esquina

O deputado marombado

Um dia na vida atribulada de Daniel Silveira

Thais Bilenky
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Na cozinha de seu apartamento em Brasília, o deputado federal Daniel Silveira, de bermuda azul, camiseta preta e chinelo tipo Rider, fritava cinco ovos para começar o dia. Professor de muay thai e defesa pessoal, com 36 anos, 1,90 metro de altura e 115 quilos, ele faz parte da “bancada dos marombados”, como são chamados no Congresso os parlamentares de porte físico avantajado e de primeira viagem, como Alexandre Frota e Julian Lemos, os três do PSL.

Silveira sentou-se para comer os ovos fritos e se serviu de café preto e açúcar. Passava das oito e meia quando chegaram à cozinha dois assessores que dormiam no apartamento funcional de 225 metros quadrados. Logo depois, apareceu sua noiva, Paola Daniel, de shorts e top esportivo. O deputado contou que fazia um mês que não ia à academia de ginástica. Quando está com a atividade física em dia, prefere tomar o bulletproof coffee, ou café à prova de balas – batido com canela, gordura de coco e manteiga sem sal.

O vigor físico se deve também ao trabalho na Polícia Militar do Rio de Janeiro, à qual esteve ligado por sete anos, até 2018, atuando na Baixada Fluminense. “Não dá para contar quantas vezes acionei o gatilho”, disse, rindo. “Mas não tive desvios de conduta, nunca matei ninguém. Não por erro”, continuou, rindo outra vez. “Matei o quê? Uns doze, por aí, mas dentro da legalidade, sempre em confronto.” Os registros das mortes cometidas por policiais não são públicos.

Na PM do Rio, a reputação de Silveira não é ruim​, mas há quem o considere mais um dos que fizeram da carreira policial um trampolim para a atuação política. Naquela época, ele chegou a subir em carro de som para defender a categoria. Em uma instituição hierarquizada e sem direito a greves como a PM, os que protestam são tidos como baderneiros e, se não são presos, acabam punidos – inclusive com a transferência para postos perigosos, como a Baixada Fluminense.



Depois de terminar o café, Silveira pediu licença para se vestir. Voltou meia hora mais tarde, de terno cinza, carregando na lapela o bóton de deputado e, abaixo dele, um broche com a imagem de dois revólveres cruzados.

 

Uma semana antes do primeiro turno das eleições, em outubro passado, o candidato a deputado estadual Rodrigo Amorim, do PSL, postou em uma rede social uma foto de um comício em Petrópolis em que ele aparecia segurando uma placa de rua partida ao meio com o nome de Marielle Franco. A fim de homenagear a vereadora do PSOL assassinada em março de 2018, ativistas tinham afixado a placa em um poste no Centro do Rio, de onde o deputado a arrancara. Na foto, ao lado de Amorim, estava Daniel Silveira, sorrindo e erguendo o punho.

A atitude dos candidatos horrorizou muita gente, e a foto tornou-se uma das imagens emblemáticas da divisão política no país. Amorim foi eleito com 140 mil votos, o melhor desempenho da Assembleia Legislativa do Rio. E Silveira, com 32 mil votos, conquistou a última das doze cadeiras do PSL fluminense na Câmara Federal.

“A repercussão foi exatamente a que eu imaginava”, disse Silveira, no carro que o levava ao Congresso. “O recado era muito simples: não permitir que, em nome de uma ideologia, possam vandalizar e tomar um território público.” Tocava Gilberto Gil no rádio do carro. “Você sabia que a filha do inspetor penitenciário Jefferson [de Jesus Oliveira] foi estuprada por um integrante do Comando Vermelho e esquartejada? A mídia não deu a conotação desse crime. Ela era branca, loira e hétero. Por que a negra e lésbica tem mais valor?” A versão da polícia é diferente. A estudante de direito Marcela de Souza Oliveira foi morta com um tiro durante um assalto, em maio. A perícia não encontrou sinais de violência sexual.

 

Ao chegar à Câmara, pouco antes das dez da manhã, Silveira marcou presença na Comissão de Minas e Energia, da qual é titular. Como havia pouca gente ali, subiu para o seu gabinete. Uma hora depois, saiu a passos largos para retornar à comissão, mas foi interrompido por um homem que se apresentou como “representante de Arnold Schwarzenegger”.

Silveira, então, voltou ao gabinete com o emissário, que convidou o deputado para uma audiência pública sobre fisiculturismo – mercado que movimenta altas cifras em todo o mundo, mas no Brasil esbarra na burocracia e nas restrições à venda de esteroides e anabolizantes. O deputado prontamente aceitou o convite e adiantou: “Estou pensando em um projeto para regulamentar o uso de qualquer produto voltado ao esporte.”

Como estava em cima da hora para uma reunião com Sergio Moro, Silveira pulou a reunião da comissão e dirigiu-se diretamente ao Palácio da Justiça. Queria convidar Moro para um evento em Petrópolis, sua cidade natal. Esperou quinze minutos até ser chamado a entrar. Cinco minutos depois, deixou o gabinete sem compromisso firmado, mas com uma selfie. “Moro parece que está voando, a cabeça dele não para um minuto”, comentou. Pouco depois, o ministro anunciou publicamente que seu celular tinha sido hackeado.

Já era hora do almoço e Silveira decidiu ir ao restaurante Coco Bambu, no Brasília Shopping, onde aproveitaria para comprar um novo tênis de malhação. Quando estava se servindo pela segunda vez no bufê, sua assessora alertou que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, havia aberto a sessão – restavam poucos minutos para registrar presença, do contrário a falta seria descontada do salário. Silveira largou o prato, pagou os 77 reais do bufê às pressas e correu para o carro.

Para escapar do engarrafamento, seu assessor e motorista sugeriu uma manobra proibida. O deputado concordou. “Não põe aí na reportagem que a gente fez bandalha, hein”, ele me disse. Falei que não poderia atender ao pedido e, então, ele alegou que era, sim, permitido cruzar a faixa amarela dupla naquele local. “Tem sinalização ali.”

Faltavam quatro minutos para fazer o registro de presença na Câmara. “Me fode não, porra”, escreveu Silveira para Maia, que em instantes respondeu com um emoji de “joinha” e o horário-limite para a inscrição: 13h09. “Maia é um bom presidente, bem articulado”, elogiou. O deputado chegou ao plenário às 13h15. O prazo, porém, havia sido estendido. Ele subiu à mesa diretora e, com um aperto de mão, agradeceu a Maia.

Em sessão conjunta do Congresso, abordou o senador Flavio Bolsonaro, pedindo para acompanhar Jair Bolsonaro na viagem à China, prevista para o segundo semestre. Seguidor aguerrido de Bolsonaro, Silveira tem tido pouco acesso ao presidente. A sua única agenda oficial aconteceu em abril. “Falamos sobre segurança nacional, ataque ideológico, combate ao crime organizado e corrupção. Eu disse que estava com fome e não tinha nada pra comer no gabinete. Ele brincou, colocando a mão no meu ombro: ‘Tô comendo qualquer coisa.’ Falei: ‘Sai fora, aqui é Bolsonaro, porra!’ Caímos na gargalhada.”

Naquela quarta-feira, 5 de junho, Silveira deixou a Câmara às 19h40. Passou em seu apartamento e, uma hora depois, estava na academia. Precisou se esforçar para erguer os halteres de 120 quilos. Ao ver um homem que se exercitava com 5 quilos, comentou: “Comecei assim.”

Thais Bilenky

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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