esquina

O fazedor de santos

Um expert em canonizações

Juliana Deodoro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O italiano Paolo Vilotta vinha se submetendo a uma rotina de trabalho particularmente estressante naquela semana de maio, em Manhumirim, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo. Ele e sua equipe de três auxiliares acordavam cedo, quando a neblina ainda cobria a maior parte da cidade, e se punham a analisar centenas de documentos, textos e relatos coletados nos últimos dois anos.

Na hora do almoço, os quatro sentavam-se em silêncio no refeitório. Especula-se que tampouco trocassem muitas palavras na sala em que, trancados, sem testemunhas, exerciam sua atividade sigilosa. A fama de severidade do visitante italiano logo se espalhou pela pequena cidade mineira, uma imagem que se viu reforçada depois que Vilotta se recusou a aparecer em selfies com admiradores locais. “O tempo é muito curto, não dá para ficar conversando, batendo papo”, justificou-se.

Embora sua atividade seja semelhante à de um advogado, Paolo Vilotta na verdade é um “postulador”: uma mistura de defensor público com despachante de candidatos à santidade na Igreja Católica. Seu cliente, naqueles dias, era o padre Júlio Maria de Lombaerde, morto há mais de setenta anos, em 1944, e objeto de forte devoção em Manhumirim e redondezas. “Sempre quisemos entrar com o processo, mas a verdade é que ninguém sabia por onde começar. Agora descobrimos o mapa da mina”, revelou o padre Demerval Botelho, de 94 anos, que conviveu com o padre Júlio.

Vilotta é baixo, tem nariz grande e barba por fazer. Aos 34 anos, já não é um postulador qualquer. Ninguém é tão atuante quanto ele quando se trata de defender a causa de possíveis santos brasileiros. Das noventa postulações nacionais que tramitam atualmente no Vaticano, trinta são lideradas pelo expert italiano. Ele é também um dos poucos leigos acreditados pela Santa Sé para exercer a função.

Embora seja contratado pelas dioceses para conduzir os processos de beatificação e canonização, Vilotta costuma se comportar, na verdade, como uma espécie de advogado do diabo (com o perdão da expressão). Cabe a ele, por exemplo, avaliar se a devoção é espontânea ou fabricada. Caso encontre qualquer irregularidade, deve interromper o curso do processo. “A diferença entre um postulador e um advogado é que eu tenho o dever da verdade. O advogado precisa defender o cliente, seja ele culpado ou não. Eu sou representante do autor da causa, mas também represento as normas da Congregação dos Santos.”

 

A semana de trabalho intenso terminou em clima de festa em Manhumirim, com uma missa campal. O altar foi montado no pátio entre o Seminário Apostólico Romano e a Igreja Matriz do Bom Jesus, as duas mais vistosas construções na cidade de 22 mil habitantes. Vestido com um terno alinhado, Paolo Vilotta esperava de pé o início da celebração, guardando certa distância. Moradores encapotados tentavam se proteger do frio e encontrar algum lugar onde se sentar, entre as fileiras de cadeiras ao ar livre, as muretas do seminário e a escadaria da igreja.

Volta e meia o postulador conferia o relógio. Parecia um segurança, ao vigiar o palco, cioso de que nada saísse do lugar antes da missa. Na porta da igreja surgiram o bispo da região e os sacerdotes da congregação dos sacramentinos. Jovens subiram ao altar para reencenar a vida do padre a quem a população de Manhumirim atribui inúmeras graças: sua saída da Bélgica, a passagem pela África e o trabalho nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, antes de se instalar aos pés do Pico da Bandeira, em Minas Gerais. Vilotta se retirou logo depois do início da missa, recolhendo-se dentro do seminário – e de lá só saiu quando a celebração religiosa chegou ao fim. De um lado, a alegria do povo. Do outro, o italiano: sério, metódico, ansioso.

Mal a missa terminou, Vilotta subiu ao palco. Iria cumprir uma das tarefas mais importantes da viagem que o trouxera de Roma. Com destreza, começou a desmontar e a retirar parte dos ornamentos religiosos. A mesa onde antes se repartira o pão e o vinho perdeu a toalha e ganhou cadeiras. O altar logo se transformou numa espécie de tribunal – ou de cartório. Um notário que acompanhava o postulante começou a desfiar um juridiquês tão compreensível quanto uma ladainha em latim. Enquanto isso Vilotta abordava diferentes autoridades da igreja local com caneta e papel, buscando as assinaturas necessárias para o seu processo.

Concluídas as obrigações burocráticas, o visitante italiano empreendeu um gesto dramático, retirando o pano amarelo que cobria uma caixa até então quase despercebida. Dentro do cubo transparente encontravam-se os restos mortais do padre Júlio Maria. Podiam-se ver o crânio e um amontoado de ossos do candidato a santo. Uma leve comoção percorreu a praça, e o público se adiantou com celulares em punho para a frente do palco. Vilotta selou a caixa com uma fita vermelha e mandou a colocarem numa urna de madeira, garantindo assim que não se pudesse adulterar o “material” enquanto corre o processo. Depois acompanhou o cortejo que levou a urna até o interior da igreja, onde foi depositada num mausoléu de mármore branco.

O italiano ainda ficaria algum tempo lá dentro, observando o comportamento dos fiéis. Parecia, afinal, comovido. “Está vendo? Isso é devoção espontânea”, ele me disse. Era de se esperar por um momento como aquele, de empatia entre o principal postulador de candidatos brasileiros à canonização e a religiosidade da (ainda) maior população católica do planeta – que, no entanto, conta com apenas três santos reconhecidos.

Não durou muito. Já era hora de ir embora. No dia seguinte, Vilotta devia acordar às quatro da manhã e pegar um avião até Salvador. Fez mistério sobre em que causa trabalharia por lá. Mas reconheceu que tem sido bastante requisitado. “O Brasil é um lugar de oportunidade para o ambiente católico”, avaliou o jovem postulante, como se fosse um empreendedor diante de um mercado em expansão.

Juliana Deodoro

Jornalista, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais. Trabalhou em O Estado de S. Paulo e Veja São Paulo

Leia também

Últimas Mais Lidas

Maria vai com as outras #4: Profissionais do Cristianismo

Uma pastora Batista e uma freira Agostiniana contam sobre rotina, compromissos, sustento e planejamento quando se trata de uma profissão de fé

Bolsonaro contra-ataca

Estimulada pelo pronunciamento do presidente, militância bolsonarista faz ação orquestrada nas redes e nas ruas, convocando atos para romper quarentena

Um patinho feio na luta contra a Covid-19

Sem experiência no ramo, pequena empresa de Minas recebe autorização para importar e revender testes que detectam anticorpos no organismo de quem entrou em contato com o coronavírus; resultado dos exames sai entre dez e trinta minutos

Amor em tempos de coronavírus

Fronteiras fechadas, travessia dos Andes, drible no Exército boliviano: as idas e vindas de um casal de jornalistas para voltar ao Brasil

Decepção ambulante

Para um terço dos brasileiros, atuação de Bolsonaro contra coronavírus é ruim ou péssima; ex-apoiador do presidente, camelô rompe quarentena para não passar fome, mas reclama: “Gostaria que ele levasse a sério”

Foro de Teresina #93: O Brasil de quarentena, o isolamento de Bolsonaro e a economia à deriva

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

(Quase) todos contra um 

Desgastado até entre aliados, Bolsonaro se isola cada vez mais; as 24 horas seguintes ao pronunciamento do presidente tiveram embate com governadores e declaração ambígua de Mourão

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

Cinema em mutação –  É Tudo Verdade reinventado

Festival adia mostra presencial, mas fará exibições online; quando a epidemia passar, o hábito de ir ao cinema persistirá?

Mais textos
1

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia

2

O enigma japonês

Com pouco mais de mil casos de coronavírus, Japão contraria recomendações sanitárias e causa desconfiança às vésperas de uma Olimpíada cada vez mais improvável

3

Bolsonaro contra-ataca

Estimulada pelo pronunciamento do presidente, militância bolsonarista faz ação orquestrada nas redes e nas ruas, convocando atos para romper quarentena

4

Contágio rápido e silencioso: a matemática do coronavírus

Doença pode ser transmitida por pessoas infectadas e sem sintomas; para epidemiologista de Harvard, perspectivas globais são preocupantes, mas no Brasil, é mais provável contrair sarampo

6

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

7

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

8

Um médico a menos

Fora do Mais Médicos desde a eleição de Bolsonaro, clínico cubano sobrevive aplicando acupuntura em Salvador enquanto sonha em combater o coronavírus

9

Decepção ambulante

Para um terço dos brasileiros, atuação de Bolsonaro contra coronavírus é ruim ou péssima; ex-apoiador do presidente, camelô rompe quarentena para não passar fome, mas reclama: “Gostaria que ele levasse a sério”

10

Posto Ipiranga, o último a admitir

Em meio ao avanço do coronavírus, demorou dez dias até Paulo Guedes ser convencido por auxiliares de que a cartilha fiscalista seria insuficiente e o aumento de gastos, inevitável