minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
piauí jogos

    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

O lulista improvável

A jornada de Alexandre Frota da ultradireita à esquerda

Luigi Mazza | Edição 195, Dezembro 2022

A+ A- A

A frente ampla do futuro governo Lula se materializou numa quinta-feira de novembro. Jovens deputados do Psol e velhos figurões do MDB se sentaram lado a lado no auditório do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília. Aguardavam a primeira visita do presidente eleito ao espaço onde funciona o governo de transição. Mesmo diante de uma plateia tão heterogênea, não havia quem não se surpreendesse com o deputado federal Alexandre Frota (Pros-SP) sentado ali no meio.

Frota nunca tinha visto Lula ao vivo e parece ter gostado da experiência. Quando o presidente eleito assumiu o microfone, Frota aplaudiu. Quando Lula zombou de Bolsonaro, o deputado riu, contentíssimo. Quando Lula chorou ao falar da fome, Frota ficou de pé e voltou a bater palmas com entusiasmo. Sorria, enquanto o auditório formava um coro de Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula.

Quatro anos atrás, Frota só se referia ao petista como “bandido” ou “vagabundo”. Tudo mudou. “Eu amadureci”, ele diz. O ex-ator e ex-modelo, que por muito tempo levou uma vida pacata de subcelebridade, ganhou notoriedade como porta-voz do antipetismo mais truculento. Sua especialidade era xingar artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso, que, segundo ele, “mamavam nas tetas do governo” via Lei Rouanet. Em 2018, empurrado pelo tsunami bolsonarista, entrou para a Câmara com 155,5 mil votos. Como boa parte dos 52 deputados federais eleitos pelo PSL naquele ano, nunca tinha atuado na política.

Não demorou cinco meses para romper com Bolsonaro, no racha generalizado do PSL em 2019. Decepcionou-se com a falta de palavra do presidente: Bolsonaro pediu a ele que indicasse nomes para a Secretaria Especial de Cultura, mas na hora h deixou todas as nomeações a cargo do então ministro da Cidadania, Osmar Terra, e do então ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Frota e seus escolhidos – alguns dos quais, confiando na promessa do deputado, já tinham largado os empregos e se preparavam para trabalhar em Brasília – ficaram de mãos abanando.

“Eu já sabia que o Bolsonaro tinha fama de traidor, e ali comecei a presenciar isso”, diz o deputado. Naquele momento, Frota deu um giro de 180 graus e passou a atacar o governo. O rompimento tornou-se definitivo quando ele defendeu a prisão do ex-PM Fabrício Queiroz, apontado pelo Ministério Público como operador do esquema de rachadinhas da família Bolsonaro. “Na época, falei pro Flávio Bolsonaro: ‘Tu vai me desculpar, mermão, mas tu nunca me falou que tinha um Queiroz na tua vida. Porra, sinto muito’”, relembra Frota, rindo. “Ele ficou puto.”

Expulso do PSL em agosto de 2019, o deputado se abrigou no PSDB, a convite do então governador de São Paulo, João Doria. Calculou que, com a força dos tucanos em São Paulo, teria chances de ser reeleito. “Mas o PSDB veio se esfacelando nos últimos anos, a bancada rachou, o Doria foi embora, e eu fiquei largado ali.” Prevendo o encolhimento de seu eleitorado, decidiu se lançar a deputado estadual. Com 24 mil votos, foi o 23º tucano mais votado para a Assembleia Legislativa. Não bastou para que se elegesse.

 

É de Vladimir Lênin a célebre frase: “Há décadas em que nada acontece, e semanas em que décadas acontecem.” Mas mesmo Lênin talvez tivesse dificuldade em entender como, em quatro anos, um parlamentar pode transitar da extrema direita para a esquerda lulista. “Vivi um processo de aprendizado”, responde Alexandre Frota.

Naquela quinta-feira de novembro, depois de sair do CCBB, o deputado se acomodou em seu gabinete na Câmara. Assistia à GloboNews sentado numa cadeira gamer quando recebeu a piauí. A sala principal do gabinete é tomada por um enorme papel de parede que mostra o Maracanã lotado em dia de jogo do Flamengo. Parte do adesivo já tinha sido retirada. Na porta de entrada, um bilhete preso com fita adesiva dava um recado breve, sem pontuação: “Atenção emendas já distribuídas não temos mais como destinar.” Frota liberou antes da eleição todas as verbas a que tinha direito, numa tentativa de angariar o apoio de prefeitos a sua candidatura. “Ajudei todo mundo, mas nenhum deles me ajudou. Tudo certo, a vida é assim.”

Ele diz não ter ficado surpreso com a derrota. “Embarquei na campanha do Rodrigo Garcia, que ficou com aquele lema de ‘nem esquerda nem direita’. Mermão, nessa eleição ou você era Flamengo ou você era Vasco. Eu fiquei parado no meio.” O lado bom disso tudo, segundo ele, é que finalmente pôde exorcizar “o fantasma do Bolsonaro” e seguir com a vida. Diz que agora acertou as contas com o passado.

Frota votou em Lula nos dois turnos. Desde que largou o PSL, virou uma figura discreta no Congresso e se encantou pelas pautas sociais. Apresentou, entre outros, um projeto determinando que imóveis abandonados há mais de dez anos sejam desapropriados e incorporados ao Minha Casa, Minha Vida. “Ouvi de medalhões do PT: ‘Frota, você às vezes vota mais à esquerda do que a própria esquerda’”, ele conta, orgulhoso. “Fui percebendo como aquelas bandeiras [do Bolsonaro] eram nocivas.”

Ao enumerar os amigos que fez no Congresso, Frota cita uma maioria de deputados progressistas: Marcelo Freixo (PSB-RJ), Alice Portugal (PCdoB-BA), Túlio Gadêlha (PDT-PE), Paulo Pimenta (PT-RS), entre outros. Aos poucos, se alinhou a eles. Em outubro, largou o PSDB para se filiar ao Pros, um pequeno partido que orbita o PT e deve se fundir com o Solidariedade. Foi uma escolha pragmática. “É um partido onde vou poder sobressair. Não serei apenas mais um jogador”, explica Frota. O plano, por ora, é se candidatar a vereador por São Paulo em 2024.

Até lá, não sabe ao certo o que fará com o tempo livre. “Vou resetar minha vida”, diz, lacônico. Depois da eleição, Frota fechou contrato com a Rádio Capital FM, de São Paulo, para apresentar um programa de entrevistas todo sábado à tarde. O primeiro convidado foi o ex-banqueiro Eduardo Moreira. Em seguida, Erika Hilton (Psol-SP), vereadora por São Paulo que se elegeu deputada federal neste ano. Toda vez, ele recebe ainda um médico especialista em alguma área, para dar dicas aos ouvintes. “Foi exigência da rádio. Esse tipo de coisa gera uma audiência enorme”, explica.

 

No começo de outubro, Frota foi convidado por Geraldo Alckmin para tomar um café numa padaria em São Paulo. O vice de Lula pediu a ele que continuasse fazendo campanha contra Bolsonaro nas redes sociais. Frota aproveitou o encontro para se desculpar pelos ataques que fez a Alckmin no passado. “Bola pra frente”, ouviu como resposta. O deputado atendeu ao pedido e fez campanha intensa a favor de Lula. “Não me elegi, mas puxei o pé do Bolsonaro e levei ele junto comigo.”

Ao fim da jornada, Frota foi nomeado para o grupo técnico que discute cultura no gabinete de transição. Parte da esquerda, estupefata, protestou nas redes sociais. O barulho foi tanto que o deputado desistiu de participar da equipe. Ele diz não querer cargo no novo governo. “Se eu pudesse pedir só uma coisa pro Lula, pediria que ele me deixasse entrar no Palácio da Alvorada com uma marreta pra ir até o gabinete do ódio e quebrar tudo”, fantasia. “É a única coisa que eu quero.”