esquina

O informante (até as 22h)

Plenário: Senador nega tudo. 16h12

Carol Pires
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Era o dia 13 de dezembro de 2007, já passava da uma da manhã. Rosean Kennedy, apresentadora da rádio CBN, dormia nos braços de Willian, seu marido, quando recebeu uma mensagem no celular. O casal se assustou, pois naquela semana o pai de Rosean andara doente. Na penumbra do quarto, Willian perguntou: “Quem está te mandando mensagem a essa hora?” Sua motivação não era a desconfiança conjugal, mas uma sincera preocupação com o sogro. Nada, disse a sonolenta Rosean, assunto de trabalho. “A essa hora?”, resmungou o marido, também sonado.

Era trabalho, sim: a mensagem informava que a CPMF acabava de cair. Willian só não sabia (admitiria algum ciúme se soubesse?) que o signatário era Adriano Fernandes, um homem de cabelos pretos cuidadosamente adestrados a gel, nariz afilado, 75 quilos em 1,82 metro de corpo “atlético”, como descrevem as revistas femininas, e, cereja do bolo, portador de uma arma (por estrear) que dispara flechas imobilizadoras. Hoje aos 39 anos — treze como segurança no Senado —, ele é dublê de fonte da imprensa brasiliense, papel que assumiu na época do affaire entre o senador Renan Calheiros e a jornalista Mônica Veloso.

O então presidente do Senado — às voltas com complicações extraconjugais, filha não reconhecida, pensão alimentar paga por empreiteira, cabeças de gado suspeitas e demais especiarias de um imbróglio político-brasiliense — passara a usar saídas de fundo, elevadores secretos e seguranças monumentais para driblar a imprensa. Cada (mau) passo seu poderia render notícia, a exemplo de cada declaração amistosa do líder do governo, Romero Jucá, ou cada acusação dos líderes oposicionistas José Agripino Maia e Arthur Virgílio. A malta de jornalistas corria atrás de frases que espichassem as reportagens em mais um ou dois parágrafos.

Foi aí que Fernandes entrou em cena. Uma repórter lhe pediu que a avisasse quando este ou aquele figurão entrasse no plenário. Topando na hora, no dia 15 de junho de 2006 o segurança enviaria um de seus primeiros despachos: “Plenário: Romero Jucá, líder do governo, está no plenário. 15h17.” A fórmula deu certo, e Fernandes virou fonte de um grupo seleto de quinze repórteres cujos telefones ele guarda na memória do celular. São, na maioria, produtores de emissoras de televisão e rádio. De jornal impresso, há poucos. “Eles têm mais tempo para apurar o assunto. Não precisam dessa urgência para achar os caras”, explica a fonte.

 

Fernandes criou um regimento próprio para seus serviços. Por exemplo, não se deve ligar para agradecer a informação — “que é para o meu celular não ficar tocando toda hora” — e não se deve esperar mensagem depois das dez da noite (o caso da CPMF foi exceção). Em termos de técnica jornalística, seus textos são, em geral, canônicos: uma linha só, com onde, quem, o quê e quando — “Plenário: Senador Paulo Paim anuncia vigília em plenário em prol dos aposentados. 13h49”; “Plenário: Garibaldi anuncia devolução da MP 446.” Ele está sempre a serviço da notícia: “Gosto de dar a coisa quente, por isso digo até a hora em que o fato ocorreu, para quem quiser ir lá conferir nas notas taquigráficas.”

O serviço é gratuito. Fernandes, que ganha cerca de 6 mil reais, se diz movido pelo dever moral e cívico. “A democracia precisa da imprensa”, filosofa. Ele não é um segurança padrão, pois aprecia tanto a massa muscular quanto a cinzenta. Faz-se compreender em duas línguas estrangeiras: espanhol e inglês. Leu de Maquiavel a Mao Tsé-Tung nos tempos em que estudou contraterrorismo em Washington. Formou-se em ciência da computação em Brasília. Em menos de um ano, passou em três concursos públicos: Universidade de Brasília, Ministério da Agricultura e Senado Federal. Trabalhou nos três lugares, como técnico de computação ou de administração. “Os salários eram uma merreca”, diz. Em 1995, virou segurança.

Talvez por ter passado mais de uma década assistindo ao vivo a debates políticos — ele foi contratado para manter a ordem no plenário —, Fernandes se aperfeiçoou em manhas de político. Empregando a tática de não dizer nada que possa ser usado contra ele mais tarde, garante ser agnóstico em relação não só a partidos, mas também a times de futebol, escolas de samba e concursos de miss. “Para ter uma visão mais ampla das coisas, prefiro não criar vínculo”, explica no melhor estilo sem-ideologia aperfeiçoado pelo PMDB. Não revela nem o senador que, a seu ver, discursa mais bonito. “Não. Mas se eu fosse um político, seria o Jucá, porque sou como ele: não tenho muita conversinha. Gosto é de resultados”, diz, no auge de comprometimento a que se permite.

Por ora, seu melhor resultado jornalístico foi mesmo o anúncio da derrocada da CPMF. Enquanto o SMS era disparado à 01h10 para os quinze jornalistas, Ricardo Noblat, titular do blog de política mais acessado do país, anotaria a notícia à 01h12, a mesma hora em que a informação apareceu na Folha Online e no portal G1. No mundo virtual, dois minutos podem ser a diferença entre notícia e papel de embrulho. E as notas de Fernandes, além de frescas, são públicas — pelo que reza seu próprio regimento, ele só repassa o que os senadores dizem em alto e bom som no plenário. Bastidor, nem pensar: “Meu negócio é notícia oficial.”

No ano passado, quando um infarte fulminou o senador amazonense Jefferson Péres, Brasília mal acordara e a maioria dos repórteres ainda se espreguiçava em casa, mas o grupo dos quinze foi surpreendido assim que o relógio deu 8h36. Na ocasião, o casal Rosean e Willian Kennedy já deixara os lençóis. Contudo, sendo ainda madrugada para a República, o marido teve de perguntar: “Mensagem a essa hora?”

Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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