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O domingo premiado

Infelizmente, nada como um jornal depois do outro

Leandro Vieira | Edição 32, Maio 2009

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Um prêmio da Quina divide a vida do porteiro Francisco Dantas Filho em duas partes. Ele trabalha num prédio residencial de catorze andares, com apartamentos de três quartos, no Centro de São Paulo. Veste com apuro a camisa branca e a calça azul-marinho do uniforme. Ganha “menos de três salários mínimos por mês”. Não tem carro. E seu passatempo é ver futebol pela tevê, com a mulher e o filho de 12 anos.

Mas, no dia 18 de novembro de 2007, um domingo para ninguém botar defeito, Dantas foi outro homem.

Na véspera, ele havia arriscado 5 reais no concurso 1 828 da Quina. Ao acaso, marcou no cartão sete dezenas. Com esse modesto investimento, descobriu, no dia seguinte, que acabara de ganhar R$ 216.181,94. O resultado saiu no jornal O Estado de S.Paulo. Lá estavam, cravados, cinco de seus palpites: 02, 29, 38, 58 e 63. “Quase morro do coração naquela hora”, diz o porteiro, que fala sempre em voz baixa e não espalha exclamações nem quando recorda o mau desfecho da história.

 

Naquela manhã, ele acordou a mulher na mesma hora, para dar a notícia. Em seguida, ligou para Traíras, no interior do Rio Grande do Norte, de onde saiu há dezoito anos para procurar emprego em São Paulo. Chamou a mãe ao telefone, prometendo que mandaria em breve um dinheirinho para ela comprar a casa nova. E, acertadas as dívidas da família, se presentearia com um automóvel zero quilômetro. Tratou de apurar numa concessionária Fiat o preço do Palio Adventure, a seu ver “o carro mais bonito que existe”.

 

Depois de planejar o futuro, Dantas decidiu celebrar com os amigos no lava-rápido da rua Albuquerque Lins. Como ainda não tivesse o dinheiro em mãos, a festa foi austera – e a despesa, nula. Àquela altura não podia saber, mas o rega-bofe franciscano era, ele sim, a sorte grande. Porque, na segunda-feira, assim que teve uma hora vaga para conferir o resultado numa casa lotérica, Dantas descobriu que as dezenas sorteadas eram 05, 16, 30, 47 e 73. Que Quina, que nada. Ele não fizera um mísero ponto.

“Foi uma decepção sem tamanho”, ele comenta, de cabeça baixa. Pegou novamente o jornal, apostando as últimas fichas na hipótese de que a casa lotérica estivesse enganada. Mas, naquele dia, O Estado de S.Paulo trazia na página 2 do Caderno Cidades os números certos, e não os que ele lera na véspera.

 

A Quina saíra para dois apostadores no estado do Rio de Janeiro – um de Duque de Caxias, outro de São Pedro da Aldeia. Não passara nem perto de sua esquina em São Paulo. Dantas penou ainda mais ao descobrir que tinha cravado, sim, suas dezenas premiadas – mas no concurso errado, o 1 827, da semana anterior. O jornal se enganara, atribuindo à edição do dia os números de uma semana atrás.

Dantas ficou sem o Palio Adventure e teve que engolir as piadas dos amigos. Mas duro mesmo, afirma, foi telefonar para a mãe, cancelando a mudança de imóvel. Desgostos mais do que suficientes para um advogado lhe garantir o direito a uma indenização por danos morais. E ele resolveu processar O Estado de S.Paulo pelo engano.

O problema é que o jornal não é o responsável legal pela divulgação da loteria. Quem faz isso é a Caixa – e o Estadão apenas publica. E, em primeira instância, a ação foi sumariamente barrada pela juíza Fernanda Gomes Camacho, que recusou o processo por “falta de interesse em agir”. O argumento, no mais puro juridiquês, quer dizer que, sendo o erro do jornal involuntário, não haveria como cobrar-lhe os tais danos morais.

 

Isso está escrito agora com todas as letras na página do Estadão que publica o resultado dos sorteios: “O quadro abaixo não deve ser usado para a conferência oficial das loterias. Dependendo do horário dos sorteios e do fechamento, alguns resultados podem estar defasados.” Na manhã em que Dantas se sentiu dono de um Palio Adventure, o texto era outro. Informava simplesmente que os números estavam lá “apenas para consulta”.

“Ainda estamos tentando. Vamos até a última instância”, garante o advogado Nelson Mandelbaum, que comprou a mágoa do porteiro. Ele cita antecedentes que dão razão a seu cliente. Mas a causa está no Tribunal Regional Federal de São Paulo. E, até onde a vista alcança, ainda não deu sinais de se mover em qualquer direção.

Quem continua se mexendo é Dantas. Ele aposta regularmente nas loterias. Divide-se entre a Lotofácil, a Lotomania e a Quina. Lembra que saiu para São Paulo o maior prêmio da história da Quina e um apostador embolsou sozinho mais de 3 milhões de reais no concurso 1 945. Por via das dúvidas, às vezes marca os mesmos números que quase o enriqueceram em 2007. Não é nada, não é nada, eles já cruzaram com Dantas duas vezes – na semana em que jogou e naquela em que devia ter jogado.

Leandro Vieira

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