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chegada

O negro termômetro do requinte

Um arrojado conceito de harmonização de cores soluciona o problema excruciante dos fiapos

João Moreira Salles | Edição 33, Junho 2009

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Há poucos dias, num hotel da cidade californiana de São Francisco, um brasileiro se acomodou à mesa do café da manhã. O dia estava bonito, o sol ardia e um bonde passava. A vida parecia não trazer outros desafios senão a escolha entre ovos mexidos e ovos quentes.

Não assim, entretanto, para a recepcionista, que ao vislumbrar o hóspede tratou de acudir. Com um breve e elegante galope, materializou-se ao lado dele e, sem perda de tempo, disse-lhe com urgência e discrição: “Evidentemente o senhor deseja um guardanapo preto.”

O brasileiro não desejava um guardanapo preto. Na verdade, jamais pensara num guardanapo preto. Não fazia idéia do que isso pudesse significar. A princípio até julgou que o tivessem confundido com outra pessoa, mas a recepcionista o olhava com tamanha firmeza que não poderia haver dúvida. Intimidado, ele respondeu que, sim, queria um guardanapo preto.

Com um gesto fluido, ela agiu. Enquanto sua mão direita pinçava o guardanapo branco que o hóspede segurava na ponta dos dedos, um floreio da esquerda depositava um guardanapo preto, pretíssimo, no colo dele. Realizada a operação, ela se afastou com a suavidade dos punguistas.

Em fevereiro de 2008 a internet trazia o depoimento de uma certa Emilief: “Sábado à noite jantamos num bom restaurante e nos perguntaram se queríamos guardanapos pretos. Fiquei em dúvida sobre o que responder, não sabia se podia ser coisa de vodu.”

O brasileiro não pensou em vodu, mas ponderou se não herdara do pai a filiação a alguma ordem secreta, e aquilo era o sinal de que fora reconhecido e aceito. Os maçons têm apertos de mão característicos. Os templários talvez preferissem guardanapos pretos. Certo é que acabara de ser iniciado a uma irmandade cuja existência e desígnios desconhecia. Comeu torradas pensando na eventual necessidade de tomar Jerusalém.

Mal sabia ele que guardanapos pretos se espalhavam pelos Estados Unidos com a rapidez de uma epidemia de influenza. Bastava ir à internet. Jlipof: “Minha mulher & eu recebemos um guardanapo preto no restaurante Joel em Atlanta, mas ainda não em Nova York.” Jen: “Guardanapos pretos são oferecidos no Capital Grille de Boston.” Gary Hubber: “Deram-me um guardanapo preto no restaurante Pahu i’a, no Havaí.” Judy (em resposta pressurosa a Jlipof): “No Capital Grille de Nova York eles oferecem guardanapos pretos!”

O brasileiro se achou extraordinário por pouco tempo. Infinitamente mais interessante teria sido pôr os pés em casa e encontrar embaixo da porta uma intimação em latim para comparecer, de guardanapo preto no colo, a uma cripta em Malta ou na Terra Santa. Infelizmente, suas investigações iriam lhe mostrar que os primeiros guardanapos pretos haviam surgido em Los Angeles, o que derruba toda ilusão romântica. A explicação era bem mais prosaica: a cidade de Ben Affleck, Britney Spears, Ice Cube e Paris Hilton apenas concluíra que os guardanapos brancos eram deselegantes – e que era hora de endireitar os séculos de mau gosto.

Uma troca de mensagens num fórum especializado deita luz sobre a gênese da prática. “Chego a frequentar três restaurantes por dia e nunca tinham me oferecido um guardanapo preto – até que fui a Los Angeles”, escreveu alguém: “Achei esquisito.” O internauta Nelson apressou-se em explicar: “Um guardanapo branco sobre fundo escuro muitas vezes sugere, principalmente no caso de homens, que a pessoa está vestindo um avental. Em outras palavras, você está dividindo a mesa com o maître.” Diante da explicação, Jessica respondeu: “Muito obrigada, Nelson, pelo seu interessante ponto de vista.”

Ao inconveniente das cores contrastantes soma-se outro, relativo a fiapos. Na internet há literalmente centenas de homens e mulheres que não hesitam em dar um testemunho sofrido sobre essa chaga: “Parei de frequentar um ótimo restaurante em Atlanta porque eles só usam guardanapos brancos e quando levanto estou com o colo cheio de fiapos brancos”, diz um lamento. Los Angeles, ciosa de sua reputação de cidade elegante, tratou de encontrar uma solução: trajes escuros, guardanapos pretos.

 

Bastou abrir as comportas para que as forças da história se pusessem em marcha. Era a febre. Em 2002 já se lia a notícia espaventosa: “Michael Tuohy, chef e proprietário do Woodfire Grill de Atlanta, inaugurou seu restaurante em agosto apenas com guardanapos pretos.” Tuohy explicou o arrojo: “Com a decoração que adotamos, os guardanapos brancos reluzem demais e simplesmente não exsudam a atmosfera aconchegante e calorosa do meu restaurante.”

Tuohy é daqueles chefs que não querem apenas cozinhar bem. Desejam proporcionar uma experiência. Nos estabelecimentos que comandam, o prato jamais é redondo, a apresentação da comida lembra certos ambientes da Casa Cor e o vinho é um denso texto semiótico. São restaurantes assim que reúnem as condições necessárias à boa aclimatação dos guardanapos pretos. Entre comensais que rodam o vinho com refinados arabescos de munheca, a novidade tende a prosperar.

A Europa se mantém surda ao avanço. Diz uma mal-humorada restauratrice francesa: “Não esperem receber um guardanapo preto por aqui. Usamos brancos. Ponto.” (É notório o conservadorismo do Velho Continente, cujo mais recente soluço progressista data de 1789, se bem que Robespierre preferisse guardanapos brancos.)

No hotel em São Francisco, o agora elegante brasileiro levou algum tempo para se haver com o bom gosto, dado que guardanapos pretos, além de finos, exigem perícia. Como eles ficam harmoniosamente camuflados sobre tecidos de tom escuro, paga-se o preço de, vez por outra, levar aos lábios a barra da camisa ou a ponta do blazer. Nessas horas, discretamente, convém espanar o vestígio de ovo que terá se alojado na risca de giz ou na lã merino.

A etiqueta também recomenda que se fique atento para não encostar o lado sujo do guardanapo na roupa imaculada, tarefa que exige olhos de lince e vigilância constante, pois guardanapos pretos são useiros e vezeiros em não revelar suas manchas. De fato, comentou um dono de restaurante, “a prática elegante de distribuir guardanapos pretos nos faz economizar tanto com lavanderia, que agora se tornou imperativo usá-los cada vez mais.”

 

Para desgosto dos brasileiros elegantes, os restaurantes mais distintos do país ainda não se abriram à novidade. Fasano, D.O.M., Carlota, Antiquarius, Cipriani, Parigi – são todos uns sem-guardanapo preto. Pior: ao tomar conhecimento do fenômeno, a chef  Roberta Sudbrack, proprietária da casa homônima, não se acanhou em verbalizar os instintos reacionários que sempre frearam o avanço da elegância no país: “Aposto que disso a gente se salva. Se precisar, serei a porta-voz do movimento contra os guardanapos pretos.”

Pobre Roberta… Porque será como vaticina Rovélson Whitebotton, consultor de estilo: “Saquem os seus pretinhos básicos, criaturas divinas! Os guardanapos pretos chegarão ao Brasil com a inevitabilidade de um novo casamento de Roberto Justus!”