esquina

O contrabandista de ar

Se você for assaltado por um guatemalteco, relaxe: pode ser arte

Cassiano Elek Machado
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Evanilson é o único segurança do lado de fora do armazém A7 do Cais do Porto, em Porto Alegre. Por trás da porta metálica enferrujada onde ele monta guarda, estão 500 caixas do tamanho de engradados de cerveja. As caixas vieram de Ciudad del Este, no Paraguai. Foram embaladas numa saleta de chão de ladrilhos bege por quatro capangas do bando de um contrabandista chamado Moreno. Ao raiar do dia, foram transportadas através de um matagal denso. Cruzaram o rio Paraná numa canoa mambembe, conduzida por um paraguaio de olhos rasgados e as iniciais USA estampadas na camiseta. Viajaram de Foz do Iguaçu até a capital gaúcha num caminhão de mudanças. E agora estão meticulosamente empilhadas, ainda envoltas no mesmo plástico preto, sobre um estrado de madeira clara.

As caixas podem ser vistas, desde o dia 1º de setembro, e ali continuarão, naquele mesmo armazém, na mesma posição, intocadas, embrulhadas, guardadas pelo mesmo Evanilson, até um dia predeterminado: 18 de novembro. Depois disso, toda a carga contrabandeada por Moreno, a mando de um guatemalteco, irá para o lixo. É nessa data que termina a 6ª Bienal do Mercosul, um dos destaques do calendário brasileiro das artes plásticas. Na edição deste ano, o evento gaúcho reúne trabalhos de 67 artistas de 23 países. São pinturas, fotografias, desenhos, vídeos, esculturas, instalações – e as caixas de papelão contrabandeadas de Ciudad del Este, batizadas por Aníbal López de Escultura Passada de Contrabando do Paraguai ao Brasil. Aliás, Aníbal López, não. Há dez anos ele abandonou o nome e adotou o pseudônimo A-1 53167, seu registro no documento de identidade da Guatemala, país onde nasceu e vive.

 

Até esta edição da Bienal do Mercosul, A-1 – vamos abreviar seu nome – jamais havia arquitetado um contrabando. Seu curriculum vitae, entretanto, já incluía, entre outras peripécias, um assalto à mão armada. Há sete anos, de pistola em punho, ele abordou um transeunte numa rua elegante da Cidade da Guatemala. Com o dinheiro do bote, alugou uma galeria de arte, imprimiu convites, comprou vinho branco ruim e chamou críticos, connaisseurs de arte e outros comedores de petit-four para admirar uma obra literalmente única: um papelzinho no qual se lia: Empréstimo: No dia 29 de setembro realizei uma ação que consistiu em assaltar uma pessoa com aparência de classe média […] dizendo a ele que isso não era um assalto, era um empréstimo, e que eu devolveria o dinheiro em linguagem visual para seus filhos. Esta obra está sendo patrocinada pelo homem que foi assaltado. Por um desses mistérios insondáveis da arte, o artista não foi em cana. No ano seguinte, 2001, A-1 representou seu país numa das mostras mais prestigiadas das artes plásticas mundiais, a Bienal de Veneza. Foi um dos premiados.

A-1, nascido em 1964, é um homem corpulento cujos olhos indígenas, herança da bisavó maia, são emoldurados por óculos de aros negros e lentes grossas. Nunca tinha exposto no Brasil. No final do ano passado, ao ser convidado pela Bienal do Mercosul para fazer um trabalho sobre a região da chamada Tríplice Fronteira, viajou a Ciudad del Este. “Tudo por lá era de uma chatice sem fim. Até que tomei conhecimento do contrabando”, relembra com ar compenetrado, como alguém que se recorda de algo acontecido há décadas.

Depois de várias tentativas de se enturmar com o pessoal da muamba, A-1 já começava a buscar outras idéias para a exposição. Na véspera de retornar à Guatemala, pegou um táxi em Foz do Iguaçu e comentou com o motorista sobre a dificuldade de arrumar um bom contrabandista. “Duas horas depois eu estava tomando vinho e comendo churrasco com o bando do Moreno”, ri. O mais difícil, diz A-1, foi convencer os meliantes a aceitar aquela “coisa de doido”: transportar caixas de papelão vazias.

Isso: vazias. O que suscita a pergunta: se a polícia pegasse os contrabandistas, poderia prendê-los? “Bueno, se considerassem que eram caixas vazias, creio que não. Mas se chegassem à conclusão de que era uma escultura, talvez fossem todos em cana”, especula o artista. Para o bem da sanidade mental dos guardas de fronteira, os contrabandistas não foram pegos, e as caixas chegaram sem sobressaltos ao Cais do Porto, onde se exibem ao público sob os olhos vigilantes do segurança Evanilson. A quem lhe pergunta: “E aí, Evanilson, que tal essa pilha de caixas aí atrás?”, ele responde: “Ah, eu conheci o Aníbal. Gente fina. O Aníbal é muito fluente”.

Cassiano Elek Machado

Cassiano Elek Machado foi jornalista de piauí entre 2007 e 2008.

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