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O delegado da CPI da Covid

Eleitor arrependido de Bolsonaro, senador deixa depoentes afásicos

Thais Bilenky
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Antes de começar uma oitiva na CPI da Pandemia, o senador Alessandro Vieira, do Cidadania de Sergipe, reúne sua equipe no gabinete. Juntos, fazem um levantamento dos temas que serão abordados e elaboram uma hipótese a ser investigada ao longo do depoimento. Vieira esboça perguntas já pressupondo as respostas, de modo a se antecipar a eventuais evasivas, mentiras ou omissões. Baseia-se na sua experiência na Polícia Civil do Estado de Sergipe, corporação que representou como delegado-geral.

Quando chega às sessões, que começam em geral às 9h30, Vieira tem em mãos um roteiro de perguntas. Horas e mais horas passam. Suplente na comissão, tem de esperar quinze, às vezes vinte senadores falarem até chegar sua vez. Quando finalmente lhe é cedida a palavra, o roteiro ficou ou velho ou desimportante, diante de novas e mais relevantes informações surgidas com o depoimento. O senador, então, decide em quais perguntas insistirá e elabora outras mais atualizadas. Com jogo de cintura para questionar, mas postura sóbria para os padrões do Congresso Nacional, ele tem deixado os depoentes afásicos. O ex-secretário de Comunicação Social Fabio Wajngarten, por exemplo, gaguejou reiteradas vezes ao ser confrontado.

“O senhor afirmou para esta comissão que o presidente [Jair Bolsonaro] mantém a definição de comprar qualquer vacina desde que com aprovação da Anvisa, confere?”, checou. “Confere”, respondeu Wajngarten. “Não é verdade. O presidente disse que não compraria qualquer vacina da China mesmo com a aprovação da Anvisa. O senhor tinha conhecimento disso?”, retrucou o senador. Wajngarten titubeou: “Nã, ma, e, eu, não…” Vieira questionou se Wajngarten mantinha a afirmação de que o presidente era abastecido por informações erradas sobre a pandemia. “Entendo que… é… o presidente…” O senador interveio: “A pergunta é objetiva: O senhor mantém essa afirmação que o senhor fez?” O ex-secretário demorou alguns segundos. “Estou pensando para responder, senador… Ããã… eu mantenho. Mantenho.”

 

À primeira vista, o grupo dos senadores unidos em torno do objetivo de responsabilizar o governo Bolsonaro pelas mortes na pandemia está coeso. Foram apelidados de G7, dado o número de senadores da CPI que são de oposição ou independentes, entre os onze titulares. Mais cinco entre os sete suplentes compõem o batalhão. Um desses suplentes, Vieira, de 46 anos, assumiu protagonismo mesmo no banco dos reservas. Foi destacado pelo G7 como o responsável por esboçar o plano de trabalho da comissão e até 27 de maio só não havia aprovado mais requerimentos que Randolfe Rodrigues (Rede-AP), autor do pedido de instalação da CPI.

A opinião de Vieira é levada em consideração na tomada de decisões relevantes, como a desistência pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL) de apresentar um relatório preliminar após o primeiro mês de trabalhos da CPI, encerrado em maio. Em reunião no apartamento funcional do presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), Vieira argumentou que nunca viu “meio relatório” na polícia. Convenceu Calheiros – que já estava propenso a descartar a ideia –, Humberto Costa (PT-PE) e Rodrigues.

À segunda vista, no entanto, o grupo crítico ao governo Bolsonaro está longe do consenso. Vieira recebeu a piauí em seu gabinete no Senado às 8h15 da quarta-feira, dia 26. Sem rodeios, passou a falar do volume de trabalho que a CPI impôs à sua rotina. “Digamos que a gente trabalha 23 horas e 59 minutos para organizar as coisas e tem 1 minuto do Omar Aziz”, afirmou, fazendo graça, embora não se pudesse notar sorriso em seu rosto coberto por duas máscaras, uma branca, por cima, e uma preta. “Omar tem um jeito caótico, mas está conseguindo manter a ordem na CPI de uma forma curiosa. Uma hora brinca e faz piada, outra hora fala um pouco mais duro.”

No caso do depoimento de Wajngarten, depois de Aziz sugerir que o depoente sofreria algum tipo de punição pelas mentiras, Vieira recomendou a sua prisão em flagrante por falso testemunho e Calheiros apresentou o pedido. Aziz, no entanto, deu uma guinada e se recusou a acatá-lo. “É uma escolha política, não técnica”, contemporizou Vieira. “Acho que ele fica meio entediado, sabe? Está de saco cheio daquela conversa fiada, Marcos Rogério falando trinta minutos sem falar nada, ou o senador Heinze mostrando o mesmo documento falso em toda reunião. Cansa. Aí ele deixa um pouco de confusão, levanta e vai fumar”, caçoa. Os senadores Marcos Rogério (DEM-RJ) e Luis Carlos Heinze (PP-RS) são aliados do governo.

Para Vieira, nem Calheiros nem Aziz se prepararam para os postos que assumiram na CPI. “Os colegas não pararam para pensar antes sobre as ferramentas que eles tinham.” O resultado é uma performance que ele considera pífia de Calheiros como interrogador. “É cacoete mesmo, ele não sabe fazer. Vejo que o relator vem melhorando, mas ainda não conseguiu.”

Vieira também critica a resistência de Aziz e Calheiros em acatar pedidos, como a convocação do ministro da Economia, Paulo Guedes. “É um discurso um pouco mais sofisticado do que a média aqui consegue assimilar. As pessoas não conseguem entender que o fato de você retardar por três meses o auxílio emergencial joga as pessoas nas ruas, gera mais contaminação e mais mortes. Não é óbvio para o Omar e para o Renan esse desdobramento”, disse. Procurado, Calheiros não quis comentar. Aziz não atendeu.

 

Alessandro Vieira é um dos políticos que votaram em Bolsonaro em 2018 e depois se arrependeram. Disse que não esperava o desmonte do “aparato de combate à corrupção”, sua principal bandeira. Mas, antecipando o próximo questionamento, emendou: “Você me pergunta: Queria votar no [petista Fernando] Haddad? Não, e a passagem para Paris estava muito cara. Não ia fazer o roteiro do Ciro [Gomes, do PDT].”

Ele dispara contra o senador Flávio Bolsonaro (sem partido), que tem comparecido à CPI sem ser membro e chegou a chamar Calheiros de vagabundo. “Fiquei feliz porque ele está trabalhando, uma coisa rara”, debocha. “Eles [os bolsonaristas] vivem muito para a internet. Têm essa estética do valentão. Como você está sendo atropelado na CPI e não tem um valentão da família que vai lá para gritar também? Mas acho que ele não tem muita energia. Faz isso vinte minutinhos e vai embora.”

Apesar de crítico do negacionismo, ele deu um passo em falso e, numa reunião, contraiu a Covid-19. Ficou internado doze dias em uma unidade semi-intensiva. Vieira presume que contraiu a doença na mesma ocasião que Major Olimpio, senador pelo PSL-SP que morreu da doença, em março. Estavam os dois e Lasier Martins (Podemos-RS) em reunião no gabinete de Eduardo Girão (Podemos-CE). Todos tiraram a máscara para tomar café, menos o anfitrião. Todos pegaram a doença, menos Girão. Vieira perdeu 11 kg e até hoje faz fisioterapia e toma corticoide.

Ele comenta que a progressão da doença é imprevisível. A CPI, compara, também é. Por enquanto a comissão mantém credibilidade, diz. “Mas a gente sabe: em Brasília, em 24 horas, tudo pode mudar.”

Thais Bilenky

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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