegacia de polícia levava apenas dez minutos no total, mas os “porcos selvagens” ficaram furiosos por terem sido obrigados a uma caminhada inútil.

Em Bornholmer, Sonnenallee e outros lugares, as autoridades se viram rapidamente sobrepujadas em número pelos candidatos à travessia imediata da fronteira, que a essa altura se contavam aos milhares. No entanto, se eram inferiores em número, os guardas da fronteira ainda detinham poder, pois lhes restava o acesso a armas. Vários deles portavam pistolas, como Jäger, e tinham metralhadoras maiores à sua disposição. Em decorrência tanto dos esforços bem-sucedidos de Karin Gueffroy para divulgar a morte de seu filho Chris em fevereiro[11] como do incidente em que um oficial da Stasi tinha disparado contra fugitivos bem diante das câmeras em abril, Jäger e seus comandados haviam recebido nesse mês instruções emitidas, com relutância, por Erich Honecker, no sentido de se absterem do uso dessas armas de fogo. Mas os guardas de fronteira continuavam armados. Fora isso, as ordens para abrir fogo sempre estiveram cercadas de grande ambiguidade. A desculpa de uso da força letal para defender a própria vida podia justificar disparos em qualquer circunstância. Como entendiam que seu posto de fronteira estava cercado, não estava fora de questão para eles que suas vidas pudessem estar de fato em perigo. O que mais deixava Jäger preocupado, aliás, era a possibilidade de que membros da multidão pudessem tentar tomar as armas da guarnição do posto de fronteira.

Tentando obter instruções para lidar com a situação caótica, Jäger ligou várias vezes para o coronel Ziegenhorn, que sempre dizia para ele agir dentro da normalidade.  Chamou de novo, insistindo em obter uma resposta mais proveitosa – mas nada. Jäger calcularia, tempos depois, que deve ter feito uns trinta telefonemas no decorrer daquela noite, todos na tentativa infrutífera de obter novas instruções à luz dos desdobramentos dramáticos que se davam bem à sua frente. Só numa ocasião Ziegenhorn disse a Jäger para desviar-se dos padrões de procedimento, e essas suas instruções acabariam por deixar a situação ainda pior.

Ziegenhorn afirmou que incluíra clandestinamente Jäger numa conferência telefônica com os seus superiores na Stasi, entre eles Gerhard Neiber, que ocupava um posto logo abaixo do ministro Erich Mielke.[12] E pediu para Jäger “ficar quieto” e não deixar ninguém perceber que ele estava na linha. No momento em que Ziegenhorn resumia os relatos do que ocorria na Bornholmer Strasse sob o comando de Jäger, este foi incluído em segredo na conversa telefônica. Neiber, então, perguntou em tom brusco: “Esse Jäger é capaz de avaliar objetivamente a situação ou não passa de um covarde?”

Nesse ponto, a ligação de Jäger de repente caiu. Segurando o telefone mudo na mão, ele sentiu-se tomado por uma onda de fúria. Fazia quase duas horas que vinha lidando com uma situação perigosa e sem precedente. Não tinha recebido nenhuma resposta substancial a seus pedidos urgentes e constantes de orientação. Fazia mais de doze horas que estava de prontidão no posto, e ainda ficaria lá, no mínimo, até o amanhecer do dia seguinte. E, como se não bastasse o caos no local de trabalho, ainda precisava enfrentar um problema de ordem pessoal: ele tinha feito exames para saber se tinha câncer ou não, e a entrega dos resultados estava agendada para o dia seguinte.

Jäger se sentia perto do seu limite. Tinha prestado 25 anos de bons serviços no posto da Bornholmer Strasse. E, antes disso, servira três anos, inclusive no período em que o Muro ainda estava em construção. Em todo esse tempo, tinha recebido várias recomendações por seu trabalho e só tivera uma marca negativa na folha de serviço. Ele sabia que estava a ocorrer uma fuga em massa do seu país, e também que a RDA tinha sérios problemas, mas ainda assim, numa escura manhã de novembro, se dispusera a vestir seu uniforme e se apresentar para um turno de 24 horas. Agora, seus superiores punham em dúvida sua capacidade de relatar corretamente uma situação e ainda insinuavam que fosse um covarde. Em retrospecto, Jäger entenderia que as escolhas que viria a fazer a partir de então foram todas afetadas por aquele momento. Um homem que jamais desobedecera a uma ordem em quase três décadas tinha sido pressionado além da conta por aquele insulto.

 

A multidão em Bornholmer não parava de aumentar. De pé nas primeiras filas da aglomeração, Radomski e Schefke pediam em voz alta, sem parar, que os guardas da fronteira os deixassem passar. No interior do alojamento do posto, antes mesmo que Jäger pudesse transformar sua raiva em ação, o coronel Ziegenhorn ligou para ele. E lhe transmitiu as novas instruções: para impedir que a situação ficasse pior, todas as unidades de controle de passaportes deveriam pôr em funcionamento o que logo em seguida começaram a chamar de “alívio da pressão”. Era uma solução que, em teoria, funcionaria da seguinte forma: Jäger devia instruir seus homens a identificar alguns membros mais agressivos daquela massa – gente como Radomski e Schefke – e separá-los dos outros. Então, os subordinados de Jäger deviam dizer individualmente a cada um dos desordeiros que ele seria autorizado a sair. No entanto, antes de efetivamente deixar que atravessassem, os comandados de Jäger deviam anotar as informações pessoais de cada um e carimbar sua caderneta de identidade perto da foto ou mesmo diretamente em cima dela. O carimbo naquele local incomum serviria para invalidar a identidade e eliminar a cidadania alemã-oriental de seu portador – embora ninguém devesse dizê-lo aos indesejáveis assim expelidos, para que não causassem mais problemas. A ideia era que os desordeiros mais agressivos fossem liberados aos poucos, de maneira controlada, para o Ocidente, antes de desaparecerem por completo. Ziegenhorn e seus superiores, ao que tudo indica, esperavam que, com a eliminação dos piores baderneiros do quadro, as multidões que se acotovelavam nos postos de fronteira acabassem por se dispersar. Só mais tarde, caso tentassem reingressar na rda, é que seriam informados de que haviam perdido seu direito de retorno. Ziegenhorn transmitiu essas instruções não só para a Bornholmer Strasse como para vários outros postos de fronteira. Nessa mesma noite, o superior de Ziegenhorn, o general Heinz Fiedler, chefe do Departamento Principal VI da Stasi, confirmaria por escrito que o carimbo próximo à foto ou em cima dela invalidava a identidade, deixando o portador sem um documento válido para voltar à Alemanha Oriental.

Jäger, ainda irritado, encarou aquele plano com ceticismo, mas começou a implementá-lo em torno das 21 horas. Mandou que seus homens começassem a separar os mais aguerridos entre os indivíduos que se acotovelavam junto ao posto e abriu três guichês de controle a fim de processar a travessia desses encrenqueiros. Como Radomski e Schefke vinham se esforçando ao máximo para reclamar e fazer barulho havia horas – “Ninguém gritava mais alto do que nós!”, diria o primeiro, posteriormente – estavam entre as pessoas a serem apartadas num primeiro momento. Os dois dissidentes, ao lado de outros, foram levados para dentro das instalações do posto de controle. Lá, seus dados pessoais foram anotados e suas identidades carimbadas. Talvez para enfatizar sua intenção, o guarda que carimbou a identidade de Schefke o fez bem em cima da foto. Os dois ativistas, sem saber de nada, tinham sido expulsos para sempre da Alemanha Oriental.

Como que num sonho, de repente Radomski e Schefke se viram atravessando a ponte que, logo depois do posto de controle, levava direto à Berlim Ocidental. Schefke estava convencido de que estavam prestes a serem agarrados por agentes da Stasi e enfiados na traseira de um furgão, mas nada disso ocorreu. O lado ocidental da Bornholmer Strasse, logo descobririam, era uma área degradada e soporífera de Berlim Ocidental chamada Wedding. Numa noite de quinta-feira de novembro, não chegava a ser exatamente um lugar charmoso. Schefke mais tarde recordaria que a primeira coisa que lhe ocorreu ao ver Berlim Ocidental foi: “Quer dizer que o Ocidente é assim? Isto aqui fica no meio de lugar nenhum!” Decidiram pegar um táxi até o Centro. E só quando conseguiram embarcar é que Schefke se convenceu de que deviam estar, sim, no Ocidente, porque o táxi era um Mercedes.

Dentro do carro, precisaram responder ao motorista e dizer aonde estavam indo. Por causa da hesitação e da aparência dos dois, o motorista logo percebeu que não eram passageiros comuns. Ao saber que vinham de Berlim Oriental, tentou pôr os passageiros para fora do táxi, com medo de que só tivessem dinheiro do Leste, que não valia quase nada em Berlim Ocidental. Radomski e Schefke mostraram as notas ocidentais que traziam consigo. Sem saber que a corrida acabaria por custar-lhes quase tudo o que tinham, pediram para o motorista deixá-los em Schöneberg, em um prédio de apartamentos onde moravam uns conhecidos de Schefke. Um deles, ele tinha conhecido durante uma viagem de bicicleta pela Hungria. Quando os dois alemães do Leste desceram do táxi, disseram ao motorista, apesar da grosseria com que foram tratados: “Volte para aquela ponte, que você hoje à noite vai ganhar muito dinheiro.”

Os conhecidos de Schefke ficaram devidamente chocados ao se deparar com os dois berlinenses do Leste, que, após os primeiros cumprimentos, pediram para usar o telefone e ligaram para Roland Jahn. Mas Jahn estava muito ocupado, de plantão no seu emprego na estação de tevê berlinense SFB. Naquela noite, ele tanto apareceria na tela quanto coordenaria a cobertura das notícias – ao mesmo tempo que, intimamente, tentava absorver as novidades. Jahn fora expulso da Alemanha Oriental em 1983, e agora parecia que o muro que se erguia entre ele e sua cidade natal, Jena, enfim cairia.

Quando Radomski e Schefke ligaram para ele e lhe disseram que estavam em Berlim Ocidental, Jahn não acreditou. Para provar que não tentavam enganá-lo, os dois berlinenses do Leste descreveram a escada em caracol fora do comum na cobertura onde moravam seus amigos. Jahn também os conhecia e se lembrava bem da escada. E então se convenceu de que Radmoski e Schefke estavam dizendo a verdade. Eles tinham atravessado para Berlim Ocidental. O Muro estava aberto.

Na mesma hora, Jahn disse aos dois amigos que eles precisavam tomar imediatamente outro táxi e irem até a SFB. Jahn os colocaria diante das câmeras e eles poderiam anunciar ao mundo que o Muro estava aberto. Eles se revelariam como contrabandistas de informações da maneira mais espetacular possível; teriam o reconhecimento que desejavam tanto. Porém, o aspecto irreal daquela noite e o medo de represálias da Stasi ainda era muito grande. Nem Radomski nem Schefke tinham processado totalmente o colapso do controle por parte do regime da Alemanha Oriental. Preocupavam-se com as consequências que precisariam enfrentar na volta para Berlim Oriental, e por isso declinaram o convite de Jahn. E Schefke, contristado, respondeu a Jahn mais ou menos assim: “Não, não posso aparecer hoje na televisão, porque quero poder voltar para casa.”

Decepcionado, Jahn disse que compreendia. Os três decidiram se encontrar mais tarde, quando Jahn sentisse que podia deixar o estúdio da tevê. Eles se encontrariam num bar chamado O Ovo do Cuco, onde trabalhava outro berlinense do Leste e dissidente. Depois de comemorarem um pouco mais na cobertura de seus amigos, Radomski e Schefke voltaram à fronteira. Lá se misturaram à massa de berlinenses do Oeste que esperava a travessia de outros residentes de Berlim Oriental.

Naquele momento, entretanto, Radomski e Schefke eram exceções muito raras. A maioria dos alemães do Leste com o potencial de atravessar a fronteira ainda se encontrava em Berlim Oriental, onde o plano da Stasi de só liberar os mais desordeiros vinha resultando num espetacular tiro no pé. Em vez de reduzir a pressão, a notícia de que algumas pessoas tinham conseguido de fato atravessar se espalhou como incêndio na floresta. Muita gente concluiu que a hora tinha chegado, e as expectativas foram aumentando com uma velocidade assustadora, rememora Jäger. As multidões que ficaram para trás logo perceberam o sistema: se gritassem muito alto, sairiam antes, e isso os fez começar a gritar o quanto podiam. Jäger ligou mais uma vez para Ziegenhorn para relatar o problema que sua tática enfrentava, mas o coronel respondeu que não havia mais nada a fazer e que deviam continuar a agir da mesma forma. Jäger também acionou um sistema de alarme que convocava mais oficiais para sua força, totalizando uns sessenta homens de serviço no posto de fronteira.

Então Jäger ficou sabendo de mais um problema: o plano para “aliviar a pressão” estava criando uma crise na entrada Oeste do posto da Bornholmer Strasse. Entre as primeiras pessoas liberadas, havia jovens pais com filhos pequenos. Diferentemente de Radomski e Schefke, o plano delas era só dar uma olhada na área a Oeste próxima do posto e depois voltar para as crianças, que tinham ficado em casa, dormindo. Já satisfeitos com a rica experiência de uma rápida visita a Berlim Ocidental, voltaram depressa para a entrada, onde apresentaram suas identidades, dizendo, contentes: “Estamos de volta! Queremos ir para casa!” A resposta, porém, foi de que não podiam voltar. Ninguém lhes tinha contado que o carimbo na foto do documento de identidade decretava a expulsão permanente da Alemanha Oriental.

Num primeiro momento, eles não entenderam a situação, mas então perceberam que os guardas estavam falando sério. A construção do Muro, como todos os berlinenses sabiam, tinha separado muitas famílias sem aviso prévio. Algumas pessoas foram obrigadas a esperar anos até voltarem a estar com os seus parentes, caso conseguissem, e muitas vezes isso só foi possível graças a uma ajuda substancial de Bonn.[13] Agora, o regime dominante na Alemanha Oriental ameaçava despedaçar novamente muitas famílias, como tinha feito em 1961. Desesperados, os pais davam vazão a uma explosiva mistura de emoções.

Os guardas da fronteira postados na entrada Oeste, acuados pela intensidade da reação dos cidadãos expulsos, chamaram Jäger para vir conversar com os pais angustiados. Quando Jäger chegou lá, acabou dando vazão à sua própria fúria. Havia encarado com ceticismo o plano de consentir com a travessia dos mais desordeiros, e agora descobria que não tinha a menor vontade de discutir com pais desesperados e defender instruções de superiores que falavam dele de modo ofensivo. Jäger perdeu a cabeça.

Embora ele próprio tivesse recebido ordens de Ziegenhorn para impedir a reentrada de todo portador de um carimbo na foto da identidade ou perto dela, Jäger disse aos jovens pais que lhes abriria uma exceção. Ao ouvirem suas palavras, outros alemães do Leste que se encontravam perto da entrada Oeste pediram para também ser admitidos de volta. E Jäger achou que, já tendo dado um passo no caminho da desobediência, talvez o melhor fosse ir logo até o fim. Instruiu os seus guardas do lado ocidental para deixar vários outros voltarem naquelas mesmas condições. Em seguida retornou para uma edificação interna do posto de fronteira. Chegou a lhe passar pela cabeça que devia pelo menos contar a Ziegenhorn o que tinha feito, mas depois pensou: para que se dar ao trabalho?

 

À medida que iam crescendo as aglomerações junto às fronteiras, um canal de tevê da Alemanha Oriental – em outras palavras, um órgão do regime – interrompeu a transmissão de um filme e cortou para um locutor que disse em tom estridente: “É preciso requerer um visto de viagem!” O telejornal da Alemanha Oriental AK Zwo repetiu o mesmo aviso às 22h28. Essas afirmações contrastavam com a cobertura cada vez mais exuberante das estações de rádio e tevê ocidentais. No entanto, o âncora do telejornal ocidental Tagesthemen, transmitido pela rede nacional ARD, entrou no ar naquela noite um pouco mais tarde do que seu horário habitual das 22h30 por causa da decisão dos produtores de deixar o noticiário para depois do fim de um jogo de futebol. Nada tinha precedência sobre o clássico naquele país louco por futebol, nem mesmo o fim da Guerra Fria.

Mais ou menos às 22h40, Hanns-Joachim Friedrichs, o âncora da ARD, pôde finalmente dizer as seguintes palavras: “Precisamos ter muito cuidado no emprego de superlativos, mas hoje à noite podemos usar um deles.” Em seguida, tendo se esquecido de usar qualquer superlativo, afirmou: “Este 9 de novembro é um dia histórico. A Alemanha Oriental anunciou que suas fronteiras, a partir de agora, estão abertas para todos.” Friedrichs então avisou que a emissora passaria a transmitir ao vivo de perto do Muro de Berlim. Assim que Robin Lautenbach, o correspondente da ARD em Berlim Ocidental, apareceu na tela, em pé ao lado do posto de fronteira da Invalidenstrasse, Lautenbach só tinha a mostrar o que, visto do lado Oeste, parecia uma noite qualquer naquele lugar. Por isso, a ARD se viu obrigada a transmitir uma reportagem pré-gravada sobre a história do Muro, em vez de imagens dramáticas colhidas ao vivo. Perto das 23 horas, a rede pretendia de novo mostrar ao vivo alguma imagem emocionante, mas Lautenbach só pôde outra vez dizer, em tom de desculpa: “Talvez a grande corrida ainda não tenha acontecido.”

Por volta de 23h15, a aglomeração do lado Leste do posto da Bornholmer Strasse tinha chegado a dezenas de milhares de pessoas, transbordando para as ruas adjacentes. Para quem chegou mais tarde, era impossível ter acesso à fronteira, fosse a pé ou de carro. A cantilena “Abram os portões” emergia da massa em erupções regulares. A essa altura, Jäger dera dúzias de telefonemas atrás de ordens que pudessem de algum modo deter a escalada da tensão. Em vez disso, porém, o que ouviu foi gente chamando-o de covarde e dando instruções que tinham agravado ainda mais a situação. E agora ele encarava uma situação que se tornara incontrolável: um mar de pessoas agitadas, repetindo palavras de ordem. Em pouco tempo – temia Jäger –, ele próprio e seus homens estariam expostos a sérios perigos.

Suas preocupações aumentaram depois que cinegrafistas ocidentais apareceram do lado oriental dos postos de fronteira. Especialmente uma equipe de filmagem do programa Spiegel TV, chefiada por Georg Mascolo, estava irritando os guardas da Bornholmer Strasse. A equipe ignorou a proibição de filmar no interior de um posto de fronteira, ousando subir pelas cercas para conseguir ângulos melhores, apesar das ordens insistentes para que não fizessem isso. À procura da melhor imagem, a equipe de cinegrafistas chegou a apresentar suas identidades ocidentais para cruzar a fronteira rumo a Berlim Ocidental, mas fez meia-volta enquanto ainda estava na zona de passagem, para poder filmar lá de dentro os alemães-orientais detidos por trás das barreiras. Esse comportamento foi demais para os guardas. Conduziram Mascolo e sua equipe para o interior da unidade de controle no centro do posto de fronteira, perto da última barreira, e começaram a interrogá-los.[14]

Ao acompanhar a cena, Jäger achou que estava na hora de tomar uma decisão irrecorrível. Olhou para os colegas que tinha por perto e perguntou, não exatamente com estas palavras: “Vamos abrir fogo ou abrir as portas para essas pessoas?” Jäger estava no comando e não precisava da aprovação de seus subalternos, mas ante a enormidade da escolha que precisava fazer queria formar uma ideia da disposição dos seus comandados. Todos conheciam as instruções de abril de 1989 para não usar suas armas, mas também não estavam dispostos a se deixarem atacar. A multidão de dezenas de milhares de pessoas se mantinha pacífica até ali, mas segundo eles podia ficar violenta a qualquer momento.

Jäger se deu conta de que já não tinha mais nada a tratar com Ziegenhorn. Pouco antes das 23h30, ligou para o seu oficial superior para lhe comunicar a decisão que havia tomado: “Vou suspender todos os controles e deixar as pessoas saírem.” Ziegenhorn discordou, mas Jäger já não lhe dava importância e desligou. O percurso rumo à desobediência o levara a um ponto em que estava decidido a ignorar seu superior. E começou a pôr em prática sua decisão. Seus subordinados Helmut Stöss e Lutz Wasnick receberam a ordem de abrir o portão principal, tarefa que precisavam fazer manualmente. Stöss e Wasnick seguraram nas alças da barreira e começaram a puxá-la. Antes que conseguissem abrir totalmente o portão, porém, uma imensa massa de gente começou a fazer força para sair do lado oriental. Mascolo e sua equipe nem podiam acreditar no golpe de sorte: do núcleo de controle do posto para onde haviam sido conduzidos tinham uma visão desimpedida dos acontecimentos. O cinegrafista de Mascolo, ignorando os guardas à sua volta, pôs a câmera no ombro e começou a filmar. Suas imagens captam o momento preciso em que a multidão acaba de abrir os portões, enquanto Stöss e Wasnick recuavam aos tropeções para sair do caminho.[15] Vivas, alegria, beijos e lágrimas se seguiram enquanto dezenas de milhares de pessoas começavam a travessia. A multidão imensa, impossível de conter e tomada de júbilo, cruzou o portão e rumou para a ponte, onde outros cinegrafistas capturaram as imagens daquela inundação de gente irrompendo em Berlim Ocidental.

O Muro de Berlim se abrira – mas não pela força das armas. A abertura não fora violenta. Embora tivesse pedido passagem em altos brados e com insistência, a aglomeração de manifestantes se mostrara sempre pacífica e não forçara os portões, como temiam Jäger e seus homens. Graças à presença de tantos cinegrafistas, os eventos simultâneos do colapso do controle do regime sobre o Muro e do sucesso final e pacífico daquela revolução foram devidamente registrados e, pouco depois, transmitidos pelas tevês.

Aquele momento foi uma experiência emocional de grande intensidade para todos os presentes, inclusive Jäger e seus homens. Tempos depois, Stöss contou que não conseguia parar de se perguntar: “Por que passei os últimos anos aqui de sentinela?” Jäger estava à beira das lágrimas. Para evitar que seus subordinados o vissem chorar, refugiou-se numa edificação próxima do posto. Lá, encontrou um dos seus oficiais recurvado e chorando. Jäger conseguiu se controlar e consolá-lo.

Os alemães-orientais que passavam pelo portão também derramavam lágrimas, mas de alegria, não de confusão nem de dor.

 

Nem mesmo Schabowski conseguiu resistir à ideia de ver os acontecimentos com os próprios olhos. Depois dos relatórios que recebeu tarde da noite em sua casa em Wandlitz, ordenou a seu motorista que o levasse de volta para o Centro da cidade num rápido circuito pelos postos de fronteira, inclusive o da Bornholmer Strasse. Em seguida, voltou para casa, pela segunda vez naquela noite, sem tentar interferir ou sequer dizer qualquer coisa nos postos de controle. Mais tarde, Schabowski disse que, ao chegar a sua casa, teria falado ao telefone com Egon Krenz, o dirigente da Alemanha Oriental, que se consolava com a convicção de que “os que hoje estão saindo ainda irão voltar”.

Krenz contou posteriormente que, após o encerramento tardio da sessão do Comitê Central, em torno das 21 horas, passou a noite inteira dando ordens para abrir todos os postos de fronteira. Não se encontraram indícios em apoio a essa declaração. Em vez disso, sobrevivem provas que mostram os oficiais comandantes de cada ponto de travessia tomando decisões isoladas, sem coordenação. Bornholmer Strasse foi o primeiro ponto de travessia em que o oficial mais graduado presente no local ordenou a abertura das barreiras, e com a exibição pela tevê das imagens de verdadeiras multidões correndo para atravessar a ponte ficou mais e mais difícil para os outros postos de fronteira se manterem fechados. Os guardas ansiosos do Checkpoint Charlie, depois de recusarem as bebidas que o dono do café do outro lado da rua lhes trouxera, decidiram bloquear inteiramente a fronteira com grandes barreiras rolantes. Em pouco tempo, todavia, desistiram de manter as barreiras armadas e deixaram atravessar quem quisesse. A guarnição do posto de fronteira da Sonnenallee também usou por um tempo o protocolo de “alívio da pressão”. Os guardas vinham tentando manter uma lista detalhada de todos os expulsos, mas à meia-noite desistiram de rever e registrar as cadernetas de identidade de cada um. O comando de Sonnenallee, então, informou ao quartel-general da Stasi que, a partir das 0h17 de 10 de novembro, tinha decidido “abrir tudo”. Um a um, os oficiais responsáveis pelos postos de fronteira ao longo do Muro foram deixando a multidão passar – embora alguns dos guardas vissem essa concessão apenas como um recuo temporário.

 

Não havia um posto de travessia junto ao Portão de Brandemburgo. Por algum tempo, o trecho de Muro em frente continuou impávido como sempre. Aos poucos, entretanto, alguns indivíduos começaram a se encarapitar no alto do Muro. Segundo relatos da Stasi, os primeiros escaladores perto do Portão de Brandemburgo apareceram em torno das 21 horas e inicialmente obedeceram às ordens para descer. A polícia secreta assinalou que às 23h57 os indivíduos que escalavam o Muro pararam de dar ouvidos aos guardas. Uma colaboração não planejada ocorreu: as luzes dos refletores da NBC tornaram muito mais fácil para os escaladores a subida até o topo do Muro, e as câmeras da emissora, por sua vez, puderam filmar aquela visão impressionante. Minutos antes do início da transmissão, às 0h30 (18h30 em Nova York), Marc Kusnetz recebeu uma filmagem feita no posto da Bornholmer das mãos de um operador de câmera, que chegou ofegante, depois de atravessar correndo boa parte de Berlim. As imagens eram exatamente o que Kusnetz tinha ficado de fornecer a Bill Wheatley, o produtor-executivo do telejornal, a postos em Nova York: as cenas do posto de fronteira seriam o início ideal para aquela edição de Nightly News.

Ainda restava um grande problema com a transmissão ao vivo. Pouco antes do âncora Tom Brokaw entrar no ar, guardas de serviço do lado oriental do Portão de Brandemburgo começaram a usar canhões de água para obrigar os manifestantes a descerem do Muro. O jato não estava tão forte quanto poderia ser porque as mangueiras pareciam cheias de vazamentos, mas o impacto era suficiente para obrigar a maioria dos empoleirados a descer. Um jovem decidido a ficar em cima do Muro recebeu da multidão um guarda-chuva, para usar como escudo. O jorro ricocheteava do guarda-chuva, e as gotas brilhavam à luz forte dos refletores, enquanto o jovem mantinha aquele precário escudo entre ele e os canhões de água.

Ao ver as imagens desses desdobramentos na sede da NBC em Nova York, Wheatley e a produtora Cheryl Gould perguntaram-se o que poderiam fazer se os jatos de água atingissem Brokaw no decorrer de sua entrada ao vivo. Wheatley decidiu arranjar um âncora reserva, Garrick Utley, pronto para tomar instantaneamente a palavra em Nova York, caso Brokaw fosse derrubado. Enquanto isso, Gould fazia os últimos preparativos na sala de controle, em comunicação direta com Brokaw, a meio mundo dali, através do ponto eletrônico que ele trazia no ouvido. Gould era produtora havia décadas e tinha sido a primeira mulher a chegar ao posto que ocupava, de produtora-executiva de telejornal noturno de uma grande rede de tevê, mas a noite de 9 de novembro haveria de ser uma transmissão singular para ela. Gould lembrou que, momentos antes de o programa entrar no ar, sentia o coração disparado no peito. Sabia que estava orquestrando a cobertura dos fatos mais importantes de toda a sua vida. Brokaw também tinha algumas preocupações de última hora. Mas disse a si mesmo: “Isto é importante, não vá fazer besteira” – acalmou os nervos e virou-se para a câmera, pronto para começar.

“Esta noite é um momento histórico”, entoou ele, no clipe de abertura, com cenas da aglomeração na Bornholmer Strasse, agora acompanhadas por uma música empolgante. “O Muro de Berlim não tem mais como conter o povo da Alemanha Oriental. Milhares estão atravessando a Ponte de Bornholmer!” Ao final do clipe, a NBC cortou para a primeira imagem ao vivo de Brokaw. Os espectadores nos Estados Unidos viram-se de súbito diante da espantosa imagem do âncora com o Muro de Berlim, o Portão de Brandemburgo, as mangueiras, os jorros de água cintilando à luz dos holofotes e, como se tudo isso não bastasse, bem no meio do quadro, um manifestante de pé no alto do Muro, encharcado, comemorando de maneira desafiadora e agitando os braços em triunfo. Um dos produtores de Brokaw, Jerry Lamprecht, diria posteriormente que a cena parecia ter sido montada por um diretor de espetáculos de Las Vegas.

A despeito da comoção ensurdecedora à sua volta, Brokaw continuou a resumir com calma os acontecimentos do dia, chamando vários segmentos de reportagens preparadas antecipadamente ou falando ao vivo. Nos bastidores, os executivos da NBC faziam o possível para aumentar o quanto antes sua janela de tempo de satélite para poderem continuar transmitindo além do horário já obtido. Acabaram conseguindo convencer os dirigentes de outras redes a ceder seu tempo de satélite para a NBC. No fim das contas, Brokaw pôde repetir a apresentação do Nightly News cada vez que o programa entrava no ar em outros fusos horários nos Estados Unidos. Quando as transmissões acabaram, ainda comandou um especial da rede com duração de uma hora. O dia 10 de novembro já ia adiantado quando ele finalmente fez uma pausa.

 

Multidões continuaram a atravessar a fronteira nas primeiras horas de 10 de novembro. A notícia da comemoração que Radomski, Schefke e Jahn planejavam fazer no Ovo do Cuco se espalhou de algum modo entre seus amigos, e ao longo da noite um residente de Berlim Oriental atrás do outro cruzou as portas do bar em Berlim Ocidental. Radomski estava orgulhoso dos seus amigos do Leste. Mesmo no meio do caos e em uma cidade que desconheciam, eles sabiam o lugar certo para comemorar.

Depois de anos trabalhando com Jahn sem jamais terem estado pessoalmente com ele, Radomski e Schefke finalmente se viram frente a frente com o produtor de tevê naquela noite, no Ovo do Cuco. A troca de mensagens e telefonemas os levara a desenvolver uma relação de confiança e até de afeto. Enfim, podiam beber juntos. Radomski se lembra de ter pensado: “Agora essa história acabou, e a festa pode começar.” Enquanto isso, as pessoas se acomodavam no local para a comemoração que parecia não ter hora para acabar – só cinco dias mais tarde Schefke foi pegar seu carro estacionado perto do posto da Bornholmer Strasse. Nos anos seguintes, claro, haveria novos desafios, aventuras, decepções e obstáculos. E muitos dos seus amigos dissidentes ficariam na verdade contrariados com a abertura do Muro. Achavam que eles próprios estavam em via de democratizar a Alemanha Oriental, e que agora, em vez disso, seriam engolfados pela Alemanha Ocidental. Naquela noite, porém, Jahn, Radomski e Schefke sentiam que os riscos que correram, os interrogatórios e o tempo de prisão a que foram submetidos tinham valido a pena. A história das suas lutas pessoais tinha chegado, com uma rapidez de tirar o fôlego, a um final feliz.


[1] Egon Krenz era secretário-geral do SED (Sozialistische Einheitspartei Deutschlands), partido fundado em 1946, e também chefe do governo da República Democrática da Alemanha, depois da queda de Erich Honecker, que ocupou o poder de 3 de maio de 1971 a 18 de outubro de 1989. (N. T.)

[2] Após a Segunda Guerra Mundial, o país foi dividido em quatro zonas de ocupação militar pelos Aliados. Em 1949, as zonas ocupadas pelos Estados Unidos, pela Grã-Bretanha e pela França deram origem à República Federal da Alemanha (RFA), a Alemanha Ocidental. A Zona Leste, sob influência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), originou a República Democrática da Alemanha (RDA), conhecida como Alemanha Oriental. (N. T.)

[3] Em 6 de novembro, os jornais da Alemanha Oriental divulgaram o texto desse esboço de lei regulando as viagens de alemães-orientais, elaborado e defendido na tevê por Lauter. A rejeição foi imediata, e as cartas contrárias à minuta chegaram a dezenas de milhares, uma vez que as medidas foram consideradas insatisfatórias pela população. Previa-se, entre outras coisas, que as autorizações para viagem de visita temporária ao exterior poderiam levar até trinta dias para serem processadas e as de imigração, de três a seis meses. Em vista da reação popular, o esboço de lei foi posto de lado. (N. T.)

[4] Na antiga União Soviética, o aniversário da Revolução era celebrado no dia 7 de novembro. (N. T.)

[5] Hans-Hermann Hertle, em seu livro Chronik des Mauerfalls (Crônica da queda do muro), estima que cerca de metade dos dezessete membros do Politburo estavam presentes, e também assinala que Krenz e os membros do Politburo não foram os únicos a receber, naquela tarde, o texto do grupo dos quatro. Em prol das aparências, o Conselho de Ministros da Alemanha Oriental – uma entidade do Estado, e não do partido – foi encarregado de reemitir o documento como se fosse uma resolução do próprio conselho. Os gabinetes dos ministros receberam o texto do grupo dos quatro por mensageiro, seguindo o que era definido como o “protocolo de circulação”: os ministros tinham até as seis da tarde do mesmo dia para registrar suas objeções; não havendo réplica, o texto entrava em vigor. Todo o procedimento teria sido uma simples formalidade, pois na verdade eram o Politburo e Krenz que, em última instância, detinham o poder. Mas, nos dias caóticos de novembro de 1989, aquele procedimento permitiria que as questões fossem levantadas na tarde de 9 de novembro. No entanto, como 29 dos 44 ministros incluídos no “protocolo de circulação” estavam presentes à reunião do Comitê Central, cada um deles só teria tempo de chegar a seu gabinete, onde o texto os esperava, caso a reunião acabasse cedo, o que tudo indicava que não ocorreria. Só mais tarde viriam a saber que pousara em suas mesas de trabalho um texto ao qual precisariam ter respondido até às seis da tarde e que, ao deixarem de responder, tinham permitido o advento de uma mudança radical. Deveria caber às suas assessorias alertá-los da questão, mas tudo indica que nenhuma delas lhes deu qualquer sinal de alerta.

[6] Teoricamente, os membros do Conselho de Ministros tinham até às seis da tarde para aprovar ou não o texto, mas as autoridades envolvidas, tanto da Stasi quanto do partido, preferiram não esperar até o fim do prazo, o que nem tinha importância. A notícia chegaria à delegacia distrital da Stasi em Karl-Marx-Stadt (hoje Chemnitz), por exemplo, às 17h23 daquela tarde, na forma de um telegrama assinado por Egon Krenz.

[7] Günter Schabowski (1929-2015) estudou jornalismo na Universidade Karl Marx, em Leipzig, e foi editor-chefe do jornal oficial do SED, Neues Deutschland (Nova Alemanha). Em 1985, tornou-se membro do Politburo. Em novembro de 1989, ocupava o cargo de secretário do Comitê Central do SED para informação, criado durante a crise no país. (N. T.)

[8] Segundo reportagem do Washington Post de 10/11/1989, apenas um quarto dos alemães-orientais tinha passaporte em 1989; e grande parte dos que possuíam o documento precisava entregá-lo às autoridades ao chegar de uma viagem ao exterior. (N. T.)

[9] A espera podia variar entre poucos minutos e várias horas, dependendo dos caprichos do supervisor e da Stasi.

[10] Ou Checkpoint C, o mais famoso posto de travessia na fronteira entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental, situado na Friedrichstrasse. A palavra “Charlie” designa a letra “c” no alfabeto fonético da Otan.

[11] Em 5 de fevereiro de 1989, Chris Gueffroy e seu amigo Christian Gaudian tentaram atravessar o Muro. Os dois foram alvejados pela polícia de fronteira. Gueffroy, 20 anos, morreu no local. Gaudian, muito ferido, foi preso.

[12] Erich Mielke (1907-2000), ministro da Segurança do Estado (a Stasi) de 1957 a 1989. (N. T.)

[13] Foi bem documentada a prática por meio da qual a Alemanha Ocidental pagava para libertar certos indivíduos da RDA depois da construção do Muro.

[14] Graças às imagens da equipe de Mascolo para a Spiegel TV, que mostram um relógio, fica claro que a sequência final dos acontecimentos que levaram à abertura do Muro deve ter acontecido pouco antes das 23h30, apesar de alguns participantes dos eventos terem falado de horário anterior.

[15] As imagens obtidas por Mascolo não foram usadas de imediato na tevê, pois eram encomendadas e seriam exibidas num programa específico, e não na cobertura geral da rede. Mas é a filmagem mais notável daquela noite e continuava impactante quando foi transmitida. Outras equipes captaram naquela mesma noite imagens da Bornholmer Strasse que foram exibidas sem demora, inclusive no NBC Nightly News.

Mary Elise Sarotte

É especialista em história das relações internacionais e pesquisadora associada do Centro de Estudos Europeus da Universidade Harvard

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