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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

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O olhar do coração

No Rio Grande do Sul, um cego descobre a fotografia

Amanda Gorziza | Edição 192, Setembro 2022

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Num entardecer em Porto Alegre, Valdir da Silva, de 47 anos, está em um de seus pontos favoritos para fotografar o Lago Guaíba – que, dizem os gaúchos, tem o pôr do sol mais bonito do mundo. O fotógrafo sente a gradual diminuição do calor à medida que o Sol baixa no horizonte, e é pela sensação térmica que ele sabe o momento correto de tirar a foto. Valdir da Silva é cego.

Talvez seja difícil conceber que uma arte visual possa ser praticada por quem não tem visão. Silva, no entanto, só descobriu a fotografia depois que ficou cego em um acidente de trabalho. Ele desenvolveu técnicas para orientar as lentes de sua câmera. Quando faz um retrato, por exemplo, recorre a outros sentidos para enquadrar o retratado: “Percebo a pessoa pelo som da voz, pelo toque da pele, pelo perfume.”

Suas fotos já figuraram em exposições no Rio Grande do Sul e em outros dois estados. O que ele deseja mostrar não é necessariamente a beleza superficial da imagem. Silva espera que as pessoas possam perceber a história e a essência da foto, que, acredita ele, não se resumem ao aspecto visual.

 

 

Natural de Frederico Westphalen, cidade gaúcha a 430 km de Porto Alegre, Silva perdeu a visão aos 24 anos, em 1999. O acidente aconteceu em uma fábrica de sapatos em Nova Hartz, cidade do Vale dos Sinos, região gaúcha que tem tradição na indústria de calçados.

Com a experiência de quem estava há cinco anos no serviço, Silva ajudava um funcionário iniciante a lixar a palmilha de uma sandália quando tachinhas foram projetadas em seu rosto, atingindo o olho direito. Com a dor, Silva fez um movimento brusco e derrubou um galão de solvente que estava na bancada. O líquido caiu no chão e respingou em seus olhos. Os danos foram irreparáveis: em seis meses, a visão já estava quase totalmente comprometida. Hoje, Silva só distingue vultos sobre um fundo branco.

A empresa não lhe deu amparo e ainda exigiu que ele seguisse trabalhando. Silva pagou consultas médicas particulares para tentar recuperar a visão, sem resultado. Cego, ele entrou em um processo depressivo. Levou um ano para que, afinal, buscasse auxílio para se adaptar à deficiência visual. Mudou-se para a casa de uma irmã em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e começou a frequentar a Associação dos Deficientes Visuais da cidade. “Eu ainda não entendia que não era possível voltar a ser como eu era. Tive de recomeçar a minha vida e reaprender coisas básicas”, conta. Silva aprendeu a andar com a bengala e a ler em braile. Mais tarde, ele viria a ser presidente da associação e integraria o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, de Canoas.

 

Na associação, o jovem fez cursos de artesanato, desenho e teatro, mas essas atividades não ofereceram um novo sentido para sua vida. Então ele foi desafiado por uma professora da instituição a fotografar. No primeiro momento, Silva duvidou da proposta. Cego pode tirar fotos? “Tu não enxergas, mas tens os outros sentidos”, disse a professora. Desafio aceito, no dia seguinte ele voltou à associação com uma câmera Kodak básica. A professora o instruiu a colocar as mãos no ombro dela, dar quatro passos para trás e, a partir da voz e do perfume, imaginar a altura da pessoa a ser fotografada. Silva posicionou a máquina na altura do peito e clicou. O resultado foi uma surpresa. “Valdir, tu fotografas melhor do que eu”, elogiou a professora. “Foi uma emoção muito grande, porque era aquilo que eu buscava”, diz ele.

 

Depois de descobrir a nova paixão, Silva começou a fotografar pessoas e paisagens. Hoje, em suas sessões fotográficas, ele costuma levar a filha Vitória, de 11 anos, para ajudá-lo a posicionar a câmera, e assim a menina está aprendendo técnicas de fotografia. Silva também aprecia fotografar sozinho, para sentir a natureza, tocar nos objetos e ouvir os barulhos do ambiente. Há só um limite para seu ofício: ele ainda precisa da opinião de pessoas que enxergam para avaliar e classificar as fotos que tira.

Desde 2014, o fotógrafo vem participando de exposições e palestras, nas quais promove as causas das pessoas com deficiência (PcD). “A fotografia me permite dar visibilidade aos PcD, e eu preciso mostrar à sociedade que tenho que ser respeitado”, afirma. Ele gosta sobretudo de falar com os mais jovens, em escolas e universidades: “Quando dou uma palestra para adultos, eles ficam sensibilizados. Mas, quando converso com crianças e adolescentes, mudo o conceito e o olhar delas, para que haja uma mudança no futuro.”

 

O amor do fotógrafo pelo Lago Guaíba tornou-se o tema de uma exposição que já passou por quatro municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre e por cidades do Piauí e Maranhão. Silva tem o projeto de um dia imprimir as imagens em 3D sobre blocos de madeira, para que outros cegos possam senti-las pelo tato. Também está escrevendo um livro sobre como a espiritualidade o auxiliou a aceitar a deficiência.

A fotografia e as palestras não rendem dinheiro. Silva sustenta-se com a aposentadoria por invalidez. Atualmente divorciado, ele mora com a filha de 11 anos em Taquaruçu do Sul, município de 3 mil habitantes no Norte do Rio Grande do Sul. Autossuficiente, ele cuida sozinho da casa e da menina. “A minha deficiência não me impede de ser quem eu sou e quem eu quero ser”, afirma. Por meio da fotografia, Silva descobriu que os quatro sentidos que lhe restaram bastam para buscar a essência de pessoas e coisas: “A deficiência me deu a força e o potencial de ver as pessoas através do olhar do coração.”

Amanda Gorziza
Amanda Gorziza

Repórter da piauí

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