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O cronista misterioso do Itamaraty

O diplomata anônimo que zomba de Ernesto Araújo e sua trupe

Luigi Mazza
ANDRÉS SANDOVAL_2020

Quando Joe Biden virou o jogo no estado da Geórgia e a derrota de Donald Trump ficou evidente, uma crônica começou a circular no WhatsApp de diplomatas brasileiros. O texto, intitulado E agora, José?, se dirigia ao chanceler Ernesto Araújo. “E depois de dias de agonia, chefe, a festa da democracia acabou no país em que tanto te espelhas”, dizia a mensagem, parafraseando o poema de Carlos Drummond de Andrade. “Mundo, mundo, vasto mundo, você que acredita em uma predestinação medieval pré-iluminista, viu esse mundo girar. Não digo que teu Deus esteja morto, mas estará, em breve, sem mandato.”

A crônica de seis parágrafos foi assinada por um pseudônimo satírico: ministro Ereto da Brocha. Desde o começo da pandemia, esse cronista misterioso – ao que tudo indica, um diplomata – vem produzindo um burburinho entre aqueles que se opõem a Ernesto Araújo dentro do Itamaraty. Ele escreve textos semanais, geralmente ridicularizando o chanceler e, por tabela, o governo Bolsonaro. O primeiro deles começou a circular em meados de abril. Na ocasião, Da Brocha se apresentou como “ombudsman da psicose de Ernesto” e anunciou que escreveria textos periódicos “sobre esta nova idade das trevas acéfala”. Pediu desculpas antecipadamente aos jumentos, burros e asnos – “nobres bestas” – porque teria que usar seus epítetos para descrever o governo e seu “chanceler-esquizofrênico”.

Como numa espécie de diário, as crônicas são sempre numeradas – “semana 1”, “semana 2” e assim por diante. O texto sobre Trump foi o da 28ª semana. Pouco antes, em outubro, Ereto da Brocha havia feito galhofa com o discurso que Araújo proferiu durante a formatura de novos diplomatas no Instituto Rio Branco. No evento em Brasília, ao lado de Bolsonaro, o ministro afirmou que, “se falar em liberdade nos faz um pária internacional, então que sejamos um pária”.

“Se ser pária é tão bom”, retrucou seu ombudsman dias depois, “vossa excelência poderá ser pária dentro de seu próprio ministério, recolhendo-se a sua aventura imaginária contra moinhos, orgias comunistas e dragões do mal”. Cobrou que Araújo se atenha a seu mundinho e deixe para os embaixadores os “assuntos atinentes à realidade”. E terminou o texto como sempre termina: convidando os diplomatas a refletir. “Para acordarmos desse romance épico de baixa qualidade, reflitam”, assinalou Da Brocha.

As crônicas circulam rapidamente pelos grupos de mensagens dos diplomatas. “Eu recebo de um amigo e repasso para todo mundo. O pessoal adora. A gente só evita passar os textos para a turma alinhada ao Ernesto, por pudor”, conta um diplomata com poucos anos de carreira, que prefere não se identificar para não sofrer retaliações no trabalho. “Tudo que é crítica ao Ernesto tem grande receptividade entre nós”, afirma outro diplomata.

 

Ninguém sabe ao certo quem está por trás do pseudônimo. Suspeita-se de que seja um diplomata aposentado, por causa do vasto repertório cultural e das referências à velha guarda do Itamaraty. Além do mais, tem um jeito meio resmungão. “Queria eu ignorar os obtusos e voltar ao meu Homero”, reclamou, em um de seus primeiros textos, ao espinafrar os “terroristas do intelecto” que acreditam em globalismo.

Em abril, uma das crônicas foi escrita em forma de carta a Rubens Ricupero, embaixador aposentado e ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso. “Veja você, Rubens, por esses dias senti uma pontada nas costas, e das fortes. Bem na lombar, como comentávamos outro dia. Achei que fosse a hérnia. Mas era só o texto que lia no celular. Tratava de um ‘comunavírus’.” Dias antes, Araújo usara esse neologismo para alertar que a pandemia poderia servir como porta de entrada para o “pesadelo comunista” – já que, segundo ele, o vírus faz parte de uma conspiração marxista em escala planetária. Ricupero diz não fazer ideia de quem está por trás de Ereto da Brocha.

O embaixador Paulo Roberto de Almeida, empolgado com a sátira, compilou todos os textos de Ereto da Brocha em seu blog pessoal, o Diplomatizzando. Em março de 2019, ele foi demitido do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), órgão vinculado ao Itamaraty, após publicar no blog críticas a Olavo de Carvalho, a Eduardo Bolsonaro e aos ideólogos da política externa bolsonarista.

Hoje, Almeida trabalha no arquivo do Ministério das Relações Exteriores e continua a ser o adversário mais barulhento de Araújo dentro do Itamaraty. “O Ernesto Araújo é tão ridículo que merece ser objeto de riso mesmo, de gozação. Mas as pessoas circulam os textos de maneira discreta”, diz. “O pessoal tem medo do gabinete do ódio. Um embaixador com quem eu troco mensagens já me pediu para apagar toda a nossa conversa no WhatsApp. Ele acha que podem invadir o aplicativo.” Segundo Almeida, os diplomatas mais velhos têm se divertido com as tiradas de Ereto da Brocha.

Ele nega os boatos de que seria o autor das crônicas, como supõem alguns. Almeida diz ter tomado conhecimento dos textos por intermédio de um ex-aluno. “Dá para ver que a pessoa que escreveu é muito culta, das antigas, e que tem uma bagagem muito grande. Mas não procurei saber quem era. É bom que ele seja misterioso”, diz o embaixador. Em seu blog, Almeida se refere ao cronista como o Batman do Itamaraty. O apelido vem a calhar, já que ele não gosta do pseudônimo escolhido pelo cronista. “O ‘Ereto’ eu entendo, é um trocadilho com Ernesto. Mas ‘Da Brocha’ é horrível, dá ideia de impotente”, reclama o embaixador.

Outros diplomatas mais antigos compartilham do mesmo incômodo. Mas há quem veja um significado mais profundo por trás do nome. “Acho que essa escolha foi de caso pensado. Com esse pseudônimo, ele quis dizer que o Ernesto, como chefe do Itamaraty, é ao mesmo tempo vulgar e impotente”, interpreta um jovem diplomata. Fã incondicional de Ereto da Brocha, ele sempre salva as crônicas no computador para não perdê-las. “São documentos históricos”, afirma.



Luigi Mazza

Repórter da piauí

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