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O mundo por vir

Uma diretora reflete sobre o passado e o futuro dos negros

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Filha dos fundadores da companhia Teatro Profissional do Negro, Sabrina Fidalgo cresceu na coxia, ora assistindo aos pais no palco, ora atuando junto deles. O ambiente artístico na casa da família em Botafogo, no Rio de Janeiro, fervilhava com saraus, leituras de textos de peças e rodas de música. Com 4 anos, Fidalgo foi pela primeira vez ao cinema. O filme era Annie, um musical sobre uma pequena órfã. “Foi um grande impacto. A tela grande, a sala imensa e escura. A garotinha que cantava e atuava. Fiquei encantada”, contou Fidalgo, hoje com 41 anos.

Na adolescência, a paixão pelo cinema se ampliou. Ela passou a assistir a todos os filmes de arte que conseguia, sempre anotando a ficha técnica. “O cinema aglutinava as experiências artísticas que eu tinha em casa: música, dramaturgia, encenação”, disse. Na hora de escolher uma faculdade, porém, optou por artes cênicas. Uma das primeiras peças de que participou contava a história de alguns orixás do candomblé. Ela foi selecionada para viver uma ekedi, que tem a função de cuidar dos orixás. Para os papéis principais, o das divindades, foram escaladas atrizes brancas.

Na mesma época, Fidalgo entrou para o curso de atores da Casa de Cultura Laura Alvim. Era a única aluna negra. “Eu queria ser atriz por uma coisa de glamour, pensando em me tornar famosa. Mas também queria ser uma grande atriz, atuar em papéis importantes, ganhar prêmios. Minha formação crítica logo me fez perceber que papéis eu teria numa sociedade racista como a nossa.” Decidiu, então, deixar a faculdade de teatro e abraçar o cinema. “Pensei em diretores como Spike Lee e Woody Allen, que escreviam, dirigiam e atuavam em seus próprios filmes. Queria ter o controle da minha carreira e ser dona de minha história.”

Em 2001, ela se mudou para a Alemanha. Entrou para a Escola de Televisão e Cinema de Munique e um dos primeiros trabalhos que iniciou no curso foi o curta-metragem Black Berlin. O filme (que só foi lançado em 2009) conta as desventuras na capital alemã de dois jovens imigrantes negros, Nelson e Maria (interpretada por Fidalgo), suas frustrações e o modo como suas origens são apagadas pela nova cultura.

 

Sabrina Fidalgo voltou para o Rio de Janeiro em 2009. Ao chegar, percebeu com mais nitidez ainda como o Brasil mantinha intactas as representações sociais relacionadas à história escravocrata. “Cheguei de um país onde as próprias pessoas lavavam suas roupas e cuidavam de suas casas e filhos. Aqui, bastava sair à rua, olhar as revistas ou redes sociais, e lá estava a babá vestida de branco cuidando de crianças enquanto casais brancos descansavam.”

Ela decidiu falar dessa situação retrógrada em um filme, mas com olhos no futuro. Buscou na ficção científica, gênero do qual é fã, os fundamentos estéticos para criar o curta Personal Vivator. No filme, o extraterrestre Rutger (interpretado por Fabrício Boliveira) recebe a missão de passar 72 horas na Terra analisando o comportamento humano. Ele escolhe o disfarce de documentarista para observar uma família carioca que emprega uma babá que também trabalha na casa como faxineira. Enquanto explora as tensões entre a família e a empregada, o filme sublinha os vestígios do passado colonial. Às pessoas que servem aos mais ricos, o extraterrestre dá o nome de personal vivator (“vivador”, um neologismo, ou “vivente pessoal”). Lançado em 2014, o curta passou a ser classificado por críticos e cinéfilos como o primeiro filme afrofuturista brasileiro.

O afrofuturismo é um movimento cultural em que elementos da mitologia e do passado das populações africanas são combinados à estética da ficção científica. Ancestralidade e futuro se encontram nas obras que elaboram reflexões sobre os dilemas raciais, revisando a história à luz da diáspora causada pela escravidão e fazendo dos negros reconectados com seu passado africano os protagonistas da humanidade por vir. O pioneiro mais ilustre da ficção científica negra é o escritor afro-americano Sutton E. Griggs, autor de Imperium in Imperio: Um Estudo sobre o Problema da Raça Negra, romance de 1899 que narra a tentativa de um grupo de negros de criar, no próprio território norte-americano, um estado paralelo aos Estados Unidos. Mas foram dois produtos da cultura pop que firmaram o afrofuturismo no imaginário contemporâneo: o filme Pantera Negra e o videoclipe do álbum visual Black Is King, de Beyoncé.

 

Em outubro do ano passado, Personal Vivator foi exibido no festival escocês Africa in Motion (AiM), dentro do programa “Afrofuturism in the Brazilian Way”, que reuniu ainda curtas-metragens de Ana do Carmo, Renata Martins, Leon Reis e Diego Paulino.

Fidalgo perdeu a conta de quantos debates e palestras participou. “Eu não sabia nada de afrofuturismo quando fiz o filme, queria apenas falar de questões raciais de maneira lúdica, com os códigos da ficção científica e ter um ator negro protagonizando um filme desse gênero”, ela disse. “Usei como referência estética a capa de Bitches Brew, álbum de Miles Davis em que a estética afro e elementos futuristas se misturam. É um disco de 1969, muito antes de esse termo ser cunhado.”

Depois de Personal Vivator, Fidalgo dirigiu mais dois curtas: Rainha, em 2016, e Alfazema, em 2019. Ambos compõem uma trilogia sobre dramas de mulheres negras durante o Carnaval. “Fiz curtas para experimentar e exercitar. Muita gente da minha geração tem a ansiedade do primeiro longa. Nunca tive. Queria atingir a excelência quando chegasse o momento de dirigir o primeiro longa.” E o momento chegou: a trilogia vai se encerrar com um longa-metragem cujo título provisório é Karnaval.



Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista de cinema