esquina

O galo está à solta

Uma marca de saias para homens

Emily Almeida
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Em uma loja montada dentro de um contêiner em Ipanema, no Rio de Janeiro, entra um homem de calça jeans, acompanhado da namorada. Ele está à procura de uma saia – para si mesmo. “Vai na preta, experimenta”, sugere a namorada. O rapaz segue para o provador e, minutos depois, reaparece, vestindo um modelo samurai, na cor preta e de tamanho curto, que deixa os joelhos à mostra. Ele se senta num banco, mexe para lá e para cá, a fim de saber se está confortável e, por fim, diz: “Pô, que alívio!”

Lançada em 2018, a grife Galo Solto é a primeira no Rio dedicada exclusivamente às saias masculinas. Durante um ano, vendeu suas peças apenas via online. Em setembro último, ganhou um espaço físico no coletivo Afrocriadores, no Ipanema Harbor, uma galeria de lojas e bares montados dentro de contêineres pretos com vitrines de vidro.

A marca foi criada por Orlando Caldeira, carioca de 34 anos, e Drayson Menezzes, gaúcho de 28 anos, que viram uma oportunidade comercial na confecção de saias adaptadas ao estilo dos homens. “Era muito difícil achar uma que tivesse bolso ou fosse adequada ao corpo masculino e aos nossos comportamentos, como sentar com as pernas abertas”, disse Menezzes. Os dois são atores e estão casados há quatro anos. Recentemente, trabalharam na peça Negra Palavra, Solano Trindade, baseada na obra deste poeta e dramaturgo pernambucano. Também atuaram em novelas da Rede Globo: Menezzes participou de Cheias de Charme e Segundo Sol, entre outras; Caldeira, de Boogie Oogie e Verão 90.

 

Foi em 2010 que Drayson Menezzes vestiu pela primeira vez uma saia, para encarnar um personagem num exercício da faculdade de teatro, que ele cursava no Centro Universitário da Cidade do Rio de Janeiro (UniverCidade). Ao final da atividade, decidiu ir para casa vestindo a saia. Atravessou os corredores da escola, pegou um ônibus e andou pelas ruas de Ipanema. “Por ser um bairro da Zona Sul, a gente acha que o pessoal tem cabeça mais aberta, mas as reações foram bem adversas”, contou. Confusas, as pessoas olhavam várias vezes, para confirmar o que ele estava vestindo. Apesar disso, Menezzes abdicou completamente do uso de bermudas e calças. Hoje, só usa saias.

Nove anos depois da primeira experiência, ele notou que as pessoas passaram a encarar com mais naturalidade homens de saias. Caldeira, que as usa “quase sempre”, concordou com ele: “As pessoas ficam surpresas, mas é uma surpresa positiva. Hoje, a maior parte das reações é de identificação.”

No entanto, certo preconceito permanece. E até a própria palavra “saia” é usada com percalços pelos homens, quando se referem à versão masculina dessa peça de roupa. Certa vez, um rapaz perguntou a Caldeira o nome daquilo que ele estava vestindo. “É uma saia”, respondeu o ator. Porém o curioso insistiu: “Não, quero saber o nome mesmo.” Para Caldeira, essa reação tem a ver com o receio de alguns homens de que pairem suspeitas sobre a masculinidade deles. “Mas isso é bobagem”, ele assegurou. “Não afeta em nada a masculinidade você usar saia e dizer que usa saia.”

 

Saias estão longe de ser uma novidade no vestuário masculino. “Os samurais, os romanos e o próprio Jesus Cristo usaram”, enumerou Caldeira.

Nos tempos modernos, no Brasil, pode-se dizer que o pioneiro no uso dessa vestimenta foi o artista plástico e arquiteto Flávio de Carvalho. Em 18 de outubro de 1956, quando tinha 57 anos, ele desfilou pelo Centro de São Paulo vestindo uma blusa de mangas bufantes e uma saia de pregas que terminava poucos centímetros acima do joelho. Chamou o desfile-performance de Experiência Nº 3, e o traje, de “New Look”, uma referência (quem sabe irônica) ao estilo inaugurado no final dos anos 1940 por Christian Dior. A proposta do artista era apresentar uma roupa masculina adequada ao clima tropical, mas a recepção nas ruas não foi boa: houve passantes que reagiram com xingamentos.

Menezzes concorda totalmente com Flávio de Carvalho: “Saias são até mais frescas que as bermudas.”

 

A Galo Solto vende cerca de cem saias por mês nas lojas física e online. O volume principal das vendas é no meio digital, pois inclui o público nacional e até interessados de outros países. O modelo de saia samurai curta é o mais procurado. A peça é feita em linho misto e possui uma amarração lateral com duas faixas compridas. Custa 245 reais.

Na página da marca no Instagram, uma das fotos mostra um modelo com uma dessas peças na cor vinho, combinando com uma blusa branca de mangas longas. Menezzes explica que as saias podem ser usadas em várias situações, das mais formais às descontraídas. “A nossa saia de tecido brim é bem estruturada. Combina com um blazer ou uma camisa social. Mas com uma camiseta e um tênis fica superdescolada também.”

A clientela ainda é pequena, mas variada. “A gente pega do cara mais careta ao mais ligado em moda. O mais careta provavelmente tem uma peça, duas no máximo”, disse Menezzes. “Acho que é tudo um processo. É possível que um dia a saia entre para o vestuário dos homens, assim como as calças entraram para o das mulheres.”

As peças são projetadas e confeccionadas num ateliê comandado pela mãe e pela irmã de Caldeira. Há pouco, uma modelista se juntou a elas, por causa da demanda crescente. Neste mês, outra loja com produtos da marca será aberta em Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro.

A logomarca da grife mostra um galo em cor laranja com um dos pés levantados e o peito erguido. Os atores transformados em estilistas quiseram associar as roupas que criam à ideia de um despertar, como sugere o canto do galo no raiar do dia. Mas o nome da marca tem origem menos poética. Menezzes contou que foi inspirado por esta pergunta que sempre fazem a ele sobre a experiência dos homens quando vestem saias: “Ué, mas fica tudo solto embaixo?”

Emily Almeida

Repórter da piauí

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