esquina

O grito do casarão

Herdeiro abre palacete contra Dilma

Carol Pires e Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

“Desculpa, querida. É uma festa privada.” Renato Franco de Mello gritou do alto do balcão de seu palacete, no número 1919 da avenida Paulista, em direção à mulher que, da calçada, pleiteava um lugar na festa. A loira de cabelos platinados seguia à risca o dress code dos convidados. Naquela tarde de 12 de abril, porém, se o anfitrião abrisse a porta para todos os que chegassem vestindo a camisa da Seleção brasileira, sua casa não teria como acomodar tanta gente. O espaço, com ares aristocráticos e a fachada meio em ruínas, deixaria de ser VIP.

A ideia, muito simples, era oferecer uma base de apoio para os amigos que haviam se animado a participar dos protestos daquele domingo, ainda que a maioria não demonstrasse a menor intenção de descer até a rua. Em menos de um mês, era o segundo ato público contra o governo Dilma Rousseff. “A gente só tem a agradecer à presidente”, disse Franco de Mello a certa altura, atraindo olhares intrigados. “Ela uniu o país. Todo mundo contra ela”, completou, sob risos e aplausos.

O evento tinha até promoter. Era Fábio Porchat, pai do humorista e ator de mesmo nome, amigo de infância do anfitrião. “A gente vem aqui, grita ‘Fora Dilma’ na varanda, entra, come um caviarzinho”, divertia-se Porchat, segurando um copo de uísque – “18 anos”, como ele fez questão de deixar registrado. Por cima da camisa canarinho, ele vestia um casaco de couro combinando com uma calça escura skinny e sapatos de couro pontudos.

Explicou ter convidado para a ocasião apenas “empresários, artistas e intelectuais”. O mais ilustre ao longo daquela tarde acabou sendo o humorista Juca Chaves, assediado por muitos convivas para fazer selfies. Vestindo uma camiseta amarela com a estampa de uma mão sem o dedo mindinho, com a legenda “Basta!”, Chaves animava a festa cantarolando uma marcha-rancho que acabara de compor. Chamava-se Adeus em Ritmo de Lava Jato.

Muitos dos presentes não escondiam o deslumbramento ao transpor as portas do palacete e descobrir atrás da fachada de casa abandonada uma profusão de móveis em pleno uso. Era possível ver um banco de jacarandá do século XVIII em estilo dom João V, uma mesa rústica holandesa e sofás Chesterfield de couro amarelo, entre as várias peças dispostas em alguns dos 35 cômodos, num terreno de quase 3 mil metros quadrados. Havia também muitos aposentos fechados, cheios de objetos atulhados.

Um dos barões do café, o avô de Renato Franco de Mello construiu a casa em 1905. Ficou insatisfeito com o resultado e foi buscar na França um arquiteto que pudesse refazê-la ao seu gosto. A mansão acabou sendo reinaugurada em 1912. Em 1992, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico de São Paulo tombou o imóvel, localizado na região mais nobre da avenida, perto do Conjunto Nacional e a dois quarteirões do Masp, do outro lado da rua.

A família alegou que o tombamento desvalorizou o imóvel e exigiu na Justiça a expropriação do terreno. Sem mais possibilidade de recurso, em 2012 o governo estadual foi condenado a pagar aos herdeiros uma indenização de 110 milhões de reais. Enquanto o valor não for quitado, Franco de Mello não arreda o pé dali.

 

Como a maioria de seus primos, ele vivia da herança do avô e dos lucros da fazenda Primavera, nos arredores de Araçatuba – uma terra que nos últimos tempos era dedicada ao cultivo da cana-de-açúcar e a uma centena de cabeças de gado. No começo da década passada, decidiu fechar seu antiquário na rua Oscar Freire e se mudou para a Provence, na França, “para mostrar aos amigos como a vida pode ser boa com coisas simples”.

Em 2002, no entanto, a fazenda da família foi desapropriada pelo governo federal para fins de reforma agrária. Em 2006, 105 famílias de trabalhadores sem-terra tomaram posse do assentamento, e Franco de Mello foi obrigado a voltar para o Brasil.

Há cinco anos, a família o convocou para tomar conta do último casarão da Belle Époque. “Eu sou o único herdeiro que gosta de coisa velha, então me pediram para morar aqui”, explicou. “É para evitar que o palacete seja invadido pelos sem-teto. Já pensou?” De fato, os capitéis e frontões em estilo provençal-urbano chamam a atenção de quem passa, tanto pela estética rococó como pelo aspecto abandonado. “Não tinha ideia de que alguém morava aqui, ainda mais um herdeiro”, comentou uma convidada do alto de suas sandálias ornadas com pedraria verde.

Mesmo sem poder de decisão sobre o destino do local, Franco de Mello queria vê-lo transformado em um museu dedicado à própria casa, com uma reconstituição de seu mobiliário original. A última notícia que teve, no entanto, foi de que o espaço seria um centro de memória da diversidade sexual. “O governo quer transformar isso aqui num museu de viado”, disparou Porchat, o promoter. Franco de Mello não parecia encarar a hipótese com tanto desgosto. “Mas eu sou mais cabeça aberta. Para alguns parentes eu digo que vai ser um museu da biodiversidade. O que não deixa de ser verdade, né?”, falou, sorrindo.

O herdeiro do barão do café divide o espaço com uma família de antigos caseiros. Como não tem dinheiro para remunerá-los como funcionários, eles apenas coabitam o lugar – trocam o trabalho pela moradia. “Somos flatmates, vivemos numa comunidade”, brincou Franco de Mello.

Entre conversas e espiadelas na rua, ele refletia sobre o momento do país: “Estava lendo no jornal sobre o genocídio armênio na Turquia”, disse, referindo-se à matança levada a cabo há 100 anos pelos turcos contra mais de 1 milhão de armênios que viviam no Império Otomano. “O que a gente vive no Brasil hoje não é muito diferente”, acrescentou, antes de arrematar: “Toda essa corrupção, e as pessoas morrendo na fila do SUS, é ou não é a mesma coisa?”

Franco de Mello avistou pela janela, no meio da massa de manifestantes de verde e amarelo que tomava a rua, o filho do caseiro, que vestia uma camiseta vermelha. “Que é isso, Anderson? Virou petista?”, perguntou. O menino apenas sorriu de volta.

Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

Paula Scarpin

Foi repórter da revista por doze anos, e fundou a rádio piauí. É diretora de criação da Rádio Novelo.

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