anais do crime

O impostor

Um escritor conta como se tornou amigo do homem que o enganou por dez anos dizendo pertencer à família Rockefeller

Walter Kirn
Pouco antes de ser preso, Clark se divertiu em uma festa temática num hotel de Boston onde antes funcionava uma prisão. Quando um falso xerife o algemou a uma mulher, ele sorriu
Pouco antes de ser preso, Clark se divertiu em uma festa temática num hotel de Boston onde antes funcionava uma prisão. Quando um falso xerife o algemou a uma mulher, ele sorriu FOTO: SUSAN SYMONDS PARA INFINITYPORTRAITDESIGN.COM

Naquele momento me pareceu um gesto nobre, e eu estava a fim de uma aventura. No verão em que Maggie, minha mulher, esperava nosso primeiro filho e o presidente Clinton deslizava rumo a um impeachment, me ofereci para levar uma cadela aleijada de Montana – onde morávamos e benfeitores da Humane Society local cuidavam dela – até o apartamento nova-iorquino de um jovem rico, um Rockefeller, que havia adotado o animal pela internet.

O nome dele era Clark, e nós nos conhecemos por telefone. Fiz a ligação como um favor a Maggie, então presidente da Humane Society, que tentava ajudar o casal que resgatara a pobre criatura depois de ela ter sido atropelada. Harry e Mary Piper pagaram a cirurgia que salvou a vida da cadela, arranjaram-lhe um tratamento alternativo chamado Reiki e a ensinaram a usar uma cadeira de rodas cujos pneus faziam as vezes das patas traseiras, paralisadas. Herdeiros de um banco de Minnesota e membros devotos da Igreja Episcopal (Mary se preparava para se tornar bispa), os Piper nos convidaram para jantar e falaram sobre a dificuldade de levar o animal até a Costa Leste.

Dada a condição delicada em que a cadela se encontrava, receavam confiá-la a um voo comercial; Clark dissera possuir um jato particular, mas a aeronave estava na China com sua mulher, Sandra, consultora internacional de negócios. Ao ouvir aquilo, ofereci-me como intermediário, em parte para mitigar minha consciência pesada. Alguns meses antes, eu atropelara e matara um dos cachorros sob a guarda de Maggie. Mas outra razão, bem diferente, me levava a querer falar com Clark: eu era um escritor e, o mais importante, um escritor entre um livro e outro. Meu palpite era de que iria conhecer um novo personagem.

Clark começou nossa primeira conversa telefônica contando a história da adoção. Descobrira a cachorra, cujo nome era Shelby, por intermédio de um site que se dedicava a encontrar novos donos para setter gordons abandonados, raça que ele apreciava pelo vínculo com a realeza britânica e o temperamento saltitante e entusiástico. Soube logo de cara que queria a cadela, disse, e desde então vinha trocando e-mails com os Piper, na tentativa de convencê-los de que ela deveria ser sua. O prédio onde ele morava ficava a apenas um quarteirão do Central Park – Shelby teria espaço suficiente para se exercitar e “caçar esquilos pela manhã”. Além disso, acrescentou, no apartamento abaixo do seu morava um “dos melhores veterinários acupunturistas” de Manhattan, com quem já havia trocado ideias sobre o novo hóspede. Com a ajuda do vizinho, Shelby se recuperaria por completo.



“Infelizmente, isso é pouco provável”, eu lhe disse. “A espinha dela foi esmagada. Não sei se você sabe, mas é possível que, antes de ser atropelada, ela tenha levado um tiro.” “Você já se tratou com acupuntura?” “Não, nunca”, balbuciei. “Então desconhece do que ela é capaz.”

O telefonema durou mais de uma hora e arruinou meu dia de trabalho. Naquela manhã, eu ficara de entregar uma matéria para a revista Time. No pequeno escritório localizado no segundo andar de uma loja de roupas de caubói, eu tentava transformar um amontoado de anotações, produzidas por vários correspondentes freelancers espalhados pelo país, num artigo inteligível sobre algum tópico de sociologia barata – violência na tevê, filhos de pais divorciados ou coisas assim. Assuntos já difíceis de tratar em 100 páginas, que eu precisava dar conta em apenas quatro.

Não gostava muito daquele trabalho, mas na ocasião eu necessitava desesperadamente de dinheiro, pois acabara de contrair um empréstimo de meio milhão de dólares para comprar uma fazenda de cerca de 200 hectares, a 16 quilômetros ao norte da cidade de Livingston. O lugar era uma ruína de cercas despencando, pastagens exauridas e currais aos pedaços, com campos de feno irrigados por canais rasos, crivados de tocas de cascavéis e buracos de texugos.

A casa dispunha de uma cozinha com um vaso sanitário à vista, não muito longe da pia; o andar de cima, abandonado, havia sido lacrado com tábuas. Eu comprara a propriedade para realizar o sonho de levar uma vida autossuficiente no campo, mas estava descobrindo que pagar por ela implicaria trabalhar mais do que nunca e aceitar encomendas bem mais enfadonhas do que eu era capaz de suportar. A parte mais assustadora consistia no empréstimo – um contrato particular com o antigo dono da fazenda, um ortopedista de Billings –, que estipulava que eu poderia perder tudo se deixasse de pagar uma única parcela.

 

Em nossa conversa, Clark falou mais do que eu. Contou um bocado sobre si mesmo e, como eu não podia ver seu rosto, não saberia dizer se estava falando a verdade, se brincava ou exagerava. Disse que, embora colecionasse arte moderna, não gostava daquilo: “Não passa de vômito sobre tela.” Contou ainda que só comia pão que ele mesmo preparava, e que tinha outro setter, de nome Yates, generosamente provido de três refeições completas, preparadas com ingredientes frescos por seu chef particular. Depois, pediu o número do meu fax para que pudesse me enviar as receitas.

Enquanto aguardava o fax, tomando café gelado e ignorando o insistente bipe do telefone (eram os editores da Time tentando falar comigo), perguntei a Clark o que ele fazia. Meu palpite era de que não fazia nada. “No momento sou uma espécie de presidente freelancer de bancos centrais”, ele disse. Pedi que explicasse melhor.

“Imagine o montante total de dinheiro de um país como se fosse um lago ou um rio barrado por um dique. Pois eu sou o guardião desse dique. Decido quanta água deve passar pelas turbinas, a que velocidade e por quanto tempo. O truque é deixar escorrer água suficiente para alimentar e sustentar a agricultura do país, evitando que inunde e afogue a plantação.”

“Para que países você faz isso?”, perguntei. “No momento? Para a Tailândia.” “É uma responsabilidade enorme.” “É divertido.” “E, antes da Tailândia, para que outros países?” “Isso é segredo.” “Não deve ser uma profissão comum.” “Foi a gente que inventou. Minha empresa, quero dizer, a Asterisk.”

Ele falava numa espécie de staccato, com um sotaque internacional, e de vez em quando proferia palavras que pareciam enfeitar o que ele estava dizendo, como “outrora” ou “impropriedade”. Imaginei que aquele comportamento fosse fruto de uma criação extremamente isolada. Lembrava-me de ter conhecido gente como ele na faculdade, em Princeton – excêntricos com pedigree, presunçosos que haviam estudado demais e falavam como se fossem primos de Katharine Hepburn. Criado no interior de Minnesota, em fazendas de laticínios que cheiravam a estrume, nunca fui capaz de me aproximar desses sujeitos. Seus clubes não me aceitavam, não praticávamos os mesmos esportes e eu sentia certa repugnância física em relação a eles, com seus cabelos prematuramente ralos e a pele rosada e sensível. Mais tarde, quando estudava em Oxford com uma bolsa de estudos, eu acabaria me enturmando com seus equivalentes britânicos, até mesmo com o irmão caçula da princesa Diana, mas só porque eu era um brinquedinho novo, vindo do outro lado do oceano.

Quando saí de Oxford, ainda passei vários meses em Londres, trabalhando como auxiliar de escritório numa pequena firma de advocacia e barbarizando com uns aristocratas boêmios. Na verdade, não conseguia acompanhá-los nas baladas. As corridas de táxi, as contas nos bares… Acabei voltando para os Estados Unidos e arrumei emprego na Vanity Fair, na qual escrevia manchetes engraçadinhas para matérias bobas – sobre o estilista italiano que desenhava os vestidos de Nancy Reagan ou sobre as obras de caridade da mulher do Sting. O problema era que meu chefe tinha a expectativa de que eu caísse na noite, e como eu gostava de ficar em casa, um ano depois fui demitido.

 

O menu canino começou a emergir do fax:

2 xícaras de arroz integral recém-cozido

1 legume verde (normalmente abobrinha) passado no processador

1 legume amarelo (em geral cenourapassado no processador

1 dente de alho moído

500 gramas a 1 quilo de carne moída fresca

ou 500 gramas a 1 quilo de frango ou peru cozido e desfiado

ou 1 lata de salmão

algas em pó

1 colher de sopa de levedura

um pouco de farinha de osso

2 colheres de sopa de gérmen de trigo

um pouco de pólen

Ao ler aquele documento meticuloso, resolvi que, havendo oportunidade, eu queria conhecer Clark em carne e osso. Se não tentasse, como romancista eu estaria incorrendo em prática negligente da profissão.

Mas suas investidas para me impressionar não pararam por aí. Como se acreditasse que suas credenciais como pai adotivo da cadela ganhariam um upgrade, informou que era vizinho de Tony Bennett e que podia ouvi-lo ensaiar à noite. Tinha diplomas de Harvard e Yale, onde estudara economia e matemática. Confidenciou-me ter ouvido de certas “fontes” que o príncipe Charles e a rainha haviam assassinado a princesa Diana com a ajuda de uma tropa de elite; ouvira também, em conversa com um amigo íntimo (o almirante da Sétima Frota), que a República Popular da China e os Estados Unidos tinham acabado de assinar um acordo secreto que permitia aos comunistas invadir Taiwan quando bem entendessem, sem nenhuma oposição.

“É o grande tema do próximo século: o Lebensraum chinês, a ocupação do território”, disse. “Estamos de volta à década de 30, antes da guerra, e a coisa não vai acabar bem. Prepare-se, Walter, estou lhe avisando.” “Como?”, perguntei. “Pois é…” “Não, estou falando sério: me preparar como? Para ser sincero, eu concordo com você, pelo menos em parte.” “A parte da China?” “Também vejo a situação se encaminhando a um conflito global.”

“Olhe, logo, logo vai acontecer o seguinte”, Clark começou. “O Japão vai ser a porta de entrada do novo Império Chinês, cujo poderio vai se expandir até a Austrália e a Nova Zelândia. Nós, como uma potência que encolheu, vamos recuar para o Havaí, e uma nova ordem tomará conta do hemisfério. Com o tempo, à medida que nos submetermos aos interesses do Oriente, seremos obrigados a renunciar a nossas alianças ocidentais. Na verdade, isso já está acontecendo. Só que ainda não foi divulgado.”

Quando comentei que escrevia resenhas para a New York Magazine, Clark contou que, poucos dias antes, pela primeira vez ele havia resenhado um livro na Amazon. Insistiu que eu lesse o texto de imediato, instruindo-me por telefone como chegar a ele. O livro era Conversando com Deus, e o título da resenha era “Sai da frente, L. Ron Hubbard, que lá vem Neale Donald Walsch”, autor da obra em questão. O tom grandioso, crítico, superior, mal combinava com a prosa de um calouro de faculdade:

Neale Donald Walsch, um autor com claro complexo de superioridade, acredita ser o porta-voz de Deus em uma conversa imaginária recheada de “Eus” em maiúsculas […] Escrito em formato de perguntas e respostas, com palavras e frases que nem mesmo Hemingway seria capaz de encurtar, o livro deve atrair a atenção dos semiletrados. Sua filosofia do tipo “Faça o que você achar que é certo” há de oferecer a qualquer um justificativa suficiente para um estilo de vida baseado no amor livre da década de 60. Na minha passagem preferida, à pagina 61, Deus afirma, por intermédio do sr. Walsch, que “Hitler foi para o céu”.

“O livro parece ruim”, comentei. “Mas o que achou da resenha?” Existem assuntos sobre os quais sou incapaz de mentir e, por isso, tentei ser diplomático: “Bom, é vigorosa.”

 

Finalmente a conversa se voltou para o problema da cadela. Clark lamentou que seu avião não estivesse disponível e deixou claro que não dirigia. Perguntou-me se Shelby não podia ser posta num trem, e eu lhe disse que o transporte levaria dias e não era confiável. E isso se a companhia ferroviária realmente transportasse animais. Em seguida, dei a ideia de contratarmos um serviço de courier. Ofereci-me para procurar uma empresa, negociar o preço e tomar todas as providências necessárias. “Acho que não vai funcionar”, ele disse. Por que não iria?, eu quis saber.

Clark desfiou uma ladainha de suas experiências ruins com “prestadores de serviços”, de encanadores a empregadas desonestas. Era uma gente que fingia ter sofrido um acidente no trabalho, que entrava na Justiça, surrupiava objetos da herança familiar. Uma vergonha. A sociedade havia mudado. As pessoas tinham perdido toda e qualquer noção de honra, pessoas de todos os níveis sociais, do mais alto ao mais baixo. “Eu preferiria não utilizar os serviços de um estranho. Prefiro confiar a tarefa a um amigo”, disse. “Para ser sincero, estou preocupado com a segurança.”

A menos de 1 quilômetro do escritório, um trem rangia e apitava ao atravessar a cidade, e de repente comecei a divagar. Eu levava uma vida estranha em Montana, resultado de decisões igualmente estranhas. Oito anos antes, na primavera de 1990, eu me mudara de Nova York para fazer uma reportagem sobre uma seita religiosa que se preparava para o fim do mundo. A líder do grupo, uma mulher de meia-idade que dizia receber os espíritos de figuras como Buda, sir Francis Bacon e Merlim, incitava os seguidores a abandonar suas casas e se transferir para um abrigo antibomba escavado no flanco de uma montanha. Comprei uma daquelas casas por um preço baixo – o fim do mundo é excelente motivação para vender um imóvel – porque pensava em usá-la como refúgio de trabalho. Acabei ficando. Cinco anos mais tarde, outra atitude impulsiva: depois de dez meses de namoro, casei com Maggie, a filha de 19 anos do escritor Thomas McGuane e da atriz Margot Kidder. Eu tinha 34. Fazia as coisas do meu jeito. Agora, passados três anos, esperávamos um filho e morávamos numa fazenda que eu havia comprado de impulso e não tinha ideia de como administrar.

“Não temos outra opção?”, Clark perguntou.

Ele sabia que tínhamos. Na noite anterior, eu contara aos Piper que já fora de carro a Nova York em outra ocasião. Três anos antes, poucos meses depois do meu casamento, senti-me sufocado numa cidade de 7 mil habitantes escandalizados com o fato de eu ter casado com uma adolescente e acabei alugando um pequeno apartamento no Flower District de Manhattan. Além disso, precisava de uma folga da minha nova sogra, que para ficar perto da filha voltara a morar em Livingston, depois de ali ter vivido no auge da boemia dos anos 70. A breve união de Margot com o pai de Maggie havia sido um bizarro produto cultural da época, repleto de estimulantes e infidelidades. O retorno àquele cenário a desestabilizou.

Alguns meses depois do casamento da filha, ela teve um colapso nervoso durante uma viagem a Los Angeles. Na tentativa de escapar de assassinos imaginários, Margot disparara pelo aeroporto, jogara longe a dentadura e a bolsa e só reapareceu dias depois, morando debaixo de uma cerca viva no quintal de um estranho. Voltou para Montana, a fim de repousar e recuperar o juízo. Quando me dei conta, minha sogra estava sentada em nossa sala de estar, sendo entrevistada por Barbara Walters. A equipe e as tralhas de tevê haviam me expulsado para os degraus da porta da frente, onde os vizinhos se aglomeravam em busca de um autógrafo da entrevistadora.

Eu não via a hora de sair daquele lugar. Carreguei minhas coisas no carro, enfiei Maggie num avião e me lancei pelas pradarias no meio de uma nevasca úmida. Só fui me acalmar nas proximidades de Nova York. Por que não ficara em Manhattan?, eu me perguntava. E a resposta me veio à lembrança: porque não tinha dinheiro. Nova York havia passado por uma faxina na minha ausência, e os preços dos imóveis dispararam. A epidemia de crack que grassava quando deixei a cidade fora substituída pela irrupção de condomínios de luxo. Pior do que isso, meus velhos amigos de Princeton estavam ficando ricos, alguns deles graças a apartamentos comprados naqueles mesmos condomínios, enquanto eu fugia às pressas para Montana.

Antes de encerrar a conversa com Clark, já estava decidido a levar a cadela a Nova York. Ainda nos telefonamos mais uma vez para tratar dos detalhes, mas, quando ele me ofereceu uma “bela gratificação” como prova de sua “gratidão infinita”, nós dois compreendemos quais seriam as bases daquela nova amizade: ele iria me encantar com seus menus caninos e o acesso a um círculo que eu imaginara vedado para mim; e eu retribuiria com aquela lealdade complacente que escritores reservam a seus personagens prediletos – aqueles que, dizem, não conseguiríamos inventar.

 

Se eu tivesse visto a cadela, talvez tivesse me recusado a fazer a viagem e, portanto, talvez nunca tivesse conhecido Clark. No dia em que fui buscá-la, ela estava deitada no chão da sala de estar dos Piper e nos olhava fixamente com seus olhos úmidos e suplicantes, os cílios salpicados de poeira e caspa. Eu podia ver cada costela, cada calombo em sua coluna. O sentimento que ela despertou em mim não foi de pena nem tristeza, mas uma espécie de repugnância primordial. Minha primeira reação foi me afastar dela, distanciar-me daquele espírito açoitado, extenuado e encarquilhado.

Em vez disso, me agachei e acariciei sua cabeça esquelética. Meu toque não pareceu lhe propiciar nenhum prazer. Ela apenas se encolheu; tremia, patética ao extremo, enquanto os Piper sorriam para ela, em sinal de radiante aprovação. “Vamos sentir saudade da nossa pequena.” A esposa o consolou, enlaçando o braço em sua cintura: “Saber que ela encontrou o lar perfeito já é uma grande ajuda.”

Os Piper acreditavam que a sobrevivência de Shelby fora obra do próprio Deus Pai, auxiliado pelas orações. Eram apaixonados por cachorros, o que eu jamais seria. As pessoas que amam cachorros provêm de um antigo ramo da humanidade cujos cromossomos ainda lembram como era caçar e dormir com os animais. Para elas, cães são seres enviados do Paraíso para testar nossa capacidade de amar. O artigo sobre Shelby que Mary escreveu para o Gordon Setter Club of America – o texto que, imagino, acabou por chamar a atenção de Clark – terminava com as seguintes palavras: “Sou grande fã da salvação, como está escrito nas Escrituras (os que não são religiosos, por favor, tenham um pouquinho de paciência): ‘Não vos esqueçais da hospitalidade, porque graças a ela alguns, sem saber, acolheram anjos.’”

Harry era tão bondoso quanto a mulher, talvez em razão de um trauma de infância. Seu pai fora um dos sócios de uma grande empresa de corretagem, a Piper, Jaffray & Hopwood, sediada em Minnesota, meu estado natal. E sua mãe, Virginia, figura famosa na sociedade de Minneapolis e Saint Paul, foi vítima do maior sequestro da história dos Estados Unidos, em termos de valor do resgate. O crime jamais foi esclarecido.

Conheci Harry quando ele veio me pedir uma opinião sobre o livro que escrevia sobre o sequestro, ocorrido em 1972, pouco antes do de Patty Hearst, que afastou o de Virginia das manchetes. Depois de pagar 1 milhão de dólares, o pai de Harry foi orientado pelos bandidos a se dirigir a um local na floresta ao norte de Minnesota, onde ele e Harry, então um adolescente, encontraram Virginia amarrada ao tronco de uma árvore. No lugar da socialite bem-vestida e penteada havia um animal selvagem e trêmulo lambuzado de fezes. Ele sentiu nojo e, depois, vergonha do nojo que sentira. Ver a mãe naquele estado matizou o modo como passou a vê-la, e ele tinha esperança de que de alguma forma o livro pudesse purgar sua consciência pesada.

Antes de partir numa viagem de cerca de três dias para a Costa Leste – Maggie planejava pegar um avião e me encontrar lá, não só porque queria conhecer Clark, que a intrigava, como também para aproveitar um fim de semana em Nova York antes que o dia previsto para o parto, em novembro, se aproximasse demais –, eu precisava aprender a posicionar Shelby na cadeira de rodas. Apanhei-a carinhosamente pela barriga e a carreguei no colo até o quintal. Através da pele, eu sentia o contorno dos órgãos – formas esponjosas, levemente arredondadas, que pareciam boiar soltas dentro do corpo. Era difícil saber de onde vinha aquela força tênue que a mantinha viva. O coração não batia, apenas pulsava, muito de leve.

 

A cadeira de rodas era uma geringonça com pernas de aranha, feita de algum tipo de metal leve, e equipada com diversas correias e tiras cuja função era manter no lugar a porção traseira e paralisada de Shelby, evitando que as patas arrastassem no chão ou entrassem em contato com os pneus. Como suas patas mais pareciam cordas que membros locomotores, encaixá-las naquele arreio era um desafio. Por fim, amarrei duas botinhas nela, dois saquinhos de couro que deveriam proteger as patas traseiras, impedindo-as de se arrastar. Repeti o procedimento, para poder memorizá-lo e ensiná-lo a Clark.

“Chegou a hora de a nossa menina se exibir”, Harry disse. “Venha, Shelby!” A cadela saltou para a frente em sua armadura de metal. No início, a coisa parecia fácil. Ela só precisou de um tiquinho de força de vontade para fazer girar o eixo e as rodas. Então a cadeira ganhou velocidade e embalou numa descida, assustando Shelby. A cadela começou a se chacoalhar, como para se livrar do equipamento; cambaleava, ganiu por puro reflexo e se virou, como se quisesse morder aquela coisa. Harry foi acalmá-la, o que levou certo tempo. Quando ela parou de arquejar e tremer, ele se afastou e tornou a chamá-la.

Eu me senti mal. Todo aquele esforço parecia fadado ao fracasso. Harry havia dito que Shelby estava melhorando, que fizera um progresso e tanto, uma coisa milagrosa, mas aquela tremedeira não me convencia. Eu havia comprado meu primeiro celular para informar tanto os Piper como Clark sobre o andamento da viagem, e estava com ele no bolso. Será que devia ligar para Clark e cancelar o acordo? Ele iria querer uma boa justificativa, talvez até ficasse zangado – tinha um jeito meio irritadiço, eu já havia notado. Mas em geral os ricos são assim. Querem as coisas na hora.

Harry e eu desamarramos Shelby da cadeira de rodas e a colocamos na cabine da caminhonete. Quando ela já estava acomodada e havia retomado sua deformidade natural, Harry se afastou e, por fim, caiu no choro. Mary baixou os olhos. Era difícil vê-lo chorar – um choro assustadoramente primordial e desfigurante, com motivações que transcendiam as atuais, ao que tudo indicava.

“Dirija com cuidado, por favor”, ele pediu. “Pode deixar. Sempre dirijo com cuidado.” “Pegou seu celular?” “Está aqui, no bolso da calça.” “Agora ela é do Clark”, disse ele. “Shelbyzinha Rockefeller.”

Harry tirou do bolso um frasco com água do mar da Galileia; pingou algumas gotas em Shelby e borrifou outras no capô. Na noite em que jantamos, eu havia lhes contado a respeito de Miles, o vira-lata ossudo e hiperativo que saltara na frente da minha caminhonete quando eu estava a caminho de um campo de feno. A cabeça de Miles surgiu um pouco acima do capô, a língua pendendo horrivelmente da boca; ele então desapareceu, seguindo-se um nítido estalo que senti nas mãos ao volante. Brequei, dei marcha a ré, saltei da cabine e apanhei nos braços o corpo preto e arrebentado do animal. A viagem até a cidade com Miles no colo, estrebuchando, vida e espírito se esvaindo, me preparou para pesadelos que estranhamente nunca vieram. Um castigo sutil que me negou o direito à catarse.

Depois do ritual com a água benta, Harry pediu que déssemos as mãos e fechássemos os olhos. Em sua ardorosa oração, rogou aos santos e anjos que protegessem a mim e a Shelby durante a viagem e que nos conduzissem em segurança a nosso destino; pediu também que os espíritos sorrissem para Clark, que o abençoassem com sabedoria, enchessem de amor seu coração e que, na condição de novo dono da cadela, lhe conferissem o dom de curá-la.

Quando voltamos a abrir os olhos, era hora de seguir viagem.

 

Eu não estava em condições de fazer uma viagem tão longa. Durante toda a primavera e o início do verão, havia me desgastado em idas e vindas entre Livingston e Billings, a maior cidade de Montana. Eram viagens de quase 200 quilômetros, para cobrir para a Time o consumo abusivo de metanfetamina. O fotógrafo que viajava comigo já havia feito cobertura de guerras, mas afirmava que Billings à noite era mais assustadora que o Zimbábue ou Beirute. Insisti em que mergulhássemos naquela atmosfera sombria e, por isso, nos hospedamos num hotel sórdido de beira de estrada.

Seguíamos os viciados de bar em bar, acendíamos e reacendíamos seus cigarros tortos, ouvíamos suas imprecações ferozes e paranoicas contra microfones costurados a suas cabeças por extraterrestres e cidades subterrâneas povoadas por banqueiros judeus conspiradores. O fotógrafo tinha um rádio capaz de sintonizar a frequência da polícia, para que pudéssemos correr rumo às ocorrências relacionadas ao uso de drogas. No porta-luvas eu levava um revólver carregado – segredo de macho que me conferia postura durona – e, no bolso do jeans, um frasco de Ritalina, remédio que eu às vezes usava, quando o prazo era curto para a entrega de um trabalho.

Quando a Ritalina atingia minha corrente sanguínea, eu me sentia revigorado e competente, verdadeiro repórter da pesada em filme antigo; mas, assim que o efeito passava, eu me derretia e perdia a capacidade de concentração. O único antídoto era tomar outro comprimido, dissolvendo-o em uma lata de refrigerante para apressar o efeito. Desenvolvi, assim, grande tolerância tanto à Ritalina como ao Dr. Pepper, o refrigerante que eu tomava.

Entre uma noite e outra de trabalho, eu brincava de fazendeiro. Pelejava com pás, escavadeiras e esticadores de arame. Gostava da fazenda. Como cresci no campo, nunca havia me dado bem nas cidades, pequenas ou grandes. Paisagens urbanas feitas de palavras e rapapés, promoção pessoal e grandes declarações davam-me o que pensar, mesmo dormindo.

Maggie estava passando mal com a gravidez. Durante aquela primavera, ela rejeitava mais comida do que ingeria e, além disso, parecia frustrada com o andamento da reforma que eu tocava com o auxílio de dois ajudantes. Já havíamos superado aquela fase em que o casal conversa sobre o bebê – como vai ser o quarto, com quem ele vai se parecer – e estávamos em outra. Ao assistir ao noticiário, nos perguntávamos em silêncio por que havíamos resolvido ter um filho. Ou talvez só eu me perguntasse; enjoos à parte, Maggie parecia feliz.

Mas meu medo de ser pai não era normal: em vez de liberar adrenalina, ele a sugava, produzindo uma fadiga que me deixava paralisado. Vez por outra, se tinha um artigo para escrever, eu tomava Ritalina e depois um remédio para dormir, que só surtia efeito durante algumas horas. Então eu acordava num estado de sonambulismo e assaltava a cozinha, preparando estranhos pratos com ingredientes que só identificaria no dia seguinte, vendo-os na pia. Outras vezes, ao acordar encontrava e-mails enviados a antigas namoradas e anotações, com erros de ortografia e sem nenhuma pontuação, para contos sombrios ambientados em lugares bizarros.

 

Parei a caminhonete na saída da casa dos Piper. A meu lado, sobre um compensado que eu revestira com um cobertor verde, Shelby estava deitada com o focinho colado numa entrada de ar. À nossa frente, o imenso céu de Montana. Nuvens brancas amontoavam-se no azul do firmamento, revelações monumentais pareciam à mão. Acendi um cigarro para me preparar para elas e peguei o caminho que conduzia à rodovia interestadual I-90, exalando a fumaça pelo vidro aberto do meu lado.

Em algum momento, vi as narinas de Shelby (a parte mais reativa de seu corpo) bem abertas, como se buscassem inalar a fumaça. Num experimento, dei uma pequena baforada na direção dela e constatei que sua fome de nicotina era verdadeira. Seria herança do dono que a abandonara? Ou resquício das fogueiras de antigas caçadas, quando homem, cachorro, lança e cachimbo eram uma coisa só?

Depois de poucos quilômetros de estrada, alguém ligou para meu celular novo. Atendi, mas não ouvi nada – o sinal estava muito fraco. Como podia ser Clark, tentei o número dele, mas tinha certeza de que ele não atenderia. Todas as chamadas deveriam partir dele. Essa era uma das muitas medidas para preservar sua privacidade. Ele também havia me dito que só usava o sobrenome Rockefeller com parentes e amigos, nunca em público. O telefone tocou insistentemente, sem cair na secretária eletrônica. Ele dizia não gostar de secretária eletrônica porque suas fitas ou chips poderiam parar em mãos não confiáveis.

Uma hora depois da partida, eu já tinha aprendido tudo sobre os desafios de transportar uma cadela cuja metade traseira do corpo não era governada por sistema nervoso nenhum. A cada meia hora ela precisava fazer xixi. Não choramingava nem se inquietava – nossa relação já era quase paranormal, dois seres intimamente ligados, eu podia sentir em meus músculos quando ela queria urinar. Procurava um lugar para parar, mas estávamos em Montana, onde as saídas nas autoestradas são raras. Ou eu a deixava fazer xixi na caminhonete ou parava no acostamento e ficava vulnerável a caminhões a toda velocidade. Nas duas primeiras vezes que isso ocorreu, escolhi a prudência. Contudo, a partir do momento em que o cobertor verde passou a exalar um forte fedor de amônia, decidi que o melhor era parar a caminhonete a qualquer custo.

Perto de Billings, o ar-condicionado pifou e empesteou a cabine com o cheiro tóxico do fluido de refrigeração do motor. Pouco adiante, passei em cima de um daqueles pneus com cinta de aço – ou de um pedaço de pneu, aquilo que os caminhoneiros chamam de jacaré –, o que pareceu ter desalinhado as rodas. Parei para abastecer e me restabelecer num posto de caminhoneiros que tinha um cassino e atraía viciados em metanfetamina. Por alguma razão, andavam sempre em duplas, casais em geral compostos de uma mulher pálida, pesada e sem sutiã, e um homem com pinta de lobo e olhos inquietos. Fiquei de olho neles enquanto enchia de água a vasilha vermelha de plástico.

Mas Shelby só conseguiria tomar água se atrelada à cadeira de rodas, caso contrário sua cabeça não alcançaria a vasilha. Montei o troço e a acomodei. Tive de empurrar sua cabeça para dentro da vasilha para fazê-la beber a água; ela, porém, se recusou a desenrolar a língua, que não era tão rosada como deveria ser a língua de um cachorro: era cinza como carne que congelou demais no freezer. Segurei-a pelo queixo e enfiei polegar e indicador entre as mandíbulas, a fim de abrir sua boca; depois, despejei a vasilha de água no focinho dela. Ela engoliu um pouco, mas logo engasgou e começou a cuspir.

“Shelby, você tem que beber… por mim”, eu disse.

Já começava a imaginar o que poderia acontecer a quem decepcionasse um Rockefeller.

 

Interrompi a viagem em Forsyth, ainda no estado de Montana, depois de ter percorrido apenas algumas centenas de quilômetros. Forsyth era uma cidade com um comércio esquálido, que já teria fechado as portas em lugares mais prósperos, onde as pessoas ainda tivessem esperança de ganhar dinheiro. Ali, porém, não havia motivo para abandonar as lojas, já que os proprietários não vendiam nada mesmo – utilizavam os locais como pontos privilegiados para assistir às brigas de bar, ao comércio clandestino de analgésicos, aos acessos de choro e às investidas de animais de rua do último estágio do colapso social nas Grandes Planícies.

Numa loja de conveniência, comprei um Gatorade e prendi Shelby à cadeira de rodas para darmos uma voltinha. Aquilo atraiu os olhares das pessoas, e uma delas se aproximou de mim, um homem de pernas arqueadas e peito afundado, como se tivesse sido esmagado por uma pedra. Fumando um charutinho com aroma de cereja que não tirou da boca, ele encostou um pé na beirada da cadeira de rodas e me perguntou: “Qual o problema dela? Vale a pena?” Não entendi bem o que ele queria saber, se valia a pena para o cachorro ou para mim. “Não muito”, respondi.

Esperava um sorrisinho irônico, mas, em vez disso, o homem insistiu em saber para onde eu estava indo. “Nova York”, respondi. “Ela foi adotada por um Rockefeller”, complementei. Estava curioso para saber como aquilo soaria no mundo real, e aquele era o lugar certo para tanto: um lugar tão real quanto a terra que cobria o chão. “São boa gente, pensam longe. Conheci alguns deles”, disse o homem.

“Onde?” Montana é um lugar capaz de surpreender. As cidades podem estar em decadência, mas nas grandes fazendas se refugiam muitos milionários, até mesmo gente graúda. “Fui treinador de atletismo em colégios particulares da Costa Leste. Conheci os filhos. Eles educam a criançada de maneira dura e correta. Não tem malcriadez, não.”

Ele se ajoelhou para acariciar a cabeça de Shelby. Depois, com uma unha comprida, tirou alguma remela do olho dela e prosseguiu: “Mas este aqui não parece cachorro para morar em cidade grande. É nervoso.” “Só estou fazendo um favor”, eu disse.

“Aquela coisa idiota que as pessoas dizem, que são os donos do mundo? Não é verdade. Ou, pelo menos, não mais. Os Rockefeller estão quase todos falidos. Ninguém governa este mundo, infelizmente. Eles nem tentam. Quando tentavam, era melhor.”

O hotel de beira de estrada era velho, ficava ao lado de uma via férrea e cobrava taxa de limpeza para hóspedes com cães. Não informei na recepção que eu tinha um cachorro. Era um hábito que havia herdado do meu pai: contar umas mentirinhas para economizar uns trocados.

 

Meu pai era um advogado de Saint Paul especializado em patentes. Seu plano era se aposentar e ir pescar e caçar em Montana. Eu não estava nem um pouco ansioso para tê-lo por perto. Desde que se divorciou da minha mãe, oito anos antes, nossas diferenças, que sempre haviam sido grandes, se aguçaram ainda mais. Eu o achava agressivo e autoritário; ele me achava iludido e neurótico. Meu terapeuta insistia que eu cortasse relações com ele de uma vez por todas, contudo eu ainda lhe telefonava nos dias de festa e quando tinha alguma novidade importante. Ele sabia da fazenda e da gravidez de Maggie, e pouca coisa mais. Não tinha ideia daquela minha viagem, o que era uma pena, porque eu suspeitava que aprovaria.

Ele adorava ação; ousadia era seu credo. “Se baterem em você, revide ainda mais forte”, me ensinava, quando eu era garoto e jogava futebol americano na escola, mas era um conselho que claramente valia para todas as situações. Nos tribunais, contaram-me que ele era assustador e com frequência conseguia acordos simplesmente à custa dos nervos dos outros advogados. Bebia café puro diretamente da garrafa térmica, e seus carros estavam sempre entulhados de canivetes e cartuchos de espingarda. Os canivetes serviam para cortar nacos de peles dos veados que morriam atropelados nas estradas e que ele usava em seus anzóis para pescar trutas.

Minha mãe era diferente: seu lema era a precaução. Ao chegar a Minnesota, ao final do dia seguinte, eu pretendia pernoitar em sua casa. Ela ainda morava na mesma cidadezinha verde à beira de um rio, na qual eu havia crescido e estudado. Era uma enfermeira de pronto-socorro aposentada que gostava de ler os clássicos, tocar piano, visitar os vizinhos que, doentes, já nem podiam sair de casa, ouvir a conversa das estações de rádio conservadoras e registrar em seu diário as realizações do filho. Fazia quase um ano que não a via, o que, para nós, era bastante tempo. Sentia sua falta quando estávamos longe um do outro, porém, quando nos encontrávamos, ela às vezes me dava nos nervos com seu estoicismo, sua circunspecção. Não conseguia saber quando ela estava brava comigo, o que me autorizava a pensar que isso raras vezes acontecia; mas, de vez em quando, surpreendia um desconforto, uma faísca nos olhos dela. Foi o que aconteceu quando lhe falei de Clark.

De início ela se divertiu com minha descrição das esquisitices dele, que lhe pareceu personagem excêntrico dos romances de P. G. Wodehouse, mas foi se calando à medida que eu contava da viagem e de Shelby. Para começo de conversa, minha mãe não gostava muito de animais – sofria de asma e de alergias diversas, e pelos eram coisas sujas; nesse caso, porém, o que pareceu incomodá-la de fato foram as despesas que o cachorro acarretara. Quanto havia custado a cadeira de rodas? E as cirurgias? Será que eu queria mesmo percorrer tantos quilômetros com minha caminhonete? Ela não fez essas perguntas diretamente, mas as sugeriu com suas pausas e seu silêncio. Pensei também ter detectado uma acusação mais dura, dirigida apenas a mim: a de servilismo.

 

No quarto de hotel em Forsyth, Shelby sonhava e choramingava no chão. Deitado na cama, eu escutava a respiração pesada dos trens a diesel e o barulho estremecedor do engate dos vagões. Folheava um livro que comprara havia pouco: Viajando com Charley, o relato de John Steinbeck de sua viagem pelos Estados Unidos numa caminhonete, em companhia de um poodle. Publicado em 1962, o ano em que nasci, imaginei que pudesse servir de inspiração – ou desalento – para o livro que talvez estivesse sendo gestado em minha cabeça. Naquela noite, acalentar um propósito literário era fundamental para minha autoestima. E talvez se revelasse crucial no dia seguinte também, no trato com minha mãe, que iria querer uma justificativa mais elevada para meus esforços do que a simples disposição de servir a um ricaço excêntrico.

O livro de Steinbeck não era o que eu esperava. Pensei que consistisse numa série de relatos folclóricos acerca de personagens e cenas americanas encantadoras, mas encontrei algo mais sombrio. Num trecho ambientado em Minnesota, Steinbeck segue por uma rota de fuga criada para ajudar a população a sobreviver a uma guerra nuclear. Ele a caracteriza como “uma estrada desenhada pelo medo”. Depois de atravessar a fronteira do Canadá, ele retorna aos Estados Unidos e reclama da atitude austera e impessoal dos guardas e de como os governos modernos aviltam as pessoas. Queixa-se de que a televisão achata a cultura e manifesta sua repugnância pelo materialismo e pelo desperdício. Praticamente o único estado do país que lhe agrada é Montana – aquele que eu acabara de deixar –, porque parece um lugar limpo, honesto e ainda incólume.

O livro me deprimiu porque estava cheio de temores em relação ao futuro que praticamente haviam se tornado realidade. Abandonei a leitura. Meu celular estava desligado – naquela época, manter o celular desligado ainda não era considerado uma tentativa de se esconder. O silêncio é que haveria de assegurar a Clark que estávamos a caminho. Quando eu por fim aparecesse com Shelby, caso isso viesse a acontecer – isto é, se os sons que ela emitia dormindo não fossem sintomas de um sistema nervoso em colapso –, ele testemunharia um daqueles milagres de que ninguém se cansa: o da fé em um estranho sendo plenamente recompensada.

Ele, que só confiava em pouquíssimas pessoas, havia confiado em mim, e com razão, porque ali estava eu, atravessando aquela paisagem quente e árida de Montana, onde fósseis de dinossauros se esparramam pelo leito dos riachos e dedos esqueléticos de pedra erodida servem de poleiros taciturnos para falcões e abutres. Ainda assim, eu sentia uma crescente apreensão – não em relação a Clark, e sim a mim mesmo. Seria errado escrever sobre ele algum dia, mesmo sem revelar sua identidade, mudando seu nome? Ele sabia que eu era escritor, havíamos falado sobre isso; e ele próprio já havia “rabiscado” uma coisa ou outra. Mas será que sabia mesmo o que é um escritor?

Provavelmente não. Poucas pessoas sabem. Um escritor é alguém que lhe diz uma coisa num dia apenas para, no futuro, poder contar outra a seus leitores – ou seja, o que ele estava pensando, mas não quis dizer, ou o que teria pensado, se tivesse sido mais inteligente. O escritor transforma a própria vida em material de trabalho e, se você faz parte da vida dele, ele vai usar a sua vida também.

 

Shelby sujou o tapete da cozinha da minha mãe assim que entrou. A casa era um tributo àquelas edificações de campo inglesas do tipo que Miss Marple poderia visitar para solucionar um crime, um lugar repleto de prateleiras de livros, abajures e capinhas de renda protegendo os estofados. Tinha tantos cantinhos aconchegantes, tantos assentos ladeados por mesinhas que o problema de como se acomodar confortavelmente era um tanto avassalador: havia opções demais. A casa exercia em mim um efeito soporífero que me fazia bem. Meu sono ali era macio, almofadado, profundo e envolvente. O sono de um filho querido e bem tratado, só possível naquele ambiente. Contudo, havia um preço para desfrutar desse serviço materno: eu precisava demonstrar um asseio agradecido, não bebendo nada sem usar porta-copos e pondo no devido lugar todas as almofadas removidas. A atitude repugnante de Shelby logo à chegada arruinou o clima, deixando-o tenso.

“Fora! Este cachorro vai lá para fora!”, ordenou minha mãe. Acomodei Shelby na varanda, debaixo de uma manjedoura para passarinhos cheia de corruíras e chapins. Montei a cadeira de rodas e a encostei à parede. “Esse bicho é feio, me irrita”, disse minha mãe.

Quando voltei a entrar, ela me obrigou a lavar as mãos com sabonete e me entregou uma toalha nova – que foi diretamente para a máquina de lavar, assim como a roupa que eu vestia. Ela me proibiu de pegar a mala que estava na caminhonete. Emprestou-me um roupão, me fez tomar um banho e ficou me esperando na poltrona de couro vermelha onde costumava ler, ao lado da prateleira com o dicionário e seu equipamento de leitura: o marcador de páginas de couro franjado, os lápis coloridos e a lupa de cabo de marfim.

“Vou te dizer uma coisa”, ela começou, tão logo me sentei. “Não posso, mãe, me desculpe, mas a cachorra não é minha.” “Eu quero que você sacrifique o bicho”, ela disse. “Entendo, mas eu não posso mesmo.”

“Isso é um absurdo. O que ela tem não é vida. Quem é esse sujeito, afinal? Tem alguma coisa errada com ele. O sujeito que quer um animal assim tem algum problema, estou dizendo. De que ramo dos Rockefeller ele é?” “Não conversamos sobre isso.” “Quantos anos ele tem?” “Minha idade, não sei bem.” “Quem é o avô dele? O Nelson? O David? O Laurance?” Ela era leitora voraz de biografias e conhecia de cor as famílias mais famosas, os Tudor, os Plantageneta, os Kennedy, os Shriver. Era um ás da genealogia. “Mãe, eu não sei essas coisas”, disse. “Preciso dormir.” “Pois eu vou dizer mais uma coisa.”

Sabia o que ela ia dizer: nada. Ficaria em silêncio para que eu imaginasse o que diria. Era um truque. Ela me olhava, eu olhava de volta e inventava uma desculpa para desviar o olhar. Eu detestava aquilo, desde criança. Dizê-lo talvez fosse uma maneira de lidar com o problema. “Detesto quando você faz isso”, eu disse.

Ela deixou que o silêncio entre nós se adensasse. Na janela atrás dela, o ar adquiria a coloração esverdeada própria da zona rural de Minnesota, quando o granizo vai se formando rapidamente no interior das nuvens pretas e os fazendeiros apressam-se em tocar os animais para dentro. “Preciso trazer ela para dentro”, eu disse. “Só deixo se for para sacrificar a cachorra.” “Isso está fora do meu alcance. Eu prometi.” “Ora, Walt, pelo amor de Deus!”, exclamou ela.

 

Não consegui seguir viagem. Com a perspicácia de uma enfermeira, minha mãe notou minha palidez, o tremor na hora de cortar e comer as panquecas, a firmeza excessiva com que eu segurava o copo de suco, e não me permitiu pegar a estrada novamente. A ordem veio à mesa do café da manhã e, uma vez na vida, fiquei feliz em aquiescer ao bom senso. Tinha dormido pesado por dez horas. Apagara. Ao acordar, não conseguia me mexer. Era como se minhas pernas estivessem amarradas ao colchão; meu intestino tinha se transformado em pedra. Algum canal profundo e entupido se abrira dentro da minha cabeça e havia liberado um muco estagnado que se movimentava e estalava por trás de olhos e têmporas. A paralisia parecia um castigo justo, e eu me deixei ficar na cama por algum tempo, sem combatê-la, experimentando a difícil situação de Shelby.

O exercício de autossacrifício valeu a pena. Quando por fim me arrastei escada abaixo, vi que Shelby estava bebendo água e parecia revigorada. Minha mãe ligara uma mangueira de jardim, quase sem pressão, diante da cadela, que tomava água esticando e recolhendo a língua com rapidez.

Durante o café da manhã, nós dois bolamos um plano. Comprei por telefone uma passagem para aquela noite, num voo direto para o LaGuardia. Precisei pagar a tarifa cheia, 400 dólares. Informei que viajaria com um cachorro, mas não disse que tipo de cachorro. O atendente enfatizou que eu precisaria mostrar os atestados de vacina do animal. Eu não os tinha, mas minha mãe sabia como consegui-los: em frente à casa dela morava um veterinário simpático. Ligamos para seu consultório, Shelby tomou as vacinas, pegamos os atestados e pagamos a conta, que o próprio veterinário admitiu ser o dobro do valor de uma consulta normal. “Atendimento de emergência”, ele disse. Não acreditei naquela conversa. Minha mãe havia lhe contado toda a história e não conseguira se conter: mencionara o sobrenome de Clark. “Atendimento a um Rockefeller” foi o que o veterinário quis dizer.

Ele ainda me deu uma receita de calmante, ideia da minha mãe e ponto-chave do nosso plano: enfiar Shelby numa daquelas caixas de transportar cachorro, apagá-la, transportar a cadeira de rodas numa caixa comum de papelão, arrastar tudo até o balcão da companhia aérea e sorrir. O único problema era Clark, que não tinha secretária eletrônica. A não ser que estivesse em casa no meio de um dia de semana para atender o telefone, ele não ficaria a par da novidade e não poderia ir nos pegar.

Mas ele estava em casa. Tudo certo. Não estava no trabalho. Pensando bem, todas as conversas haviam acontecido em dias de semana. Só que era ele quem tinha me chamado, e supus que ligasse do escritório. Sim, eu me lembrava de ele ter dito que tinha um escritório, mas talvez não fosse lá com frequência. Talvez fizesse seu horário. Ou então estivesse doente naquele dia.

“Desculpe a surpresa, a mudança de planos, mas é que minha caminhonete está meio esquisita”, disse-lhe ao telefone. “E a Shelby está cansada.” Olhei para minha mãe, do outro lado da mesa da cozinha. Ela agora estava do meu lado, como de costume. Prossegui: “Na verdade, nós dois estamos cansados. Não tem sido uma viagem fácil.”

“Que boa notícia! Fico muito contente. Adoro surpresas”, Clark respondeu. Pela voz, não parecia nem um pouco doente, e sim em ótima forma. Para mim, o que importava mesmo era que sua voz expressava gratidão.

 

No aeroporto, medicada e em sua caixa, Shelby passou pelo sistema de coleta de bagagens. Um funcionário do setor de cargas entrou com ela por uma porta não identificada, e dali em diante ela não estava mais sob minha responsabilidade. Embarquei e adormeci de imediato, logo atravessando a membrana brumosa que nos insere num reino de imagens pessoais. Adoraria dizer que me lembro do sonho, mas só lembro que sonhei – a viagem provocara uma espécie de frenesi psicodélico.

Quando acordei, o avião sobrevoava Nova Jersey, aquela paisagem industrial de reservatórios e docas, trens de carga e oleodutos – o pátio de carga dos Estados Unidos –, e, em seguida, cruzávamos o horizonte iluminado de Manhattan. Lembrei-me da primeira vez que vira a cidade, aos 10 anos. Meus pais haviam decidido que meu irmão e eu precisávamos conhecer os grandes símbolos nacionais da Costa Leste: o Sino da Liberdade, o Capitólio, o porto de Boston, o USS Constitution. Fomos de carro.

Hospedamo-nos em casas de amigos e parentes distantes que, em algum momento, haviam cometido o equívoco de nos convidar para uma visita. Foi uma viagem penosa. Nova York foi nossa última parada – eu já estava exausto àquela altura: os monumentos visitados haviam se revelado ou bem menores do que eu imaginara ou espremidos por um entorno nada magnífico. Nova York não. Quando nos aproximávamos do túnel Lincoln, divisei um universo novo, único e estupendo, que de pronto apequenou aquele que eu conhecera até então. Ali estava a grande atração; todo o resto era pano de fundo. O lugar parecia antigo, mas de um jeito moderno, e exibia a determinação de uma arca de Noé confiante em sobreviver às grandes catástrofes, devastadoras para todos que não estivessem a bordo.

O avião tocou a pista de pouso emitindo um guincho e dando todos aqueles solavancos de arrepiar, assustadores e emocionantes. Debaixo de mim, no compartimento de carga, Shelby acordava de seu sono, ou pelo menos essa era minha esperança. A viagem tinha sido dura, e eu queria que ela terminasse bem, à altura da prometida gratificação. Realizara um trabalho no sentido antigo, clássico, da palavra, o tipo de tarefa que deuses caprichosos impõem aos homens. Dessa vez, para variar, não havia sido um trabalho intelectual, mas físico, emocional e real. E eu resistira. Persistira. Tinha conseguido.

 

Clark havia me dito que eu o reconheceria por sua semelhança com o ator David Hyde Pierce, que no seriado de tevê Frasier fazia o papel de Niles, o irmão do protagonista. Eu conhecia bem o personagem, pois era uma das séries favoritas da minha mãe. Niles era magro, excêntrico, estava ficando careca e usava terno. A primeira vez que vi o programa com ela, fiquei com a impressão de que Niles era gay porque o roteiro o retratava como fã de ópera; mais tarde, porém, ele mencionaria uma namorada.

Como tinham me chamado de gay tanto em Princeton (porque escrevia poesia) como em Oxford (porque escrevia teatro), abominava em mim toda e qualquer manifestação de intolerância, mas quando Clark, num tom de voz satisfeito, se comparou a Niles, me peguei pensando se ele não estaria testando minha sexualidade, como outros gays já haviam feito. Mas, claro, Niles não era gay, apenas parecia ser, e só para jecas como eu. Se Clark estava me testando, era para saber o que eu sentia em relação aos tipos afetados e empertigados da alta sociedade. Não tinha nenhum problema com eles: havia lugar para todos.

Quando a escada rolante me despejou na esteira de bagagem do LaGuardia, comecei a procurar o sósia de Niles e Pierce. Será que é aquele ali? Corpulento demais. E aquele outro? Não, muito austero. Não estava gostando daquele joguinho. Ele podia ter me dito como estaria vestido, assim como eu fizera: camisa azul de sarja, calça jeans preta e tênis. Uma escolha de roupa que sinalizava minha falta de preocupação em impressioná-lo. Eu vinha de Montana, era dono do meu nariz.

“Aí está você, Walter! Bem-vindo a Nova York.”

Clark, que parecia mais baixo que o ator de tevê e não exibia seu porte de cisne, usava um boné cor-de-rosa e uma camisa polo também rosa. Do pouco que vi de seu cabelo, pude notar que era de um loiro artificial que não convencia ninguém. Os óculos de armação grossa de acetato escuro pareciam daqueles que vêm acoplados a bigodes falsos. Ele vestia calça cáqui, sem meias. A seu lado, mas um passo atrás e diluída no cenário, estava uma moça aparentemente nervosa. Era Sandra, sua mulher. Clark apresentou-nos rapidamente e, de resto, ignorou-a, perguntando sobre meu voo com uma impostação de embaixador. Não sei bem o que respondi. Para mim, voos que pousam em segurança são todos iguais.

A esteira com as bagagens rangeu e começou a se mover, com as malas deslizando por uma rampa e chocando-se ao final da descida. Em poucos minutos a esteira ficou vazia, e nada de Shelby. Preocupado, deixei de prestar atenção em Clark, que seguia falando sobre algum assunto que me escapava. Achei-o irritante logo de cara, uma versão diminuta e de mau gosto de um hobbit que se divertia de maneira quase delirante. Bem, estava falando para o público errado. Só consigo rir de comentários realmente engraçados – é meu único traço incorruptível, honesto. Mas talvez ele estivesse nervoso. A cor artificial dos cabelos dava mostras de uma insegurança básica, assim como o boné, provavelmente para ocultar alguma calvície.

Enquanto ele prosseguia com aquele falatório infantil, um funcionário da companhia aérea surgiu não sei de onde com a canhestra gaiola, que parecia abençoadamente incólume. Clark se ajoelhou, espiou através das gradinhas e começou a emitir aqueles sons típicos dos amantes de cachorros – pequenos cacarejos pontuados com rompantes de falas de bebê –, embaraçosos em razão de seu caráter íntimo. Depois, virou-se para mim e disse: “Bom trabalho.” A seguir, abriu a grade e enfiou a mão lá dentro, fazendo repetidos e delicados gestos de carinho.

“Excelente. Muito bom mesmo”, ele disse. “Precisamos comemorar, não acha? Vamos jantar. Amanhã. Todos nós. No Sky Club.” “Ótimo. Parece uma ótima ideia”, concordei. “Vai ser divertido.” Do convite, depreendi um sinal de que meu pagamento seria efetuado durante a refeição, cenário mais apropriado que o aeroporto para tal cerimônia. “A que horas?”, perguntei. “Eu te ligo.” “Está ótimo então.”

Clark apanhou uma das alças da gaiola que transportava Shelby. Acusou o peso ao erguê-la, indicando que queria ajuda, mas eu, a postos, já estava com o braço esticado. Quando empunhei a outra alça, ele fez corpo mole, deixando-me com a maior parte da carga. “Meu carro está aí fora”, informou. Atravessando portas de correr e seguidos pela figura retraída e espectral de Sandra, carregamos Shelby para fora do aeroporto, até a calçada repleta de limusines e vans enfileiradas, com pessoas segurando cartazes com nomes escritos à mão.

“Pronto, aqui”, disse Clark. “Perfeito. Maravilhoso.” Depositamos a gaiola no chão. Ele se voltou para mim e estendeu a mão, um apêndice pálido, descarnado e, ao que parecia, desprovido de toda e qualquer vitalidade, com dedos que aparentavam nunca ter feito outra coisa na vida a não ser assinar cheques e digitar números de telefone. Embora não soubesse dizer qual daqueles carros era o dele, tive a certeza de que Clark não me daria carona para onde quer que imaginasse que eu passaria aquela noite. Eu ia para o apartamento de um amigo, mas ele não sabia disso, porque eu não lhe dissera. Depois de querer saber como havia sido meu voo, ele não me perguntou mais nada. Despedimo-nos e segui pela calçada até a longa fila de pessoas à espera de um táxi. Não olhei para trás, para vê-lo entrar no carro. Tive a estranha sensação de que ele não queria que eu o fizesse.

 

Passei a noite no Greenwich Village, no apartamento de meu melhor amigo de faculdade, Douglas Rushkoff, um escritor que se autointitulava um “teórico da mídia” e acreditava que os computadores e a internet estavam mudando o mundo de uma maneira de que ainda não havíamos nos dado conta, mas que poderia se revelar transformadora e mágica. Ou desastrosa, ele ainda não se decidira.

Filho de um contador, Doug era de longe a pessoa mais inteligente que eu conhecia. Na faculdade, havíamos mergulhado de cabeça em substâncias químicas que expandiam a mente e montáramos peças experimentais na linha do Teatro do Absurdo. Nosso objetivo era nos libertar da “realidade consensual” da classe média. Depois de quinze anos desenvolvendo aquele projeto, estávamos nos saindo melhor que outros colegas de ambição artística mais elevada, cujo fracasso levara ao pânico e à acomodação em enfadonhas carreiras nos negócios.

Eu dependia de nossas conversas para formar uma opinião sobre tecnologia, que era o grande tópico de discussão pública naquele momento. Naquela noite no Greenwich Village, eu poderia ter recorrido a esse assunto para não pensar mais em Clark e no favor extravagante que eu acabara de lhe prestar e pelo qual ainda não fora recompensado. Doug, porém, não estava em casa, e sim em trânsito: tinha ido fazer uma de suas palestras sobre o futuro.

Mas Maggie estava lá, porque voara para Nova York antes de mim. A entrega de Shelby representava um sucesso para a entidade que ela liderava e que agora nutria a esperança de que Clark contribuísse com uma generosa soma. Além de contar a ela sobre o jantar marcado para o dia seguinte, respondi a algumas perguntas sobre a viagem, minimizando as injúrias e os horrores da jornada, porque não estava a fim de intimidades.

Na cama, enquanto Maggie dormia, permiti-me certo otimismo sobre a vida que me aguardava em casa. Um carpinteiro profissional terminaria a reforma. Eu retomaria um romance que abandonara, quem sabe o terminasse até o outono e começasse outro, um novo romance que talvez a vida me desse de presente, caso Clark e as musas cooperassem. Refinanciaria a compra da fazenda por intermédio de um empréstimo ou hipoteca, saldaria meu aterrorizante contrato com o antigo dono, reabasteceria minhas economias com disciplina orçamentária e voltaria a investir em ações ou, melhor ainda, em ações de uma Nasdaq em ascensão. Além disso, jogaria fora meus comprimidos de Ritalina, a começar pelo frasco que estava comigo. No Natal, o borrão no ultrassom se transformaria no meu primeiro filho – uma menina. Estava na hora de me preparar para segurá-la nos braços, hora de virar homem.

 

Encontramos Clark e Sandy no Sky Club, no 56o andar do prédio da MetLife, o gigantesco edifício art brut de escritórios que se ergue no meio da cidade, dividindo em duas a Park Avenue. O restaurante, com suas paredes de vidro e mesas dispostas ao longo de abismos, era um espaço avassalador. Da nossa mesa, os prédios lá fora, colossais quando vistos da rua, revelavam-se desimportantes e secundários, com seus mastros e pináculos desaparecendo mais abaixo. Eu não sabia se gostava ou não da vista. Não era panorâmica nem abrangente o bastante para instigar a contemplação meditativa; antes, atiçava a imaginação suicida – aquela parte da mente que imagina quedas e saltos –, e o fazia de modo tão sedutor que me obrigou a desviar os olhos, antes que minha atenção mergulhasse nas profundezas.

“Está tudo a contento?”, Clark perguntou. Seu tom de voz soou alegre, como se tudo aquilo fosse propriedade sua. De fato, ele já havia mencionado que o edifício que dominava aquela vista – uma torre de pedra calcária iluminada por fachos de luz que subiam desde a base – pertencia ao “complexo da família”, o Rockefeller Center. Quando ele disse isso, olhei para Sandy e vi que seu rosto disfarçava certa fadiga das histórias do marido.

Clark levantou sua taça e brindou: “A Shelby.” Nós o acompanhamos. Em alguma parte, lá estava ela, com sua cadeira de rodas e sua incontinência, submersa na retumbante grandiosidade daquilo tudo e, portanto, de pressões das quais talvez não estivesse à altura. Por que será que Clark a quisera tanto, a ponto de cortejar os Piper quase dia após dia durante semanas – eles haviam dito –, de seu computador e de tão longe? Talvez porque ela fosse uma raridade. Os ricos apreciavam raridades, não contentes com a sua própria.

A comida era digna de esquecimento, mas a conversa, depois que passei a me dedicar a ela e de Clark pegar embalo, foi como nenhuma outra de que eu participara na vida. Sandy entretinha-se com os talheres e o guardanapo, enquanto Maggie se recostava na cadeira, como se assistisse a uma peça de teatro, acomodando-se em sua fartura hormonal e física de grávida. De início, vieram as informações pessoais peculiares. Clark, que havia pedido frango, disse que jamais comera um hambúrguer, jantara em restaurante público ou bebera Coca-Cola. Pediu-me que lhe descrevesse o sabor, o que me deixou pasmo. “É bem doce”, informei, “e amarronzada.”

Em pouco tempo ele pôs-se a contar a própria vida. Quando criança, havia sofrido de afasia, uma incapacidade de se expressar, mas um encontro fortuito com um cachorro, quando ele tinha mais ou menos 10 anos, mudara esse quadro. De súbito, após pronunciar uma palavra inexistente, “latição”, estava curado. Poucos anos mais tarde, aos 14, começara a estudar em Yale. Bastou que o animal mágico desenrolasse sua língua para que sua inteligência se desenvolvesse a uma velocidade recorde.

Os garçons iam e vinham durante esse monólogo, enchendo taças e recolhendo pratos, tomando cuidado para não invadir o espaço de Clark e mantendo distância sempre que ele se animava. Chamavam-no de sir e de “senhor Rockefeller”, e Clark dirigia seus movimentos com cordiais acenos de cabeça e olhares.

A conversa passou para a esfera pública. Clark me alertou sobre a iminência de um colapso do mercado, revelando que a elite financeira já havia fixado uma data para o acontecimento e estava se precavendo. Perguntei-lhe quando seria, mas ele disse que não sabia: só sabia que recentemente haviam concordado quanto à data. Já no aguardo do desastre, ele investira em títulos do Tesouro norte-americano e me aconselhou a fazer o mesmo. Depois, voltou a proferir suas advertências a respeito da China, com suas ambições expansionistas e imperialistas; novamente, empregou o termo Lebensraum, palavra que parecia agradar suas cordas vocais.

A seguir, não sei bem como, mudou o assunto para Frasier. Disse que em breve apareceria no seriado no papel de um ouvinte que liga para o programa de rádio comandado pelo personagem principal da série, o dr. Crane, que aconselha seus ouvintes ao vivo sobre problemas psiquiátricos. Clark contou que ele próprio havia escrito o texto para aquela sua aparição e que interpretaria um ouvinte cuja compulsão era cantar temas famosos de musicais da Broadway de forma peculiar: misturava às letras referências a cachorros e sons caninos.

Antes que eu conseguisse assimilar aquilo tudo, Clark, sempre muito discreto, me passou o que só podia ser minha gratificação, lacrada num envelope comercial branco. Fez aquilo sem nenhuma ostentação, num momento em que Sandra se ocupava da própria comida e Maggie voltava do banheiro. Recusei-me a abrir o cheque na frente dele, receoso de que cometeria uma quebra de protocolo.

Pedimos a sobremesa. Clark abotoou o paletó, endireitou-se na cadeira e pôs-se a comer o crème caramel em pequenos bocados que erguia delicadamente com um garfo. Um garçom se aproximou, e eu cumpri o ritual de tocar minha carteira, mas Clark sinalizou que não era necessário. Não vi cheque nenhum. Talvez enviassem a conta no final do mês, pelo correio, com todas as despesas somadas.

No elevador, a caminho da rua, ele me convidou para, no dia seguinte, ir a seu apartamento ver a “coleção de arte”. Perguntou se eu podia ir ao meio-dia. Podia. “Excelente. Excelente.” Tive a sensação de que ele não considerava a presença das mulheres essencial para o desenvolvimento da nossa amizade nascente.

Na hora de dormir, perguntei a Maggie o que ela achara de Clark. “Ele gosta de um showzinho”, ela respondeu. “Capaz de ser gay.” “Não, é o jeito dessa gente.” “Além do mais, não ouve: só fala.” “E da Sandy, o que você achou?” “Não sei bem. Ela é calada. E ele não é muito gentil com ela.”

Não insisti. Tínhamos interesses diferentes naquilo, e chamar a atenção para as diferenças me pareceu pouco inteligente, além de provavelmente desnecessário. Voltaríamos para casa dentro de poucos dias e teríamos muito com que nos preocupar. Meu amigo novo e esquisito, se é que ele continuaria a ser meu amigo, era problema meu, assim como o dever de prover casa, comida e roupas para mim e para minha família.

 

Quando cheguei ao prédio de Clark, esperando dar de cara com Tony Bennett, ainda não abrira o envelope da véspera, que continuava no bolso da calça. Tentar adivinhar o valor estava se revelando mais estimulante do que verificar a soma. Um porteiro me conduziu ao elevador. No corredor escuro, nada indicava que atrás daquelas portas surgiriam móveis ou uma decoração esplendorosa. Não me surpreendeu que ali vivessem pessoas ricas – sabia de sua preferência por uma respeitabilidade insossa –, mas fiquei espantado com o fato de que um grande cantor houvesse escolhido aquele lugar para morar.

O apartamento era simples, desprovido de adornos – assoalho de madeira riscado, um sofazinho escuro e uma cozinha funcional com bancadas vazias –, mas a arte era ousada e grandiosa. Incluía um Mondrian acondicionado numa caixa de acrílico, um Motherwell, um Pollock e um Rothko. Fiquei ali, admirando os quadros e bebericando um copo d’água, enquanto aguardávamos a visita de um restaurador do Museu de Arte Moderna, que, de acordo com Clark, esperava poder incorporar as obras à coleção do museu. Não resisti a tentar estimar o valor daquelas obras. Dez milhões? Vinte? Talvez muito, muito mais. Não era de bom-tom fazer esse tipo de pergunta.

O apartamento cheirava a mofo, um cheiro azedo – não era de admirar que fedesse a canil. Deitados no chão, Yates e Shelby se entreolhavam enciumados, num presságio de briga. Clark me levou até o Pollock, encostado sem moldura a uma parede, e tirou alguma coisa da superfície do quadro: um pelo canino, preto e encaracolado.

“Penso que animais e obras de arte devem conviver em harmonia”, disse. Depois me mostrou uma mancha na mesma tela. “É saliva do Yates. Ele adora lamber”, prosseguiu. “O museu, claro, está chocadíssimo. É por isso que eles insistem em limpezas semanais.” Em seguida encontrou outro pelo no Mondrian, dentro da caixa de acrílico, e sorriu. Era como se negligenciar sua coleção o deixasse mais orgulhoso do que as obras em si.

Ainda assim, cumprimentei-o pelos quadros. Clark me contou que os obtivera em parte por herança, mas também graças a um comprador – “um sujeito que eu tenho na Espanha” –, que conseguira adquiri-los de aristocratas europeus necessitados de dinheiro e até mesmo de dois ou três museus de renome, e por um preço muitíssimo abaixo de seu valor. Eu ficaria chocado se ele me dissesse quais haviam sido os museus. “Uma coisa escandalosa”, completou. Os diretores eram figuras de caráter duvidoso, que precisavam do dinheiro para cobrir desvios de fundos, e Clark não se sentira nem um pouco culpado de tê-los explorado.

“Nunca se deve deixar passar uma pechincha dessas”, concluiu. “E o irônico nessa história é que prefiro os velhos mestres. Você também?”

Assenti com a cabeça e murmurei “sim”. Era conversa mole. Eu nunca havia pensado no assunto. E menos ainda do ponto de vista do comprador.

Eu começava a ficar com fome. Na vinda, havia imaginado que ele serviria um almoço – afinal de contas, tinha um chef particular. Mas não havia sinal de refeição iminente, ou mesmo de que algum dia uma refeição tivesse sido ali preparada. A explicação chegava agora, provavelmente em resposta a algum comentário meu acerca da cozinha impecável. Ou talvez eu não tenha dito nada. Talvez, como aconteceria com tanta frequência ao longo dos anos seguintes, Clark tivesse lido meus pensamentos.

“Tenho um apartamento igualzinho a este no andar de baixo. É onde ficam os empregados”, explicou. “Estão de folga hoje.” Ele olhou para o chão, como se pudesse ver através do assoalho. Eu me perguntava pelo acesso: onde estava a escada? Será que os dois apartamentos não se comunicavam? Talvez fosse preciso tomar o elevador.

A campainha tocou, ele recebeu o restaurador, enquanto eu me ajoelhava para acalmar os cachorros. O rapaz nos ignorou: abriu sua caixa de ferramentas e pincéis e foi trabalhar no Pollock. Shelby parecia mais revigorada desde a viagem e arqueou o pescoço na direção da minha mão, enquanto eu a acariciava e a coçava. Clark, com uma voz infantil que imitava um cachorro, reassegurava a um Yates de olhar hostil que ele não iria perder seu lugar na casa por causa da chegada da “irmãzinha”.

Aquela sua voz de cachorro me entristeceu. Parecia revelar a solidão interior de Clark ainda mais completamente do que sua voz normal, que já não era tão normal assim. Levando em conta o que ele dissera durante o jantar sobre sua infância isolada e interrompida (estudar em Yale aos 14 anos não devia ter sido fácil), percebi que ele era uma pessoa que, em grande medida, tivera de cuidar de si sozinho, uma espécie de criança abandonada, algo como o garoto criado por lobos, só que endinheirado. Não à toa amava os animais.

O restaurador guardou suas coisas e murmurou uma rápida palavra de despedida, sem me dirigir o olhar. Eu precisava comer, sentia-me um pouco tonto. Estávamos no verão de 1998, e o ar ao redor parecia carecer de realidade: um mercado de ações marcado por uma “exuberância irracional”, um presidente em perigo por ter mentido sobre a prática de sexo oral e uma profusão de novas tecnologias capazes de redefinir tempo e espaço. Meu celular recém-adquirido, temporariamente em silêncio, estava prestes a invadir meu mundo consciente de uma maneira que, naquele momento, eu nem tinha como imaginar.

“O que você sabe da morte de Rothko?”, Clark me perguntou. Convidou-me, então, a examinar mais de perto a tela que ele havia tirado da parede. Depois de girá-la, disse-me algo como: “Ele se matou. Cortou os pulsos. Está vendo estas manchas aqui atrás, estes respingos?” Não consegui ver nada, mas, para agradá-lo, disse que sim. Eu tinha viajado uma distância absurda para cumprir uma tarefa exaustiva e humilhante. Esperava, portanto, que nos tornássemos amigos. “É sangue”, afirmou Clark. “O sangue do artista.”

De volta à rua, depois de ter deixado Clark, abri o envelope. O cheque estava assinado pela mulher dele. Quinhentos dólares. Não cobria metade do que eu gastara, e ainda tinha a viagem de volta. Seria um engano? Não faltava um zero? É claro que nunca toquei no assunto.

 

Christian Karl Gerhartsreiter, um imigrante alemão que usava diversos pseudônimos, foi a julgamento no início de março de 2013 pelo assassinato de John Sohus, cometido em 1985 na cidade de San Marino, na Califórnia. O julgamento foi realizado no Clara Shortridge Foltz Criminal Justice Center, um conglomerado de escritórios e tribunais situado do outro lado da praça do Los Angeles City Hall, que abriga a prefeitura e a Câmara Municipal.

É uma parte da cidade raras vezes vista nos filmes – uma região de edifícios retilíneos, burocráticos e lúgubres que se agigantam diante de um abrigo a céu aberto para pessoas sem-teto. Nas calçadas, promotores, jurados e funcionários municipais se misturam a vagabundos empurrando carrinhos de supermercado e andarilhos esqueléticos acocorados junto a barracas caindo aos pedaços. (Certa manhã, vi um homem agachado ao lado de sua trouxa; ele tomava conta de um coelho marrom de estimação preso a uma coleira.)

Os advogados apressam-se ao passar por aquele cenário miserável, matraqueando para seus Bluetooth e bebericando o café de embalagens do Starbucks. Os jurados parecem perdidos, sem saber o que fazer, arrancados que foram da rotina. Em alguns quarteirões, enfileiram-se carros da polícia e furgões da imprensa providos de antenas para transmissão via satélite.

No primeiro dia da escolha dos jurados, dirigi-me ao Foltz Center, localizado no 9º andar e equipado com detectores de metal – o lugar foi palco de alguns dos maiores julgamentos da cidade, desde o de O. J. Simpson até o do médico de Michael Jackson –, e me sentei num banco duro de madeira a cerca de 1 metro do réu. Eu o conhecia fazia quase quinze anos, dez dos quais como alguém a quem considerava um amigo: visitei-o em seus clubes e casas, tínhamos frequentes conversas telefônicas e, de passagem, eu acompanhava seu envelhecimento, ao mesmo tempo que o mantinha informado do meu.

A não ser na fase final do nosso relacionamento, depois que ele se divorciara de Sandy e quando veio até mim desconcertado com uma experiência pela qual eu já passara alguns anos antes, nunca havíamos sido próximos, amigos íntimos; mas ele era uma figura única em minha vida, objeto de reflexão constante da minha parte. Ainda que, ao contrário do que planejara, nunca houvesse escrito a seu respeito – meu infalível instinto literário foi obliterado pelo desejo de cair nas graças dele –, imaginava tê-lo compreendido. Os acontecimentos me mostraram que eu estava errado. Eu e muita gente.

Ele estava vestido de Clark Rockefeller (o nome que adotara até com seus advogados, e que em vão pediu que o tribunal reconhecesse), como na época em que eu o conheci: blazer azul de aluno de escola rica, calça esporte cinza e camisa branca, tudo um número maior que o seu. Continuava a usar sapatos sem meias, exibindo os tornozelos pálidos, mas trocara os óculos de aro grosso e preto, com os quais eu me acostumara a vê-lo, por um modelo mais professoral, sem aro. Os cabelos, mais escuros, haviam adquirido uma tonalidade castanho-clara; o rosto, mais magro, enfatizava o nariz pontiagudo e as orelhas grandes e pontudas de elfo.

De acordo com o passaporte alemão encontrado num esconderijo onde ele guardava vários objetos pessoais – inclusive diversas pinturas enroladas em tubos e um talão de cheques em branco assinados por Sandy, cujo salário o ajudara a financiar sua farsa –, tinha acabado de completar 52 anos.

 

Àquela altura, já havia passado quatro anos na cadeia em razão de uma condenação anterior em Massachusetts pelo sequestro da filha, a quem ele chamava de Snooks, durante uma visita supervisionada em Boston, em 2008. Eu a conhecera em 2002, com 1 ano de idade, quando fui visitar a ampla casa de campo que ele tinha em Cornish, no estado de New Hampshire. Clark me atraíra até lá com a promessa de me apresentar a J. D. Salinger, que morava nas proximidades e que seria seu amigo.

Mais tarde, no decorrer do julgamento, aquele fim de semana maluco voltaria a minha mente; em retrospectiva, ressurgiria como o momento no qual todas as pistas estavam diante de mim, para que eu as decifrasse. No momento, contudo, minha lembrança mais clara era a da menina. Ela estava aprendendo a andar. Com os bracinhos abertos, cambaleava em direção ao sofá, de onde Clark a instruía: “Vamos, Snooks, você consegue.” Sandy, que acabara de chegar de uma longa viagem de trabalho, assistia à cena, exausta e irritada. A menina conseguiu chegar ao sofá, e todos bateram palmas.

Clark a sequestrou quando ela tinha 7 anos. Agarrou-a no meio da rua e a enfiou num SUV alugado cujo motorista fora levado a pensar que o assistente social – que disparara atrás da menina, agarrara a porta do veículo e fora rechaçado – era um homossexual obcecado por Clark, que o perseguia. Vários quarteirões adiante, Clark fez o motorista parar o carro e pegou um táxi para um local onde uma amiga, também ludibriada, o aguardava para levá-lo a Nova York. Lá, ele supostamente pegaria um iate. (Clark deu a ela 500 dólares pelo serviço, cifra que aparentemente era a que estava acostumado a pagar.) De Nova York, ele e Snooks seguiram viagem, não se sabe bem como, até uma casa que Clark havia comprado em Baltimore e onde passara meses preparando nova identidade: Chip Smith. O mais insípido de todos os nomes falsos que usou.

O que planejava fazer em seguida, não se sabe. Depois de uma caçada de quatro dias por todo o país, agentes do FBI conseguiram localizá-lo e o atraíram para fora com uma ligação telefônica encenada, dizendo que um catamarã que ele comprara estava fazendo água no ancoradouro. Por uma conversa que tivéramos poucos meses antes do sequestro, eu tinha motivos para acreditar que ele pretendia ir para o Peru, um país que, segundo me dissera, se recusava a extraditar pais americanos que fugiam para lá com os filhos. A informação surgiu numa das longas conversas telefônicas que tivemos depois do divórcio dele, nas quais reclamava da “crueldade” de Sandy, que o separara de Snooks. Àquela altura, também eu era um pai divorciado e, portanto, me solidarizei com a frustração dele, ainda que vez por outra a intensidade de Clark me alarmasse. A menção ao Peru como refúgio seguro era parte de uma sondagem perturbadora e transparente quanto a minha própria disposição de agir de maneira extremada no tocante à guarda dos filhos. Clark acreditava que o sistema legal americano desconsiderava vergonhosamente os direitos dos genitores e que nós, vítimas, precisávamos lutar contra aquilo.

 

O sequestro, que foi notícia na imprensa internacional e mais tarde inspirou um filme para a televisão, desmascarou Clark Rockefeller como uma fraude, o impostor contumaz mais fabuloso da história recente dos Estados Unidos. Alinhou-o também a uma cepa mais antiga, e de certo modo mais rica do que a da família que fundou a Esso: a do trapaceiro multiforme, presente na mitologia e na literatura norte-americanas.

Em The Confidence-Man: His Masquerade, de Melville, é um demônio mutante que, a bordo de uma embarcação fluvial, se alimenta das fraquezas morais de seus companheiros de viagem. Em As Aventuras de Huckleberry Finn, essa figura também ronda o rio Mississippi como o Duque e como o Rei, falsos aristocratas extravagantes cujos trambiques se revestem de um palavrório elisabetano. Em O Grande Gatsby, é um gângster vaidoso que brota de um garoto de fazenda proveniente da Dakota do Norte. Na série de Patricia Highsmith dedicada a Ripley, surge como um alpinista social diletante e assassino. Em Ardil 22, de Joseph Heller, é Milo Minderbinder, o jovial golpista capaz de explodir o mundo, caso lucre algum com isso. Trata-se, enfim, do vilão de mil faces, uma espécie de caubói encantador e sinistro, sempre a escapulir na direção do pôr do sol e a ressurgir com a aurora, em nova roupagem.

Mas, se Clark era tudo isso – depois do julgamento, soube que ele compreendia sua origem literária e dela sentia grande orgulho –, o que eu era, então? Um idiota. Um idiota teimoso. Quando toda essa história começou a se desenredar, durante a caçada a Clark, e os Rockefeller declararam não conhecê-lo, eu disse a um colega repórter que estavam mentindo, que aquela era uma família de covardes fugindo de um escândalo. Só reconsiderei quando o nome alemão veio a público, e a palavra Lebensraum ecoou em minha mente. A revelação me tirou do prumo, mas também me amoleceu, sobretudo à medida que mais detalhes do passado de Clark iam sendo revelados.

Eu também tinha sobrenome e sangue alemães, e durante a faculdade havia passado um verão na Baviera, o estado de origem de Gerhartsreiter. Àquela época, eu tinha 18 anos, mais ou menos a mesma idade de Clark quando, em 1979, dois anos antes de minha temporada em Munique, ele partira da cidadezinha de sua juventude para os Estados Unidos. Eu também deixara minha própria cidadezinha naquele mesmo ano, a caminho de Princeton. Conhecia aquele anseio. Não admira que tenhamos sido amigos.

Esse estado de confusa identificação terminou quando, duas ou três semanas depois do sequestro, soube-se que as impressões digitais de Clark coincidiam com as de um certo Christopher Chichester, procurado num caso antigo e ainda não esclarecido de assassinato. Os detalhes do crime me incomodaram.

Em 1985, o cadáver de John Sohus foi desmembrado e enterrado no quintal da casa de sua mãe. Nove anos mais tarde, os ossos foram desenterrados por trabalhadores que escavavam o terreno para a construção de uma piscina. Linda Sohus, a mulher da vítima, desapareceu juntamente com o marido.
O corpo dela jamais foi encontrado. A polícia tampouco foi capaz de localizar Chichester, que morava num anexo – construído para hóspedes – que a mãe de Sohus alugara a ele.

 

Depois de ouvir aquilo tudo e de ver a foto de Chichester – um Clark mais jovem, de paletó e gravata, com um aspecto astuto e uma expressão de quem estava um passo à frente de todo mundo –, lembrei-me do estardalhaço que ele fizera certa vez ao falar sobre sua aversão a sangue. Ficava com os joelhos bambos, sua cabeça girava. Aquelas observações, como muito do que dizia, tinham vindo do nada. Era apenas mais um pouco da colorida névoa que ele esparramava em torno de si, algo que, à época, eu já havia diagnosticado como um tipo suave de logorreia – a compulsão que a pessoa sente de falar sem parar, apenas para se acalmar.

No dia em que entreguei meu celular, as chaves e a carteira para poder passar pelo detector de metais hipersensível do Foltz Center, o choque provocado pelo desmascaramento de Clark ainda não havia arrefecido. Pelo contrário, havia se aprofundado ao longo dos anos, misturando-se e acrescendo-se a todos os outros choques que eu sofrera desde que me tornara seu amigo.

O primeiro e mais brutal desses traumas – aquele que, de algum modo, representava todos os outros – aconteceu na fazenda, um dia depois de meu quadragésimo aniversário. Sentado na minha caminhonete azul, a mesma que havia matado Miles e me ajudara a transportar Shelby, eu estava à toa, parado no caminho que conduzia até a casa, prestes a recolher alguns fardos de feno no campo. A meu lado, em pé junto à janela do lado do motorista, estava um amigo de Nova York que viera comemorar meu aniversário comigo. Trocamos algumas palavras enquanto eu engatava o câmbio automático e, tão logo os pneus enormes começaram a girar adiante, meu amigo olhou para o chão, bem a minha frente – para um ponto que eu não podia ver, debaixo do capô – e gritou: “Charlie!”

Era o nome do meu filho de 1 ano, que adorava engatinhar. Com o impulso, a caminhonete avançou ainda por uns bons 3 metros. Eu brequei, enquanto o tempo se alongava e eu me transformava numa partícula de poeira voando perdida por um vazio cinzento e repugnante. Pus o câmbio na posição de estacionamento. Desci da cabine. Minha vida acabara de terminar e, portanto, eu estava calmo. Apressei-me porque a situação exigia, mas estava calmo. Com mais quarenta anos pela frente para assimilar a imagem pavorosa que já tomava forma em minha mente, adrenalina e pânico eram irrelevantes.

Charlie estava sentado ereto debaixo da placa do carro, a meio caminho entre os dois pneus traseiros. Meu menino perfeito. A suspensão alta da caminhonete com tração nas quatro rodas possibilitara ao chassi passar logo acima do garoto. Não fazia sentido. A camada de horror – a cena que poderia e deveria ter sido – ainda recobria meus olhos quando eu o apanhei. Anjos, a Providência. Esses sim, e só eles, faziam sentido. No reino da lógica e da causalidade, eu tinha matado meu filho, no entanto o amor vencera a física, e ali estava ele nos meus braços, apertado contra meu peito, sem exibir nada mais que uma mancha rosada na testa, onde o diferencial da caminhonete havia arranhado a pele.

 

Aquele acidente chacoalhou minha vida. Dois anos depois, estava divorciado. Trabalhava como um louco. Na verdade, nunca combinamos muito bem. Mercúrio retrógrado. As coisas mudam. Comparado a tudo mais que pode acontecer neste mundo, e ao que quase acontecera um dia depois daquele meu aniversário, o divórcio me pareceu apenas um assunto rotineiro, um procedimento adulto e triste. Afinal, eu havia me casado com uma adolescente, o que esperava? Esperava ser a exceção, como sempre. Acho que não fui. O que era sentimento se transformou em estatística.

Mantive a fazenda por um tempo, uma coisa que parecia importante, mas o dinheiro foi acabando e eu a vendi para um vizinho que, por acaso, era corretor imobiliário. Alguns dias mais tarde, ele a revendeu para um sujeito rico à espera de uma oportunidade para comprá-la e embolsou uma bela margem de lucro.

Eu via meus filhos – Charlie e sua irmã mais velha, Maisie – a cada quinze dias, uma periodicidade que transforma a paternidade em algo parecido com aquela animação que se faz desenhando em folhas consecutivas de um bloco de papel. Às vezes meus filhos cresciam mais de 1 centímetro entre um encontro e outro. O tempo entre uma visita e outra era preenchido com namoradas, trabalhos para revistas e espasmos esperançosos de malhação em academia.

Homens sozinhos não levam uma vida original. Comemos no bar, pedimos prorrogação para a entrega do imposto de renda, ligamos com exagerada frequência para nossas mães preocupadas, e não mais para contar novidades interessantes – esse tempo já passou, e é possível que não tenha deixado saudade –, e sim para relatar alguma briga com a ex-mulher ou pedir conselho sobre o que dizer ao garoto flagrado vendo pornografia na internet. É melhor, julgamos, do que não ligar para ela, que deve pensar o mesmo porque, afinal, atende o telefone.

Até que um dia ela deixa de atender. No verão de 2011, depois de um mês de misteriosos calafrios e dores de cabeça que ela própria diagnosticou como doença de Lyme e tratou por conta própria, minha mãe morreu de um abscesso cerebral. Tinha apenas 71 anos. Sucumbiu na casa do namorado, em Iowa. Permaneceu em coma por tempo suficiente para que eu chegasse ao hospital em Des Moines e, em consonância com seu desejo, expresso num documento que ela levava dobrado na bolsa, autorizasse o uso de morfina para aliviar sua partida.

Como alguém havia me dito que a audição é o último dos sentidos que se vai, pus meu celular ao lado do travesseiro e deixei tocar I Shall Be Released, de Bob Dylan. No dia seguinte, fui até a casa dela, em Minnesota. No centro da mesa da cozinha, encontrei um papel com números de contas bancárias e nomes de advogados. Em cima, lia-se: “Caso eu morra.”

O resultado cumulativo de todos esses choques foi acabar com certa reserva de coragem básica que, desde a infância, eu imaginava eterna. Não estava deprimido, mas sofria de uma espécie de hesitação crônica. Decisões simples, que antes eu tomava sem pensar – convidar ou não uma mulher para sair, deixar ou não a chave da porta com o encanador, responder ou não a uma chamada telefônica proveniente de um número desconhecido –, pareciam carregadas de incerteza e perigo.

Não ajudou em nada o fato de, lá em Massachusetts e, depois, na Califórnia, meu velho amigo Clark, sob um nome estrangeiro, estar às voltas com a justiça criminal: em primeiro lugar, por um crime cometido à época em que já nos conhecíamos e que me surpreendera, embora eu devesse ter previsto; em segundo, por um crime mais antigo e odioso. Quanto mais eu refletia sobre nossa amizade, mais aquele crime parecia ter estado aninhado em nossas conversas como uma serpente minúscula, embrionária.

 

“Hitler foi para o céu.” “O sangue do artista.”

Eu não o conhecia. Tinha interpretado tudo errado. Ainda que aquele não tivesse sido o golpe mais duro da década, talvez tenha sido o mais desestabilizador, o que mais minou minha confiança nos outros e o que arrasou minha fé em minha capacidade de julgamento. Qualidades minhas que eu achava louváveis – curiosidade, mente aberta, entusiasmo – de súbito me pareciam fraquezas ou defeitos. “É impossível enganar um homem honesto”, dizia-se antigamente, sugerindo que cair na lábia de um charlatão implica debilidade moral também da vítima. Essa fraqueza eu tinha, e muito, graças a minha criação como mórmon. E eu às vezes mentia, sobretudo quando o assunto era sexo. Tinha duas caras quando confrontado com autoridades – eu as adulava, mas ao mesmo tempo me sentia ofendido por elas. Ser cáustico por vezes também me agradava.

E a confiança nas pessoas, que considerava parte da minha natureza, era, se examinada de perto, uma espécie de indolência. Em vez de me empenhar para conhecê-las melhor, eu decidia que elas eram quem eu queria que fossem, e as descartava quando se revelavam outra coisa. Esse ciclo da decepção se repetia. Com Clark não, ele nunca divergira das fantasias que eu nutria a seu respeito. Haveria de ter sido um sinal.

Outro sintoma da minha lassidão espiritual era a Ritalina que eu tomava quando o conheci. Seu efeito era prover-me de energia barata no momento certo. À época, eu vivia equilibrando prazos de entrega de trabalhos, afazeres na fazenda e crianças pequenas – minha demanda por energia barata era enorme. Os ciclos de euforia e exaustão a que o remédio induzia provocaram muitos tombos e escorregões. O estado que eles suscitavam era o de uma prontidão promíscua, indiscriminada, desprovida de todo e qualquer discernimento. Torrei milhares de dólares negociando ações online.

Ou talvez meu egoísmo tenha funcionado como um chamariz. Talvez ele tenha me tornado um alvo mais atraente. Minha história com Clark era uma rua de mão dupla, uma parceria; isso significa que, o que quer que eu tivesse visto nele, também ele descobrira alguma coisa em mim. Segundo os livros, tipos como ele leem as pessoas e sempre que falam estão, na verdade, escutando, alertas a sinais sonoros e ecos. Usam sonares, não fazem perguntas.

Clark nunca me fez pergunta nenhuma. Suspeito que uma das qualidades que ele captou em mim foi meu jeito colaborativo de ouvir. Em vez de me retrair diante de suas histórias delirantes, eu o ajudava a refiná-las, na medida em que pedia mais detalhes e, assim, o compelia a torná-las mais vívidas. Esse é um dos serviços que Nick presta a Gatsby: ao desempenhar o papel do interlocutor ideal, ele consolida o eu fabricado do amigo.

Clark terá sentido não apenas minha ânsia de confiar, mas igualmente de ser confiável. Em nossa primeira conversa telefônica, ele havia me dito que seu avião estava na China com a mulher e, no entanto, a Sandy estava em Nova York quando cheguei com Shelby. Não me lembro de ele ter me explicado aquela incoerência. Lembro-me, sim, de tê-la notado e não ter dito nada.

O que faz com que as pessoas – ou apenas pessoas como eu – prefiram deixar passar uma mentira para não causar embaraço ao mentiroso? Por que preferimos que os outros nos vejam nus a vê-los nus nós mesmos?

Polidez é a resposta que sempre imaginei. Em essência, a polidez é uma cegueira simulada. Mas Clark percebeu que era outra coisa. Ele sabia que minha opção por poupá-lo de toda e qualquer vergonha, por mais mínima que fosse, por vê-lo como ele queria ser visto, provinha de um anseio egoísta por uma aliança. Eu fechava os olhos quando ele tropeçava, ficava surdo quando ele dizia alguma impropriedade. Ele podia contar comigo.

 

Cheguei àquele julgamento com muitas perguntas. Antes de mais nada, por que, um dia, ele me impressionara tanto, e como eu pude ter sido tão imbecil, tão obtuso. Além disso, queria saber se suas intenções podiam ser vinculadas a uma natureza violenta – se é que ele possuía uma “natureza”, o que é uma questão mais ampla. E ainda havia outro fator: eu tinha ido ali para concluir uma história, aquela que havia pensado em escrever ao conhecê-lo, mas da qual abrira mão depois, por respeito a nossa amizade.

Ainda me lembrava de onde estava ao descartar a ideia de usá-lo como personagem. O Lotos Club, na rua 66 Leste, é um refúgio tranquilo e chique das elites culturais de Manhattan. Mark Twain, um de seus sócios, chamou-o de “o clube dos clubes”. A decoração bem cuidada e a iluminação equilibrada lembravam uma funerária ou um clube de catedráticos frequentado por fantasmas eruditos.

Naquela tarde, estávamos sentados em cadeiras de espaldar alto, o centro das atenções de funcionários rancorosos e já de certa idade, que deixavam evidente a repugnância que sentiam por nós. Ele bebia gim-tônica; eu, uma Coca com limão. Não lembro que assuntos discutimos, mas com certeza passavam pela política global e por seu arquitema: a decadência do Ocidente em contraste com o ímpeto e a disciplina asiáticos.

Eu queria ser convidado a voltar ao clube, gostava do efeito que o ambiente exercia em mim. Segurava o copo com leveza, com as pontas dos dedos firmes, isto é, não encavalando os dedos e apertando o copo contra a palma da mão, como faria num restaurante. Gostava também da sensação de conforto, sentado de lado na almofada da cadeira, a cabeça levemente tombada, o polegar no osso malar, os tornozelos cruzados, reagindo ao fluxo das observações de Clark com ajustes na tensão da testa e na posição do queixo.

Pressenti que não era o único ali a ter estudado em Princeton. E duvidava que fosse o único oxfordiano. Montana – talvez eu tenha ido parar lá por engano. Longe demais. Talvez estivesse na hora de voltar para o centro. Compúnhamos uma dupla interessante: o romancista de cidade pequena e o Rockefeller solitário. Eu levava até ele notícias das pessoas comuns, da balbúrdia humana, e ele me trazia notícias do ninho olímpico das águias. Ele invejava minha mobilidade, minha liberdade; eu cobiçava sua segurança, sua tranquilidade. O engraçado era como eu me sentia inclinado a protegê-lo. O bacana era como ele parecia se sentir seguro comigo.

Essas lembranças hoje me parecem absurdas, uma capitulação ridícula, vergonhosa. Eu havia reverenciado um príncipe de araque, beijara seu anel, e a ironia era que o anel de verdade estava no meu dedo. De nós dois, o único que tinha frequentado uma universidade de elite era eu; o tipo que combinava com o Lotos Club estava sentado na minha cadeira. Eu invertera tudo, estava tudo de cabeça para baixo. Eu, o alpinista bajulador, era quem tinha capacidade de conferir status, e creio que, de alguma maneira doentia, estava fazendo isso. Clark deve ter adorado assistir a minha degradação. Pior que isso: ver-me degradando minha vocação. Conceder imunidade literária à criatura mais estranha que eu já vira era algo que violava meu juramento como contador de histórias. Escritores existem para explorar figuras como aquela, e não para salvá-las. Nosso dever é com a página em branco, e não com a pessoa.

 

O julgamento era minha chance de corrigir aquilo tudo, de desfazer um trato com o qual eu não devia ter concordado – pensando bem, ninguém solicitara minha aquiescência: eu havia feito aquele trato unilateralmente, apenas comigo mesmo, na esperança de que Clark viesse a recompensar minha generosidade. O julgamento significava que a história de Clark se aproximava de uma conclusão. Se eu tinha esperança de recuperar o tempo perdido e dar à trama algum sentido, aquele era o momento e o lugar.

Dois resultados básicos eram possíveis, e duas morais. Se Clark fosse julgado culpado, ficaria provado que Abraham Lincoln estava certo – não se pode enganar todo mundo o tempo todo –, e eu estaria presente para saborear o merecido castigo e experimentar minha redenção. Se fosse considerado inocente, porém, toda aquela história terminaria com uma nota perversa, pós-moderna, e Clark bem poderia emergir dali como uma celebridade, provando que o mundo era ainda mais ingênuo do que eu. Sentia-me preparado para ambas as possibilidades, embora temesse que a segunda – um limbo – fosse a mais provável.

O caso recebeu um nome que parecia destinado a provocar confusão: “O povo do estado da Califórnia, demandante, contra Christian K. Gerhartsreiter, vulgo Christopher Chichester, vulgo Christopher Crowe, vulgo C. Crowe Mountbatten, vulgo Clark Rockefeller, vulgo Charles ‘Chip’ Smith”. A composição do júri me preocupava. A escolha dos membros seria feita entre moradores dos mesmos bairros que haviam fornecido a O. J. Simpson um júri inepto. Veteranos frequentadores do tribunal diziam que jurados do Centro de Los Angeles compartilhavam uma desconfiança automática contra todo tipo de autoridade e franca antipatia pela polícia.

Eu também ouvira rumores acerca do desdém que nutriam por provas circunstanciais, uma vez que teriam supostamente aprendido com seriados de tevê que esse tipo de indício valia menos que provas contundentes, como traços de DNA ou fibras microscópicas. Se tal predisposição era fato, ela favoreceria a defesa. A julgar pelo que fora divulgado antes do julgamento, eu sabia que a acusação dispunha quase que tão somente de provas circunstanciais – ou seja, uma história incriminadora sobre o comportamento peculiar de Clark antes do assassinato e de seu posterior comportamento evasivo.

A escolha dos jurados durou o dia todo. No corredor do lado de fora da sala do tribunal, as poucas dúzias de possíveis escolhidos mais pareciam cúmplices de chefes de gangues locais cujos julgamentos aconteciam no mesmo prédio. Nem um só candidato lembrava Clark ou alguém em cuja companhia ele pudesse relaxar no Lotos Club; muitos ostentavam sinais étnicos ou de classe social que os classificavam na categoria dos “serviçais”, aquele tipo de pessoa que, com toda a probabilidade, ele já havia contratado para cuidar da faxina ou do jardim.

O eufemismo que vinha à mente era “tipos urbanos”. Um homem de meia-idade, de origem latino-americana, barriga imponente, bigode crespo assentado com fixador e curvado nas extremidades, com uma considerável tatuagem parcialmente visível acima do colarinho, chapéu de palha e óculos escuros, entrou na sala quando o funcionário chamou seu nome. “A defesa com certeza vai querer aquele sujeito no júri”, sussurrou Frank Girardot, editor do Pasadena Star-New se veterano na cobertura de tribunais, inclusive do julgamento de O. J. Simpson. Tinha razão: o grandão foi um dos escolhidos.

 

O juiz, George Lomeli, examinou a longa procissão de candidatos, muitos dos quais falavam um inglês titubeante, ao passo que outros demonstravam já ter ultrapassado o apogeu da agilidade e da capacidade de análise de seus intelectos. Lomeli parecia apropriado ao caso, um homem charmoso, perspicaz mas cordial, que combinava autoridade com humor e tinha até um quê da velha graça hollywoodiana. Causava boa impressão em sua beca, que combinava com os cabelos e o bigode; apelava para o espírito de cooperação dos candidatos, prometendo-lhes um julgamento “interessante”. Ainda assim, muita gente tentou se safar, alegando problemas no trabalho, dificuldades familiares ou feriados religiosos.

Ao que tudo indicava, alguns que não tinham muito que fazer eram os mais dispostos a cumprir com seu dever. Aquilo me preocupou. Se eu, formado em Princeton e Oxford, tinha caído nos engenhosos estratagemas de Clark, como, então, aquelas pessoas conseguiriam ver o que havia por trás do véu? No caso de alguns jurados, eu temia um choque cultural. Tinha visto uma lista das testemunhas de acusação e, entre elas, se incluíam vários almofadinhas do mercado financeiro, gente que conhecera Clark no final dos anos 80, quando ele se chamava Christopher Crowe e era um voraz corretor de Wall Street. Os jurados da classe trabalhadora poderiam se desconcertar com os boas-pintas, ou mesmo odiá-los de imediato. Faria diferença? Eu não tinha a menor ideia. Jamais assistira ao julgamento de alguém acusado de assassinato. E com certeza jamais tivera algum interesse pessoal em jogo num evento semelhante.

O que estava em jogo para mim nesse caso era algo difícil de definir. O mal que Clark me causara não fora grave o bastante para me instilar desejo de vingança, mas eu tampouco o queria bem. Assassinato à parte, ele ainda tinha muito pelo que responder. Era provável que o julgamento o condenasse por muita coisa, embora o poupasse da condenação última. Era um espetáculo gratificante e fascinante. Eu tinha esperança de que o tempo que passaria ali me educaria, me endureceria. Seduzido pelo número de mágica de Clark, agora eu teria acesso aos bastidores e aos segredos dos truques. “Esse Walter Kirn é mesmo astuto quando se trata de avaliar o caráter de alguém” – isso jamais havia sido dito a meu respeito. Talvez o julgamento me abrisse os olhos.

Enquanto os jurados em potencial passavam pelo juiz, Clark se voltava e os observava de sua cadeira. De vez em quando, oferecia-lhes sorrisos tristes, fingindo solidarizar-se com suas queixas; a maior parte do tempo, porém, dirigia-lhes o olhar distanciado e atento de um antropólogo em plena pesquisa de campo. Quem eram todas aquelas pessoas, tantas delas tão escuras? Que ritual era aquele que se desenrolava a seu redor?

Eu nunca tinha visto um alemão parecer tão alemão como Clark ao avaliar seus prováveis avaliadores. Os olhos eram duas moedinhas azuis por trás das lentes dos óculos. Um pé sem meia batucava debaixo da cadeira. Na mão direita, ele equilibrava um toco de lápis sobre o bloco de notas de folhas amarelas. Ouvira dizer que ele estava escrevendo um romance na prisão, um épico em diversas partes que versava sobre política europeia e se estendia do final da Primeira Guerra até a década de 60. Era competente, mas aborrecido, tinham me dito: continha bom trabalho de pesquisa, mas era enfadonho.

Eu não tinha muita dúvida de que ele era culpado. Vinte e oito anos antes, no estado da Califórnia, Clark matou o filho adotivo de sua senhoria e, desde então, sua vida se tornou uma farsa. O julgamento permitiria à acusação colorir e comprovar essa história que, grosso modo, eu conhecia e julgava crível. O que já não achava crível era minha própria pessoa. Quando fiquei sabendo que Clark podia ser um assassino e, instintivamente, considerei a ideia plausível, aquilo exerceu notável efeito sobre mim. A revelação tornou-me humilde e produziu um completo rearranjo: ela me mostrou a dimensão e o poder da minha ignorância e da minha vaidade.

 

Cerca de duas horas depois de iniciada a seleção dos jurados, e enquanto examinava outro candidato, Clark olhou para o lado e me viu. Acenei com a cabeça, pensando que talvez fosse responder ao aceno – afinal, meu rosto lembrava dias melhores. Em vez disso, dirigiu-me um olhar de desprezo, arqueou as sobrancelhas, torceu o nariz e retorceu os lábios para cima, num bico horroroso e afetado. O olhar, cheio de maldade e desdém, indicava que ele via minha presença como uma traição a nosso relacionamento, uma atitude indigna de um cavalheiro. Eu via as coisas de outra forma, é claro. Para mim, nosso relacionamento era a traição. E não estava nem aí com ser ou não um cavalheiro.

Até que tornássemos a nos encontrar, depois de terminado o julgamento, Clark fingiu que eu não estava ali.

Walter Kirn

Walter Kirn é autor de Thumbsucker, adaptado para o cinema como Impulsividade, e Amor sem Escalas, que também virou filme. Correspondente nacional da New Republic, mora em Livingston, no estado de Montana. O texto integra o livro Quando a Máscara Cai, que a Companhia das Letras lança em maio.

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