anais do jornalismo

O paparazzo nosso de cada dia

Adeptos do jeitinho e da conciliação, os fotógrafos de celebridades brasileiros só continuam agressivos nos dicionários da língua portuguesa

Cristina Tardáguila
Com tantas revistas para se exibir, toda celebridade passou a ter direito a seus minutos de pessoa comum, flagrada no ato de fazer o que todo mundo faz. Os paparazzi estão a postos
Com tantas revistas para se exibir, toda celebridade passou a ter direito a seus minutos de pessoa comum, flagrada no ato de fazer o que todo mundo faz. Os paparazzi estão a postos FOTO JAMES F HOUSEL_GETTY IMAGES

A caçada noturna do paparazzo carioca Gabriel Reis começa antes das seis da tarde. Numa terça-feira de julho, ele vinha de quatro horas de tocaia no Aeroporto Santos Dumont, e a manhã só lhe rendera um ou outro clique do rapper MV Bill. E agora pisava num território mais ou menos exclusivo — um centro comercial na Barra da Tijuca, cujo nome ele esconde como segredo profissional. Para acompanhá-lo ao shopping, só com a promessa de não publicar o endereço.

De bermuda, camiseta e chinelo de couro, seu uniforme de trabalho, Gabriel tinha serviço em dobro naquela noite. Estava ali para fotografar aquelas pessoas que, de tanto serem vistas, viram celebridades. E também para me mostrar como trabalha um paparazzo brasileiro.

A aula começou logo na porta. Ele parou diante do primeiro guarda e perguntou, com um tapinha nas costas: “E aí, camarada, tem alguém dando sopa por aqui hoje?” Driblar segurança deve ser coisa de cinema, porque o homem de terno escuro e gravata grená, com plugs de escuta nas orelhas, tinha a resposta na ponta da língua: “Até agora, só a Grazi Massafera.” E, apontando as escadas rolantes com o topete esculpido a gel, revelou o caminho da fama: “Ela deve estar no cinema.”

Os 126 quilos do paparazzo entraram instantaneamente em estado de prontidão. Transpirando, sem dizer palavra para poupar o fôlego, ele disparou atrás da pista. Reis tem diploma de comunicação social, o que é raro em seu meio. Percorre o Rio num Fox com 60 mil quilômetros rodados. Aos 30 anos, no topo da carreira, pai de uma filha, mora com os avós em Copacabana.



Ele não aperta o disparador a esmo. Na Barra da Tijuca, passara por três atores da série Malhação sem mover o dedo. Atuar em Malhação, pelo visto, não basta para sagrar uma celebridade. Grazi Massafera é outra conversa. Em seu encalço, ele bufava pelos corredores do shopping. Com seu 1,87 metro de altura, encorpado pelo excesso de peso, Reis não passou despercebido pela vendedora de pipoca do 3º andar. Ela avisou: “Gabriel! A Grazi está aí.” Ele acelerou. Gotas de suor faiscavam em seu rosto de paparazzo (a reiteração, nesse mercado, é a alma do negócio).

Ex-manicure, a paranaense Grazielli Massafera está em alta. Fez de tudo para chegar lá — concurso de miss, Big Brother Brasil, desfile de modas, nudez na Playboy e, enfim, telenovela. Não poderia ser mais fotogênica e tem fama de simpática. E ainda não chegou à fase da carreira em que viver cercada de papa-razzi parece um preço alto demais a pagar pelo sucesso, como acontece, mais cedo ou mais tarde, com atores, atrizes, cantores e até locutores de telejornal que dão sopa diariamente na Barra. O bairro funciona como parquinho de diversões do Projac, o centro de produção da Rede Globo, em Jacarepaguá.

O Projac tem dez estúdios, cidades cenográficas e a casa do Big Brother. Seis mil pessoas circulam lá todo dia. Como nenhuma delas é de ferro, nos intervalos das gravações alguns atores, atrizes, starlets (e aspirantes a) vão à praia ou ao restaurante, levam o filho à escola ou o cachorro à praça, namoram ou descasam. Cada ocasião dessas é matéria-prima para os ganha-pães dos paparazzi, sobretudo depois que a revista Caras, há quinze anos, instituiu no jornalismo brasileiro o mercado dos flagrantes consensuais.

Antes de Caras, os franco-atiradores do fotojornalismo limitavam-se a trabalhar em festas, sob contrato. Data daqueles tempos a tradução de paparazzo que veio parar nos dicionários da língua portuguesa. O Houaiss, por exemplo, define a palavra como “fotógrafo que persegue agressivamente as celebridades, com o fito de bater fotos indiscretas”. Mas os costumes mudaram desde que as vítimas desse infernal assédio passaram a posar na banheira sempre que mudam de casa e Adriane Galisteu casou-se com as câmeras.

 

Atrás de Caras vieram a Quem, a Contigo!, a Chique & Famosos, a Flash, a IstoÉ Gente e até a Folha de S. Paulo, que lançou a revista-suplemento Serafina — para a qual o juiz Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, posou com a esposa na cama do casal. Vieram também sites como o Ego, da Globo, com média de 1 milhão de acessos diários, o Babado, do portal IG, e OFuxico, do Terra. Todas essas publicações seguem uma mesma regra para identificar os famosos: a pessoa é celebridade porque é fotografada, e é fotografada porque é celebridade.

Os paparazzi nunca mais foram os mesmos. Com tanto lugar para se exibir, toda celebridade passou a ter direito a seus minutos de pessoa comum, flagrada no ato de fazer o que todo mundo faz.

Só no Rio de Janeiro, há espaço para três agências de paparazzi — a AgNews, a Byte Beach e a Photo Rio News. Elas cobram entre 1 500 e 7 mil reais por mês para abastecer as publicações especializadas. Empregam cerca de vinte fotógrafos. Com idades que variam entre os 20 e os 60 anos, eles dividem em turnos os 365 dias do ano: nunca se sabe a que horas a celebridade em pessoa baixará num hortifruti de Ipanema ou do Leblon. Baixando, ela encontrará a postos um fotógrafo para eternizar aquele instante de banalidade.

Os paparazzi raramente convivem com seus personagens, fora essas frações de segundo da mais completa intimidade. A maioria mora nos subúrbios, ou mesmo em favelas. Há fotógrafos que foram contínuos, entregadores de pizza, pedreiros ou motoboys. Vestem-se segundo códigos de indumentária que horrorizariam Gloria Kalil. Usam carros velhos, ou bicicletas, que chamam pouca atenção e, numa emergência, podem estacionar em qualquer buraco. Eles sabem melhor do que ninguém o valor de ser discreto. Conhecem de cor as placas dos carrões que transportam suas presas.

Contam-se nos dedos os que perdem muito tempo com firulas como foco, nitidez, enquadramentos, composição, precisão. Operam no vapt-vupt. Aprendem — “na marra”, como dizem — que diploma de jornalismo na rua vale pouco e não dão muita bola para a legislação que regula sua atividade. Seus salários vão de 1 mil a pouco mais de 2 500 reais. Dinheiro bom é o das vendas avulsas, quando uma única foto pode sair a 250 reais e, às vezes, cobrir todo o mês de batente.

Produzem muito, sem parar. Na segunda semana de julho, as três agências cariocas encaminharam às revistas especializadas umas 2 500 imagens. E essa é a safra de inverno, estação de baixa. No verão, o número pode dobrar. Tirando o Carnaval, que corre por fora, de dezembro a março as agências faturam por mês, ao todo, cerca de 200 mil reais. Seus donos dizem que não têm do que reclamar.

 

Quem teria motivos para queixa com o excesso de oferta é Rodrigo Queiroz, editor-assistente da Quem. Às oito da noite de um domingo, ele ligou seu computador na redação, para baixar a enxurrada de imagens da semana. Mas Queiroz já foi paparazzo. Tem no currículo uma foto famosa — Fátima Bernardes e William Bonner, os apresentadores do Jornal Nacional, beijando-se em lugar público. Eles já eram casados, pais de trigêmeos. Mas uma cena dessas, quando posta na capa, é capaz de aumentar a venda de uma revista em mais de 30%.

“Quando uma capa dessas vender menos, paramos de publicar”, disse Rodrigo Queiroz. Em outras palavras: quem gosta de intimidade alheia é o leitor, não o fotógrafo. O paparazzo é apenas o instrumento dessa curiosidade insaciável por ver sempre mais do mesmo. Naquele domingo, como faz desde que foi contratado, em fevereiro, o jovem de longas madeixas e óculos de aros finos dava plantão para selecionar as ilustrações da edição da quarta-feira seguinte, o dia em que todas as revistas de celebridades chegam às bancas.

Na primeira triagem, Queiroz viu 1 239 fotos vindas da AgNews, 1 281 submetidas pelas outras agências, 200 enviadas pelos assessores das celebridades e 271 clicadas pelos profissionais da casa. Descartou, de cara, uma rainha de bateria, resmungando: “Não tem Carnaval em julho.” Adiante, teve uma grata surpresa: a atriz Carolina Dieckmann com o marido, o diretor Tiago Worcman, na praia de Geribá, em Búzios. “Isso é de primeira!”, Queiroz exclamou.

Ele usa, como disse, “três filtros” na seleção: “O primeiro é se a pessoa é interessante e está no ar. O segundo é se ela aparece com algo inusitado. E o terceiro, se está fora de seu habitat natural. Se o material se encaixar em qualquer um desses casos, vale a pena publicar, mesmo que a qualidade da imagem não seja boa.”

Três dias depois, Carolina Dieckmann estava na capa e em quatro páginas internas. Era a terceira vez que ela saía na revista em julho. Portanto, estava “no ar”. Ineditismo, nesse ramo do jornalismo, não é trunfo. O excesso de exposição não desgasta, porque torna os famosos mais famosos, como o biscoito do slogan, que “vende mais porque é fresquinho e é fresquinho porque vende mais”.

 

O argentino Felix Fassone assumiu há dois anos a direção de Contigo! para botar a veterana revista de televisão no caminho do admirável mundo novo. Ele acha que o futuro dos paparazzi brasileiros só pode ser promissor, porque eles aqui ainda estão engatinhando. “Daqui a um tempo, vão descobrir que dá para viver só dos cabelos dos famosos, só das dietas dos famosos ou só da culinária dos famosos.”

Em outras palavras, o futuro será toma-lá-dá-cá. Nada a ver com o passado belicoso dos “fotógrafos de assalto” italianos, como o veterano Felice Quinto, que varria de Lambretta e Rolleyflex a Via Veneto e a Piazza di Spagna, inspirando a Federico Fellini o Paparazzo de A Doce Vida, o patrono da classe. Nem com os paparazzi que perseguiram a Mercedes de Lady Di e Dodi Fayed em Paris até a capotagem no Túnel Pont de l’Alma. Ou sequer com Ron Galella que, vivo, fotografou Jackie Onassis nua na ilha de Skorpios e, morto, teve direito a retrospectiva no museu Andy Warhol, de Pittsburgh.

Nossos paparazzi são feitos à imagem e semelhança do gosto nacional pelo jeitinho e pela conciliação. Fassone atribui ao leitor o fato de que aqui raramente se flagram situações embaraçosas. O público não estaria interessado em ídolos bêbados ao volante ou com o corpo encrespado pela celulite na praia. De quebra, Fassone reconhece que os anunciantes impõem limites aos flagrantes vexatórios. Sem falar que não é de bom-tom cultivar inimigos numa praça tão rarefeita de autênticas celebridades. É por isso que a foto de um apresentador de televisão, visto por paparazzi cheirando cocaína na praia, nunca foi publicada.

“O que se faz aqui no Brasil não é paparazzo de verdade”, disse Fassone. “Na Itália, o cara aluga um barco, se disfarça de turista, passa dias em alto-mar só para flagrar uma mulher famosa de topless. Isso sim é que é paparazzo. Aqui rola até amizade entre as partes.”

Rola, em termos. Em março de 2005, o fotógrafo Edson Teófilo flagrou Chico Buarque beijando uma mulher casada, Celina Sjostedt, nas ondas do Leblon. Fez dezoito fotos, “todas muito boas”, ele diz. Teófilo é um modelo da velha guarda dos paparazzi cariocas. Mora com a mulher e três filhos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Vai à praia dirigindo seu Fiat Uno, pelo qual ainda está pagando a prestações.

O beijo foi um marco em seus longos anos de batente. “Mas, na última hora, o Chico me viu e, como me conhecia há um tempão e a gente se dava bem, veio me pedir para não publicar”, contou Teófilo. “Apaguei tudo na hora.” Sinceramente. Àquela altura, não sabia que há programas capazes de recuperar dados deletados no cartão de memória, inclusive fotografias.

Só aprendeu o truque um pouco mais tarde, na redação de Contigo! Em duas horas, a série inteira havia ressuscitado. O trabalho saiu na edição seguinte e foi reproduzido em dezenas de jornais e revistas. E tudo o que Teófilo embolsou pelas fotos foram 1 mil reais. “A redação me ofereceu 500, mas eu barganhei. Minha mulher e uma filha estavam doentes, precisavam de um remédio que custava 600”, explicou Teófilo.

O crédito pelo furo de reportagem ficou com Paulo de Souza, pseudônimo que ele usou para não queimar seu filme com o compositor. Fez mau negócio. “O material do Chico não valia menos que 15 mil reais”, avaliou Gabriel Reis, não por acaso um dos paparazzi mais bem pagos do Rio. Ele não vive só de fotografias. Ganha em torno de 7 mil reais por mês porque também faz vídeos para o programa de Luciana Gimenez na Rede TV! e, ao contrário da maioria dos colegas, tem estilo agressivo.

 

Internacionalmente, o cerco aos paparazzi vem apertando. Na França, só se negocia a foto de quem autoriza a publicação por escrito. Nos Estados Unidos, o processo de um fotógrafo atropelado pela cantora Britney Spears bateu há pouco no parecer de um promotor, alegando que a vítima pusera o pé na frente do carro. Aqui, até a atriz Luana Piovani, que só chama os paparazzi de “putos”, aprendeu a lidar com eles, ou, como diz, “fazer limonada desse limão”. Em 2004, ela saiu na capa da revista Caras com as feições desfiguradas (tivera um aborto espontâneo).

No Brasil, a Constituição é confusa quanto ao assunto. No artigo 5º, inciso IX, ela garante que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. No inciso 10, no entanto, sustenta que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. E cada um que se entenda.

Na dúvida, “quem determina se houve exagero ou não acaba sendo sempre o juiz”, disse Ricardo Brajterman, o padroeiro das celebridades na banca do advogado Sergio Bermudes. Brajterman sabe, pela experiência, que os juízes resolvem esses impasses pelo artigo 9º do Código Civil, no qual, explicou o advogado, “está previsto que qualquer cidadão comete crime quando abusa de seus direitos”.

Brajterman tem uma lista de clientes que encheriam umas dez edições inteiras de Caras. Afundado numa poltrona de couro preto, ele citou, de cabeça, os nomes de Carolina Ferraz, Selton Mello, Lília Cabral, Danielle Winits, Carolina Dieckmann, Luana Piovani, Caco Ciocler, Bruno Gagliasso, Fernanda Paes Leme, Preta Gil, Marcelo Faria e Marcos Palmeira. A maioria dos processos de celebridades diz respeito a textos de revistas, e não a fotos.

Ele tem, em seu crédito, a ação que tirou do ar, no YouTube, o vídeo da modelo Daniela Cicarelli e do playboy Renato Malzoni Filho no doce balanço do mar de Tarifa, na Andaluzia, filmado pelo espanhol Miguel Temprano, ele sim um paparazzo da velha escola. Não deixa de ser um atestado de bom comportamento para os fotógrafos brasileiros que o último escândalo a devassar a vida íntima de uma celebridade nacional tivesse o dedo de um estrangeiro.

Brajterman tocava no mês passado quinze processos do gênero. Ele acredita que, hoje, invasão de privacidade só se configura dentro de casa, em festa particular ou em praia de nudismo. Casos ocorridos em shoppings, restaurantes e praias dificilmente chegam muito longe na justiça. “O problema é que atualmente a pessoa pública é confundida com banheiro público ou praça pública, a que qualquer um tem acesso a qualquer hora do dia”, concluiu Braj-terman, que na adolescência pensou em ser ator e estudou interpretação na escola de teatro do Tablado.

Ele já ganhou para Luana Piovani uma indenização de 150 mil reais contra a Rede TV!, mas a atriz aprendeu a resolver as causas mais simples fora dos tribunais. “Hoje faço que não vi, não sei e não é comigo”, contou ela. “Também resolvi usar o assédio a meu favor. Quando estou produzindo uma peça, visto uma camiseta ou ponho na bolsa alguma coisa que remeta a ela. Se não vão pagar pelo uso da minha imagem, como deveria ser, e, se vão passar dos limites, como passam, que pelo menos divulguem alguma coisa boa sobre mim.”

 

Cada um de seu lado, as celebridades e os paparazzi bóiam no mesmo caldo primordial da propaganda disfarçada de notícia. Dois anos atrás, formou-se diante das lentes um estranho casal — José Valien, o baixinho da Kaiser, e a loura Karina Bacchi, que usa um piercing onde ele raramente aparece. Pelo texto da reportagem, os dois tinham se conhecido numa festa etc. e tal. Mas o que estavam no duro gerando juntos era um comercial de cerveja.

Este ano, as apresentadoras Taís Araújo e Adriane Galisteu foram à estréia do Cirque du Soleil em São Paulo com idênticos vestidos rosa-choque, acentuados por pontos de exclamação sinuosos. Apanhadas de surpresa, foram parar até em primeira página de jornal. Mas estavam a serviço da Unilever, fantasiadas de embalagem de uma nova linha de xampu. A estilista Cris Barros vestira-as a caráter, atendendo à encomenda de uma agência de publicidade.

No Rio, o ponto de encontro dos artistas com os fotógrafos de celebridades é a rua Dias Ferreira, no Leblon. Ali se compactam em sete quarteirões uma dúzia de restaurantes tão estrelados na cozinha quanto na sala de refeições. E é quase inevitável que os fotógrafos se aglomerem na borda dos pratos, esperando para abocanhar as migalhas dessa festa permanente, sem dia nem hora.

Numa única tarde de quarta-feira, eles fisgaram depois do almoço, na porta do restaurante Celeiro, as atrizes Cristiane Torloni e Alexia Deschamps, os atores Victor Fasano, Juan Alba, Rafael Calomeni, José de Abreu e Marcelo Serrado, além da jornalista Miriam Leitão. No dia seguinte, entrincheirados atrás de uma camionete estacionada no mesmo ponto, três fotógrafos montaram guarda durante três horas, para registrar o fim do almoço da atriz Giovanna Antonelli.

Essas oportunidades não caem do céu, mesmo na rua Dias Ferreira. É preciso distribuir gorjetas a porteiros, garçons e futriqueiros de todas as extrações, para conjurar o acaso providencial. Paparazzo que se preza tem cartões de visita com números de telefone em letras garrafais, espalhados por quiosques de praia, estacionamentos e lojas. Vale a pena até botar na mão das melhores fontes celulares pré-pagos.

Para cada informação que valha uma foto, Gabriel Reis paga 20 reais. Segundo ele, é o preço de mercado. De seis em seis meses, ele manda imprimir 1 mil cartões. E calcula que tem mais ou menos setenta informantes de olho no movimento cotidiano da cidade, todos registrados na memória de seu telefone. Ligou, ele sabe de onde vem a chamada, o que é meio caminho andado. Por mês, fora as despesas com a gasolina, que andam na casa dos 300 reais, e as refeições a serviço, que devoram uns 750 reais de seu orçamento, ele gasta 800 reais só com a compra de informações.

Desde sua foto de estréia — a atriz Juliana Paes beijando um namorado —, Gabriel Reis está cada vez mais solitário na fronteira da boa e velha insolência, num meio cada vez mais obsequioso. Já enfrentou a Justiça, processado pela atriz Danielle Winits. Teve atritos com os atores Paulo Vilhena e Marcello Novaes. Dizem os colegas que ele provoca as personalidades para apanhá-las em poses um pouco menos convencionais. Ele acha que a relação, no fundo, é de mútua dependência: “Elas não vivem sem a gente”, disse Reis. “Quando estão fora das novelas, mandam um amigo ou um assessor ligar para dizer que vão à praia ou a um certo restaurante. E quando estão em alta, querem agredir.”

Por exemplo, Adriane Galisteu. “Recentemente, quando ela teve problemas de contrato com o SBT, um assessor me ligou dizendo que tinha uma boa para mim”, ele entrega. “Ela estaria às nove da manhã do dia seguinte nas areias do Posto 10, jogando vôlei com a Virna Dias.” Reis foi lá e faturou a cena. Celebridades genéricas, dessas que, por falta de profissão específica, as revistas identificam como “modelos”, se forem mulheres, ou “empresários”, se forem homens, só faltam pagar para ser flagradas. Gracyanne Barbosa, dançarina do Tchakabum e rainha da bateria da Mangueira, telefona para dizer que vai correr na praia. Resultado: esbanja saúde nas fotografias. “As fotos constroem a imagem deles”, diz Gabriel Reis.

Algumas armações são mais sutis. Na noite do dia 6 de julho, os paparazzi da rua Dias Ferreira se surpreenderam ao flagrar o deputado Ciro Gomes aos beijos, carinhos e abraços com a namorada, a atriz Patrícia Pillar. A cena tinha duas estranhezas: o casal não é de extravasar publicamente o seu romance; e, numa noite fria, preferiu ficar do lado de fora de um restaurante cujas mesas internas estavam vazias. “Eles são sempre muito sóbrios, mas naquela noite produziram uma imagem linda e maravilhosa de amor”, comentou o fotógrafo Marcelo Soalheiro.

Segundo os demais paparazzi que presenciaram a cena, era óbvio que Ciro Gomes queria lustrar a própria imagem e aparecer como homem sensível e delicado: dias antes, ele havia sido notícia nos jornais por dizer que a cidade de “Fortaleza é um puteiro a céu aberto”.

 

Na tarde em que levantou o rastro de Grazi Massafera, a corrida de Gabriel Reis deu em nada. Um segurança mais alto e mais forte que o primeiro barrou-o na porta do cinema. De longe, a cena dava a impressão de que o paparazzo estava de volta aos tempos de caça clandestina. Mas, de perto, o segurança era amistoso, quase cúmplice: “Fala, rapaz! Está procurando a Grazi do Big Brother, não é? Acabei de ouvir aqui no rádio da segurança que ela já foi embora. Deu mole, cara, deu mole…”

Com um soco no ar e um piscar de olhos, Reis reconheceu a derrota. Deixou claro aos dois informantes que, naquela tarde, não haveria recompensa, porque a novidade lhe chegara com o prazo de validade já vencido. E partiu para outra.

E a outra apareceu dez minutos depois, quando ele abria uma lata de batatas fritas para fazer um lanche. No fundo de seu bolso, o celular vibrou. Ele nem precisou levá-lo ao ouvido para saber que o telefonema trazia boas notícias: “Ligação a cobrar!” E engatou a segunda: “Vamos para o carro! Corre!” Pisando fundo no acelerador de seu Fox cinza, tomou a avenida Sernambetiba e furou dois sinais vermelhos consecutivos: “É o Adriano! O Adriano da Seleção! Ele está no supermercado, cara! Isso é o que eu chamo de um flagra fantástico!”

Na bolsa dos paparazzi, o jogador Adriano está cotado em dólar, como Ronaldinho Gaúcho ou Ronaldo Fenômeno. Vende no exterior. Daí, a ansiedade. Quando o trânsito à sua frente se complica, Gabriel liga de volta para o informante: “Fala, meu irmão! O cara ainda está aí? Está comprando cerveja? Pô, estou chegando!” Outro alarme falso como o de Grazi Massafera estragaria o dia.

Sem largar o volante, ele alcançou a câmera Canon 30D dentro da mochila e a preparou para as condições que esperava encontrar. Botou a sensibilidade do sensor em 3 200 ISO. “O lugar é escuro, é escuro”, explicou. O carro voou baixo até a porta de um luxuoso supermercado. Gabriel puxou a mochila, sacou a filmadora Sony digital de alta definição e partiu com as duas máquinas para o estacionamento. Bem a tempo de alcançar “o imperador” Adriano abrindo seu Audi preto. Em menos de dois minutos, tirou seis fotos, filmou, fez uma pequena entrevista e não se esqueceu na saída de molhar a mão do manobrista com uma nota de 20 reais. A terça-feira estava salva.

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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