esquina

O futuro mora atrás

Um plano de desenvolvimento urbano junta o outrora ao porvir

Marcos Sá Corrêa
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Do chapéu de feltro preto, que não tira da cabeça, ao bigode cortado a navalha, que acentua sua boca com um circunflexo de nanquim, o vereador Marcelino Ampessan é a prova ambulante de que no Brasil ainda se fazem políticos como antigamente. Eis um homem público que não muda de cara como quem muda de marqueteiro. Foi com esse rosto d’antanho que no mês passado o presidente da Câmara Municipal de Capanema, no Paraná, encarou sorridente a longa exposição do Roteiro Doce Iguassu, um projeto de 139 páginas que, depois de cinco anos de negociações e 480 horas de trabalho de equipe, mostra que o futuro da cidade pode estar no passado.

No sudoeste do Paraná – onde os municípios mais prósperos substituíram por paisagens de retículas monocromáticas tudo o que atravancou a marcha da agricultura mecanizada –, um pouco de atraso pode virar riqueza. Explica-se. Conforme a última palavra em empreendedorismo caipira, a questão é aplicar benchmarking ao artesanato local, pôr “foco mercadológico” nos produtos orgânicos e “disponibilizar” no mercado a “iconografia das Três Fronteiras”, para que o turista possa se entupir de lembranças do pôr do sol sobre o rio Iguaçu.

Capanema, diz o Doce Iguassu, é surpreendente como toda viagem no tempo. Até o nome do projeto une o outrora ao porvir. O “doce” evoca o melado feito em tacho de cobre e o caldo de cana extraído na porta do freguês, enquanto o “Iguassu” grafado com dois esses paga tributo à internet, onde a inexistência de cê-cedilha leva a desentendimentos.

Aos 78 anos, Marcelino Ampessan é o vereador mais idoso do Paraná. É também quase duas décadas mais velho do que qualquer natural de Capanema. A cidade, ao nascer, descobriu algum gravitas de berço com a homenagem ao barão de Capanema, o mineiro que em 1885 arrancou uma posição favorável do presidente dos Estados Unidos na disputa entre Brasil e Argentina por aquelas plagas. O barão era o vulto histórico disponível, pois o presidente Stephen Cleveland já fora açambarcado pelos fundadores de Clevelândia, município do qual se desgarrava em 1951 o pedaço batizado de Capanema.

Pode-se dizer que a cidade tem mais proximidade com a Argentina. Para pôr o pé em terra estrangeira, basta ao morador cruzar uma ponte. Já alcançar um município conterrâneo de maior renome dá trabalho. Cascavel, a capital do agronegócio no sudoeste paranaense, fica a 120 quilômetros. E chegar a Foz do Iguaçu demora pelo menos três horas de viagem – desde que em 2007 uma sentença judicial fechou de vez o atalhozinho pelo qual Capanema se ligava ao norte do estado. Eram só 17,6 quilômetros, todinhos por dentro do Parque Nacional do Iguaçu.

Se a cidade está atrás de um futuro é justamente porque, destituída desse rasgão de floresta, ela se viu desinventada. Sua população desabou de 38 mil habitantes para menos de 20 mil. Capanema, adverte o Doce Iguassu, deixou de ser “um importante corredor turístico” –  ainda que somente ali possa o viajante “embarcar ao encontro da natureza”, reencontrar “os valores do campo” e mergulhar nas “águas cristalinas” do Floriano, rio que nasce dentro do parque e corre solto para o Iguaçu, livre da presença humana.

Ou quase, pois em meio às belezas acham-se os acampamentos clandestinos de uma ladroeira especializada em passarinho, peixe e palmito. Capanema foi escolhida como base do tráfico de produtos silvestres. Para se habilitar a explorar legalmente o parque, precisa abolir a pirataria, e isso implica, primeiro de tudo, fazer as pazes com os fiscais do parque, adversários de duas décadas, o tempo que durou o fecha-não-fecha da Estrada do Colono.

 

Se o caso é conciliar, está aí, justamente, o traquejo do vereador Ampessan. Gaúcho de Erechim, representante de um tempo em que os brasileiros estavam quase todos de mudança de um lado para outro do país, Ampessan chegou à cidade em 1958, via Santa Catarina, trazendo mais do que uma mão atrás e outra na frente. Vinha com “um Fenemê muito bonito” e 1 200 cruzeiros para investir numa balsa. Seu pai havia sido balseiro no rio Uruguai e ele pretendia se estabelecer no ponto crucial da Estrada do Colono – o que atravessava o rio –, entre Capanema e os fundos do Parque Nacional do Iguaçu, criado em 1939.

Por ali passavam as levas de colonos, e naquela região, três anos depois, o governo Jânio Quadros, o Breve, iniciaria a titulação de cerca de 30 mil lotes rurais e 25 mil terrenos urbanos. Era gente por atacado para atravessar. Ampessan estava no lugar certo, na decolagem da classe média rural paranaense, fundada sobre a regularização da pequena propriedade. “Sabe quantas mudanças cheguei a levar por dia? Trezentas e cinquenta! Com vaca, cavalo e banha”, lembra o ex-balseiro.

Em pouco tempo encomendou mais uma balsa, maior, e, não sendo homem de dar ponto sem nó, construiu um hotelzinho de dois andares na margem oposta – dentro do Parque Nacional –, para dar pouso ao pessoal que chegava à borda do parque, no cair da noite, quando as balsas não podiam fazer a travessia. Assim foi indo, tudo na mais santa cordialidade. Dali a pouco, em 1963, a oposição local foi buscá-lo para concorrer à prefeitura. “Não é que eu ganhei?”

Ampessan conheceu Capanema como lugar de má fama, fronteira braba – “Falavam que eu ia me meter em terra de jagunço”, ele diz. Injusto, tanto que até hoje larga o carro com a chave na ignição. “Povo tão bom…”

Pena que, na semana em que ele e seu Doce Iguassu mostraram o futuro radioso, mais uma canoa foi apreendida na mata, com carga de palmito e espingarda de caça. Segundo Ampessan, a prefeitura promoveu reuniões “pedindo para ninguém mais fazer isso”, mas, admita-se, mudar a natureza humana custa mais do que remediar as inconveniências de um cê sem cedilha. Existem hábitos que são como chapéu de feltro: difíceis de tirar da cabeça.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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