esquina

O minibolsonarista

Um menino que adora fardas

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

“Foi uma coisa muito de Deus”, contou o empresário Rafael Moreno de Almeida, relembrando o dia 26 de julho último, quando seu filho Pedro, de 6 anos, encontrou pela primeira vez o presidente Jair Bolsonaro. “A única coisa que eu sabia era que o presidente estaria em Brasília durante toda a semana. Então, eu e o Pedro tomamos um ônibus de Belo Horizonte para lá. Era ônibus-leito, o menino adorou.” Pedro levava na bagagem uma farda infantil de policial militar de Minas Gerais, com direito a boina, botina, walkie-talkie, algema, pistola e cassetete de plástico.

Chegando em Brasília, os dois seguiram para um hotel. Pedro vestiu o uniforme e dali eles rumaram para o Congresso, onde Almeida encontrou Léo Índio, o sobrinho de Bolsonaro que trabalha para um senador de Roraima. “O Léo é meu amigo”, disse. “Como ele estava indo para o Palácio do Planalto, pedi para nos colocar lá dentro.”

Índio levou pai e filho até a antessala de Bolsonaro. Lá, uma secretária tentou dispensá-los por falta de espaço na agenda presidencial. “Então o Bolsonaro abriu uma porta. Viu, de longe, o Pedro fardado, e chamou na mesma hora.” O encontro resultou em oito fotos, prontamente postadas no perfil do Instagram @capitaoguerramirim, que o empresário criou naquele mesmo dia para documentar a vida militar do filho.

Pedro Lucas Almeida Guerra, o Capitão Guerra Mirim, mora com os pais e três irmãos numa casa de dois andares no bairro da Pampulha, em Belo Horizonte (o sobrenome Guerra, que não consta no registro do pai, foi dado ao menino em homenagem ao seu tataravô). Pedro tem o cabelo preto liso e a boca crivada pela queda recente dos dentes de leite. O quarto que divide com o caçula João Victor, de 2 anos, é decorado com um banner gigante de fotos suas com Bolsonaro. Cursa o primeiro ano de uma escola privada, mas o pai antecipa: “Assim que ele chegar ao ensino médio vou botar no colégio militar.”

Pedro criou gosto pela farda durante a campanha presidencial de 2018, quando Almeida o fez subir num trio-elétrico, durante um comício pró-Bolsonaro. “Foi legal a festa”, o menino me contou. “Eu fiquei em cima do trio gritando ‘Eu vim de graça’ e ‘Um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos Bolsonaro presidente do Brasil’.” Foi nessa época que o filho pediu a primeira farda, do Exército Brasileiro: “Ele usou por um tempo, até perceber que quem carrega arma na cintura é policial militar. Foi a desilusão dele.” Almeida encomendou a uma costureira a nova farda, da PM de Minas Gerais. “A missão mais difícil foi achar a arma”, afirmou, referindo-se à pistola e à submetralhadora de ar comprimido que o filho ganharia. “Só fui achar numa loja de pesca, por mais de mil reais.”

Devidamente paramentado, Pedro passou a ser levado pelo pai em eventos bolsonaristas e em batalhões da Polícia Militar. Almeida também começou a gravar vídeos em que o menino usa a arma de brinquedo para ensinar como deve ser feita a abordagem policial. “Se o bandido não obedece o que eu tô falando, eu sou obrigado a dar um tiro no meio da cabeça dele”, diz num deles, com a voz fina de criança. Em outro, defende duas pautas caras ao governo Bolsonaro: “Quero convocar todos vocês para estarem nas ruas a favor da Previdência e do pacote anticrime, porque lugar de bandido é na cadeia.”

 

Rafael Moreno de Almeida é um sujeito corpulento que usa um cordão de ouro com uma cruz e se diz policial militar frustrado: “Sempre foi o meu sonho, mas não fiz concurso por preguiça de estudar.” Em 2006, foi contratado como agente penitenciário por uma firma que prestava serviço ao governo de Minas Gerais. Trabalhou em seis presídios, ao longo de cinco anos, até virar sócio de uma empresa de segurança particular. “Eu já fazia muito bico nessa área.” Passou a investir também em negócios tão díspares quanto marketing, estacionamento e manutenção de elevadores. Suas empresas ocupam um andar de um pequeno edifício comercial.

Almeida foi filiado ao PSB, “antes de saber que o partido era de esquerda”. Votou em Aécio Neves (“Eu seguia a escolha dos meus pais”) e talvez em Lula (“Pode ser que sim, mas hoje tenho nojo de petista”). Conheceu Jair Bolsonaro por intermédio do ex-deputado federal Laudívio Carvalho, do Podemos de Minas Gerais, que integrava a bancada da bala. “O Laudívio participou da equipe de transição. Fiquei indo e vindo de Brasília naquele período, para dar uma mão ao pessoal na área de segurança. Mas não foi nada oficial.” A imagem de capa do perfil de Almeida no Facebook é a foto de uma coletiva de imprensa presidencial. Ele aparece ao fundo, ladeado por Léo Índio, pelo deputado federal Helio Lopes e pelo senador Flavio Bolsonaro.

“Quero ser vereador para fazer meu nome e me candidatar a deputado federal”, me contou em Belo Horizonte, no início de novembro, quando Bolsonaro estava em pé de guerra com sua própria legenda, o PSL. “Mas antes estou esperando o presidente decidir para qual partido vai.” Dias depois, apagou todas as fotos de seu perfil pessoal no Instagram e transformou a página, que tem 67 mil seguidores, no endereço oficial em Minas do Aliança pelo Brasil – o partido que Bolsonaro quer criar.

Enquanto não se candidata, Almeida continua investindo na carreira do filho. Comprou-lhe uma minimoto, que foi personalizada com o desenho da Polícia Militar de Minas Gerais. Conseguiu também o patrocínio de uma loja especializada em fardamento infantil, a MDT Kids, que presenteou o menino com a cópia de um colete à prova de balas, além de uniformes dos bombeiros e do Bope, o Batalhão de Operações Policiais Especiais de Minas Gerais (Tropa de Elite, que mostra o cotidiano do Bope do Rio de Janeiro, é o filme predileto de Pedro).

Em outubro, Almeida levou o filho mais uma vez a Brasília, para uma segunda visita ao presidente. O encontro resultou em novas fotos, também postadas no Instagram do Capitão Guerra Mirim. Pedro aparece ao lado de Bolsonaro, de Jair Renan Bolsonaro – o filho Zero Quatro – e do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Sobre uma foto em que Pedro aperta a mão de Bolsonaro, Almeida desenhou balões, como os de história em quadrinhos, com um diálogo imaginário. “Presidente, venho pedir permissão para explodir o STF”, diz o menino. “Não posso permitir isso, mas como brasileiro você tem esse direito”, responde Bolsonaro, antes de completar: “Se precisar de explosivos, peça ao ministro da Defesa.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

Leia também

Últimas Mais Lidas

Socorro a conta-gotas

Dos R$ 8 bi prometidos para ações de combate à Covid-19, governo federal só repassou R$ 1 bi a estados e municípios

O gás ou a comida

Na periferia de São Paulo, com epidemia de Covid-19, preço do botijão vai a R$ 150 (um quarto do auxílio prometido pelo governo), renda cai e contas continuam chegando

Na piauí_163

A capa e os destaques da revista que começa a chegar às bancas nesta semana

Diário de um reencontro sem abraços

Sônia Braga de luvas de borracha, desinfetante no avião e um samba com Beth Carvalho: a jornada de um roteirista brasileiro para voltar para casa e cuidar dos pais idosos

Cinema e desigualdade – o nó da questão

Salas fechadas acentuam privilégio de quem pode pagar por serviços de streaming

Bolsonaro aposta no comércio

Presidente visita lojas e, nas redes, organiza movimento contra isolamento social

Separados pelo coronavírus

Ao falar contra isolamento, Bolsonaro surpreende até Bannon, favorável à quarentena total; no Brasil, cúpula do Congresso teme autoritarismo e evita confronto direto

A capa que não foi

De novo, a piauí muda a primeira página aos 45 do segundo tempo

E se ele for louco?

Suspeitar da sanidade mental de Bolsonaro não permite encurtar caminho para afastá-lo; saída legal é o impeachment

Respiradores a zap

Como empresários e pesquisadores articulam iniciativas para aumentar a fabricação de ventiladores pulmonares, fundamentais no combate à Covid-19

Mais textos
2

Bolsonaro contra-ataca

Estimulada pelo pronunciamento do presidente, militância bolsonarista faz ação orquestrada nas redes e nas ruas, convocando atos para romper quarentena

3

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia

5

Decepção ambulante

Para um terço dos brasileiros, atuação de Bolsonaro contra coronavírus é ruim ou péssima; ex-apoiador do presidente, camelô rompe quarentena para não passar fome, mas reclama: “Gostaria que ele levasse a sério”

6

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

7

E se ele for louco?

Suspeitar da sanidade mental de Bolsonaro não permite encurtar caminho para afastá-lo; saída legal é o impeachment

8

Separados pelo coronavírus

Ao falar contra isolamento, Bolsonaro surpreende até Bannon, favorável à quarentena total; no Brasil, cúpula do Congresso teme autoritarismo e evita confronto direto

9

Com tornozeleira, sem segurança

No Acre, preso que ganha liberdade provisória recebe também sentença de morte

10

Contágio rápido e silencioso: a matemática do coronavírus

Doença pode ser transmitida por pessoas infectadas e sem sintomas; para epidemiologista de Harvard, perspectivas globais são preocupantes, mas no Brasil, é mais provável contrair sarampo