esquina

O debutante

Filho de Bolsonaro Bolsonarinho é

Anna Virginia Balloussier
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Eduardo Bolsonaro perguntou pelo WhatsApp se eu não via mesmo nenhum problema em entrevistá-lo no apartamento dele. “Lá em casa tem arma, tudo bem? Rs”, escreveu, pouco antes das sete da noite de 4 de novembro, uma terça-feira, pontuando a mensagem com uma carinha amarela sorridente e com língua de fora.
Três dias antes, ele fora armado a uma manifestação contra o PT na avenida Paulista. Sair sem a pistola Glock 17, calibre 9 milímetros, seria “como deixar a carteira em casa”, disse, acrescentando que a arma estava “desmuniciada”. No protesto, Bolsonaro subiu no carro de som com Paulo Batista, ex-candidato à Assembleia Legislativa cujo êxito nas urnas foi inversamente proporcional ao do vídeo da campanha eleitoral em que disparava o “raio privatizador” contra a “bolchevique” Universidade de São Paulo.

De cima do palanque, com vista privilegiada para cartolinas nas quais se lia “SOS Forças Armadas” e “PT = Perda Total”, Bolsonaro sacou uma de suas tiradas contra a titular reeleita do Planalto. “Voto no Marcola, mas não voto na Dilma. Pelo menos o Marcola tem palavra”, disse, evocando o chefão do PCC. De baixo, um fotógrafo flagrou o momento em que, ao levantar o braço, sua camisa branca subiu, e a Glock enganchada no jeans ficou à mostra. A imagem se espalhou na internet feito mancha de vinho em carpete novo. Desde então, o político neófito do clã Bolsonaro não tem um minuto de sossego.

Naquela terça-feira, o jovem Bolsonaro havia acabado de voltar de The Noite, o talk show de Danilo Gentili no SBT. Também apareceu na revista Veja, que agora repousa ao lado do vaso sanitário do seu flat, em um condomínio na Zona Oeste paulistana, daqueles com entrada cercada de coqueiros, vigias e vizinhos que dirigem Hilux. Ele está amando a fama. Em meia hora, havia acumulado 26 recados no WhatsApp, 149 citações no Facebook e 23 menções no Twitter. “A mídia adora a gente”, diz, abrindo um sorriso como se esperasse em troca um “É isso aí, campeão”.

 

O pai de Eduardo, Jair Bolsonaro, foi reeleito para o sétimo mandato de deputado federal pelo Rio de Janeiro com 464 572 votos, recorde no estado este ano. Os irmãos mais velhos, Flávio e Carlos, estão no quarto mandato de deputado estadual e vereador no Rio, respectivamente. Os caçulas Renan, 16, e Laura, 4, ainda não têm idade para disputar o pleito.



Só faltava Eduardo, de 30 anos. Carioca, surfista, ele cresceu na Tijuca e formou-se em direito na UFRJ. Mudou-se para São Paulo porque a Polícia Federal, para a qual entrou por concurso em 2010, o destacou para a Delegacia de Repressão a Crimes Previdenciários. Em sua estreia nas urnas, recebeu o apoio de 82 224 eleitores – ele e o pastor Marco Feliciano estarão entre os representantes do Partido Social Cristão na Câmara dos Deputados.

Como delegado, Bolsonaro ganha 9 mil reais. Em Brasília, terá salário de 26,7 mil reais, fora os auxílios de praxe, como moradia – está pensando se vale dividir um apartamento com o pai, com quem disputa o “Major Jorge”, policial militar de confiança que os dois cobiçam como chefe de gabinete.

Eduardo Bolsonaro é um tipo atlético, de 1,87 metro e 94 quilos, cabelo loiro tosado à máquina 2. Na cozinha de seu apartamento, pranchas de surfe se apertam entre uma parede e a geladeira. Na sala, há um mural com santinhos políticos, incluindo o do vereador Coronel Telhada, expoente paulista da “bancada da bala”, e do cantor de forró e vice-prefeito de São Bernardo do Campo Frank Aguiar, atualmente investigado sob a acusação de narcotráfico. No flyer de Alexandre Padilha, candidato do PT ao governo paulista, Bolsonaro desenhou rabo e chifrinhos diabólicos. De vermelho, em sua casa, só dropes Halls sabor morango.

Como seu pai, Bolsonaro defende a pena de morte, a redução da maioridade penal, a prisão perpétua e a revogação do Estatuto do Desarmamento. “Antes bancada da bala do que da mala”, diz. Toma um expresso trazido da lanchonete do flat e vai logo ao ponto: “Hoje os direitos humanos estão muito fortes. Um tapa na orelha de um menor se transforma numa tempestade. Prefiro cadeia cheia de vagabundo a cemitério cheio de inocentes.” Ele não se acha radical – uma das últimas namoradas era uma advogada “com um quê de esquerda” –, e sim um “conservador” que reage “a tudo aquilo que não acho correto”. Ou melhor: “Nesse sentido, sinto orgulho de dizer que sou reacionário. Nós não somos passivos. Não tem como calar diante de fatos como o ‘kitgay’ ou a ditadura bolivariana.”

 

E

m junho, o debutante Eduardo postou na internet um selfie ao lado do pai durante a convenção nacional do PSC, na Assembleia paulista. No evento, Jair Bolsonaro aconselhou Dilma a se casar logo com Fidel Castro. O filho concorda: os petistas estão a um passo de “implantar uma ditadura cubana” no Brasil. A evidência: o governo já fala em importar banana do Equador, a 4 mil quilômetros de distância de São Paulo, só para agradar “o amiguinho da presidente” (no caso, o presidente Rafael Correa).

A Lei da Palmada, que proíbe pais de aplicarem castigos corporais aos filhos, também está na mira do debutante da família. Ele lembra que, na infância, as “chineladas Rider” partiam sobretudo da mãe, já divorciada do patriarca. E ninguém o viu reclamando disso. Quem deixou de apanhar, comemora, é a direita, mesmo diante de tanta “doutrinação socialista nas escolas”.

No dia em que ele nasceu, 10 de julho de 1984, a Folha de S.Paulo trazia na manchete: “Tancredo teme retrocesso; Maluf não.” O avô de Aécio Neves estava preocupado com a “retomada do processo militar” no momento em que se discutia a sucessão do presidente João Figueiredo, o último dos fardados. O jovem Bolsonaro defende a volta das Forças Armadas ao poder caso “o governo continue colocando as asas de fora”. Ele veste uma camiseta preta com a frase “Five o’clock, it’s a champagne” (Cinco da tarde, hora do champanhe). Espera ter seu dia de estourar a rolha. “Se deixar, vou até a Presidência da República. Não pretendo parar por aqui.” A Glock não estava à vista.

Anna Virginia Balloussier

Leia também

Últimas Mais Lidas

Estupro não é sobre desejo, é sobre poder

Em 70% das ocorrências de violência sexual no Brasil em 2019, vítimas eram crianças ou pessoas incapazes de consentir ou resistir - como na acusação contra Robinho na Itália

“Meu pai foi agente da ditadura. Quero uma história diferente pra mim”

Jovem cria projeto para reunir parentes de militares que atuaram na repressão

Engarrafamento de candidatos

Partidos lançam 35% mais candidaturas a prefeito nas cidades médias sem segundo turno para tentar sobreviver

Bons de meme, ruins de voto

Nomes bizarros viralizam, mas têm fraco desempenho nas urnas

Perigo à vista! – razões de sobra para nos preocuparmos

Ancine atravessa a crise como se navegasse em águas tranquilas, com medidas insuficientes sobre os efeitos da pandemia

Retrato Narrado #4: A construção do mito

De atacante dos militares a goleiro dos conservadores: Bolsonaro constrói sua história política

A renda básica, o teto de gastos e o silêncio das elites

Desafio é fazer caber no orçamento de 2021 um programa mais robusto que o Bolsa Família e mais viável em termos fiscais que o auxílio emergencial

A culpa é de Saturno e Capricórnio, tá ok?

Como Maricy Vogel se tornou a astróloga preferida dos bolsonaristas 

Mais textos
4

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

6

Do Einstein para o SUS: a rota letal da covid-19

Epidemia se espalha para a periferia de São Paulo justamente quando paulistanos começam a abandonar isolamento social

8

Assista a um trecho da mesa com Nikil Saval no Festival Piauí de Jornalismo

Nikil Saval é editor e membro da mesa diretora da revista literária n+1, revista de literatura, cultura e política, publicada em versão impressa três vezes ao ano.
Saval esteve em novembro no Festival Piauí de Jornalismo e conversou com os jornalistas Fernando de Barros e Silva e Flávio Pinheiro. 

9

Histórias da Rússia

Uma viagem pelo país da revolução bolchevique, cem anos depois

10

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia