humor

O consultor cheio de ideais (nenhuma delas própria)

O Michelangelo do PowerPoint segue uma lei pétrea: só sugere o que o cliente quer ouvir

Marcos Caetano
ILUSTRAÇÃO: REINALDO FIGUEIREDO_2010

Nivaldo Marquinhos, 47 anos, tem a profissão mais fácil do mundo. Os negócios de seus clientes vão de mal a pior, mas a sua empresa de consultoria, a Markinsey & Parceiros, até que vem faturando direitinho

 

Sou Nivaldo Marcos Castanheda, moro no bairro do Grajaú, o Leblon da Zona Norte, e, como a maioria dos meus colegas, decidi-me pela profissão de consultor quando perdi um empreguinho legal por causa de uma ação de downsizing comandada justamente por outro consultor. Minha empresa é a Markinsey & Parceiros, onde Markinsey sou eu, depois que virei consultor, e Parceiros não são meus funcionários ou sócios, mas os clientes. Na minha empresa, além da Eliete, que faz o cafezinho, só trabalho eu mesmo.

Como especialista em assuntos genéricos, acredito que o futuro nos levará ao modelo perfeito dedownsizing . Tomando de empréstimo o Marx – que, se não foi, poderia ter sido um baita consultor – batizei o fenômeno de “ downsizing utópico”. Segundo os preceitos desse modelo, no médio prazo todas as empresas terão apenas um funcionário (noves fora a Eliete), que darão conselhos uns aos outros. Seis bilhões de pessoas físicas faturando contra seis bilhões de pessoas jurídicas, sem maiores burocracias. Já pensaram? Será o fim dos sindicalistas e da Justiça Trabalhista. Um mundo de bem-aventurança.

Devo dizer que tentei propor ideias originais aos meus clientes (como um complexo programa de participação nos lucros de ex-funcionários que abrem empresas de consultorias), mas acabei me rendendo ao modus operandi do metiê. Atualmente, não faço nada além de recomendar aos meus clientes exatamente o que eles querem ouvir. E o que eles querem ouvir é basicamente o que eles falam. Esse processo de vender a um cliente as suas próprias ideias (ideias dele, cliente, não minhas) consiste nas seguintes etapas:

1.1.1.a) Identificar quem é o mandachuva;

1.1.1.b) Entrevistar o mandachuva;

1.1.1.c) Propor ao board comandado pelo mandachuva as ideias do dito-cujo envelopadas em PowerPoints invocados e relatórios de centenas de páginas, transbordando de jargões.

Modéstia à parte, eu sou o Michelangelo do PowerPoint. Uso umas imagens muito matadoras, tipo uma espanhola tocando castanholas para falar da importância da empresa ter ritmo e coisas nesse estilo. Comecei timidamente, com aquela foto do Einstein de língua de fora para abrir uma palestra que dei para otorrinolaringologistas, e ali mesmo percebi que levava jeito para a coisa. Os caras piraram. Isso é ciência. Reparem nas numerações do parágrafo anterior. Parece um tratado de lógica. Uma das técnicas mais efetivas de um consultor consiste em apresentar as ideias em tópicos numerados de maneira abstrusa. Quanto maior a aparente complexidade, mais o trabalho exalará profundidade.

Confesso que, depois de alguns anos de estrada, os negócios da Markinsey & Parceiros andam tropeçando. Por culpa dos Parceiros, não do Markinsey, é bom que se diga. Porque o meu negócio vai muito bem, obrigado. Que não me venham chamar de incompetente. Sou um homem de princípios e nunca deixei de recomendar aos clientes exatamente o que eles acham que precisa ser feito. Resultados que não decolam fazem parte da vida de empresas com mais de um empregado. É o tal do “voo de galinha”, como gostamos de dizer no ramo da consultoria empresarial. Aliás, os clientes adoram essas metáforas; quanto mais óbvias, melhor. “Amigos: em chinês, crise é sinônimo de oportunidade!”, costumo sentenciar em minhas apresentações. Alguns chegam a tomar nota da expressão nos seus Moleskines. “Temos que subir a barra!”, decreto, quando o assunto tem a ver com metas. (Barra é meio esquisito, sarrafo seria melhor, mas o pessoal se sente mais globalizado com tradução ruim de inglês.)

Inciso 1º: Não há registro na história da profissão de um consultor que tenha recomendado a redução de metas.

Ainda assim, basta falar na tal da barra que o CEO se atira na perna do diretor de Marketing, como um buldogue francês no cio. Este, por sua vez, fulmina os seus comandados, aos berros: “Sobe a barra, porra! Sobe a barra!”

 

Dizem que Shakespeare conseguia explicar todos os dramas do mundo através de uns poucos tipos humanos. Pois eu afirmo que é possível administrar as mais complexas corporações do planeta com meia dúzia de metáforas – “Somos do tamanho dos nossos sonhos”, “Você não precisa correr mais do que o tigre, apenas mais do que a concorrência” ou “Não é possível melhorar o que não se pode medir”. Se nenhuma delas funcionar, aí apelo para a minha favorita, perfeita para tempos de crise (graças a Lao Tsé, padroeiro dos consultores, sempre vivemos e viveremos em tempos de crise): “Eu não quero saber se o pato é macho, eu quero é ver ovo!”

Nunca entendi direito o que isso significa, mas funciona. Já vi estagiários correrem aos prantos para o banheiro depois de ouvir isso da boca de um VP malvadão. Aliás, nunca me canso de elogiar os ditos x-tudo, aqueles que servem para toda ocasião. Eles são preciosos para afagar o instinto irresistível que todos têm em achar inteligente qualquer coisa dita por um consultor. Nesse sentido, a frase “Precisamos escolher nossas batalhas” é uma pepita de ouro. “A escada do sucesso nunca está cheia no cimo”, também bate um bolão.

O trabalho de um consultor sério envolve idas regulares ao cinema. O PowerPoint engasgou? Bota um filminho que o cliente relaxa. Tropa de Elite, por exemplo, é um manancial inesgotável de lugares-comuns. Do Tropa 1, eu levarei para sempre uma ótima frase para trabalhar o tema delegação de funções, sem a qual o RH não vive: “Aspira, essa pica não é minha” (se você é um dos sete brasileiros que não viu o filme, a elegante expressão significa: “Esse problema não é meu”). É tiro e queda. Sem trocadilho. No Tropa 2, há outra muito boa, poética mesmo: “Cada cachorro que lamba a sua caceta.” Eu fico comovido.

O espaço está acabando e, ao final da leitura, alguém poderá estranhar a minha sinceridade brutal. Não foi por acaso. Para entender a linha que adotei no texto, basta recapitular os dois mandamentos da profissão de consultor:

B.1.1.1) Cobrar caro;

B.1.1.2) Jamais surpreender o cliente com alguma coisa que ele não espera ouvir.

Como a piauí paga uma boa graninha e o editor pediu que eu dissesse a verdade, eu não podia ter agido de outra maneira. Por fim, um aviso: caso alguém queira contratar os meus serviços, basta acessar o meu website: www.markinseysolutions.com.br. O acesso ao site é pago. Antecipadamente.

Não hesite, pois “um desistente nunca ganha e um vencedor nunca desiste”.



Marcos Caetano

Marcos Caetano é especialista em comunicação, comentarista esportivo e colunista do Meio e Mensagem

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