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O infortúnio de João Gostoso

Pesquisadores encontram reportagens que motivaram poema de Manuel Bandeira

Armando Antenore
No “Poema tirado de uma notícia de jornal”, o autor se vale de uma linguagem aparentemente não poética e impessoal para alcançar o poético e a marca personalíssima de um estilo
No “Poema tirado de uma notícia de jornal”, o autor se vale de uma linguagem aparentemente não poética e impessoal para alcançar o poético e a marca personalíssima de um estilo ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_2019

Às portas do Ano-Novo, em 31 de dezembro de 1925, o poeta Manuel Bandeira publicou a trágica história de um trabalhador braçal no vespertino carioca A Noite. Para contá-la, precisou de apenas 38 palavras e cinco versos – dois muito compridos, um mediano e dois minúsculos: João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia (num barracão sem número)./Um dia ele chegou no bar 20 de Novembro./Bebeu./Cantou./Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. De tão explicativo, o título da narrativa acabava soando enigmático: “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Será que o autor realmente extraiu poesia de um episódio que garimpara na seção policial de algum diário? Ou será que inventou o acontecimento para relatá-lo à maneira de uma notícia, ainda que lhe conferisse a forma de um poema?

Quando lançou a primeira edição de Libertinagem, em 1930, Bandeira incluiu o caso de João Gostoso no livro. A trama aparece ali com o mesmo título que exibia anteriormente, mas também com sutis modificações. O poeta eliminou os parênteses do verso inicial e os pontos finais que se espalhavam pelo texto, à exceção do último. Substituiu “um dia” por “uma noite”, colocou maiúscula em “lagoa”, trocou a grafia do algarismo 20 e, o mais importante, adicionou outro verbo à história, que ficou assim: João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número/Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro/Bebeu/Cantou/Dançou/Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. A nova versão do poema tornou-se um marco do modernismo brasileiro.

Em junho passado, o analista de sistemas e editor Cláudio Soares a reproduziu no Facebook para anunciar uma descoberta preciosa. Ele acabara de encontrar sete pequenas reportagens sobre João Gostoso, todas divulgadas por antigos periódicos do Rio de Janeiro. As notícias mostram que o carregador existiu de fato e chamou a atenção de jornalistas não só em 1925, quando morreu.

Foi justamente A Noite que retratou o personagem pela primeira vez. Em 23 de abril de 1916, uma nota com míseras doze linhas informava que certo João de Oliveira, “vulgo João Gostoso”, se armou de uma pedra e, por ciúme, “fez um grande rombo” na cabeça de Rosa Maria da Conceição. A Assistência Municipal socorreu a agredida, e policiais do 30º Distrito prenderam o agressor. O casal de “amasiados” habitava o morro da Babilônia, que àquela altura já abrigava a favela de mesmo nome, na Zona Sul do Rio. A narrativa, em tom sóbrio, ocupava o pé da página 4, entre outras notícias miúdas sobre a cidade, e não especificava a profissão de Gostoso.

No dia seguinte, o matutino O Paiz também mencionou o bafafá conjugal. Sem trazer novidades em relação àquilo que A Noite levantara, apimentou o relato com qualificativos dramáticos e um advérbio inflamado. Disse que o agressor, “ciumento como um Otelo”, bateu “desapiedadamente” em Conceição, a “ofendida” parceira. Já o título da matéria preferiu o sarcasmo: “Para a amante é que ele não foi gostoso.”

O personagem de Manuel Bandeira voltou à imprensa quase uma década depois. Em 16 de dezembro de 1925, uma quarta-feira, o Jornal do Brasil e o Correio da Manhã contaram que João Gostoso resolvera se banhar no canal da Lagoa Rodrigo de Freitas. A correnteza, porém, o surpreendeu e o arrastou para “o mar traiçoeiro”. Conforme o testemunho de um menino, o banhista lutou “desesperadamente contra as águas” até sucumbir. O corpo da vítima continuava desaparecido quando os repórteres escreveram as notícias.

Nem o JB nem o Correio da Manhã publicaram o nome completo do “infeliz” que se afogou. Ambos o trataram somente pelo apelido. Em compensação, afirmaram que era negro, tinha “presumíveis” 40 anos e trabalhava com “carretos nas feiras livres”. Nenhum dos periódicos lembrou que, em 1916, João Gostoso apedrejara a própria companheira.

Na quinta, 17 de dezembro de 1925, o JB cobriu novamente o afogamento. Só que, agora, o narrou de outro modo. A reportagem informava que “um menor” viu João Gostoso tirar a roupa e se jogar no canal da Rodrigo de Freitas. O garoto comunicou o incidente para um guarda civil, que avisou o comissário do 30º Distrito. Com a ajuda de pescadores, as duas autoridades resgataram o corpo que jazia no fundo da lagoa. A polícia aventou a hipótese de suicídio e encaminhou o cadáver para o necrotério do Instituto Médico Legal. 

Mais uma vez, o Jornal do Brasil divulgou apenas o apelido da vítima. Acrescentou, entretanto, que João Gostoso vivia “em um barracão sem número”, no morro da Babilônia, e que zanzara embriagado pelo bairro do Leblon.

“Uma ocorrência triste.” O Imparcial definiu assim a morte do carregador, cujo nome de batismo tampouco revelou. O diário abordou o assunto na mesma quinta-feira, dia 17 de dezembro. Embora trouxesse informações semelhantes às do JB, evitou falar em suicídio. O relato terminava com um detalhe que o concorrente deixou escapar: bêbado, João Gostoso dançou e cantou diante do bar Vinte de Novembro.

Por fim, no Natal de 1925, o Beira-Mar – semanário que apregoava defender os interesses de três bairros praianos: Ipanema, Copacabana e Leme – também noticiou o infortúnio do trabalhador. Fez um resumo do que os outros jornais apuraram, mas apelou para o sensacionalismo. Descreveu João Gostoso como um “maltrapilho”, uma “alma desgarrada”, que se encontrava “em deplorável estado de embriaguez” e ora causava “riso”, ora “piedade”. O título da reportagem enfatizou a dúvida: “Teria sido suicídio?”

 

O poeta Heitor Ferraz Mello, que leciona jornalismo literário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, já havia descoberto a matéria do Beira-Mar dois anos atrás. “Eu vasculhava a internet à caça de uns escritos do Carlos Drummond de Andrade quando me recordei do poema que o Manuel Bandeira concebeu sob influência dos ideais modernistas.” Com o intuito de averiguar se a notícia sobre João Gostoso circulara mesmo em periódicos do Rio, o professor decidiu consultar a Hemeroteca Digital Brasileira. O site da Fundação Biblioteca Nacional agrega jornais, revistas, anuários e boletins publicados no país desde o começo do século XIX. “Busquei por ‘carregador de feira’ e, mal localizei o texto, fiquei tão emocionado que o compartilhei pelo Facebook. Imaginei que seria útil para estudiosos de poesia.” À época, a Global – que edita os livros de Bandeira – gravou três vídeos com Mello sobre a reportagem e os postou no YouTube.

Criador e diretor do projeto Hiperliteratura, Cláudio Soares desconhecia a investigação do professor ao tomar a iniciativa de procurar a notícia que inspirou o poema. Ele recorreu igualmente à Hemeroteca Digital e pesquisou de madrugada, no apartamento que divide com a mulher e uma filha em Todos os Santos, bairro da Zona Norte carioca. “Primeiro, encontrei as matérias do JB e depois as outras, incluindo a do Beira-Mar.” Às 13h16 do último dia 28 de junho, a página do Hiperliteratura no Facebook revelou o achado.

O projeto, inaugurado em 2017, digitaliza clássicos nacionais que estão sob domínio público e os vende. Também dissemina informações a respeito de escritores brasileiros pelas mídias sociais. Daí a familiaridade de Soares com sondagens como a que realizou acerca de Bandeira.

O crítico literário Antonio Carlos Secchin – professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e seguidor do Hiperliteratura – festejou as boas-novas. “Por muito tempo, intuímos que João Gostoso realmente existiu e virou notícia, mas não havia como ter certeza absoluta. Era quase impossível encontrar reportagens sobre o carregador antes da revolução digital. Agora, graças às descobertas, podemos estabelecer relações precisas entre aqueles versos célebres e as narrativas que os motivaram. Ou melhor: podemos analisar de que maneira se deu a transposição do discurso jornalístico para o poético.”

 

Provavelmente, Manuel Bandeira leu a notícia em O Imparcial ou no Beira-Mar. Dos veículos que cobriram a desventura de João Gostoso, apenas os dois traziam todos os dados que compõem o poema. O escritor recifense o publicou em “O Mês Modernista”, coluna diária e transitória que o jornal A Noite lançara para expor as teses do movimento cultural. A seção circulou entre dezembro de 1925 e janeiro de 1926. Bandeira, Mário de Andrade, Carlos Drummond, Martins de Almeida, Sérgio Milliet e Prudente de Moraes, neto (ele se referia a si próprio desse jeito) alternavam-se na confecção dos textos. O pernambucano, que residia no Rio, assinava os de quarta ou quinta-feira. 

“Prudentico [Prudente de Moraes, neto] me transmitiu o convite para colaborar [com A Noite]. Fiquei assim sem saber se posso fazer coisa que preste. De que é que se tem de falar? De modernismos ou de toda coisa sabível? Não vão apresentar a gente como bicho ensinado, não?”, indagou Bandeira numa carta para Mário, em novembro de 1925. Encorajado pelo futuro autor de Macunaíma, o poeta acabou topando a missão. Depois, confessou: “Não levei muito a sério ‘O Mês Modernista’. Tratei de me divertir, ganhando 50 mil réis por semana, o primeiro dinheiro que me rendeu a literatura.”

Na mesma quinta em que narrou a trajetória de João Gostoso, o escritor divulgou mais seis trabalhos. Um deles, “Lenda brasileira”, também consta de Libertinagem, o livro que reúne outras pérolas de Bandeira, como “Pneumotórax”, “Vou-me embora pra Pasárgada” e “Porquinho-da-índia”.

Doze anos antes do poeta, o franco-suíço Blaise Cendrars – que viajou pelo Brasil na década de 20 e conviveu com os modernistas daqui – já adotara a estratégia de transformar um artigo do diário Paris-Midi no poema “Dernière heure”. Prudente de Moraes, neto empregou artifício idêntico em novembro de 1925, quando escreveu “Suicídio” a partir de uma reportagem de O Globo. Para o crítico Davi Arrigucci Jr., professor emérito da Universidade- de São Paulo, a criação de Bandeira supera “inequivocamente” as dos colegas. “Raros são os artistas que conseguem extrair tanto de tão pouco”, sintetizou durante uma entrevista por telefone.

Em 1990, num brilhante ensaio sobre o “Poema tirado de uma notícia de jornal”, Arrigucci Jr. notou que aqueles seis versos livres abarcam diversos paradoxos. O primeiro e mais óbvio: Bandeira se valeu de uma linguagem aparentemente não poética e impessoal para alcançar o poético e a marca personalíssima de um estilo. Outros: por meio da concisão formal, resultado “de uma poda completa”, o poeta expandiu o sentido do relato e converteu um episódio trivial da vida carioca no destino universal do indivíduo que é tragado pela finitude após abraçar a festa (o gozo de mãos dadas com a morte). O autor também conferiu à historieta de João Gostoso certa ironia, certa comicidade atroz que tanto acende quanto gela o riso dos leitores. De resto, incluiu no jornal aquilo que retirou dele, já que o poema apareceu originalmente em A Noite.

Tão logo examinou as reportagens de 1916 sobre a briga do carregador com a amante, Antonio Carlos Secchin – que, além de professor e crítico literário, se dedica à poesia – redigiu o “Poema tirado de uma notícia de poema”: João Gostoso era feirante, amasiado com Rosa. Ela não era flor que se cheirasse./Um dia, cansado das traições, pegou uma pedra que tinha no meio do caminho do morro e a arremessou contra a mulher./Rosa, rubra de sangue, chamou a polícia. João sumiu. Gostoso se tornou puro desgosto./Nove anos depois, bêbado, concluiu que era hora de acabar com tudo./E se atirou, nu, dentro de um poema de Manuel Bandeira.

Secchin publicou os versos no Facebook e amealhou muitos elogios. Uma internauta, contudo, questionou o crítico: “Por que você escreveu ‘cansado das traições’? A notícia diz apenas que Gostoso bateu na amante. Por que você ressaltou a infidelidade da Rosa?” O autor respondeu que “a poesia não tem obrigação de copiar a realidade” e lembrou que, segundo a matéria, o carregador atacou a companheira por ciúme. “Cada um pode supor os motivos, reais ou imaginários, que estariam na base desse ciúme”, completou. A internauta rebateu: “Sim, a poesia não precisa copiar a realidade. Só fiquei pensando por que, na hora de ficcionar, justo a Rosa tinha de ser a infiel.” O professor explicou que, em “descontroles” como o que acometeu o agressor, normalmente existe a suspeita de traição. “Pouco provável que João Gostoso sentisse ciúme porque Rosa torcia pelo Fluminense e ele, pelo Flamengo.” A internauta, desta vez, não retrucou.

Armando Antenore

Editor da piauí

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