tempos da peste

O corpo fala

Um patologista inquieto e a ressurreição das autópsias

Angélica Santa Cruz
Saldiva, no precário corredor que leva à sala de autópsias: ele é capaz de tocar gaita de boca numa conferência internacional ou chorar ao descrever um caso clínico em sala de aula –
Saldiva, no precário corredor que leva à sala de autópsias: ele é capaz de tocar gaita de boca numa conferência internacional ou chorar ao descrever um caso clínico em sala de aula – CREDITO: VICTOR MORIYAMA_2020

Dependendo da hora e da incidência de luz, a estreita sala de autópsias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo parece um ambiente fora do lugar, como aquelas capelas arranjadas em estações rodoviárias. No local, ficam apenas um relógio de parede preto, em forma de crânio, mesinhas com agulhas especiais para punção e uma máquina para lacrar corpos com filme plástico, igual ao processo usado para embalar malas nos aeroportos. “É um templo improvisado que separa a morte da vida”, na definição de Paulo Hilário Saldiva, o patologista de 66 anos que coordena na saleta todas as autópsias feitas em mortos por Covid-19 em São Paulo. Do início da pandemia até agora, já examinou mais de noventa cadáveres, mas, na madrugada de 3 de maio, o ambiente estava mais turvo que o habitual. Chegara o corpo de uma menina de 11 anos. Depois de ser plastificado para evitar contágio, fora deitado sobre uma mesa de aço.

Paramentados com macacões cirúrgicos, galochas brancas, um avental de PVC e outro de tecido grosso, três camadas de luvas, máscaras e escudos faciais, Saldiva e a ultrassonografista Renata Monteiro começaram o trabalho. Usando uma técnica minimamente invasiva, que evita cortes profundos e manipulação de órgãos como nas autópsias tradicionais, eles manejaram agulhas de 20 cm para perfurar o corpo da criança e, guiados pelas imagens de uma máquina de ultrassom do tamanho de um laptop, retiraram amostras de tecidos da espessura de um fio de macarrão. Primeiro, do coração. Depois, dos pulmões. Em seguida, do fígado, dos rins, do baço, do tubo digestivo, do cérebro, da pele, da tireoide. Do pulmão, coletaram 64 fragmentos, de oito áreas distintas. De cada um dos outros órgãos, foram dez. Quase três horas depois, já na manhã de domingo, a autópsia estava encerrada, e as amostras, prontas para serem estudadas, logo resolveriam uma das tantas charadas científicas da pandemia.

Concluído o trabalho, Saldiva pegou sua bicicleta e pedalou vinte minutos até seu apartamento, no bairro do Bixiga. No meio do caminho, na Avenida Paulista, cruzou com um pessoal que, infectado pela lógica funesta de que era só uma gripezinha, começava a se reunir numa manifestação que pedia, entre outras coisas, a reabertura imediata do comércio e das escolas. O médico deu uma parada e avisou que a aglomeração aumentava o risco de contágio. Não foi bem recebido e seguiu seu rumo. Dias depois, numa manhã quente do final de maio, Saldiva foi assaltado pela lembrança da autópsia da menina de 11 anos, que se juntou à memória das autópsias de outras quatro crianças que fizera nas semanas anteriores. Com sua alma de ateu irresoluto, escreveu:

Será que se tornarão anjos? Rezo por suas almas e ao mesmo tempo peço a Deus o seu perdão. Há horas em que se questiona a fé, como nessa agora. As faces revelam o olhar do sofrimento, da fome de ar. O corpo revela as mazelas da vida. Vem profunda a desesperança quando a morte leva consigo, impiedosa, mais uma criança. Tudo parece errado, invertido, quando parte tão cedo alguém que não deveria ter morrido. A luz fria da sala clareia a noite que avança, indiferente à morte daquelas crianças. Procedimentos precisos retiram tecidos, órgãos feridos pela infecção, fragilizados, inflamados e doentes. E pensar que há tantos indiferentes a essas pequenas histórias, a essas mortes invisíveis. Para mim, no entanto, não haverá o consolo do esquecimento. Tenho bem claros os seus rostos marcados na alma, com precisa clareza. Horas difíceis, em que se toma muito tempo para superar a tristeza.



Um mês depois da autópsia daquele domingo, a nutricionista Silvia Saldiva olhou para o marido e chegou a uma conclusão. “Você está com síndrome de Burn-out”, disse, referindo-se ao transtorno resultante do esgotamento profissional. Durantes seis meses, desde que começara a fazer autópsias em mortos pelo novo coronavírus, o patologista dormiu em um quarto separado para não expor a mulher ao risco de contágio. Ela passou a ouvi-lo de madrugada zanzando, irritadiço, pelos corredores do apartamento, que desfruta de uma ampla vista de São Paulo – da varanda principal, vê-se o Centro e a Zona Leste; de outra janela, aparece a Serra da Cantareira e, de uma terceira, desdobra-se a Avenida Paulista. Saldiva apagava e acendia as luzes, tentava tocar gaita, atacava a geladeira, “comia até as unhas”, na descrição de sua mulher, com quem é casado há 37 anos e tem dois filhos. “Quando começou a aparecer criança, dei uma despirocada, fiquei mal”, admite ele. No fim de junho, levado pela mulher para passar uma semana em São Bento do Sapucaí, porção paulista da Serra da Mantiqueira, fez caminhadas curtas, dormiu, conversou com calma – e voltou para São Paulo um pouco melhor.

Três meses depois, a revista médica The Lancet Child & Adolescent Health publicou um artigo com um longo título: Sars-CoV-2 em Tecido Cardíaco de uma Criança com Síndrome Inflamatória Multissistêmica Relacionada à Covid-19. Com base nos resultados da autópsia que abalou Saldiva, o estudo esclarecia uma dúvida que surgira no início de abril, quando pediatras mundo afora começaram a emitir alertas sobre casos de crianças com uma nova inflamação generalizada, provisoriamente batizada de Pims-TS. Os sintomas eram semelhantes aos de uma síndrome vascular infantil conhecida como doença de Kawasaki, mas os pacientes testavam positivo para a Covid-19. A Organização Mundial da Saúde (OMS) fizera um comunicado alertando para a misteriosa doença multi-inflamatória. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão do governo norte-americano, divulgou nota informando que, até aquela altura, havia quinhentos casos nos Estados Unidos. “Essa nova doença infantil pode estar ligada ao coronavírus?” –, era uma das perguntas que os cientistas faziam no momento em que a menina de 11 anos deu entrada no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas.

Era uma menina negra, da periferia de São Paulo. Ao que tudo indica, fora infectada porque a família, imaginando que ela ficaria protegida pela pouca idade, a escalou para cuidar da tia e da avó com sintomas de Covid-19. No começo apresentou dores abdominais e musculares, febre alta, dificuldades para engolir. Sete dias depois, foi levada ao hospital, já com pressão baixa, conjuntivite, lábios rachados, taquicardia, mãos e pés gelados. Morreu em 28 horas. Devastados, os familiares autorizaram a autópsia e pediram que a identidade da menina fosse preservada.

Feito o exame post mortem por Saldiva e sua colega Renata Monteiro, a professora Marisa Dolhnikoff, coordenadora do projeto Autópsia Minimamente Invasiva Guiada por Ultrassom da Faculdade de Medicina da USP, estudou os tecidos em microscópios, consolidou informações de outros pesquisadores, escreveu e enviou para a revista The Lancet o artigo que resolveu a questão: sim, essa síndrome é uma manifestação da Covid-19. E, nas raríssimas crianças que morrem disso, o vírus mata ao atacar diretamente as vias cardíacas. Ele estava lá, na célula do coração da menina. Primeiro estudo a encontrar o Sars-CoV-2 no tecido cardíaco de uma criança com Pims-TS, o artigo teve repercussão internacional. Apenas nas quatro semanas seguintes, foram seis citações, 4 996 tuítes e 1,3 mil menções no Facebook. “Foi uma maneira de dar algum sentido à morte dela”, consolou-se Saldiva.

A Faculdade de Medicina da USP é o maior centro de autópsias do mundo. Faz cerca de 15 mil por ano. Do Hospital das Clínicas, instituição ligada à universidade, recebe cerca de quatrocentos corpos por ano, enviados pelos médicos para exames post mortem com algum interesse científico. Outros 14,6 mil corpos vêm do Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVOC), para onde vão todos os paulistanos que têm morte natural em casa, a caminho do hospital, ou nas ruas, sem um médico que saiba a causa da morte e possa assinar o atestado de óbito. Em plantões de 24 horas, doze patologistas concursados se revezam para examinar órgãos desses cadáveres, cotejar o que viram com questionários feitos com familiares dos mortos e definir a razão do óbito. É um lugar único. Nenhuma outra megacidade concentra suas autópsias em um só centro.

O SVOC, subordinado à reitoria da USP, fica no subsolo da Faculdade de Medicina. É ligado ao necrotério do Hospital das Clínicas por um túnel de aspecto sinistro, de cerca de 100 metros de extensão, já muito usado para pregar sustos em calouros. Pelas ligações administrativas, pela proximidade física e pela oferta imensa de fragmentos humanos, o SVOC tem vínculo natural com o ensino da medicina e a pesquisa. Qualquer professor, médico ou aluno do complexo hospitalar da USP pode ter acesso aos tecidos e órgãos, desde que tenha projeto aprovado pela faculdade. O centro poderia ser uma fabulosa usina de descobertas para cientistas dispostos a aprender com a morte, se, com o aumento brutal da qualidade nos exames de imagem a partir dos anos 1980, as autópsias não tivessem caído em desgraça no mundo inteiro.

 

Em 2 mil anos de existência, as autópsias foram decisivas para a compreensão da anatomia e da fisiologia humanas. Graças a elas, figuras exponenciais como o persa Avicena (980-1037) e o italiano Leonardo da Vinci (1452-1519) puderam contribuir enormemente para o avanço da medicina. Sua história, no entanto, sempre foi acidentada. Às vezes, demonizada. Outras vezes, celebrada. No surgimento de doenças novas e assustadoras, porém, elas costumam renascer.

A partir do final do século XIII, em tempos de febres e pestes medievais, os médicos italianos retomaram as autópsias, e o país virou referência no tema no século seguinte, com anuência de bula papal. Nos anfiteatros das escolas de medicina de Bolonha e Pádua, as maiores do Ocidente no período, a análise dos corpos era comandada por um professor solene que dava ordens de cima de uma cátedra, enquanto um assistente indicava o ponto de incisão e um subassistente mexia nos órgãos. Desse ambiente, saíram duas obras fundamentais. Em 1507, o médico e filósofo Antonio di Paolo Benivieni publicou o livro De Abditis Nonnullis ac Mirandis Morborum et Sanationum Causis (Sobre algumas causas ocultas e admiráveis das doenças e as curas), o primeiro tratado a respeito da importância da técnica. Em 1543, Andreas Vesalius, médico flamengo que lecionava em Pádua, lançou o extraordinário De Humani Corporis Fabrica (Da estrutura do corpo humano), um livrão em dois tomos até hoje referência pelos desenhos sensacionais de anatomia.

A partir do século XIX, o maior progresso médico se deu por meio da descrição das doenças do ponto de vista celular. Por ser o único acesso às profundezas de alguns órgãos – o cérebro, por exemplo –, as autópsias ajudaram a estabelecer as bases biológicas das enfermidades e da medicina ocidental como é exercida atualmente. Mas as coisas mudaram e, hoje em dia, nas aulas de introdução à patologia na Faculdade de Medicina da USP, os alunos logo são apresentados a PowerPoints estilo Deltan Dallagnol para entender as razões do ocaso global das autópsias. São vários fatores.

Entre eles, os professores citam o alto nível de precisão dos exames de imagem, que disseminou a noção de que não é mais preciso abrir os corpos para examinar os órgãos internos. Outra razão: a autópsia exige um vasto conhecimento da anatomia humana, cada vez mais raro numa medicina crescentemente segmentada. Além disso, os médicos preferem seguir carreira em áreas mais estelares e bem remuneradas da patologia. Os familiares dos mortos, por razões religiosas, éticas ou práticas, também resistem a liberar os corpos para um procedimento tão invasivo e mutilante. Os próprios médicos evitam pedir esses exames post mortem, sobretudo porque temem processos das famílias caso se descubra algum erro de diagnóstico ou de tratamento – medo muito presente em países com forte cultura litigante, como os Estados Unidos. Em 2000, o Hospital das Clínicas requisitou 1,3 mil autópsias. Em 2010, oitocentas. Desde 2016, pediu uma média de quatrocentas por ano.

Quando a Covid-19 se alastrou, as autópsias foram proibidas em vários países, inclusive no Brasil. Temia-se o contágio dos médicos e o risco de transportar cadáveres pelas ruas. Mas, como só se pode entender completamente uma nova doença estudando órgãos impossíveis de acessar com o paciente vivo, foram aparecendo insurgentes. Em Bergamo, na Itália, a equipe de anatomia patológica do Hospital Papa Giovanni XXIII desobedeceu ao Ministério da Saúde e examinou cerca de oitenta pacientes mortos pelo coronavírus. Em Hamburgo, na Alemanha, o governo se dobrou à pressão dos cientistas e liberou autópsias em mortos por Covid-19 no Centro Médico Universitário Hamburg-Eppendorf. Em São Paulo, as autópsias convencionais foram interrompidas no dia 20 de março, depois em outros estados e, por fim, a suspensão virou orientação do Ministério da Saúde. Mas, com sua técnica minimamente invasiva, que não foi suspensa por decreto, a pequena equipe de patologistas da USP estava no lugar certo e na hora certa para começar a estudar os efeitos do vírus no corpo humano – sem precisar abri-lo.

Desde então, tem sido uma maratona sem fim. Os patologistas correm para descrever os mecanismos que levam à morte dos pacientes. Correm para abastecer um biobanco de tecidos inflamados pela Covid-19. Correm para coletar amostras de casos de morte por insuficiência respiratória, de modo a compará-las com os fragmentos que têm a assinatura do Sars-CoV-2. Correm para tudo, o tempo todo. Os mais de noventa exames post mortem que fizeram constituem uma das maiores séries do mundo, motivo pelo qual a Faculdade de Medicina tem recebido consultas de vários países. Em cinco meses, a equipe já publicou seis estudos em revistas científicas com base no material das autópsias. Em parceria com pesquisadores internacionais e de outras unidades da USP, formou redes para estudar os danos que o vírus pode causar no cérebro, no coração, nos pulmões e no sistema reprodutivo masculino. A professora Marisa Dolhnikoff resume a movimentação: “Essa pandemia ressuscitou a autópsia.”

Liderado por Saldiva, o grupo está há anos numa cruzada para modernizar e valorizar a autópsia, por sua importância na formação dos médicos, nos avanços científicos e em momentos como este, de pandemia. A batalha começou na década de 1990, quando Saldiva, no curso de patologia geral, começou a levar alunos no SVOC fora do horário das aulas para fazer exames post mortem e discutir aspectos clínicos e patológicos dos casos. O curso acabou virando disciplina obrigatória. Depois, as aulas passaram a ser transmitidas por videoconferência para estudantes de outros estados, como Paraná, Minas Gerais e Amazonas. Ministradas pelo carismático Saldiva, as aulas eram pequenos espetáculos, com suas referências literárias, cinematográficas, seus comentários às vezes irônicos, às vezes emocionados.

Em 2004, quando chefiava o Departamento de Patologia, Saldiva deu mais um impulso relevante às autópsias, depois que uma residente, Lea Tenenholz Grinberg, hoje professora de neurologia e patologia na Universidade da Califórnia, teve uma ideia: criar um banco de cérebros. Saldiva adorou, conseguiu verba e hoje a USP é dona do segundo maior banco de cérebros do mundo – o primeiro está na Universidade Harvard. São 3 mil exemplares, sob os cuidados do Laboratório de Fisiopatologia no Envelhecimento (Gerolab). Alguns cérebros são preservados inteiros em formol, guardados em local com temperaturas de -80ºC. Outros são cortados em fragmentos e congelados ou colocados em blocos de parafina. Todos são fotografados, catalogados e anexados a entrevistas feitas com as famílias doadoras sobre o histórico de doenças, memória, transtorno psiquiátrico, funcionalidade e classe social do doador. É um tesouro para pesquisas de ponta sobre envelhecimento, contagens de neurônios e doenças como o Alzheimer.

No esforço de promover a autópsia, que era ainda praticada nos moldes tradicionais, os patologistas da USP também iniciaram uma linha de produção de artigos científicos usando amostras de tecidos – uma média de vinte por ano. Em 2009, examinaram 21 pessoas mortas durante a epidemia de H1N1 e publicaram os resultados no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine. O estudo mostrava que as principais alterações patológicas associadas à infecção estavam no pulmão, e aproveitava para reforçar a utilidade do exame post mortem na compreensão da doença. O artigo teve 622 citações, o maior número obtido até hoje pelo departamento.

Apesar dos esforços para valorizar a técnica, em 2010 as autópsias clínicas ainda patinavam num antigo modus operandi, usando instrumentos eficientes mas quase neolíticos, como martelos, machados, serras para ossos, talhadores de costelas, cinzéis, facas de amputação, pinças, ruginas, tesouras. Enquanto isso, a medicina legal, mais midiática e glamorosa do que a autópsia médica, já estava há tempos inspirando eletrizantes seriados de investigação criminal, como CSI – Crime Scene Investigation. Os peritos dos institutos de medicina legal investigavam mortes violentas usando ressonâncias e tomografias para enxergar fraturas e refazer o trajeto de balas.

Os patologistas até recorreram à mesma parafernália tecnológica da medicina legal para fazer uma autópsia no Hospital das Clínicas, em 2013. Com tomografia computadorizada, examinaram os restos mortais de dom Pedro i e das imperatrizes Maria Leopoldina e Amélia. Descobriram que o imperador morreu de tuberculose (e não de sífilis), confirmaram que Amélia também morreu de tuberculose, e Leopoldina, de infecção uterina. Só que passar a fazer autópsias no Hospital das Clínicas com o aparato mais avançado seria um perrengue tão fenomenal, com o traslado de corpos e uso de equipamentos, que o trabalho continuou sendo realizado nas salas do SVOC, com as ferramentas, os cortes e as costuras de sempre.

Até que Saldiva teve uma ideia. Pesquisador de maior projeção do Departamento de Patologia, ele decidiu tocar um projeto que batizou de Plataforma de Imagens na Sala de Autópsia (Pisa). Trata-se de um laboratório que acopla exames avançados – ressonância magnética, tomografia e ultrassom – ao velho método de tirar fragmentos de tecidos de gente morta com uma agulha. A ideia era modernizar a técnica usando os mesmos equipamentos que ajudaram a jogá-la no ostracismo e, assim, criar uma autópsia minimamente invasiva.

A construção do projeto Pisa foi uma epopeia. Para fazer exames do cérebro e investigar casos de demência e doenças psiquiátricas, o departamento precisou encomendar uma máquina de ressonância magnética de 7 teslas, unidade que mede a intensidade do campo magnético. É mais do que o dobro de potência dos aparelhos de alta qualidade usados para testes clínicos em hospitais conceituados. Na verdade, é tão potente que a intensidade de seu campo magnético poderia causar pane nos trens da estação de metrô próxima do laboratório, por onde passam 20 mil passageiros nos horários de pico. Para evitar problemas, engenheiros civis e radiologistas levaram três anos construindo um sistema de isolamento com 400 toneladas de ferro em uma sala do subsolo. Quando o magneto chegou, foi preciso um balé de dois guindastes para acomodá-lo – e mais um ano e meio para preparar a ressonância.

Cinco anos e 10 milhões de reais depois, o Pisa ficou pronto. Finalmente, era possível examinar um cadáver com uma delicadeza em tudo oposta ao método tradicional: sem grandes cortes, sem grandes mexidas nos órgãos, apenas usando imagens em alta definição para esquadrinhar o corpo, identificar o ponto exato para fazer leves punções e retirar fragmentos de tecidos. A técnica minimamente invasiva ainda poderia ajudar a resolver um drama da saúde pública: a imensidão de atestados de óbito capengas emitidos pelo Brasil afora por falta de estrutura, uma deficiência que atrapalha a elaboração de políticas públicas e o controle epidemiológico. Agora, seria possível treinar qualquer profissional de saúde para usar um ultrassom portátil, investigar pacientes mortos ainda nos leitos e chegar a uma causa mortis consistente.

Mas aí Saldiva, injuriado com o corporativismo da faculdade, pediu para sair.

 

A vetusta e centenária Faculdade de Medicina da USP é como qualquer outra instituição acadêmica vetusta e centenária. Os corredores do casarão histórico na movimentada Avenida Doutor Arnaldo são povoados por mentes brilhantes, rapapés hierárquicos, feitos memoráveis, intrigas homéricas, professores vaidosos, orientadores generosos, carrinhos por trás, jovens criativos, alianças, cisões, junções. “É um lugar com altíssima concentração de energia ególica”, gosta de brincar Saldiva. Nesse ambiente, ele sempre foi diferentão.

Filho de um pediatra bem-sucedido e dono de uma clínica conhecida nos anos 1950, Saldiva cresceu pajeado por empregados domésticos e motoristas em uma região privilegiada de São Paulo cujas coordenadas geográficas ele define assim: “Da Paulista para baixo, da Faria Lima para cima, da Rebouças para a direita, da Brigadeiro para a esquerda.” Estudou no Colégio Dante Alighieri, um dos mais tradicionais da cidade, onde os colegas o chamavam de Pepino, apelido usado até hoje na faculdade. Quando tem uma ideia nova, anuncia assim: “Acabo de pensar numa pepinada.” Ao começar a estudar medicina na USP, descobriu um mundo menos elitizado e decidiu morar nele. Já como professor titular, mudou-se para o bairro do Bixiga, em busca de uma cidade mais autêntica e das lembranças de suas visitas ao avô e à Basilicata, uma padaria centenária na região que virou uma de suas obsessões. Não se atraiu pelos salários polpudos dos hospitais privados e optou pela dedicação exclusiva à docência e à pesquisa.

No estilo, é um proto-hipster. Usa bicicleta para cruzar São Paulo desde os anos 1970 – e, desde 2016, sente dores no joelho direito por causa de uma queda. Já tocou saxofone em uma orquestra de jazz que se apresentava em bares como o Café Piu Piu, instituição boêmia da região central da capital paulista. Publica em sua página no Facebook crônicas urbanas e fotografias de estátuas, fachadas e ângulos poéticos da cidade. Frequenta as aulas e reuniões da faculdade usando calça jeans e tênis, só substituídos em ocasiões mais formais por terno e gravata.

Na relação com os ritos acadêmicos, mantém-se dentro de limites respeitosos, mas é inventivo. É capaz de pedir licença e tocar um pouco de gaita de boca diante da plateia no meio de uma conferência internacional, ou de chorar durante a descrição de um caso clínico em plena sala de aula. No ano passado, virou tema de uma futrica maligna entre outros docentes depois de protagonizar os doze vídeos da série Urbanite, da TV Cultura, em que discute os efeitos do meio ambiente na saúde e, entre outras brincadeiras, usa capa preta para interpretar o Capitão Cidade, um vilão que ataca o corpo e a mente das pessoas. “Liguei para ele, fomos jantar, contei que a reação na faculdade tinha sido terrível e perguntei se ele não estava se expondo demais. Ele me respondeu que fez porque se divertiu muito. Aí eu respondi: ‘Então tá certo, não se fala mais nisso’”, relata György Miklós Böhm, professor emérito da Faculdade de Medicina da USP, orientador, padrinho de casamento e de um dos dois filhos de Saldiva.

Na relevância acadêmica, Saldiva integra a galeria dos grandes nomes da medicina da USP, com uma diferença. A maioria dos membros dessa elite deixou legados pela importância técnica, como Euryclides de Jesus Zerbini, o primeiro a fazer um transplante de coração na América Latina, ou Silvano Raia, pioneiro no transplante de fígado inter vivos do mundo. O patologista cavou seu espaço de forma particular: colocou um tema na ordem do dia ao abrir uma picada científica na patologia ambiental, área que analisa os efeitos do ambiente nos órgãos e tecidos. No Brasil, foi pioneiro no uso da autópsia para estudar a relação entre poluição e saúde, e o primeiro patologista a juntar equipes multidisciplinares – matemáticos, geógrafos e economistas – para mostrar os efeitos do ambiente das cidades no pulmão, na obesidade, no câncer, na saúde mental.

Seus estudos são mais ou menos como as pesquisas sobre aquecimento global: hoje, soam como obviedade, mas, durante décadas, enfrentaram uma muralha de ceticismo. Só em 2000, por exemplo, a Sociedade Torácica Americana, fundada em 1905, incorporou em sua lista de efeitos adversos à saúde itens como qualidade de vida e alterações fisiológicas – diretamente ligados à poluição. Ao longo de sua carreira acadêmica, Saldiva investiu nessas correlações, até que passou a ser ouvido. Uma de suas pesquisas, que juntou autópsias de moradores de Guarulhos e pesquisas com ratos, demonstrou o efeito da poluição atmosférica e foi um dos estudos usados como subsídio para a adoção do rodízio de carros em São Paulo, em 1996. A patologia ambiental é o pano de fundo que domina a maioria dos trinta artigos que publica por década em revistas de prestígio mundial como The Lancet, The New England Journal of Medicine e Journal of the American Medical Association (Jama).

O estímulo para entrar nessa área veio pelas mãos de György Böhm – ou Jorge Bom, como é chamado pelos amigos. Professor rigoroso, bem-humorado, autor de seis livros – entre eles, o romance policial Stargazer: Crime na Baía de Kungkungan (“Ninguém consegue adivinhar quem é o assassino!”, diz) –, ele saiu de Budapeste com a família nos estertores da Segunda Guerra Mundial e acabou aportando no Brasil em 1947. Morou em Porto Alegre, viajou pelo mundo com o dinheiro que ganhou em um concurso sobre a vida do tenor italiano Enrico Caruso e lecionou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Em 1977, chegou ao Departamento de Patologia da USP, com um projeto de pesquisa sobre qualidade atmosférica formatado durante sua passagem pela então Faculdade de Medicina de São Bartolomeu, em Londres, e montou um laboratório de patologia ambiental, o primeiro do gênero na América Latina.

Saldiva entrou para o grupo de orientandos de Böhm. Em 1983, colocou um punhado de ratinhos saudáveis na torre da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, no Centro de São Paulo, e outro grupo na casa do orientador, no ar puro de Atibaia, nas imediações do Atibaia Clube de Montanha, no interior do estado. Analisados por períodos de três meses a um ano, os camundongos de São Paulo saíram escalavrados, cheios de alterações inflamatórias no sistema respiratório. Os hóspedes de Atibaia chegaram ao fim da experiência bem mais saudáveis. Foi a primeira pesquisa a mostrar que a qualidade do ar em São Paulo não era segura para seres humanos, produzindo males como câncer e alterações reprodutivas. A pesquisa teve uma repercussão internacional até então inédita para o Departamento de Patologia da USP.

Com o tempo, Saldiva passou a estudar seres humanos diretamente, com material de autópsia. “Paulo Hilário tem curiosidade e imaginação imensas. Uma mente que é dele, com certeza não foi o Colégio Dante Alighieri que desenvolveu. Ele é casado com a pesquisa, não fica procurando dinheiro na vida”, afirma Böhm. “O único senão é que é dispersivo, tem interesse por muitas coisas na ciência. Mas aí é outra história… E é bom de lutas, não tolera descaminhos. O que é admirável, porque quem trabalha direito ganha inimigos.”

 

Saldiva é mesmo um comprador de brigas. A primeira das grandes em que se meteu aconteceu logo depois que virou professor titular, em 1996, com apenas 42 anos. Na mesma semana foi designado também diretor da Divisão de Laboratório Central do Hospital das Clínicas e ficou horrorizado com a ineficiência geral que se traduzia no tamanho das filas de pacientes obrigados a amanhecer o dia na calçada, sem cadeiras ou banheiro. Também ficou estupefato ao constatar que os profissionais treinados ali, com alto custo de dinheiro público, eram imediatamente despachados para trabalhar em laboratórios privados. Demitiu parte da equipe, fez mudanças na gestão e começou a formar os primeiros doutores. O laboratório foi o primeiro serviço público de saúde da América Latina a ganhar o ISO 9002/94, uma certificação de qualidade em produção, instalação e serviços.

Nada disso ocorreu em ambiente sereno. Saldiva enfrentou boicotes e reações. Teve uma gastrite hemorrágica e uma depressão cavernosa. Chegava para trabalhar sonado pelos efeitos dos remédios que tomava. Um dia, cochilou numa reunião e espalharam que andava se drogando. Desolado, cavou um convite para ganhar o dobro em uma faculdade do interior de São Paulo. “Eu disse: ‘Não. Se você sair de lá, vai ser para cima’”, lembra sua mulher, Silvia Saldiva. O patologista então enviou uma carta à Universidade Harvard propondo um pós-doutoramento. Harvard aceitou a proposta e ainda o convidou para ser professor visitante e, depois, integrar um comitê para avaliar estudos na área de poluição ambiental. Em Harvard, Saldiva aprendeu a usar gravata-borboleta, criou um programa para atrair estudantes brasileiros e transformou sua casa em ponto de encontro entre professores norte-americanos e latinos. Mas, um ano e dois meses depois, resolveu retornar. Morria de saudades de São Paulo, de dar aulas em português e do Corinthians. Voltou para a USP.

A segunda briga foi épica, do gênero Godzilla versus King Kong. Em uma tarde de maio de 2014, uma aluna pediu a palavra durante uma reunião modorrenta da Congregação da Faculdade de Medicina e denunciou que fora estuprada por outro estudante. Saldiva estava em uma conferência em Boston e acabou escolhido à revelia para presidir uma comissão para acompanhar o caso. Em quatro meses, a coisa cresceu. Em reuniões públicas no anfiteatro da faculdade, estudantes, funcionários, médicos e professores fizeram queixas tenebrosas. Na grande mesa da sala que Saldiva herdou de Böhm, outros contaram suas histórias em privado. Havia de tudo: violência sexual, homofobia, racismo, abuso de drogas, assédio moral, intolerância religiosa.

Encerrado seu trabalho, a comissão redigiu o relatório final. Enumerou as queixas em categorias, recomendou sindicâncias, pediu a criação de um canal permanente para denúncias, sugeriu medidas de acolhimento às vítimas e, por fim, propôs que o ano letivo seguinte fosse dedicado ao combate ao assédio. Saldiva tentou marcar um horário nas reuniões da congregação para discutir o relatório. A análise do material foi adiada por semanas a fio, até que o caso explodiu – só que do lado de fora da universidade.

A Assembleia Legislativa de São Paulo instaurou uma investigação, que ficou conhecida como a CPI dos Trotes. Seu objetivo era apurar relatos de crimes sexuais em várias faculdades paulistas. Convidado a depor, Saldiva contou o que ouviu, como pessoa física. Mas defendia que a faculdade tinha o dever moral de se posicionar e tomar a liderança no combate a esse tipo de violência. A tensão na USP foi aumentando, e Saldiva passou a ser acusado de expor publicamente a instituição. Enquanto isso, a apuração dos casos foi avançando na CPI, que se encerraria em março do ano seguinte com a denúncia formal de dez estupros de alunas, cinco deles na Faculdade de Medicina.

Quatro meses antes da conclusão da CPI, no dia 13 de novembro de 2014, Saldiva anunciou: “A Faculdade de Medicina está doente.” E avisou que se afastaria do Departamento de Patologia. Encaminhou uma licença-prêmio obrigatória antes de pedir a aposentadoria e ficou meio perdido, sem saber o que fazer. Uma semana depois, enquanto espairecia pedalando no Parque do Ibirapuera, seu telefone tocou. Era um convite para integrar o Instituto de Estudos Avançados da USP, fórum que arregimenta notáveis de várias áreas em projetos de políticas públicas. Aceitou na hora. Dois anos depois, foi eleito diretor do IEA. Comprou outras brigas, mas exerceu o cargo feliz da vida. Em março passado, concluiu seu mandato de quatro anos e estava fazendo planos para tirar um período sabático – e o coronavírus chegou.

 

A pandemia já explodira na Ásia e avançara sobre a Europa, quando a Faculdade de Medicina da USP se preparava para a chegada do vírus em São Paulo. O Hospital das Clínicas, o maior complexo hospitalar da América Latina, corria para montar o Covidário, nome informal da ala de novecentos leitos para onde seriam levados os casos mais complicados da cidade. O Departamento de Patologia começava a se organizar para receber os cadáveres e examiná-los com a técnica de autópsia minimamente invasiva, que escaparia da proibição. Ocorre que só duas pessoas sabiam trabalhar com a nova técnica: a ultrassonografista Renata Monteiro e Saldiva.

Asmático desde a infância e, portanto, do grupo de risco, Saldiva custou a convencer a equipe de patologistas – todos seus ex-alunos – de que deveria encarar o perigo e fazer as autópsias. “No começo eu falava: ‘De jeito nenhum!’ E ele foi mostrando que tinha que ser”, conta a professora Dolhnikoff, pupila acadêmica e amiga de Saldiva, uma relação que começou a ser cultivada ainda nos anos 1980, quando o professor percebeu que a aluna dava seus pulos na militância à esquerda e ele passou a usar um broche de vassourinha para fingir que era eleitor de Jânio Quadros – só para provocá-la nas aulas.

No dia 18 de março, uma semana depois que a OMS declarou que vivíamos uma pandemia, apareceu o primeiro caso para a equipe. Um homem havia morrido no Instituto do Coração com suspeita de Covid-19. A autópsia minimamente invasiva confirmou a causa mortis. Três dias depois, surgiram três novos casos – e a máquina começou a andar. Mobilizados em um grupo de WhatsApp chamado VultureGroup (“Como foi a bicada hoje?” é um dos códigos para checar detalhes sobre os exames), os envolvidos entraram em uma rotina insana que, embora mais organizada, dura até hoje.

A professora Dolhnikoff estuda os tecidos no microscópio, coordena parcerias com pesquisadores de outras unidades da USP, trabalha nos artigos enviados para publicações científicas e trata com cientistas interessados nas coletas. Renata Monteiro acompanha Saldiva nas punções com destreza cirúrgica. A dupla funciona assim: ele é intenso, ela é mais pragmática. “No fim de maio, fizemos autópsia em um menino de 8 anos, lindo, parecia dormir. Quando acabou, o professor ficou arrasado, repetia que a criança deveria estar brincando na rua e não naquela mesa, vítima do vírus. E eu fiquei lá, tentando consolá-lo”, lembra ela. Saldiva, decano da turma, está sempre à disposição quando é chamado. Às vezes, pega a bicicleta no meio da noite e corre para a sala de autópsias, de modo que os familiares das vítimas não tenham que esperar demais para o funeral.

O professor Luiz Fernando Ferraz da Silva é o responsável pelo naco operacional de tudo o que envolve as autópsias. Escolhido para dirigir o SVOC no início da pandemia, participou da equipe que recomendou ao governo lacrar os caixões de todos os mortos pela Covid-19 no estado, uma decisão tão penosa que o levou a anotar as razões em um bilhete, para consultar se um dia vier a questioná-la. “Não foi uma determinação isenta de dor, de empatia. O que vem na cabeça é a família que já perdeu alguém numa situação desgraçada e não vai poder fazer uma despedida. Por outro lado, há uma questão de saúde, de evitar contágio, o bem maior. Coloquei no papelzinho: considerando quinhentas mortes por dia, se não decidisse lacrar eu poderia ter nas costas pelo menos 5 mil outras mortes.”

Ferraz da Silva também ajudou a garantir que, nos meses de proibição das autópsias tradicionais, os familiares de todos os mortos no estado obtivessem uma causa mortis para tirar as certidões de óbito. Para isso, sugeriu ao governo a adoção de uma terceira modalidade de autópsia já usada na faculdade, a Autópsia Verbal – essa, sim, nada invasiva. É a junção de um questionário elaborado pela OMS com outro desenvolvido por um consórcio de grupos da Austrália, Europa e África, adaptado à realidade brasileira com perguntas sobre males prevalentes por aqui, como doença de Chagas e dengue. Complementada pelas autópsias, a entrevista estabelece o padrão-ouro dos diagnósticos de morte. Mas, na falta de condições de examinar o corpo, o formulário investiga sintomas e consegue definir a causa do óbito. Adotado durante a pandemia, evitou filas de cadáveres insepultos à espera de um atestado.

Nesse ambiente em polvorosa, Saldiva está cansado, mas vive em ebulição intelectual. Acha que a patologia ambiental está em um momento de importância singular. Em 2018, a convite de um editor que gostou de seus textos postados no Facebook, Saldiva publicou Vida Urbana e Saúde: Os Desafios dos Habitantes das Metrópoles, que analisa como o ambiente das cidades adoece as pessoas. O livro já é referência em cursos de urbanismo, gestão ambiental e sustentabilidade. Mas, agora, ele não passa uma semana sem ser convidado para seminários e reuniões que discutem políticas públicas. Querem ouvi-lo sobre como a patologia pode ajudar a repensar as cidades. E pode muito. No ano passado, por exemplo, o patologista coordenou um estudo, publicado pela revista científica Environmental Research, associando o acúmulo de partículas no pulmão com o tempo de permanência no trânsito. Para tanto, reuniu matemáticos e geógrafos, examinou estudos de células pulmonares de pessoas mortas em São Paulo, cruzou questionários com familiares que mostravam o tempo que a pessoa morou na cidade e o número de horas que levava para ir de casa ao trabalho, além de usar softwares para geolocalização da rua onde ela morava para estimar o fluxo de tráfego. A conclusão é valiosa: as políticas públicas não devem se concentrar apenas em reduzir emissões de gás carbônico dos automóveis, mas também na fluidez do tráfego para que os motoristas gastem menos tempo presos no trânsito.

A fonte de informações das autópsias é quase inesgotável também pelo que se pode ler no acervo sobre procedimentos realizados ao longo de décadas, graças ao trabalho da médica Thais Mauad. Em 2003, depois de passar alguns anos na Holanda, ela se tornou professora da Faculdade de Medicina da USP e ficou horrorizada ao descobrir o estado em que estavam milhares de plaquetas com tecidos humanos e laudos feitos desde 1930. “Tudo jogado, cheio de pó, de bichinhos”, lembra. Mauad chamou uma arquivista, fez um orçamento, apresentou um projeto para a diretoria do Departamento de Patologia e conseguiu criar a Blocoteca, acervo com mais de 200 mil tecidos humanos e laudos já digitalizados desde 1995. “Ainda procuro financiamento para digitalizar os mais antigos”, diz.

O resultado é uma Biblioteca de Alexandria da história das doenças em São Paulo. Mauad explica: “Como começou a Aids? A gente tem material da primeira pessoa soropositiva que morreu no Hospital das Clínicas. Quantos casos de doenças raras já teve nesse hospital? Como eram as doenças fúngicas nos anos 1950?” Está tudo lá. Autora de 25 estudos sobre asma fatal publicados em revistas científicas, todos feitos usando tecidos de pulmões e depoimentos de familiares dos mortos, Mauad diz que agora, com a pandemia, os colegas perceberam a importância da autópsia. “Muitos pesquisadores estão vindo dizer que querem trabalhar com essas informações. Vamos ver se é momentâneo…”

Quando fala para um público leigo, Saldiva evita tecnicalidades e dá vazão ao seu estilo lírico. Usa sua formação de patologista para comparar as grandes cidades a ecossistemas, e o crescimento urbano violento ao comportamento voraz de vírus e bactérias, que estão sempre procurando novas áreas e abandonando pontos em deterioração. Costuma sintetizar assim seu papel em tempos de Covid-19: “Uma parte da letalidade do coronavírus é dele mesmo, a outra fomos nós que criamos com nossa organização urbana e social. Bem interpretadas, as autópsias são um manancial de dados para ajudar a melhorar o lugar onde vivemos. Tenho a dolorosa e trágica oportunidade de analisar o interior de milhares de corpos e ler os efeitos da cidade nas pessoas, e tenho o consolo de contribuir para melhorá-la.” É notável que, na estreita sala de autópsia onde se examinou o corpo daquela menina, morta aos 11 anos, se possa colher material para pesquisas de biologia molecular e anatomia macroscópica, mas também se consiga enxergar cidades inteiras.

Angélica Santa Cruz

Dirigiu oito títulos da editora Abril. Foi editora-executiva da revista Época e do Diário de São Paulo.

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