humor

O famoso da revista

Ele vive de jabás, tem uma dieta rica em silicone e botox, seus ritos de acasalamento são complexos e o seu habitat são os eventos

Marcelo Madureira
Ele vive de jabás, tem uma dieta rica em silicone e botox, seus ritos de acasalamento são complexos e o seu habitat são os eventos
Ele vive de jabás, tem uma dieta rica em silicone e botox, seus ritos de acasalamento são complexos e o seu habitat são os eventos ILUSTRAÇÃO: REINALDO_2007

A cultura brasileira é rica em tipos característicos. Tem a “baiana do acarajé”, o “gaúcho dos pampas”, o “jangadeiro cearense”, o “preto velho com seu cachimbo”, o “seringueiro da Amazônia” (aquele que vive sozinho, isolado na floresta, tirando leite do pau…). Os estudiosos da nossa cultura, os Câmara Cascudo do terceiro milênio, no entanto, ignoram um novo tipo brasileiro, que ainda não foi devidamente catalogado, mas é objeto da curiosidade semanal de milhares de pessoas: o famoso de revista.

Mas quem é essa criatura, o famoso de revista? Como vive? Do que se alimenta? Quais são suas crendices, superstições, hábitos sociais e culturais? Como se acasala? Tudo isso é motivo de intensas pesquisas e especulações. Normalmente, um ser humano (ou um animal, um vegetal, um mineral e até mesmo José Sarney) é famoso (ou famosa) por algum motivo: venceu uma guerra, descobriu uma nova vacina, escreveu um bestseller, bateu algum recorde esportivo, passou do apoio à ditadura ao apoio ao PT na maior, enfim, realizou alguma façanha notável que levou aquele indivíduo, ou “indivídua”, aos umbrais da fama. Incensado, reverenciado, desejado e invejado, afinal, ele, ou ela, chegou aos píncaros do sucesso!

Só que esse não é o caso do famoso de revista. Ele é famoso simplesmente porque é famoso. Na semana passada, veraneava numa praia a convite de Caras. Nesta semana, aplaude um torneio de golfe nas páginas de Chiques & Famosos e, na semana que vem, estará no Valle Nevado, esquiando na Quem ou na Flash, não importa. Ele é famoso porque vive feito um Tarzan de cipó da mídia, pulando de revista em revista, de capa em capa, numa incansável batalha semanal na dura luta pela sobrevivência.

 

Em geral, os machos (sic) da espécie revelam uma nebulosa atividade econômica e se definem, vagamente, como empresários, mas nunca deixam claro em qual tipo de empreendimento estão envolvidos. Nada a ver com a caça, a pesca ou a coleta de frutas silvestres. No caso de ser ator ou atriz, ou melhor, modelo e atriz, nunca estão sob as luzes da ribalta. Geralmente, estão ciscando no terreirão do ostracismo, mas declaram para os devidos fins que têm “vários projetos”, ou pior: “estudam propostas”. O famoso de revista chama isso de “visibilidade”.

Evidentemente, nada disso vale quando o famoso de revista pertence a uma importante subespécie: o ex-BBB, o Big Brother Brasil “n”, em que “n” é o número correspondente à temporada do reality show. Essa subespécie de famoso de revista, cuja população não pára de aumentar, tem o certificado de famoso vitalício porque residiu, habitou, assistiu e freqüentou a incrível chocadeira de famosos de revista apresentada pelo Pedro Bial. As fêmeas da subespécie, as ex-Big Brothers (ou será ex-Big Sisters?), terminam sempre no pôster central da Playboy.

Do que se alimenta o famoso de revista? Cientistas atestam que ele tem uma dieta rica em proteínas, vitaminas, silicone e botox. Não necessariamente nessa ordem. A dieta pode ser rica (ou melhor: fingir-se de rica), mas é bastante pobre em variedade. O famoso de revista vive de jabá. Não o jabá com farinha sertanejo, presente na dieta do nordestino. O famoso de revista vive do jabá-permuta. Ou seja, ele freqüenta a Ilha de Caras e posa para fotos em troca de uma refeição preparada por um chef. Naturalmente, um chef, também ele, famoso de revista. O que antigamente se dava aos desprovidos numa gamela, numa cuité, numa lata de queijo palmira se transforma numa janta, num almoço ou até mesmo numa temporada de esqui gratuita, ou numa saída da depressão num castelo francês. Tudo tem de ser devidamente registrado em fotos, nas quais, em segundo plano, aparecem as marcas da companhia aérea ou do chinelo que estão bancando o convescote, ou melhor, o evento. Eles chamam essas coisas de “evento”.

Por falar em depressão, o famoso de revista nunca está entrando numa fossa, numa “nóia”, nunca está a caminho da furna escura e tenebrosa da angústia existencial. Ao contrário, sorridente e serelepe, tendo como fundo uma magnífica paisagem (e algumas marcas de perfume ou roupas), o famoso de revista confessa, mais uma vez, que está saindo (atenção: saindo) de uma depressão. Os motivos do transtorno jamais são subjetivos, aqueles que vêm lá das profundezas do inconsciente e das nossas inquietudes diante da miséria da existência humana. São motivos mais prosaicos, mais objetivos, tais como a superação de um antigo amor do exemplar da semana retrasada, desapareceu na capa do número anterior, e se transformou em profunda e cava depressão que, na próxima seqüência de fotos, subitamente se acabou. É impressionante a obsessão do famoso de revista pelo problema da depressão – que, não obstante, é fatalmente superada.

E já que estamos falando de relações afetivas, é espantoso como se casam – aliás, perdão –, como contraem bodas os famosos de revista! Contraem bodas porque os termos “matrimônio”, “casamento”, “enlace”, muito extensos, são mais difíceis de paginar nas revistas de famosos. Porém, voltando à vaca-fria, a cada semana os famosos de revista trocam de par, em frenético revezamento intersocial, no qual o antigo consorte passa, imediatamente, a ser o novo amor, fundamental e definitivo, de um outro, que ainda estava casado com outra na semana passada. A boda fica para o mês seguinte, depois de uma matéria da lua-de-mel no Taiti (em permuta, claro), com uma agência de viagens, e a separação que será a reportagem de capa do numero subseqüente.

 

São amores tão fulminantes quanto efêmeros. O acasalamento dos famosos de revista tem particularidades curiosas. Velhos empresários casam-se com mulheres bem mais jovens.  Apresentadoras, louras eternas e “botocadas”, enroscam-se com jovens guerreiros e bem-dispostos, principalmente funcionários da polícia, para compartilhar da solidão e do futuro casório matéria de capa. Isso até chegar ao famoso de revista que, na cerimônia do seu sexto casamento, declara: “Nunca estive tão certo do que quero”. Quem é que pode entender os descaminhos do coração?

O mundo é absolutamente cor-de-rosa para o famoso de revista. É uma seqüência interminável e delirante de eventos. Porque o evento é a única atividade humana que o famoso de revista reconhece e freqüenta. É o seu hábitat natural. Pode ser o lançamento de um novo carro, um novo modelo de sandália, uma nova bebida sofisticada, mas, enfim, são eventos em que posa para fotos sempre exibindo um enorme, um imenso sorriso. E que dentes!

A mãe natureza é sábia e o instinto de preservação da espécie já garante o espaço semanal para o filhote de famoso de revista, que comemora mais um aniversário, conhece a Disney ou comparece à pré-estréia mundial de um filme infantil.

O tempo passa devagar para o famoso de revista, talvez pelo excesso de férias, spas, resorts e carnavais fora de época, aos quais é obrigado a comparecer a cada semana. O famoso de revista é infenso à implacável máquina do tempo que nos tritura e nos devora. É só conferir as idades do famoso de revista para se comprovar, de forma cabal, que o conceito de tempo relativo de Einstein é rigorosamente verdadeiro. Eu tenho o hábito de escolher um e fico observando, semana a semana, que, enquanto envelheço, o famoso de revista, um Ponce de Leon bem-sucedido, continua matando a sede na fonte da eterna juventude: empacou nos 45 anos.

Você até pode entender o Piauí, mas é impossível entender o Brasil sem o famoso de revista.

Marcelo Madureira

Marcelo Madureira é humorista, autor, com Hubert Aranha, de Agamenon – o Homem e o Minto, da Objetiva.

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