tipos brasileiros

O machista pós-machismo

Jece Gracie, 45 anos, vive o dilema de ser o último machão do planeta ou o primeiro de uma nova - e esclarecida - geração da espécie

Marcos Caetano
ILUSTRAÇÃO:REINALDO_2008

Meu nome é Jece Gracie. Na verdade, Jece Gracie Peixoto. O Gracie, no meu caso, não é sobrenome, mas um tributo de meu pai ao patrono do jiu-jítsu, arte marcial que por décadas foi sinônimo de macheza perversa e desequilibrada — imagem que está se esmaecendo, haja vista a conversão de próceres da boiolice (como o dramaturgo David Mamet) às hostes do viril esporte dos orelhas-amassadas.

Meu primeiro nome, como os mais atentos devem ter percebido, remete ao protótipo do macho brasileiro das décadas de 60 e 70, Jece Valadão. A pronúncia é Jésse, não Jessé — posto que Jesse é um nome espada, enquanto só os maricas se chamam Jessé. Pena que o próprio Jece tenha perdido o elã no final da vida, quando se converteu em pastor evangélico. É bem verdade que as religiões prestaram enormes favores à causa do machismo ao longo da história. Apesar disso, acredito que macho que é macho não ajoelha para rezar. Aliás, macho que é macho não ajoelha para nada, nem durante o ato físico do amor. Isso para quem acredita que o amor tenha algum componente que não seja físico.

Falei em religião e isso veio bem a calhar, pois o episódio que me levou a concluir que nós, machistas, estávamos com os dias contados não diz respeito a David Mamet ou Jece Valadão, mas a ninguém menos do que Deus.

A revelação me veio quando meu filho, que faz faculdade nos Estados Unidos — coisa que eu acho de uma grande frescura —, veio conversar comigo sobre as chances do Vasco no Campeonato Brasileiro. “Se Deus quiser, vamos beliscar uma vaga na Libertadores”, disse eu. Ao que o garoto acrescentou: “Ele, ou Ela, há de permitir…” Ele ou Ela? Como assim? O próprio Deus, o Todo-Poderoso, o Senhor da Vida, o Dono dos Porcos, nem Ele sabe mais se é macho ou fêmea? Quando ouvi aquilo, dei uma bofetada no baitolinha, mirando o anelão de doutor no lábio superior, e finalmente compreendi que não há mais espaço para machistas no mundo.



 

Com jeitinho, com muitíssimo jeitinho, ainda é possível chamar um crioulo de crioulo. Os próprios crioulos, daqui e de fora, gostam bastante de se tratar por crioulo, e os brancos vão na onda. Ao contrário do que se alardeia, o torniquete do politicamente correto não está tão apertado assim. Mas, paradoxalmente, hoje não é mais possível defender conceitos ancestrais e verdadeiros como este: o homem é superior à mulher.

Que a ilustre e ilustrada leitora não se ofenda. Não sou um machista odioso. Na verdade, tenho pelas mulheres, além do mais conspícuo desejo, uma enorme admiração. Admiração em forma de desejo. E carinho, também em forma de desejo. E desejo. Muito desejo.

Estou longe de ser um machista de anedota, um sujeito grosseiro, sem lustro e prepotente. Sou um machista pós-moderno, alguém que, em lugar de pregar a nossa superioridade — apesar de crer piamente nela —, não tem qualquer esperança de que a classe masculina seja capaz de reverter o atual estado (efeminado) das coisas. O mundo já é das mulheres, por mais que eu me recuse a aceitar que isso signifique um avanço. Em vez de esbravejar contra o status quo, prefiro dedicar meu tempo a dar conselhos aos integrantes da minha cada vez mais minguada casta sobre a difícil arte de ser machista e, ao mesmo tempo, sobreviver num mundo dominado pelas amazonas.

O primeiro bom conselho é justamente este: aceitem que o mundo já não é mais comandado pelos homens. Abandonem a luta pelo poder oficial e venham comigo para as montanhas. Somos as Farc da guerra dos sexos. O machista hoje está tão longe do centro das decisões que a única opção que nos resta é a guerrilha. Da mesma maneira que as mulheres e os gays souberam esperar séculos pelo momento de tomar de assalto o controle do mundo, nós precisaremos cavar trincheiras e esperar até que a sorte volte a sorrir. Isso não acontecerá nesta nem nas próximas gerações. Lutamos pelos netos dos nossos tataranetos, machos do quarto milênio, que talvez tenham chance de voltar a mandar no mundo. Por ser desinteressada, minha luta é sincera.

O pragmatismo é outra característica que deve orientar os passos do machista pós-moderno. Já repararam na quantidade de homens que estão aprendendo culinária? Alguém acredita que façam isso para pegar mulher, como justificam alguns? É claro que não. Esses camaradas que estão vestindo aventalzinho e aprendendo a fatiar o pepino, esses mesmos que já considerei uma cambada de fagotes, talvez estejam na vanguarda do movimento. Eles se preparam para assumir as tarefas domésticas, deixando para as mulheres — como a sociedade atual exige — a missão de prover o sustento do lar.

Isso sim, é guerrilha! Isso é saber aguardar nas montanhas a hora de desfilar pelas ruas da grande capital. Quando elas estiverem desatentas, atacaremos! Pais que estão trabalhando menos para passar mais tempo com os filhos, metrossexuais que gastam os tubos em peeling facial, proprietários de veículos New Beetle e de cães da raça Golden Retriever são outros líderes em potencial do movimento.

 

Alguém poderá argumentar que sou pessimista e que o crepúsculo do macho ainda está bem distante. Basta ver — dirão eles — que o próximo presidente dos Estados Unidos não será Hillary Clinton, mas um homem. Quanta bobagem. Precisamos entender que Hillary Clinton é muito mais macho do que o Obambi. Já McCain, coitado: segundo a baitolice generalizada, ele não passa de uma relíquia política a ser definitivamente varrida da história: imagina, um candidato macho, casado com uma dona-de-casa loirinha.

Anote aí: McCain vai perder nos cinqüenta estados, com a possível exceção de Utah, onde a saudável poligamia ainda é praticada, ainda que timidamente. Com a vitória de Obambi, o poder será exercido por sua mulher, Michelle, cuja ambição é tão comprida quanto as pernas. Daqui a oito anos, ela será a presidente de fato e de direito — igualzinho como aconteceu com Bill Clinton, a quem não foi permitido nem desafogar as tensões com a Monica Lewinsky. Depois de dezesseis anos de Michelle, os poucos focos de resistência machista terão sido impiedosamente esmagados. Nos restarão as montanhas.

A única opção de curto prazo para a nossa causa seria uma greve global masculina de sexo, que teria por conseqüência a extinção da vida no planeta. É preciso reconhecer, no entanto, que elas têm alguns milênios a mais do que nós de experiência no assunto. Sem falar nos homossexuais que, para preservar o status quo que tanto lhes interessa, poderiam nos sabotar, atuando como colaboracionistas doadores de sêmen. Pensando bem, as montanhas. Só nos restam as montanhas. Começo ainda hoje minhas aulas de culinária.

Marcos Caetano

Marcos Caetano é especialista em comunicação, comentarista esportivo e colunista do Meio e Mensagem

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