esquina

O copo e a flecha

A guerra por outros meios (no caso, molhados)

Luiz Maklouf Carvalho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O deputado federal Jair Bolsonaro, talvez o mais radical representante da direita no Parlamento, fica meio encabulado quando lhe perguntam sobre o copo d’água que o atingiu, pelas costas, durante a sessão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, no dia 14 de maio. “Não acertou”, disfarça, numa resposta impulsiva. À lembrança de que todos os presentes viram, ele concede, de má vontade: “Tá bom. Mas então coloca que respingou de leve.” Bolsonaro não aprecia os índios. Entre outros motivos, porque foi um deles que o batizou com um copo d’água em pleno discurso.

O nome indígena do franco-atirador é Ga’p Wasay. Em sateré-maué, língua do tronco tupi, significa “vespa”. “Se mexer comigo e com os meus, eu ferro mesmo”, ele diz. Seu nome civil é Jecinaldo Barbosa Cabral, um sateré-maué que há duas gestões comanda a articulada Coiab – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, sediada em Manaus. Entre doações internacionais e convênios com o governo federal, a entidade movimenta cerca de 3,5 milhões de reais por ano.

Uma de suas bandeiras é a demarcação definitiva da Terra Indígena Raposa Terra do Sol, em Roraima, questão polêmica que tramita no Supremo Tribunal Federal e vem desencadeando debates acalorados no Congresso. Foi justamente esse o pomo da discórdia entre Vespa e o capitão da reserva naquela tarde árida.

 

Ga’p Wasay, em mais uma de suas freqüentes viagens a serviço da causa, havia passado a semana em Boa Vista, a capital de Roraima. De lá, voou para a capital da República, onde também pousa com assiduidade. Outras dez lideranças indígenas o acompanhavam. “Mas o cacique era eu”, reitera Jecinaldo. Do aeroporto, como costuma fazer, seguiu para a Asa Sul e se instalou na pensão da dona Nilza, cujas diárias estão em 50 reais. “Índio não pode pagar mais”, explica.



Na mesma segunda-feira, de sandálias, calça jeans e uma camiseta da Coiab com a inscrição “A natureza vale mais do que qualquer dinheiro”, saiu dali e, com os seus, foi dar ponto na representação brasiliense da Coiab: duas salas na 701 Sul, alugadas por mil reais ao mês. Depois, a comitiva foi fazer
lobby no Congresso. Vespa usou um dos seus três cocares: um majestoso jogo de 400 gramas de penas de arara azuis e amarelas. “Esse já está benzido pelos pajés”, afiança. Os outros dois – “Um é de pena de gavião-real e pesa 700 gramas” – ainda não estão prontos nem foram abençoados para uso. (De pronto mesmo, só os gaviões, já devidamente depenados.) Adornou também o pescoço com colares de tribos irmãs.

Na companhia da advogada Joênia Carvalho, do povo uapixana, ele e sua comitiva visitaram parlamentares do PT e do Psol. Na terça, trabalharam na Coiab, concluindo a formulação de um documento para o Supremo. Na quarta, voltaram ao Congresso.

Uma primeira promessa de confusão despontou na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Ga’p Wasay não gostou das manifestações de três deputados estaduais de Roraima que faziam o lobby para o outro lado, e respondeu à altura: foi gritaria para lá e para cá, mas sem arremesso de projéteis. Depois, já na Comissão de Relações Exteriores da Câmara Federal, que discutia a questão Raposa Terra do Sol, a segurança tentou barrá-lo na entrada. “Puxaram meu braço, me machucaram. Mas eu sou forte, e alguns deputados vieram ajudar. Conseguimos entrar”, conta Jecinaldo Cabral. Ele mede 1,69 e pesa 89 quilos.

Na comissão, o capitão Bolsonaro, com sua calculada agressividade, esculachou o ministro da Justiça, Tarso Genro, estrela maior da sessão. Acusou-o diretamente de mentir, de ser amigo de terroristas, disse isso e aquilo. Genro protestou secamente. Ga’p Wasay achou pouco. Sentara-se atrás de Bolsonaro e não tinha gostado do que ouvira. Olhou para o copo d’água.

O fato é que, quando Vespa não gosta, já viu: “Eu estou respondendo a sete processos!”, orgulha-se. Ele destaca os dois que mais o emocionam: a ocupação do plenário do Congresso no abril indígena de 2004 – “Fui presidente do Senado por umas três horas!” – e, em janeiro de 2005, a invasão da sede da FUNAI em Manaus. Gosta de detalhar o embate que travou ali com um delegado da Polícia Federal, Sérgio Fontes, que, armado, o ameaçou de prisão. “Ele nos chamou de bandidos, com a arma na mão. Os agentes também puxaram a arma. Nós sacamos as lanças e as flechas. O delegado me chamou pra porrada e eu mandei: pode vir. O delegado desrespeitou o meu povo e eu cuspi na cara dele.” Assim é Vespa.

Na reunião da Comissão de Relações Exteriores, Ga’p Wasay já havia bebido um primeiro copo d’água. Dos de plástico. Tinha um segundo na mão direita, cheio, aguardando a sede voltar. “Eu conheço esse Bolsonaro há muito tempo. Ele se declarou nosso inimigo, totalmente contrário aos interesses indígenas. Então ele estava sentado bem na minha frente, coisa de meio metro de distância, e começou a mandar cacete no ministro. Então eu lembrei tudo o que ele já fez contra nós e atirei o copo d’água. Pena que eu não tinha uma flecha. Se ele é nosso inimigo, devemos matá-lo”, raciocina o cacique.

Ga’p Wasay disse que, da próxima vez que o deputado o desrespeitar, ou assim que ele, Ga’p Wasay, se considerar desrespeitado, vai “amarrar o Bolsonaro e fazer ele aprender”. Às gargalhadas, Bolsonaro responde: “Sou mesmo inimigo deles. E esse índio é um fanfarrão.”

Houve um tempo em que essas coisas acabavam em guerra na selva. Tinha mais grandeza, talvez. Mas tinha também gente morta, a maioria índios.

Luiz Maklouf Carvalho

Luiz Maklouf Carvalho, jornalista, é autor de "O Coronel Rompe o Silêncio", da Objetiva, e coautor de "Vultos da República", da Companhia das Letras.

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