esquina

O mistério das galinhas

Escorpiões de condomínio, temei

Nuno Manna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Um grito ecoou numa madrugada fria de 2015, acordando os moradores de um luxuoso condomínio em São José do Rio Preto, no noroeste paulista. Os condôminos há muito não dormiam um sono tranquilo. Muros altos, arames farpados e cercas elétricas já não bastavam para lhes inspirar segurança. Viviam assombrados por relatos cada vez mais frequentes de criaturas da noite que vinham perturbar o sossego das pessoas.

Os invasores são escorpiões que deram de aparecer na região nos últimos tempos. Só no ano passado, o município recebeu 250 notificações de acidentes com os aracnídeos – um aumento de 52% em relação ao ano anterior. Especialistas atribuem o fenômeno a fatores como urbanização descontrolada, acúmulo de lixo e aumento da temperatura e das precipitações.

Hoje são corriqueiras histórias como a de Helen Sartoreli: em menos de um mês, a moradora encontrou três escorpiões em sua casa, no Residencial Damha V – dois pretos escondidos nos fundos e um amarelo, o mais venenoso, passeando pelo tapete felpudo no centro da sala de estar.

Mas o grito que interrompeu o silêncio daquela madrugada não era um pedido de socorro de alguma vítima do peçonhento: provinha de um galo que marcava território antes do alvorecer. O ritual se repetiu na noite seguinte, e ganhou adesões com o passar do tempo. Um ano depois, mais de trinta galos, galinhas, garnisés e galinhas-d’angola dividiam o espaço com os humanos.

 

Com a proliferação dos escorpiões, vários condomínios aventaram a ideia de soltar galináceos, predadores naturais dos aracnídeos, pela vizinhança. Alguns aprovaram a estratégia de imediato – foi o caso do Village I. Seus administradores afirmam, com orgulho, que o residencial foi o primeiro da cidade a adotar a medida, há um ano e meio. O lugar hoje é praticamente um santuário de galinhas-d’angola: um batalhão de mais de 250 aves circula à vontade, entoando seu vigilante “tô fraco”. Segundo a administração, a incidência de escorpiões foi reduzida em mais de 90%.

Mas o sucesso do experimento é visto com suspeita por Carlos Caldeira Mendes, coordenador do Centro de Assistência Toxicológica de Rio Preto. O médico argumenta que, ao contrário dos escorpiões, as galinhas têm hábitos diurnos e sua ronda raramente se estende aos recônditos onde os aracnídeos preferem se esconder.

Em outros condomínios, a introdução da arma biológica para conter a infestação encontrou outro tipo de resistência. Afinal, abraçar a ideia significa conviver com tumulto, barulho e sujeira, uma perspectiva que desencorajou certos residenciais mais nobres – alguns deles sequer colocaram a proposta em votação. “As galinhas entrariam nas casas, subiriam nos carros, viraria uma caca”, justificou o gerente administrativo de um condomínio. Houve ainda casos em que a gerência, a despeito de não ter encampado a sugestão, fez vista grossa a quem se dispôs a levar adiante uma criação de galinhas por conta própria – “desde que elas não incomodem o vizinho”, registrou-se na ata da assembleia do Damha IV.

A administração do Damha V, por sua vez, preferiu não transformar o conjunto residencial num enorme galinheiro. “Na época veio um pessoal inflamado querendo as galinhas, mas não é para tanto”, contemporizou o gerente Rennan Iuri, sentado à mesa de seu escritório. “Tenho 27 quadras aqui, e só apareceu escorpião em quatro.” Iuri ainda lembrou que a decisão procurou garantir a segurança dos moradores: “Além de tudo, galinha tem leishmaniose, né?”

 

A resolução, entretanto, não impediu que as aves fossem sorrateiramente introduzidas por um ou mais moradores do Damha V. As galinhas, como é de seu feitio, passam o dia em pequenos grupos, ciscando os gramados e às vezes perseguindo as pessoas atrás de um punhado de milho. De nada adianta procurar pelos autores da transgressão – os moradores reagem com indiferença ou evasivas.

De manhãzinha, as aves podem ser vistas em frente à casa de Fabrícia Ayres, que as recebe com um saco de ração nas mãos. Bacharel em veterinária, ainda que não exerça o ofício, Ayres incluiu as galinhas em sua rotina matinal. Além de alimentá-las, ela lava as bicicletas – que, durante a noite, servem de poleiro – e verifica se os vasos de plantas não se transformaram em ninhos, como ocorre com frequência.

Apesar da proibição, a presença das galináceas acabou sendo oportuna para muitos, a começar por Ayres. Mãe de três filhos, ela faz o que pode para evitar que sejam picados. E isso inclui cuidar das aves à luz do dia, compromisso que nenhum outro morador assumiu com tanta dedicação. Diante do empenho, não espanta que as penosas vivam nas imediações de sua casa – elas raramente exploram terrenos para além de um raio de duas quadras dali. Mas a veterinária sustenta que o único animal que está sob sua responsabilidade é a gatinha Sunny.

Outra que nega qualquer envolvimento com as aves é Helen Sartoreli, a dona da casa onde apareceram três escorpiões. Embora seja uma das maiores beneficiárias da vigilância das aves, no dia 13 de junho Sartoreli estava de mudança para outro condomínio, onde (ainda) não há galinhas. Contou que, desde que elas entraram em cena, nem aranhas de jardim foram vistas por ali. Quando o caminhão da transportadora deu a partida, numa tarde chuvosa, ficaram para trás uma galinha e três pintinhos pretos, que se protegiam da chuva sob o pórtico da casa.

Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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