esquina

O Pan vem aí

Os atletas estão prontos e o Brasil oficial, para variar, está atrasado

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

Cena I. Noite engalanada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Qualquer pretensão à elegância capitula diante da temperatura canicular do verão carioca. No foyer lotado, o último fiapo de ar está sendo sugado pelos holofotes da televisão. Damas e cavalheiros tentam circular, trocar cumprimentos, medir carisma ou navegar no estrelato alheio. Vários estão irreconhecíveis, embrulhados em roupagem de soirée. Um deles é o ginasta Diego Hypólito, que quatro dias mais tarde se tornará o mais jovem (20 anos) bicampeão de solo da história das Copas do Mundo. Chega esbaforido, ainda arrumando a gravata, enfiado num paletó que parece lhe cair até os joelhos. 

O evento em questão é o Prêmio Brasil Olímpico 2006, em sua oitava edição. Premiam-se os atletas que mais se destacaram nas 49 modalidades olímpicas e pan-americanas ao longo do ano. A noitada reúne, além de esportistas de hoje e de ontem, dirigentes, empresários, políticos e um plantel de convidados de estirpe. Sentado na terceira fila da platéia, Bernardo Rocha de Rezende, o Bernardinho Ganha-Tudo, eleito Melhor Técnico do ano pela quarta vez, não escapa do cerco de pedidos de autógrafo que se forma à sua volta onde quer que apareça. O esporte tem disso: veteranos não têm vergonha de pedir autógrafo a estrelas mais novas, e vice-versa. 

Há outra singularidade: esporte combina com hino nacional. Qualquer que seja o evento, canta-se o hino sem constrangimento e sem afinação, mas com alegria explícita. E do começo ao fim, sem embaralhar a estrofe do Brasil do sonho intenso e raio vívido com a do Brasil deitado eternamente em berço esplêndido. Não foi diferente na noite estelar no Teatro Municipal, com a adesão até da tribo dos jornalistas, pouco afeita a manifestações do gênero. 

Cena II. Cinco dias depois, o calor está igualmente atroz no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. É uma tarde de domingo, encerramento da Grande Final da Copa do Mundo de Ginástica, que reúne os oito melhores atletas de cada modalidade. A última prova do torneio internacional é o solo feminino, e Daiane dos Santos, que até então não havia competido em nenhum aparelho, vai se apresentar. A expectativa de uma exibição de Daiane adquire consistência quase física e preenche absurdos espaços vagos nas arquibancadas. Aos 23 anos, a atleta gaúcha mantém a constituição compacta e muscular, embora esteja bem mais esguia do que nos tempos do Brasileirinho. 

O público acompanha atento o ritual preparatório de uma ginasta que conhece o impacto de sua presença. Ela caminha lentamente até a lateral do tablado, retira as sapatilhas com vagar, demora na aplicação de pó de magnésio para eliminar o suor das mãos, dos pés e dos joelhos. Por fim, posiciona-se à espera do primeiro acorde: o braço esquerdo dobrado envolve-lhe o contorno da cintura, o braço direito aponta para o alto, com a mão espalmada, e a perna direita se apóia na ponta do pé. Daiane dos Santos está de volta e sua figura exala um quê de atrevimento e energia, mesmo quando ainda estática. Ao primeiro arranque de movimento, ela arrebata. E ao longo dos 90 segundos da apresentação, ao som de “Isto aqui, o que é?”, de Ari Barroso, o tablado de 12m x 12m do ginásio se deixa domar pela técnica e audácia da atleta. Leva o ouro. Fei Cheng, a campeoníssima mundial da atualidade, fica em quinto lugar, atrás das também brasileiras Laís Souza (medalha de bronze) e Daniele Hypólito (quarto lugar). 

E o que faz a platéia, ainda enfeitiçada, na hora da entrega das medalhas? Como se fosse a coisa mais natural do mundo, se põe a cantar os oito versos do Hino Nacional, mesmo quando o som no ginásio emudece. E sem “atravessar” uma só vez. Um espanto de coral que brota espontaneamente do nada. Em que outra atividade além do esporte se canta o Hino Nacional pela mera alegria de estar ali e, naquele instante, se sentir brasileiro? Ali não há espaço para falas teatrais sobre leis de incentivo fiscal e valores culturais ameaçados. 

“Quando você põe o seu Brasilzinho nas costas e sobe no pódio, você nunca mais vai se sentir pequeno”, dizia o recordista mundial do salto triplo, João Carlos de Oliveira, o João-do-Pulo, medalha de bronze em duas olimpíadas. Joaquim Cruz, cujo recorde olímpico nos 800 metros (1min 43s), conquistado há 22 anos, em Los Angeles, durou doze anos, guarda lembranças semelhantes. Venceu com absurdos cinco metros de dianteira sobre o segundo colocado. No pódio, sentiu-se humilde diante do seu extraordinário poder de fazer o mundo ouvir o Hino Nacional Brasileiro. 

Quando os mais de 5 mil atletas de 42 países começarem a competir nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, a partir de julho, o Brasil terá a dimensão do quanto tem sido desperdiçado por todos os governos. Abençoado por um clima que permite a prática do esporte doze meses ao ano, o país não tem desculpa ao não identificar e canalizar as aptidões físicas de milhões de jovens – à deriva ou não. 

Joaquim Cruz bateu em doze gabinetes brasilienses, ao longo da última década, em busca de apoio mínimo à criação de um centro esportivo para crianças da periferia da capital. Acabou erguendo seu projeto com a ajuda da Nike, que lhe forneceu os primeiros 240 pares de tênis. Hoje os seis núcleos do Instituto Joaquim Cruz atendem a 120 crianças. Outro projeto que já passou pelas mãos de pelo menos três ministros, além de meia dúzia de secretários municipais do Esporte, e continua encalhado, é o Brasil da Natação. Sua concepção está ancorada na colossal estrutura de parques aquáticos já existente no país: as 450 piscinas olímpicas e semi-olímpicas do SESI e do SESC. Somadas, elas representam a maior lâmina d’água da América Latina, e estão ociosas boa parte do ano. Se aproveitadas com visão sócioesportiva, poderiam impulsionar a saúde e o talento de uns 600 mil brasileirinhos de até 14 anos de idade. 

Enquanto esse Brasil espera por ser garimpado, quem já conseguiu ingressar no mapa mundial do esporte sabe que o tempo de pódio é curto. Recebida uma medalha, há somente um caminho possível: correr e treinar para conquistar mais uma. Na final da Copa do Mundo de dezembro, Diego Hypólito arrebatou o público ao estrear um elemento inédito na prova de solo: um duplo mortal carpado (pernas estendidas junto ao corpo), com uma pirueta no segundo. Homologada pela Federação Internacional de Ginástica com o nome de “Hypólito” e valor F (grau máximo de dificuldade), a acrobacia lhe valeu medalha de ouro. Ótimo, mas o Pan 2007 vem aí. 

Na festa do Municipal, onde recebeu o prêmio de Melhor Atleta do Ano, categoria feminina, a ginasta Laís Souza pode ter parecido frágil em seus 40 quilos acomodados em 1,52 metro. Sobretudo ao lado do outro grande vencedor da noite, o atacante Giba (1,93 metro, 85 quilos), eleito Melhor Atleta masculino. Laís agradeceu a homenagem com tremor na voz, anunciou, baixinho, que no dia seguinte completaria 18 anos e saiu. O seu palco é outro, mais rarefeito. Laís é a atleta que mais vezes subiu ao pódio nas etapas da Copa do Mundo de 2005/2006: dez vezes. A atleta nascida em Ribeirão Preto é a ginasta mais completa e promissora da seleção brasileira. Mas é preciso correr, porque atrás vem mais gente. 

Jade Barbosa, 15 anos recém-completados e integrante da seleção juvenil, já faz o duplo mortal carpado que consagrou Daiane dos Santos. A Confederação Brasileira de Ginástica (cbg) a levou ao Ibirapuera para ver mais de perto a pressão de um torneio mundial e Jade deu uma choradinha ao assistir ao triunfo de Daiane. Após a Olimpíada de Pequim (2008), data estabelecida por Daiane para se aposentar das competições, é ela quem deverá ser escalada para domar o tablado com o Brasil no peito. Não é impossível que seu batismo ocorra no Pan. O garimpo no esporte, como política pública, bem que poderia descobrir outros tantos tesouros. Marta, eleita pela Fifa a melhor jogadora do mundo, nasceu no sertão alagoano de Dois Riachos.



Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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