esquina

O mapa perdido

Sete mil ilhas e um banco de areia

Taisa Sganzerla
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Dois documentos enfeitam, com destaque, as paredes do gabinete do empresário filipino Mel Velasco Velarde, em Manila: uma placa emitida pela Receita Federal local reconhecendo-o como o “maior pagador de impostos de 2009” e um mapa das Filipinas de 1734, medindo 1,1 por 1,2 metro, arrematado por ele no ano passado pela bagatela de 170 mil libras esterlinas – cerca de 900 mil reais.

A carta geográfica, explicou o empresário do ramo das telecomunicações – Velarde foi um pioneiro no serviço de banda larga para a internet no país –, é uma peça-chave para resolver uma intricada disputa territorial no mar da China Meridional. O gigante asiático alega possuir soberania sobre a quase totalidade daquela rota estratégica que liga o oceano Pacífico ao Índico, rica em pesca e petróleo, despertando a ira dos seus vizinhos do Sudeste Asiático.

Em abril de 2012, a marinha filipina tentou apreender barcos pesqueiros chineses que atuavam sem autorização perto do atol de Scarborough, um ínfimo banco de areia disputado pelos dois países, localizado no meio do mar da China Meridional. A ação dos militares de Manila encontrou a resistência das patrulhas navais de Pequim que acompanhavam os pescadores. Diante da superioridade bélica chinesa, os filipinos bateram em retirada. Desde então, a China mantém uma frota policiando o atol.

Contra a força bruta do vizinho, restou às Filipinas recorrer ao Tribunal Internacional do Direito do Mar, em Hamburgo – cuja autoridade, nesse caso, a China declarou não reconhecer.

“A China diz que sua soberania sobre todo o mar Meridional está baseada em evidências históricas. Mas que evidências?”, questionou Velarde – um sujeito baixinho de 51 anos, cabelos pretos lisos bem penteados –, apontando o quadro emoldurado em seu escritório. “Esse mapa já mostra a ilha Panatag como parte do território filipino no século XVIII.” O atol de Scarborough, de não mais do que 150 quilômetros quadrados, está realmente lá, identificada como “Panacot”. Hoje, os filipinos se referem a ela como “Panatag”, “Bajo de Masinloc” ou ainda “Kalburo” (a pronúncia mambembe de “Scarborough”).

 

Em 1734, quando as Filipinas ainda eram uma colônia espanhola, o padre jesuíta Pedro Murillo Velarde, possivelmente um antepassado do empresário, elaborou o que foi considerado o “primeiro mapa científico” do país. Encomendado pelo rei Felipe V, tratava-se de um dos grandes feitos cartográficos da época, com detalhes minuciosos das mais de 7 mil ilhas que compõem o arquipélago.

Em 1762, a Inglaterra invadiu as Filipinas e saqueou Manila. Objetos de valor foram levados da cidade, entre eles todas as cópias conhecidas do trabalho de Murillo Velarde e as placas de cobre usadas para reproduzi-lo. O mapa desapareceu – e se tornou uma espécie de Santo Graal da cartografia. “Um dos originais está nos Estados Unidos; dizem que há outro na Espanha, mas as placas de cobre provavelmente foram derretidas; e ninguém sabe o que aconteceu com as outras cópias. Esse mapa figura em muitos livros de história das Filipinas, mas desde o século XVIII não tínhamos uma cópia original aqui”, disse Mel Velarde.

Em 2012, uma dessas cópias reapareceu num local improvável: o castelo de Alnwick, no condado de Northumberland, extremo norte da Inglaterra, que nos filmes de Harry Potter figurou como a escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. As chuvas de abril daquele ano causaram estragos pesados na propriedade. O duque de Northumberland se viu às voltas com uma conta de 12 milhões de libras para custear os reparos, e decidiu recorrer aos bens da família para levantar fundos. Cerca de oitenta itens valiosos foram postos à venda – entre eles, uma cópia do mapa das Filipinas de 1734.

 

A notícia de que a preciosidade seria vendida pela Sotheby’s, tradicional casa de leilões inglesa, chegou aos ouvidos do juiz da Suprema Corte filipina Antonio Carpio, amigo de Mel Velarde de longa data. “Nós dois sugerimos ao Museu Nacional das Filipinas que comprasse a peça, mas eles não dispunham de fundos naquele momento”, explicou o empresário. Carpio então sugeriu ao amigo rico que bancasse o mapa e mais tarde o vendesse ao museu. “O argumento dele foi o seguinte: ‘Mel, você é um Velarde, honre sua família e traga essa carta para casa.’”

Fazia sentido. Além disso, pesava o fato de o mapa ter sido descoberto no mesmo mês em que os chineses e os filipinos quase entraram em guerra pelo atol de Scarborough – Mel Velarde diz não acreditar em coincidências. Mas o empresário só se convenceu quando as datas dos leilões foram afinal divulgadas.

“Decidiram vender as oitenta peças em dois lotes: o primeiro leilão ocorreria em 9 de julho, dia do meu aniversário; o outro em 4 de novembro, data do aniversário da minha mãe. Aí já eram coincidências demais. Não tive como escapar.” Como tampouco podia faltar ao jantar em homenagem a sua mãe, Velarde participou do leilão a distância, numa churrascaria, cercado pela família. “Ficaram todos em silêncio enquanto eu falava ao telefone”, contou.

O lance mínimo era de 30 mil libras. Velarde se preparou para desembolsar até três vezes esse valor. Em questão de minutos, os lances já haviam ultrapassado a marca das 150 mil libras. “Fiquei muito nervoso, pois sabia que o Museu Nacional jamais poderia pagar um valor tão alto.” Por fim arrematou a carta por 170 mil libras. Decidiu doá-la ao museu.

O mapa será incorporado à petição que as Filipinas fizeram ao tribunal da ONU. A corte deve se pronunciar sobre o litígio em março do ano que vem. Velarde está confiante de que seu mais precioso bem poderá pesar na decisão. Mas já faz outros planos para o documento. “Na China, eles ensinam às crianças que todo o mar Meridional é deles há milênios. Pois eu vou doar uma cópia do mapa de Murillo Velarde para cada uma das 45 mil escolas públicas filipinas. Quero que todo estudante cresça sabendo que essa ilha é e sempre foi nossa”, disse.

Taisa Sganzerla

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