esquina

O franco-tuiteiro

Um ex-ministro que gosta de atirar em 140 caracteres

Daniela Pinheiro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Foi no dia de seu aniversário que ele debutou no Twitter. “Que bom chegar aos 40 anos”, escreveu no fim de maio de 2011, deixando a caixinha retangular com 114 toques livres. Vinte e três meses e 3 302 mensagens depois, Orlando Silva – ex-ministro dos Esportes, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes, filiado ao PCdoB e hoje vereador por São Paulo – não desperdiça mais espaço na rede social. “Twitter é tribuna”, disse numa manhã recente em seu gabinete na Câmara dos Vereadores, segurando o iPhone na mão direita.

Havia acabado de postar um comentário sarcástico contra parlamentares do PSDB que enxergaram sinais de propaganda eleitoral na roupa vermelha usada pela presidente Dilma Rousseff durante um pronunciamento. “A oposição no Brasil desistiu do povo, não respeita a opinião do povo, agora é tudo no ‘tapetão’. E na Redação”, escreveu, aludindo a uma conivência dos meios de comunicação.

Ele escreve muito e sempre. Diferente de boa parte dos políticos – que prefere a impessoalidade dos posts sobre compromissos eleitorais e palpites previsíveis sobre adversários –, Silva fornece um profícuo apanhado de sua vida pública e privada.

Às vistas de seus 10 171 seguidores, @OrlandoSilva_Jr marca almoço com correligionários, fala da saudade da mãe, publica fotos da família, faz declarações de amor à mulher, descreve pratos que cozinhou ou comeu, já explicou a relação distante com o pai que tinha dificuldade em abraçá-lo, menciona detalhes de sua saúde, manda recado para jornalistas amigos, comenta as falas da presidente, provoca aliados, informa sobre convênios assinados ou projetos de lei de sua autoria.

Quando um tuíte junta seu nome a palavras como “propina”, “garagem” ou “tapioca”, ele protagoniza calorosas querelas com tuiteiros anônimos e políticos de estirpe variada, o que movimenta a modorrenta rotina da rede. “Não acho que eu seja agressivo no Twitter”, afirmou. “Em geral, procuro ser bem-humorado, mas às vezes o que dizem do que houve comigo extrapola, é falso, não dá para ficar calado.”

O “que houve comigo”, “propina” e “garagem” aludem à sua saída do governo. Depois de cinco anos como ministro, Orlando Silva pediu demissão, em outubro de 2011, depois que um policial militar – dono de uma ONG com convênios com a pasta dos Esportes – declarou à revista Veja tê-lo subornado e filmado recebendo dinheiro vivo numa garagem. A fita nunca apareceu e, no fim do ano passado, a Comissão de Ética do governo arquivou o caso. Ele produziu 24 posts de indignação com a denúncia. Um exemplo: “Cinco dias de ataques políticos e falsidades. Não há provas, porque não há fato. É tudo mentira. Seguimos na luta em defesa da minha honra.” As mensagens foram retuitadas dezenas de vezes.

 
Quando se fala da “tapioca”, também sai de baixo. Três anos antes, no final de 2007, Orlando Silva fora um dos protagonistas da crise dos cartões corporativos, quando se descobriu que funcionários do governo pagavam despesas pessoais com dinheiro público. Soube-se que o então ministro pagara uma tapioca de 8,30 reais com o cartão de crédito do governo (ressarcidos antes que o escândalo viesse à tona).

Pouco tempo depois, foram outros 20 mil reais em despesas num hotel carioca, para onde levou a mulher, a filha e a babá num compromisso de trabalho (ressarcidos depois do escândalo).

Por isso, quando um grupo de blogueiros com assinaturas como @KBailfuss, @Olinguaacidaa e @SaoBlack juntou as três palavras-chave numa única frase para atacá-lo, o resultado foi um bate-boca virtual que durou três dias. “Tô falando com a escória da blogosfera”, disse Silva em 38 toques. Do outro lado, os tuiteiros o chamavam de “ladrão”, “canalha” e “comunista de araque”, além de tripudiar do fato de que ele não foi eleito vereador no ano passado – só assumiu a vaga porque @netinhoDpaula, o pagodeiro Netinho de Paula, eleito com 50 mil votos, fora nomeado secretário.

Nada tão virulento quanto o entrevero com @freire_roberto, o deputado  Roberto Freire, do PPS. Defendendo celeridade no julgamento do mensalão, Freire escreveu que Orlando Silva era processado por corrupção. A resposta do ex-ministro veio em 120 toques: “Deputado, o senhor é um desonesto. Não existe processo contra mim! E saiba: eu processo quem me caluniou! Tome vergonha!”

A réplica em 118 caracteres foi imediata: “Desonestidade é uma das acusações feitas a você. Busque se defender e não agredir quem combate o gov. corrupto de vocês”, disse Freire. Dois minutos depois, Silva publicou: “Sabia que o senhor é um covarde, fugiu de Pernambuco para não ser humilhado nas urnas. Sei agora que é desinformado.” A mensagem foi retuitada 128 vezes.

 
Recentemente, um levantamento divulgou a lista dos dez perfis mais influentes em assuntos políticos no Brasil. Estão lá o ex-governador José Serra (@joseserra_), com mais de 1 milhão de seguidores, o senador Cristovam Buarque (@Sen_Cristovam), com 325 mil, e @dilmabr, da presidente Dilma Rousseff, que tem 1,8 milhão de assinantes, embora não poste nada desde dezembro de 2010.

“Posso não ser influente, mas o Twitter é a maneira de falar e se posicionar publicamente com sua base de eleitores”, disse Silva.

Não é só no ataque que a rede social lhe é cara. No dia seguinte às denúncias que juntaram “propina” e “garagem”, um grupo da União da Juventude Socialista organizou o movimento virtual #SouOrlandoSouBrasil. “Houve um momento em que 150 mil celulares e computadores postaram essa hashtag”, disse Silva.

Noutra ocasião, seus defensores trocaram a foto de seus perfis pela imagem do ministro, assim como os defensores dos índios guarani-kaiowás incorporaram a etnia a seus sobrenomes na internet. “Nesse dia, me emocionei. Chorei mesmo”, falou. Segundo seus cálculos, cerca de 3 mil pessoas colocaram avatares com sua foto no Twitter.

“Na internet, as pessoas ficam diferentes. Ou se recolhem ou atacam de maneira inesperada”, disse. Até hoje, ele não entende como um inocente desabafo provocou tamanha indignação de @jeanwyllys_real, o deputado Jean Wyllys, do PSOL.

No fim do ano, quando o país só falava de Nina e Carminha, as estrelas de Avenida Brasil, Orlando Silva – que é casado com uma atriz – publicou: “Eu não suporto novela.” Imediatamente, Wyllis replicou: “Ao contrário da ampla maioria dos brasileiros…” Ao que Silva deu a tréplica: “Atenção para minorias!”

Daí para fermentarem uma discussão em que foram evocadas a “maioria hegemônica” e a “ideologia da elite cultural e econômica” foi um pulo. A contenda só se encerrou quando uma blogueira, amiga de ambos, finalmente interveio.

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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