tipos brasileiros

O mandaquiense

Ele compra rodos de pia, chega sempre adiantado, acompanha os folhetos de desconto das farmácias, tem o coração grande e um quintal comprido

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2009

O distrito do Mandaqui, como todos sabem, localiza-se na Zona Norte de São Paulo, entre os condados de Santana e Cachoeirinha. Segundo uma pesquisa recente, tem área de 13 quilômetros quadrados e população de 103 mil moradores, dentre os quais 53% são católicos e 37%, corintianos. Ainda segundo a pesquisa, 46% dos mandaquienses possuem cachorros e 1% deles são felizes proprietários de coelhos. A média de idade é de 38 anos, com predominância de mulheres e solteiros. Há 6% de viúvos e 15% de fãs de música sertaneja. Exatos 35% são gordinhos.

O nome do bairro vem do tupi “rio dos bagres”, o que dispensa comentários, mas há outras versões. Uma delas remete a um antigo morador, que, ao encontrar em sua propriedade os funcionários da Companhia da Cantareira, disse que quem mandava ali era o “filho do meu pai”, ou seja, ele mesmo. Os vizinhos, de irredutível natureza trocadilhesca, passaram a se referir à área como terra do Mandaqui.

Os primeiros mandaquienses tinham o sobrenome Zumkeller e chegaram à região no início do século XX. Ali plantaram videiras e criaram gado leiteiro. Com a prosperidade, veio o estrelato: o patriarca Alfredo, sua esposa Judith e os filhos Eduardo, Jorge, Maurício, Lídia e Julieta viraram logradouros. Tornaram-se avenida Zumkeller, rua Judith Zumkeller e por aí vai – ainda não há consenso se a pronúncia é “Zúncler” ou “Zumquéler”. Esses foram os pioneiros e mais ilustres mandaquienses, mas não sabemos quais eram os seus anseios e preocupações.

Hoje se sabe que o mandaquiense típico não é pontual: sempre chega com escandalosa antecedência, como se considerasse o ônibus quebrado, a enchente no caminho, a manada de ovelhas interditando o farol. A antecipação oscila entre quinze e sessenta minutos, com picos de até duas horas, e o mandaquiense, invariavelmente aflito, vai procurar uma padaria para tomar um suco enquanto o compromisso não vem. É comum encontrar mandaquienses vagando pelas ruas do Itaim, sentados no meio-fio, brincando com tampinhas de guaraná e checando o relógio de cinco em cinco minutos.



O mandaquiense usa relógio de pulso. Gosta de acordar cedo, ouve rádio de pilha e acompanha a meteorologia. Quando criança, divide o cabelo ao meio e tem um desses estojos de lata, cheios de canetas e borrachas coloridas. O mandaquiense gosta de grifar, de fazer tabelas e de cumprimentar os vizinhos. Ele lê muito, pois de Santana ao Mandaqui os ônibus tendem a ficar presos no tráfego. E não é só isso: o mandaquiense acompanha com zelo os folhetos de ofertas dos mercados e das farmácias. É ele quem enfrenta multidões às cotoveladas só para comprar um abacaxi com 60 centavos de desconto.

No âmbito emocional, o mandaquiense tem um senso de humor complicado e é fácil ofendê-lo sem querer. Por outro lado, é dificílimo magoar um mandaquiense de propósito. Os mais vis xingamentos não atingem o habitante local, que, distraído, nunca acha que é com ele. Costuma ter o coração grande e um comprido quintal. Gosta de plantas e de vendedores de mandioca, nessa ordem, estuda em colégio religioso e dificilmente repete de ano.

Ele se interessa pelo mecanismo de funcionamento das coisas e pode passar semanas tentando consertar um espremedor de laranjas, debruçado sobre uma mesa cheia de arruelas e chaves de fenda. Faz ele mesmo os reparos no telhado, só para não precisar pagar um especialista. Quanto aos especialistas, os mandaquienses são os mais tenazes. Resolvem qualquer questão hidráulica, elétrica ou mecânica, e, se não resolvem, é garantia de que passarão meses tentando. Fornecerão as instruções pelo telefone, se for o caso, agregando informações recentes sobre a família, o clima e os boatos locais.

Os nativos do Mandaqui são às vezes avoados, mas, quando decidem se concentrar, gastam um tempo desproporcional em tarefas que só interessam a eles, como mandar cartas-resposta à fábrica de doce de abóbora reclamando da dificuldade de abrir os potes, com datas e horários das tentativas de libertar a guloseima. É ele que dá consistência às filas nos açougues, que congestiona a linha telefônica da Eletropaulo quando falta luz e que grita “Vai, Curíntias” durante a formatura dos sobrinhos.

Um diálogo típico entre dois mandaquienses pode se dar da seguinte forma:

NUNO: “O Robert Altman morreu.”

SILAS: “A Odete Roitman?”

O mandaquiense não tem senso de direção e se confunde com facilidade. Veste o pijama às quatro da tarde e adora sair para comprar engenhocas de plástico, patinhos de borracha, rodos de pia, pregadores de madeira e papa-bolinhas que não funcionam. (No bairro, ainda existem amoladores de faca e vendedores de biju.) O mandaquiense faz a lista de compras no computador e usa a fonte Comic Sans, dividindo por cores os itens de higiene pessoal, alimentação e jardinagem.

São mandaquienses em potencial aqueles que classificam os livros em ordem alfabética, dispõem as camisas do armário em degradê e possuem o mesmo arranjo de gavetas desde 1964. São mandaquienses desde criancinha aqueles que fazem uma refeição respeitando o equilíbrio dos componentes no prato – o arroz deve chegar ao fim concomitantemente ao feijão e à mistura, e esta ao suco, sob pena de “dar nojo” aos comensais.

“Dar nojo” é uma expressão típica, empregada quando algo está fora do lugar ou um forasteiro deixa a gaveta aberta, por exemplo. O nojo está para o mandaquiense assim como a guerra, a fome e a peste estarão para a humanidade no Juízo Final. Se quiser apoquentar um habitante local, é só largar uma meia do avesso em qualquer lugar da casa e ficar atrás da porta, esperando. Os resultados são imediatos.

Outra conversa característica entre dois autóctones, na porta da farmácia:

NUNO: Silas, lembra do que eu te falei agora há pouco? Sobre aquele meu primo que mora no Lauzane, e que casou na semana passada?

SILAS: Não.

 

O nativo do Mandaqui costuma ter opiniões fortes sobre os enxaguatórios bucais e não atende o telefone dizendo “Alô”, mas “Alôncio” – e aí cai na gargalhada sozinho, antes de engatar uma conversa com quem quer que seja do outro lado da linha. Principalmente se for engano. É comunicativo, mas não sabe contar piadas. Não resiste a um calemburgo do tipo “Aldo, você está atrasaldo!”. Confraterniza com os patrícios em cadeiras nas calçadas ou no balcão das padarias, onde reclama do colesterol alto e pergunta como vai o João Perninha, da bocha.

A propósito: para ter respeito e receber a alcunha de “senhor” no bairro, é necessário que o proponente seja proprietário de um comércio – o sr. Eliseu da quitanda, o sr. Irineu do bar do clube e o microempresário sr. Firmo Farias –, ou ter sobrevivido a uma hecatombe nuclear – sr. Nakamura. Agora, se o sujeito foi alçado à glória terrena apenas por jogar bocha, deve se contentar com apelidos como João Perninha, Pedro de Lara, Zé Colmeia ou Frangão.

O mandaquiense sobe e desce os morros com um guarda-chuva em punho e meia dúzia de garrafas pet na sacola, toma o 118-C lotado e sobrevive à fúria do motorista, que faz as curvas como quem toma a Prússia. Se o mundo fosse só de mandaquienses, certamente seria melhor, mas todos teriam que usar pochetes.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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